1set/1420

Nada será como antes?

A briga continua - melhor para nós. Mas do mesmo jeito?

A briga continua - melhor para nós. Mas do mesmo jeito?

Antes de fazer uma reunião na fábrica de Brackley, na última sexta-feira, a Mercedes fez uma pesquisa informal pelo twitter para saber o que os fãs preferiam: a disputa livre entre seus dois pilotos por vitórias e títulos ou a introdução de ordens de equipe para maximizar os resultados do time? O resultado, sem nenhuma surpresa, foi um grito esmagador clamando pela briga liberada na pista.

O comunicado oficial do time pós-encontro ratificou esse conceito. “A Mercedes-Benz permanece comprometida com a competição dura e limpa, porque esta é a maneira correta de ganhar campeonatos. É com para a equipe, para os fãs e para a Fórmula 1. Lewis e Nico entendem a aceitam a regra número um da equipe: não deve haver contato entre os carros do time na pista. Foi deixado claro que um outro incidente como este não será tolerado. Mas Nico e Lewis são nossos pilotos e acreditamos neles. Eles permanecem livres para disputar o campeonato da F-1 de 2014”.

É uma notícia muito boa. A disputa entre Hamilton e Rosberg, com suas reviravoltas, está tornando este um Mundial bastante atrativo e atraindo o interesse dos fãs. Seria uma pena se isto acabasse após o toque em Spa com a interferência direta da direção da Mercedes na disputa.

Resta saber se tudo realmente continua como está. Rosberg assumiu publicamente o  “erro de julgamento” que eu contextualizei em dois textos da semana passada como o que foi, uma opção de deixar bater (e, incrivelmente, alguns leitores acharam que eu estava defendendo o alemão, cegos na sua paixão ou ignorantes na compreensão de um texto).

Mas um trecho do comunicado que o alemão publicou em sua página do Facebook é interessante: “Lewis e eu recebemos instruções claras sobre como disputaremos um com o outro”. Pela construção da frase, não parece que eles foram “relembrados” de uma regra existente, mas que receberam uma instrução nova.

Pode não ser nada. Pode ser ordens para que disputem posições só depois do último pitstop - ou antes dele. Enfim, só quem esteve na reunião em Brackley sabe. Para nós, será curioso ver em Monza se o comportamento dos dois numa disputa vai mudar. E se, no calor dessa emocionante disputa, eles vão conseguir evitar novos toques até o final do ano.

Eu acho que não. Antevejo até uma trégua pontual, mas vejo a Mercedes continuando a dominar até o final do ano - eliminando uma eventual ameaça de Daniel Ricciardo no campeonato. E, com isso, a disputa vai ganhar em intensidade e um eventual contato vai ser inevitável já que, correr pelo título para eles será correr pela vitória a cada corrida.

E você, como vê essa disputa se desenvolvendo?

28ago/143

Como gente muito grande

O Iluminado: uma mistura de santo com Jack Torrence

O Iluminado: uma mistura de santo com Jack Torrence

Toda a polêmica envolvendo a dupla de Mercedes após o toque ocorrido no início do GP da Bélgica colocou em segundo plano o vencedor da corrida. Daniel Ricciardo foi novamente quem se aproveitou dos problemas do time que vem dominando a temporada. Mas o triunfo não foi construído na segunda volta, quando houve a colisão entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg.

Com uma Red Bull que rodava cerca de 1s5 mais lento por volta que o carro da Mercedes, o time optou por Ricciardo fazer uma parada a menos do que Nico Rosberg. Ao final de seu segundo (e último) pitstop, o australiano ouviu de seu engenheiro a orientação de fazer todas as voltas na casa de 1min53s4.

Nas 16 voltas seguintes, Ricciardo pilotou como um relógio. Os tempos de volta não variavam mais de dois décimos de segundos, com raríssimas exceções por conta de tráfego. A média dele nessa sequência de voltas de de 1min53s362, praticamente o que o time havia pedido.

Pilotar um carro de Fórmula 1 nesse nível mostra o quanto o australiano já amadureceu nesse período dentro da Red Bull. Como ele mesmo já tinha revelado, a dúvida que pairava sobre a cabeça dos chefes da equipe quando o contrataram era sobre a força de seu ritmo de corrida. Depois da prova belga, não há mais dúvida nenhuma.

