20ago/146

Balanço de meio da temporada: o pior

Nenhuma pessoa, ninguém

Nenhuma pessoa, ninguém

A imensidão do céu contrasta com o imenso vazio das arquibancadas. O que a Fórmula 1 testemunhou em Hockenheim em julho foi algo que já se desenhava há muito tempo: a categoria está ficando cada vez mais impopular. Foi como uma colega jornalista afirmou: “falamos há tempos dos problemas, mas os poderosos não nos ouvem. Está aí a resposta dos torcedores. Eles não têm palavra, mas falam com os pés - indo embora dos autódromos”.

Esqueça as polêmicas sobre o som dos motores ou a estética dos carros. Os responsáveis por este quadro lamentável são as pessoas que gerem o esporte. A má administração da F-1 como um todo é a pior notícia de 2014 até aqui. E não é algo que tenha surgido neste ano. A bola de neve está rolando faz tempo, mas só agora ela ficou grande o suficiente para ser notada.

Para mim, o maior erro da Fórmula 1 foi a aposta de Bernie Ecclestone nos canais de tevê por assinatura. Para ele tanto faz, compra os direitos quem paga mais. Mas ignorar o efeito disso é uma tremenda burrice. Para uma categoria que vive escondida na Internet - já que não há divulgação e sim uma perseguição a quem coloca vídeos de corridas de hoje ou do passado -, não há nada pior do que se esconder também no controle remoto das pessoas comuns.

Além de restringir o consumo aos fãs “hardcore” e não renovar seu público, esta opção causa outro efeito colateral. As emissoras que fazem essa cobertura extensa não estão totalmente preparadas para fazê-la com qualidade. A área de entrevista ficou completamente lotada e a maior parte dos repórteres só fazem perguntas óbvias e desinteressantes, gerando respostas desinteressadas e uma cobertura burocrática. Para quem vê na tela, o esporte acaba parecendo bem mais chato do que realmente é.

Outro problema é o modelo de venda de corridas, cobrando preços altíssimos que só são realistas para governos não muito democráticos interessados em fazer propaganda. Se Ecclestone quer ganhar seu trocado no Azerbaijão, vá lá. Mas é preciso haver um equilíbrio com os lugares onde a categoria é enraizada. Contratos realistas com países europeus como Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Itália, só para ficar em alguns, seriam garantia de preços justos nos ingressos, arquibancadas lotadas e um grande espetáculo também para quem vê pela televisão.

Dentro do paddock, é sempre delicado afirmar que seria bom uma mudança no comando da categoria. Eu também não acho que Ecclestone precise sair, há benefícios em ter alguém que impõe tanto respeito e com tanta experiência tomando decisões. Mas está na hora dele fazer o que nunca fez na vida até aqui: concessões, escolhendo caminhos que farão a F-1 renovar seu público ainda que, com isso, seus lucros no final do ano diminuam. A longo prazo, eles só aumentarão. Tudo bem que, quando isso acontecer, é provável que Mr. E já não esteja mais por aí. Mas vê-lo investindo no futuro da categoria com idade tão avançada seria a maneira mais nobre de encerrar sua impressionante trajetória.

18ago/1413

Cometa holandês

F-1 sem habilitação

F-1 sem habilitação

Max Verstappen é bom, não vamos nos enganar. Possui uma trajetória recheada de títulos no kartismo. Estreou neste ano na F-3, um passo arriscado por pular categorias de base menores, como a F-Renault 2.0 ou a GP3. Subiu ao pódio na sua terceira corrida (ainda no primeiro final de semana, já que a F-3 Europeia ocorre em rodadas triplas). Venceu na sexta prova - no segundo final de semana. Dominou completamente as etapas de Spa-Francorchamps, pista de alta velocidade, e de Norisring, circuito de rua, ganhando as três corridas disputadas em cada uma delas.

