31out/141

Lembrando Greg

Para não esquecermos o veloz garoto de British Columbia

Para não esquecermos o veloz garoto de British Columbia

“Há 14 anos que eu não comemoro Halloween. Neste ano, vou comemorar pela primeira vez. Tanto faz, ninguém mais lamenta”, me disse a mulher, cabisbaixa, no restaurante em Charlotte. Tanta tristeza tem um nome: Greg Moore. “Mais do que um grande piloto, ele era uma grande pessoa. Realmente uma grande pessoa”.

A conversa ocorreu há alguns dias com aquela naturalidade que os americanos puxam assunto: a mulher reclama do atendimento, faço um comentário, ela começa uma conversa perguntando de onde sou. Quando digo que sou do Brasil, ela já emenda que foi ao país quando a Fórmula Indy corria no Rio. No minuto seguinte estávamos falando de Greg Moore.

“Não consigo relembrar todos os momentos especiais que passei com ele, sua família e sua namorada. Greg sempre estava buscando deixar o ambiente relaxado. Eu também aprontava algumas com ele. Havia uma rivalidade grande entre ele e o Robby Gordon. Em Long Beach, passei numa loja que tinha um Gordon de papelão em tamanho natural. Roubei a peça, fui ao hotel e inventei uma desculpa para conseguir a chave do quarto dele. Ríamos sem parar quando ele chegou no dia seguinte dizendo ‘vocês não acreditam quem encontrei na minha cama’”.

Para mim, Greg Moore sempre foi um piloto extremamente veloz, sua chegada na Indy tão jovem e sua evolução tão rápida era algo que me empolgava. Estava assistindo à corrida em Fontana naquele dia em 1999 com amigos e me lembro claramente como todo mundo ficou chateado com o ocorrido.

Mas não conhecia esse lado humano do piloto. No final das contas, a gente perde os ídolos, mas meio que esquecemos do significado deles para as pessoas próximas. “Eu sempre ficava impressionada com sua paciência com os fãs. Em qualquer restaurante, qualquer lugar, ele fazia questão de ser atencioso e simpático com todos que o abordavam - e quando era no Canadá, o assédio era enorme. Depois ele voltava para a gente sorrindo e dizia: ‘sou apenas um cara normal que tem a sorte de ter o melhor emprego do mundo’. Ele amava correr”. A mulher se despede, levanta e vai embora. Não sei seu nome, mas aprendi muito sobre um personagem que sempre admirei.

30out/1414

Doce ou travessura?

O sombra sabe?

O sombra sabe?

Mistério, ilusão, surpresas. Na véspera do Halloween, Fernando Alonso fez questão de envolver, no Texas, o seu futuro no ambiente típico da tradicional festa norte-americana. Enquanto os rumores no paddock aguardam um eventual acordo com a equipe McLaren-Honda para o ano que vem, o espanhol sugere que algo muito grande está para acontecer. Só não afirma o que será.

"Sei o que vou fazer em 2015. Sei mais ou menos. Não posso dizer nada categoricamente no momento. Tenho um plano muito ambicioso na minha cabeça. Se isso acontecer, as pessoas vão ficar muito agitadas, como eu estou. Estou muito feliz. Tudo o que aconteceu nos últimos três meses aconteceu exatamente como eu planejava", garantiu.

A questão que está travando o movimento do espanhol não é exatamente o seu destino, mas sim a sua saída da Ferrari. Embora publicamente Alonso garante que fará o que for “melhor para a equipe”, ele busca negociar uma compensação financeira pelo encerramento de seu contrato um ano antes do final. A equipe não aceita o argumento na base de que o rompimento de contrato veio de um acordo mútuo entre as duas partes.

Neste cenário, o paddock da Fórmula 1 vive um espectro amplo de possibilidades para seu futuro: um acerto com a McLaren-Honda; a permanência na Ferrari; a realização de um ano sabático para voltar em 2016 com um novo projeto, possivelmente o da criação de uma equipe de F-1 da Audi. Estes são alguns do caminhos apontados. Tudo ainda envolto em muito mistério até mesmo para quem vê de fora, como o brasileiro Felipe Massa.

"Não sei o que vai acontecer, mas acredito que quem decide sabe mais do que aquilo que estamos lendo. Acho que a situação é muito menos complicada do que sugerem todas as especulações", me disse o piloto da Williams.

Sebastian Vettel, que só aguarda da definição da saída de Fernando Alonso para ser oficializado como novo piloto da Ferrari, seguiu a mesma linha do discurso de Massa.

"Eu ainda não tenho a permissão para dizer para onde eu vou. E quando a situação se resolver vocês vão entender o motivo de eu não poder dizer".

Se o futuro do espanhol será “doce” ou se será “travessura”, como sugerem as crianças na noite de Halloween, é algo ainda a ser esclarecido.