Ricciardo aponta que cada bom resultado o torna cada vez mais confiante. A vitória na Bélgica foi diferente das outras duas pelo fato de que, em Spa-Francorchamps, ele liderou a maior parte da prova. Descobriu aí outra qualidade inata, a de controlar uma corrida da ponta, sem referências. Vide sua folha de tempos.

O clima dentro da Red Bull ainda é de harmonia. Sebastian Vettel reconhece o bom trabalho do companheiro e suas dificuldades, sem se concentrar em alguns azares que ampliaram ainda mais a diferença entre os dois.

Mas o futuro será interessante. Num ano em que a Red Bull estiver com um carro capaz de brigar por muitas vitórias e o título, o bom entendimento entre o alemão e o australiano tem tudo para virar uma tensa competição. Como está acontecendo agora na Mercedes.

Poesia escrita com o volante

Tempos em Spa: poesia escrita com o volante

26ago/1459

A dramatização da normalidade

É F-1 e não futebol. Mas deixem a bola rolar na Mercedes!

É F-1 e não futebol. Mas deixem a bola rolar na Mercedes!

Niki Lauda deixa o paddock de Spa apressado enquanto a câmera de televisão o persegue como um réu que sai de um tribunal. O austríaco tenta entrar no carro, mas o repórter corre à frente e bloqueia a porta. Lhe resta trocar duas ou três palavras sobre a “reunião de emergência” da Mercedes. A cena é transmitida ao vivo pela tevê a cabo inglesa.

Historicamente, duelos entre companheiros de equipe renderam interesse, sendo a batalha de Senna e Prost, extenuada em livros e comentários, a mais famosa delas. Esta de 2014 está interessante demais, pena que o dramalhão de parte da mídia e de fãs mais exaltados anda atrapalhando um pouco. Depois do toque em Spa, os ingleses correram para exigir a cabeça de Nico Rosberg. Lauda, aliado de Hamilton no time, se juntou ao coro. O toque final foi dado pelo próprio piloto inglês, que serviu à imprensa numa bandeja a sua interpretação da tal reunião como se fosse a absoluta verdade - o que foi posteriormente desmentido pela chefia do time e pelo piloto alemão.

Numa hora dessas, é bom não sofrer de memória curta. Me lembrei na hora da entrevista de Nico Rosberg que acompanhei na quinta-feira em Xangai, na sequência da épica batalha entre a dupla da Mercedes no Bahrein. Nela, Rosberg havia reclamado uma vez pelo rádio com o time do comportamento de Hamilton.

Na China, explicou o motivo. “De todas as disputas por posição, houve um exemplo que achei um pouco acima do limite. Todo o resto compôs uma disputa dura, mas com o devido respeito. Só isso”, tentou encerrar. Um repórter insistiu, perguntando porquê haveria sido acima do limite. “O grau de ação que ele usou para me empurrar para fora. Se faz isso muito rápido, terei dificuldades para evitar o acidente... Se você está por dentro, a curva é sua enquanto você está na frente - e várias vezes me faltaram poucos centímetros para ficar na frente dele na curva quatro. O problema foi o grau da ação, que foi um pouco acima do limite”.

O repórter insistiu, perguntando se Hamilton não estaria agindo como Senna agia, jogando o carro e dando ao outro piloto a opção de bater ou não. Rosberg tentou encerrar o caminho de polêmica que a conversa tomava. “Vamos nos concentrar na maioria das manobras no Bahrein - uma disputa dura mas respeitosa. Vamos nos concentrar nelas e não num exemplo menor”.

O outro jab veio na sequência, com a pergunta se ele não deveria ser mais agressivo se quisesse ganhar o título. “Olhando em retrospecto, fui agressivo o bastante - em alguns momentos, nem estava tão perto mas coloquei por dentro para ver se conseguia alguma coisa. Ataquei bastante. Se eu fosse além disso, significaria que nós não terminaríamos a corrida! Acho que foi num bom nível. Mas é algo que estarei me adaptando e avaliando à medida que mais disputas assim acontecerem”.

O diálogo no paddock de Xangai ilustra bem como Rosberg tinha uma postura extremamente leal à filosofia da Mercedes: evitar contato a qualquer custo. Competitivo, cobrou o time pelo rádio e guardou na memória o único lance que considerou injusto.