Não foi só pelo sobrenome - Jos Verstappen nunca fez muito na F-1, mas possuía os fãs mais fanáticos do grid - que Max chamou a atenção dos chefes de Mercedes e Red Bull. Este pessoal tem contatos de sobra nas categoria menores. Se cansaram de ouvir de gente qualificada a opinião de que o holandês é um fenômeno. Era preciso correr e fechar um contrato de longo prazo com alguém com um potencial desses - neste ponto, o automobilismo está cada vez mais parecido com o futebol, onde os grandes clubes europeus caçam nomes promissores da América do Sul ainda garotos.

Vi Max e seu pai Jos Verstappen no motorhome da Mercedes em Nürburgring. Estavam claramente conversando dentro do paddock para fechar logo o futuro do menino. A opção recaiu para a Red Bull, o anúncio tendo sido feito há poucas semanas.

A confirmação da estreia de Max na Toro Rosso feita hoje mostra que Helmut Marko prevaleceu sobre a Mercedes com um trunfo que a marca de Stuttgart não tem: uma equipe satélite para dar uma vaga ao holandês já na próxima temporada. Certamente foi o fator preponderante na decisão dos Verstappens - filho e pai - em assinar com o austríaco. Para Marko, antecipar a estreia do garoto e encerrar o apoio a Jean-Eric Vergne - que está sofrendo bastante neste ano com Daniil Kvyat - foi uma decisão fácil.

Neste ponto, eu deveria chamar a atenção dos riscos de colocar na F-1 um piloto jovem demais, com tão pouca experiência no automobilismo - fez sua primeira prova há apenas quatro meses -, etc, etc. Mas fiz o mesmo quando anunciaram o russo e paguei pela língua: Kvyat não só tem mostrado velocidade como uma ótima consistência de desempenho, erra muito pouco e é, sem dúvida, uma das boas notícias da categoria neste 2014.

Vale dar agora crédito para Helmut Marko. A temporada do holandês na F-3 têm sido mesmo impressionante. Vai que ele consegue algo parecido no ano que vem na F-1.

Por enquanto, nos resta aguardar. E esfregar as mãos. Com o carro da Toro Rosso crescendo claramente nas mãos do diretor-técnico James Key e com uma dupla de dois jovens sedentos por sucesso, a briga interna do time de Faenza tem tudo para ser um espetáculo muito bacana para acompanharmos!

14ago/149

Ventos de mudança?

Seria o cara de óculos escuros o responsável por mudar a visão que a Ferrari tem da F-1?

Seria o cara de óculos escuros o responsável por mudar a visão que a Ferrari tem da F-1?

Há pouco mais de quatro meses no comando da equipe de Fórmula 1 da Ferrari, Marco Mattiacci fez apenas uma mudança significativa, mandando embora o chefe de motores Luca Marmorini - algo esperado, visto que o V6 dos italianos aparece como o menos eficiente dentre as três unidades do grid.

Mas o novo chefe afirma também já ter reconhecido os pontos fortes e fracos da equipe e vai atrás de uma melhora em todos os setores - ou de 360º, como afirmou - para recolocar o time de Maranello no caminho dos títulos. Difícil dizer se vai conseguir ou não, mas quero chamar atenção a uma atitude do final de semana do GP da Hungria que passou praticamente desapercebida - mas não deveria.

Na entrevista coletiva da FIA de sexta-feira, perguntaram aos chefes de equipes o que eles acharam da decisão dos comissários em permitir que, no GP da Alemanha, Lewis Hamilton largasse do grid mesmo tendo mudado a marca dos discos de freio após o acidente da classificação no sábado. Christian Horner e Eric Boullier, dois babacas burocratas que só tendem a fazer mal ao esporte a longo prazo, empregaram o discurso da “FIA ter apresentado um precedente de mudança de especificações no parque fechado e precisamos ver como ela vai agir em situações parecidas no futuro”.

Mattiacci seguiu uma direção completamente oposta. “Hoje em dia na Fórmula 1 estão todos discutindo sobre o show. Ver um piloto chegando ao pódio depois de largar em 20º lugar é algo ótimo para vender para as pessoas. E, sinceramente, apertar o gatilho para arruinar o dia de Hamilton pela mudança de freios que provavelmente possuem as mesmas especificações - e provavelmente não causam um grande impacto em termos de performance - não faz parte dos meus princípios sobre corrida, então não vejo a necessidade. Claro que precisamos consistência nas decisões da FIA, mas acho que vimos uma grande prova daquele cara e não achamos que era o caso de estragar o show dele”.