27out/1414

Exemplos não faltam

Um quarterback ultrapassado

Um quarterback ultrapassado

Estou nos Estados Unidos desde o final de semana e ontem tive a chance de ver um jogo da NFL, a liga de futebol americano, ao vivo. Pude constatar com meus próprios olhos o que eu já imaginava vendo pela televisão: como modelo de negócio, o campeonato é um sucesso absoluto. Estádio completamente lotado, fãs consumindo avidamente os produtos de merchandising e participando do espetáculo. Um verdadeiro show de competência na organização de um evento, coisa que parece típica do povo daqui.

Já antevendo o mergulho na cultura da NFL, aproveitei para assistir ao filme “Draft Day” no voo de vinda. Uma porcaria, é meu dever avisá-los para não perderem tempo de suas vidas com ele. Mas foi interessante para ter contato com esse sistema do “Draft”. Para quem não sabe, nas franquias da NFL não existem times juniores ou categorias de base. A reposição de jogadores é feita anualmente pegando os nomes que se destacam nos campeonatos universitários.

Além de repor material humano, o “Draft” tem também a função de equilibrar as equipes. Afinal, os times piores colocados no campeonato anterior são os que terão a preferência de escolher primeiro. Aquele quarterback com pinta de gênio, o jogador de defesa que não deixa passar nada e o wide receiver que pega bolas impossíveis serão contratados pelos times que sofreram no ano anterior - e vão encher seus torcedores de esperança para a temporada que se aproxima.

O efeito prático disso é óbvio. Existem sim times melhores e times piores, pela força do elenco como um todo ou pela qualidade da administração. Mas é uma disputa praticamente linear e, com este sistema do “Draft”, nenhum time perde o tempo todo, por um longo período. Uma hora a coisa vira e ele será competitivo novamente. Isso mantém o interesse de seus torcedores que são também, não podemos esquecer, consumidores.

A Fórmula 1, ao contrário, segue um modelo típico do futebol europeu: mais poder para os times mais ricos, os pobres que se virem. Torneios como a Champions League rendem milhões para todo o mundo, em qualquer loja esportiva do mundo você só vai encontrar camisetas dos mesmos oito ou nove times, e eles faturam milhões em direitos de transmissão, podendo também comprar os jogadores mais caros em transações com somas indecentes.

Mas o futebol é um esporte muito espalhado em termos de alcance e relativamente simples em termos administrativos. Claro que o Granada nunca vai ganhar o Campeonato Espanhol, mas num bom dia deles e num dia desastroso dos merengues, eles podem derrotar o Real Madri e seus torcedores guardarão com carinho a memória desse jogo.

Na F-1, onde a tecnologia conta mais do qualquer craque, é impossível que isso aconteça. Quem tem mais dinheiro tem todos os instrumentos nas mãos para ganhar sempre. Quem tem menos, entra em campo para perder. Só que o mero custo de entrar em campo é indecente. Para piorar, a distribuição do modelo de lucros da F-1 é perversa e quem perde sempre sai praticamente de mãos abanando.

Este sistema maluco acaba criando situações como a atual. Depois de anos deixando clara a necessidade de diminuir os custos da categoria, as equipes Caterham e Marussia - que originalmente entraram na categoria sob a promessa da introdução de um teto de orçamento - estão fechando as portas. A categoria terá apenas 18 carros, e a Sauber é outra equipe que está com o futuro ameaçado.

A Fórmula 1 faria um bem enorme para si mesma se adotasse um modelo com mais cara de NFL: uma distribuição mais igualitária de dinheiro aos participantes e a adoção de um teto de custos. Isso equilibraria as coisas e todos sairiam ganhando. Todos. É só perguntar para o dono do Oakland Raiders, que está tendo uma temporada abaixo da crítica, perdeu todos os jogos até aqui mas, a cada partida em casa, lota seu estádio de fãs paramentados dos pés à cabeça com roupas licenciadas do time.

24out/1418

Rosberg joga pelo título em Austin

Matematicamente não, mas uma nova derrota deixa Rosberg dependendo de um milagre

Matematicamente não, mas uma nova derrota deixa Rosberg dependendo de um milagre

Com 17 pontos de desvantagem para Lewis Hamilton na tabela, a missão de Nico Rosberg para a dobradinha Estados Unidos-Brasil é simples: descontar pelo menos quatro em relação ao companheiro de equipe. Assim, ele chegaria para a final em Abu Dhabi com 13 pontos de desvantagem. Portanto, correria pelo título por apenas por uma vitória simples, já que diferença entre o primeiro e o segundo colocado nesta prova de pontuação dupla seria de catorze pontos (50 a 36).

Mas a tarefa do alemão perde em simplicidade por sua forma atual. Nas quatro vitórias seguidas de Lewis Hamilton, Rosberg cedeu a liderança em três delas (em Monza e em Sochi por erros seus, em Suzuka por sua inabilidade de se entender com o carro na pista molhada). Apenas em Cingapura, quando sofreu com um problema eletrônico antes mesmo da largada, que o alemão nem teve a chance de lutar pela vitória. Ou seja, a tranquilidade de atual Hamilton ocorre muito em cima de um momento de fraqueza do adversário.