Cena parecida àquela aconteceu na Hungria, na última volta. Mas, neste caso, Rosberg absolveu Hamilton mesmo estando ainda de cabeça quente com os ouvidos mocos que o inglês havia feito às ordens de equipe, o que arruinou sua prova. “Foi uma manobra claramente normal. Entre nós pilotos, há o conceito de que a curva pertence à quem estiver por dentro, desde que não se faça nenhuma manobra abrupta para jogar o outro para fora”.

Vendo o que Rosberg falou até aqui, fica mais fácil entender os acontecimentos da Bélgica. Rosberg poderia até ter evitado o acidente. Mas na fração de segundo em que teve de tomar uma decisão, se mostrou pela primeira vez não disposto a salvar o clima na Mercedes. Hamilton foi surpreendido, até porque só conhecia o histórico de que poderia tomar sua linha sem preocupação porque o outro recolheria. Dessa vez, não recolheu.

Este acirramento da disputa dos dois na pista é perfeitamente normal e até esperado no momento em que o Mundial vai se aproximando do final. Fico curioso para ver como a Mercedes vai agir. Na Hungria, Hamilton desrespeitou a vontade do time para pensar em si mesmo e todos julgaram ter sido a ação correta, ainda que ela tenha custado uma possível vitória da Mercedes com Rosberg. Na Bélgica, Rosberg foi execrado pelo toque, que teve consequências mais graves. Mas pela primeira vez pensou em si mesmo. É um direito que ele não tem?

É inegável que a maneira de gerenciar o time precisa mudar. Mas seria um desastre para a temporada a proibição da disputa de ambos na pista. A maneira com que a disputa ocorreu até aqui - livre, com os pilotos assumindo a responsabilidade - tem tornado essa temporada bem interessante. Querer algum tipo de interferência para proteger piloto A ou B é conveniente só para aquele tipo de torcedor que vê a F-1 como futebol. Está cheio deles por aí.

24ago/1442

A detonação

Estava demorando até demais

A asa da discórdia

Parece até que a direção da Mercedes sabia que tinha acionado uma bomba-relógio ao dar liberdades na disputa pelo título entre seus dois pilotos. Ontem, ela explodiu. Logo na segunda volta da corrida, Nico Rosberg tentou uma ultrapassagem sobre Lewis Hamilton por fora na primeira perna da curva Les Combes. Recolheu o carro na última hora, mas a asa dianteira de seu carro acabou furando o pneu traseiro esquerdo do companheiro de equipe.

Hamilton ainda se arrastou até os boxes, mas perdeu tempo e acabou danificando a aerodinâmica do carro no caminho. Seguiu na prova em posições intermediárias e acabou abandonando perto do final. Depois, acusou o alemão de má fé. "Pareceu muito claro para mim, mas acabamos de ter uma reunião e ele basicamente disse que fez de propósito, que poderia ter evitado. Ele disse que fez para ‘deixar claro meu ponto de vista’" - relatou o inglês à imprensa.

A equipe também não gostou do papel de Rosberg no incidente, mas o chefe Toto Wolff desmentiu a interpretação de Hamilton de que a batida teria sido intencional. "É totalmente inaceitável. Acidentes de corrida podem acontecer. Acidentes de corrida entre companheiros não devem acontecer. Acidentes entre companheiros na segunda volta de 44 com um carro dominante não dá para aceitar. Mas dizer que foi proposital é besteira. Os dois colocaram pontos de vista discordantes sobre o incidente numa discussão acalorada, apenas isso", ponderou.

O ponto de vista que Rosberg queria ter deixado claro é óbvio. Em duelos anteriores na temporada, como no Bahrein e na Hungria, o alemão sempre tomou cuidado para não haver contato entre os carros quando tentou ultrapassar Hamilton. Mas mudou de atitude em Spa. "A equipe e Lewis têm o direito a ter as opiniões deles, o que não significa que elas sejam iguais a minha", me disse o piloto.

Wolff depois jogou uma luz maior sobre a questão: "Nico achou que tinha de manter seu traçado naquela curva. Ele achou que Lewis deveria ter deixado espaço ali e que isto acabou não ocorrendo. Mas, para Lewis, claramente não era seu papel se preocupar onde Nico estava".