Uau! Para uma equipe com um histórico de decisões que sempre mandaram o esporte às favas para defender seus próprios interesses, soa como música ver um chefe da Ferrari mostrando ter uma visão global da coisa. Um tipo de visão que, nesse quadro sério de crise de gestão da Fórmula 1, é extremamente necessário. Pois não basta achar que a culpa dos problemas pára nos Ecclestones e Todts da vida. Há muitos chefes de equipes que são nocivos para o esporte como um todo. Se no futuro Mattiacci seguir a mesma linha do que disse na coletiva em Hungaroring, a F-1 só tem a agradecer.

12ago/148

As angústias do homem de cem milhões de dólares

Indo ou voltando - só o tempo dirá

Indo ou voltando - só o tempo dirá

É contraditório um processo de suborno se encerrar com um belo acordo financeiro entre a justiça e o acusado. Mas funciona assim na Alemanha. Os cem milhões de dólares oferecidos por Bernie Ecclestone representam o maior pagamento na história daquele país para a definição de um processo penal. Para ele não: o acordo de separação com Slavica Ecclestone, em 2009, é estimado em um bilhão de dólares, dez vezes mais.

A situação do "Caso Grikkowsky" ainda não está totalmente esclarecida, uma vez que além do dinheiro acordado com a justiça, Ecclestone teria oferecido algo na casa de US$ 33 milhões ao banco BayernLB - mas este tinha pedido, no início do processo, uma indenização na casa de US$ 400 milhões. Uma definição deve acontecer hoje ou nos próximos dias.

Enquanto isso não acontece, cabe a nós entendermos o motivo da pressa de Bernie Ecclestone em encerrar logo um processo do qual ele se declarou inocente desde o início - e que, de acordo com especialistas, tinha tudo para resultar em sua liberação por falta de provas depois de uns dois anos de deliberações no tribunal de Munique.

Dois anos. Tempo que Ecclestone não tem. Não por sua idade avançada, 84 anos. Mas pela necessidade urgente de estar livre do processo para poder salvar sua influência na Fórmula 1. Nos últimos meses, cresceram os rumores de que o Grupo CVC busca um comprador para sua parte nos direitos comerciais da categoria, assim como quer fazer o cessionário do falido banco Lehman Brothers. Resumindo: a chance da F-1 mudar de dono é grande.

Pelo que se ouve nos bastidores, um dos possíveis compradores dos direitos comerciais seria o bilionário norte-americano John Malone, dono do grupo de telecomunicações Liberty Global. Um tipo que não estaria disposto em manter o comando da coisa nas mãos de Ecclestone.

Assim, acelerar o final do processo e ficar legalmente livre para voltar a oficialmente comandar o jogo é um passo necessário para o pequeno inglês. Não é coincidência que, nas últimas semanas, ele fechou acordos rentáveis para corridas no México e no Azerbaijão. E sinalizou acabar com contratos baixos mesmo em praças tradicionais como Monza. Sua tática é mostrar para os homens da CVC que ele pode ainda conseguir lucros enormes para o modelo de negócios da F-1 - e tentar demovê-los da ideia de passar a categoria para frente. Custe o que custar.

2ago/1413

Credencial – GP da Hungria de 2014

Foi uma das melhores corridas da Fórmula 1 em muitos anos, e em meio a uma crise de identidade da categoria, que perde público, e da equipe Mercedes, que se vê em meio a mais uma polêmica interna em cima da disputa pelo título por parte de seus pilotos. Como sempre, a equipe do TotalRace se senta para debater em alto nível as questões que permearam o final de semana do GP da Hungria. Debate ainda mais enriquecido com perguntas enviadas pelos ouvintes. Para ouvir, baixar e divulgar! Com Gabriel Lima, Julianne Cerasoli e Luis Fernando Ramos