Fraqueza que surgiu logo após toda a polêmica do GP da Bélgica em Spa-Francorchamps. Crucificado pela equipe pelo toque que arruinou a prova do companheiro de equipe, Rosberg acabou constrangido a pedir desculpas públicas pelo incidente. Coincidência ou não - provavelmente não -, nunca mais demonstrou a mesma confiança de antes no duelo contra Hamilton.

Neste cenário, é fundamental para o alemão dar uma resposta já na corrida em Austin. Se chegar atrás de Hamilton numa dobradinha, verá o rival abrir 24 pontos de vantagem - e o inglês quase teria a chance de encerrar matematicamente o Mundial já no Brasil: em caso de nova vitória em Interlagos com abandono de Rosberg ele abriria 49 pontos de vantagem para a decisão de Abu Dhabi, necessitando de um mero décimo lugar para liquidar a fatura.

Mais do que isso, uma quinta vitória consecutiva tão perto do encerramento do Mundial daria a Hamilton a tranquilidade necessária para administrar sua vantagem. Em termos psicológicos, o inglês tem um “match point” a favor nos Estados Unidos. Sobra para Rosberg a obrigação de se defender dele.

(Texto da coluna “Direto do Paddock”, publicada na edição de hoje do Diário Lance!)

22out/1413

Éramos três

O futuro das equipes da F-1 seria assim? (Foto: McLaren)

O futuro das equipes da F-1 seria assim? (Foto: McLaren)

Os problemas financeiros da Caterham apontam que a perspectiva é real da Fórmula 1 perder algumas equipes para o ano que vem. Além dela, a Marussia e a Sauber também atravessam sérias dificuldades pelo que se comenta nos bastidores. Na espiral descontrolada de custos da categoria, os times seriam vítimas de um sistema perverso que acaba premiando quem gasta mais e prejudicando quem não tem o que gastar.

No meio disso, não há nenhuma decisão quanto à possibilidade das equipes contarem com um terceiro carro. Eric Boullier, da McLaren, já disse que seria preciso pelo menos seis meses para tornar isso uma realidade. Uma pena que a abertura do Mundial de 2015 vai acontecer daqui a menos do que cinco meses.

Mas vamos entrar no mundo das suposições aqui: se os três times citados fechassem suas portas e os oito restantes colocassem um terceiro carro, como ficariam os times? Para este exercício, levo em conta uma condição que se comenta nos bastidores: o piloto do terceiro carro não pode ter mais de um ano de experiência na Fórmula 1 (a ideia por trás seria de dar dois anos para estreantes terem a chance de se ambientar à categoria e mostrar seu potencial).

Mercedes
Além de manter a dupla atual, o time chamaria o hoje piloto reserva Pascal Wehrlain. O alemão de vinte anos recém-completados é o novo xodó da marca, tendo vencido neste ano sua primeira corrida na DTM.

Red Bull
Tendo já confirmados Daniel Ricciardo e Daniil Kvyat, a terceira vaga ficaria com Carlos Sainz Jr., campeão da World Series e potencial candidato à vaga na Toro Rosso num mundo de equipes com dois carros.

Williams
Com Felipe Massa e Valtteri Bottas anunciados em Monza para o ano que vem, a escolha  pelo piloto reserva Felipe Nasr é mais do que lógica, pelo crescimento demonstrado na temporada da GP2 e pelo apoio que traz do Banco do Brasil.

Ferrari
A dupla formada por Sebastian Vettel e Kimi Raikkönen traz dois campeões mundiais, o que permitiria à equipe de Maranello arriscar, trazendo o promissor Raffaele Marciello para o terceiro carro, apesar da temporada irregular demais que ele fez na GP2.

McLaren
Ainda acho que Fernando Alonso não é louco de ficar um ano fora da F-1 e vai afinar suas condições com as da McLaren-Honda, se é que já não o fez. Assim, ele correria ao lado de Kevin Magnussen e, no terceiro carro, o belga Stoffel Vandoorne, oriundo da GP2.

Force Índia
Nico Hülkenberg já foi confirmado e Sergio Perez faz temporada no nível do alemão, merecendo a renovação. A terceira vaga poderia ser ocupada pelo piloto de testes Daniel Juncadella, mas no meu exercício de fantasia ela acabaria nas mãos de Susie Wolff, garantindo ao time um bom desconto no pagamento dos motores Mercedes, oferecimento do maridão Toto.

Toro Rosso
Com vagas em profusão, Jean-Eric Vergne seria mantido pela experiência correndo ao lado de Max Verstappen, com o terceiro carro reservado ao eventual campeão da GP3, o inglês Alex Lynn.

Lotus
O time manteria a dupla deste ano formada por Romain Grosjean e Pastor Maldonado. A terceira vaga iria, por merecimento, para o francês Esteban Ocon, de apenas 18 anos e campeão da F-3 Europeia logo em seu ano de estreia.

Reforço que a lista acima é um mero exercício de fantasia meu. Mas na perspectiva, a meu ver ruim, de termos três times do grid fechando as portas, seria pelo menos uma solução interessante para termos um bom elenco de pilotos. E, pelo menos, a categoria se livraria da qualidade questionável de nomes como Max Chilton e Marcus Ericsson. Amém.