Com a liderança no Mundial ampliada, Rosberg terá agora o papel de reparar o mal-estar dentro do time. Ou de adotar nos bastidores uma mudança de postura, sendo tão agressivo no convívio dentro do time como foi na disputa com Hamilton em Spa. Até o GP da Itália, serão dias intensos dentro da Mercedes. A sete etapas do final, a briga pelo título está pegando fogo.

Enquanto Nico Rosberg e Lewis Hamilton se digladiam na disputa pelo título com intensidade e, até por isso, com uma quantidade razoável de erros cometidos pelas duas partes, Daniel Ricciardo vai chegando de mansinho com uma competência invejável. Pela terceira vez no ano, o australiano se aproveitou de problemas da Mercedes para subir ao degrau mais alto do pódio.

A chave para seu triunfo na Bélgica aconteceu nas primeiras voltas. Uma boa largada, uma ultrapassagem decida sobre Fernando Alonso e um erro de Sebastian Vettel o colocaram na posição ideal para ser o maior beneficiário dos dilemas da Mercedes. Fazendo uma parada a menos nos boxes que Rosberg, conseguiu cruzar a linha de chegada com pouco mais de três segundos de vantagem para o alemão. E já começa a incomodar na tabela.

- Se recuperar os pontos antes de chegar a Abu Dhabi, será possível brigar. Faltam muitas corridas para tentar. Enquanto for matematicamente possível, seguirei tentando. Temos que seguir desta forma e obter pontos nas pistas que somos mais fortes. Esse momento está muito acima do que esperava - disse Ricciardo após a prova.

A prova em Spa teve outros destaques positivos. Valtteri Bottas subiu ao pódio pela quarta vez em cinco corridas. E Kimi Raikkonen conseguiu um quarto lugar, seu melhor resultado neste ano de retorno à Ferrari. Quem teve um dia para esquecer foi Felipe Massa, apenas 13º colocado. Na segunda volta, um pedaço grande de borracha do pneu dechapado de Hamilton se prendeu no assoalho de seu carro. O time só encontrou o problema e retirou o pedaço na sua segunda parada nos boxes, no meio da prova. Até lá, o brasileiro perdeu em torno de dois segundos por volta.

- Foi um problema sério, que afeta completamente o comportamento do carro. Quando encontraram e tiraram a peça, passei a andar dois segundos mais rápido. Mas aí já tinha ficado muito para trás - lamentou o brasileiro, que ainda registrou a terceira volta mais rápida da corrida depois de solucionarem o problema.

Participe da próxima edição do "Credencial" com suas perguntas no espaço dos comentários!

23ago/147

Mercedes sobrando no molhado

Na chuva, o que é prata brilha ainda mais

Na chuva, o que é prata brilha ainda mais

Ao invés de misturar as forças do grid, a pista molhada no treino de classificação do GP da Bélgica serviu para reforçar ainda mais a força da equipe Mercedes. Nico Rosberg conseguiu a pole-position, sua quarta consecutiva e sétima deste ano, com uma vantagem superior a dois segundos para o terceiro colocado, o alemão Sebastian Vettel. Hamilton, companheiro de Rosberg, larga em segundo.

- Foi incrível. Esperávamos ser dois segundos melhores que os outros, mas conseguimos uma vantagem ainda maior do que esta. Tenho que agradecer a todo mundo da Mercedes, porque fomos ainda melhores do que o esperado - vibrou o alemão.

Lewis Hamilton estava menos satisfeito. No Q3, teve dificuldades com o freio e perdeu muito tempo. Mas jurou estar feliz por conseguir sua melhor posição num grid de largada desde o GP do Canadá, no início de junho.

- Tive um freio vidrado na dianteira, então o carro ficava puxando para a direita e a esquerda e não havia jeito de resolver isso nas voltas de aquecimento. Tive então de atrasar alguns pontos de freada e perdi muito tempo, especialmente na curva um - falou o inglês, frustrado por mais uma sessão de classificação marcada por problemas.

Terceiro colocado, Vettel reconheceu a superioridade da Mercedes no molhado. Mas aposta que na corrida deste domingo, se a previsão de tempo seco se confirmar, conseguirá diminuir esta diferença.

- Nos treinos livres a história foi diferente para nós, pois agora conseguimos dar muito mais voltas. Devemos estar um pouco mais competitivos em relação à Mercedes em situação de corrida - apostou.

A Williams de Felipe Massa sofreu com a pista molhada como tem sido a tônica neste ano. Mas o brasileiro também não conseguiu encaixar uma boa volta e culpou o tráfego. Vai largar em nono, três posições atrás do companheiro Valtteri Bottas.

- Em um momento importante da classificação, na última volta, acabei pegando um tráfego incrível na volta de aquecimento e acabei não esquentando o pneu do jeito que deveria e acabei não tendo um rendimento bom, até saí da pista na minha volta. Não foi o que deveria ter sido, era para eu estar largando mais na frente - garantiu.

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22ago/144

A F-1 do Serasa

E ainda por cima dá um baita retorno de mídia

E ainda por cima dá um baita retorno de mídia

As mudanças na formação das equipes do fundo do grid não são mais do que um reflexo da política de contar com o pagamento trazido pelos pilotos para manter o time em funcionamento. Na Caterham, Kamui Kobayashi deu lugar a André Lotterer, mas como o próprio comunicado explicou, “continua fazendo parte do time”.

Está claro que assim que as parcelas do pagamento não estão sendo feitas - ou não estão satisfazendo a nova direção da equipe. Colin Kolles, o novo chefão, já usou de expediente parecido em 2010, quando deixou Bruno Senna de fora do GP da Inglaterra de última hora, fazendo o mesmo com Karun Chandhok em etapas seguintes até acabar efetivando o austríaco Christian Klien.

Lotterer não trás nada além de uma longa amizade com Kolles. Mas sua estreia na F-1 coloca pressão em Kobayashi. Para piorar, a Red Bull já percebeu a chance de uma porta se abrir ali para abrigar mais um nome de seu extenso programa de jovens pilotos e pode comprar a vaga a partir de Monza para Carlos Sainz Jr. Conversas sobre essa possibilidade estão em curso aqui em Spa. O espanhol entraria na vaga de Kobayshi - hoje ocupada por Lotterer - até o final da temporada.

Na Marussia a situação foi ainda mais embaraçosa. Ontem, o time anunciou que Alexander Rossi correria no lugar do titular Max Chilton por questões contratuais. O piloto soltou então um comunicado dizendo que abria voluntariamente a sua vaga “para ajudar a equipe a vendê-la para algum piloto e melhorar suas finanças”. Mentira das boas, já que Rossi não leva dinheiro algum. Hoje, a Marussia reconfirmou Chilton. Obviamente a pressão deu certo e trataram de, "voluntariamente", fazer os pagamentos em aberto que haviam sido anteriormente acordados.

Nenhuma novidade aqui, essa maneira de lidar com a situação já custou a vaga de muita gente no passado recente, o brasileiro Luiz Razia é um exemplo. Só acho uma pena que a F-1 não faça nada para diminuir o volume de gastos exigidos pela categoria e dar a chance a estes times nanicos obterem uma melhor competitividade. Com isso poderiam atrair mais patrocinadores e se tornaram menos dependente de pilotos pagantes e de todo este triste carrossel que estamos vendo neste final de semana.

21ago/141

CBA precisa vir a público com explicações

Um oásis no meio do caos

Um raro oásis no meio do caos

É estarrecedora a reportagem da revista “Istoé” revelando a investigação que o Ministério Público faz sobre possíveis irregularidades no comando da Confederação Brasileira de Automobilismo. Fraude, tráfico de influência, compadrio, uso indevido do cartão corporativo e recebimento por consultorias numa manobra para obter renda mensal de uma institutição que proíbe pagamento de salário são as acusações que pairam sobre os principais dirigentes do esporte a motor no País.

De acordo com o processo, o presidente Cleyton Pinteiro teria recebido cerca de R$ 770 mil por ano entre gastos com cartão corporativo e consultorias feitas por sua empresa. E o diretor-jurídico da CBA, Fellipe Zeraik, tem em seu próprio escritório de advocacia um dos principais parceiros da confederação. Vale lembrar que os cargos da CBA são, por lei, não remunerados.

Os acusados enviaram uma carta-denúncia ao Ministério Público desqualificando o denunciante Dione Rodrigues, ex-vice da CBA. Mas a confederação negou à reportagem o acesso às contas da entidade. Quando era presidente da Federação Brasiliense de Automobilismo, Rodrigues também chegou a ser acusado de irregularidades no exercício da função.

Pode ser apenas uma “briga de comadres”, mas se não há nenhuma irregularidade, o presidente e o diretor-jurídico da CBA deveriam ser os primeiros a vir a público mostrar isso. O silêncio do senhor Pinteiro é preocupante, mas não destoa da sua postura no comando da entidade.

Há anos vivemos a sensação de que a CBA abandonou completamente o esporte. Vive de emissão de carteiras e de regular campeonatos de promotores particulares com quem, aliás, vive batendo cabeça, dando a impressão de mais atrapalhar do que ajudar. Não fez nada para impedir a destruição do autódromo de Jacarepaguá e nem para garantir que o projeto de uma nova pista no Rio de Janeiro saia do papel. Também não ajudou na criação de uma nova categoria de base de monopostos depois do fim da Fórmula Futuro.

Além das acusações do Ministério Público, esses temas também precisam ser explicados em público pelo atual comando do automobilismo no Brasil, que vive seu pior momento em mais de um século de história.

(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)

20ago/1410

Balanço de meio da temporada: o pior

Nenhuma pessoa, ninguém

Nenhuma pessoa, ninguém

A imensidão do céu contrasta com o imenso vazio das arquibancadas. O que a Fórmula 1 testemunhou em Hockenheim em julho foi algo que já se desenhava há muito tempo: a categoria está ficando cada vez mais impopular. Foi como uma colega jornalista afirmou: “falamos há tempos dos problemas, mas os poderosos não nos ouvem. Está aí a resposta dos torcedores. Eles não têm palavra, mas falam com os pés - indo embora dos autódromos”.

Esqueça as polêmicas sobre o som dos motores ou a estética dos carros. Os responsáveis por este quadro lamentável são as pessoas que gerem o esporte. A má administração da F-1 como um todo é a pior notícia de 2014 até aqui. E não é algo que tenha surgido neste ano. A bola de neve está rolando faz tempo, mas só agora ela ficou grande o suficiente para ser notada.

Para mim, o maior erro da Fórmula 1 foi a aposta de Bernie Ecclestone nos canais de tevê por assinatura. Para ele tanto faz, compra os direitos quem paga mais. Mas ignorar o efeito disso é uma tremenda burrice. Para uma categoria que vive escondida na Internet - já que não há divulgação e sim uma perseguição a quem coloca vídeos de corridas de hoje ou do passado -, não há nada pior do que se esconder também no controle remoto das pessoas comuns.

Além de restringir o consumo aos fãs “hardcore” e não renovar seu público, esta opção causa outro efeito colateral. As emissoras que fazem essa cobertura extensa não estão totalmente preparadas para fazê-la com qualidade. A área de entrevista ficou completamente lotada e a maior parte dos repórteres só fazem perguntas óbvias e desinteressantes, gerando respostas desinteressadas e uma cobertura burocrática. Para quem vê na tela, o esporte acaba parecendo bem mais chato do que realmente é.

Outro problema é o modelo de venda de corridas, cobrando preços altíssimos que só são realistas para governos não muito democráticos interessados em fazer propaganda. Se Ecclestone quer ganhar seu trocado no Azerbaijão, vá lá. Mas é preciso haver um equilíbrio com os lugares onde a categoria é enraizada. Contratos realistas com países europeus como Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Itália, só para ficar em alguns, seriam garantia de preços justos nos ingressos, arquibancadas lotadas e um grande espetáculo também para quem vê pela televisão.

Dentro do paddock, é sempre delicado afirmar que seria bom uma mudança no comando da categoria. Eu também não acho que Ecclestone precise sair, há benefícios em ter alguém que impõe tanto respeito e com tanta experiência tomando decisões. Mas está na hora dele fazer o que nunca fez na vida até aqui: concessões, escolhendo caminhos que farão a F-1 renovar seu público ainda que, com isso, seus lucros no final do ano diminuam. A longo prazo, eles só aumentarão. Tudo bem que, quando isso acontecer, é provável que Mr. E já não esteja mais por aí. Mas vê-lo investindo no futuro da categoria com idade tão avançada seria a maneira mais nobre de encerrar sua impressionante trajetória.