Quatro dias depois de impressionar ao mundo com uma demonstração coletiva de coragem e solidariedade no episódio do incêndio em Barcelona, a Fórmula 1 vê uma de suas equipes anunciar um acordo de patrocínio com uma fabricante de armamentos militares, o que nos faz refletir novamente sobre a curiosa moral da categoria.
O time em questão é a Caterham, que ganhou o apoio da JSC Russian Helicopters. A conexão vinda através dos contatos de Vitaly Petrov é com uma empresa que, como o nome explica, fabrica helicópteros para uso civil e também militar.
Um deles, o Mi-35M, é classificado no próprio site da empresa como um “helicóptero de ataque”. Não dá para falar aqui em equipamento para garantir a defesa de uma Nação, é uma máquina desenhada para destruir. Aliás, o governo brasileiro é um dos maiores clientes deles, tendo fechado em 2008 um acordo de 360 milhões de dólares para comprar doze unidades desse modelo - sim, contribuinte, com o seu dinheiro. Aparentemente, para ficar na base aérea de Porto Velho e vigiar a fronteira com a Bolívia. Estão fazendo um ótimo trabalho, nota-se, já que quase não chega cocaína nos grandes centros urbanos do país e não existem grandes traficantes poderosos e violentos nelas. Se você acha o contrário, saiba que é “invenção da imprensa”.
Tudo bem. Que mal faz promover armamentos no mundo atual? Ainda que o pau esteja comendo em diversos cantos do planeta, muitos deles em ex-repúblicas soviéticas, “a gente está aqui só para fazer esporte”, vão dizer todos. Não dá para esperar uma moral diferente de uma turma que deu de ombros para o Apartheid no seu auge e foi fazer seu espetáculo num Bahrein onde protestos, repressão e mortes acontecem com uma certa freqüência contra uma parcela significativa da população que era contra o evento. E a F-1 sempre pode usar o álibi de que o exército norte-americano, cujo papel na movimentação da economia de fabricantes de equipamentos militares dispensa apresentações, tem forte presença no automobilismo norte-americano.
Legal. Entrando dinheiro, os carros vão para a pista e só gente chata como eu vai reclamar se a grana é nobre ou é “suja”. Mas eu adoraria ver o dia em que um dono de equipe que fechasse um acordo como este, importante para a saúde financeira de sua organização esportiva (sejamos realistas, esse é o caso da Caterham), dedicasse o mesmo espaço no carro para o logotipo de alguma associação como a “Anistia Internacional” ou a “World Wildlife Fund”.
Massa em 2007; Bruno Senna e Livio Oricchio em 2012: brasileiros ganhadores do "Bandini"
O Troféu Lorenzo Bandini foi criado em 1992 na cidade de Brisighella, onde cresceu o piloto italiano falecido no GP de Mônaco de 1967 e famoso por seu espírito combativo. Anualmente, a organização responsável pelo prêmio homenageia nomes que vêm se projetando no automobilismo. A lista de vencedores traz campeões do mundo como Michael Schumacher, Fernando Alonso, Kimi Raikkonen, Lewis Hamilton, Jenson Button e Sebastian Vettel.
É uma honraria bastante prestigiada na Itália e também no paddock da Fórmula 1, contando com apoio total do Automóvel Clube de Milão, a base da organização do GP daquele país. Para a edição desse ano, como reportamos, foi definido que Bruno Senna será o homenageado, embora questões de agenda do piloto estejam adiando a definição de uma data definitiva para a cerimônia oficial e seu anúncio.
Desde o ano 2000, os organizadores do prêmio homenageiam também jornalistas que se destacam na F-1. Podem ser italianos, como Pino Allievi (Gazzetta dello Sport) e Alberto Antonini (AutoSprint) ou mesmo estrangeiros como Patrick Camus (Auto Hebdo), Heinz Prüller (ÖRF) ou Kevin Eason (The Times), nomes conhecidos dentro e fora do paddock.
Em 2012, pela primeira vez o homenageado será um jornalista brasileiro: Livio Oricchio, do Estado de S. Paulo. Fiquei sabendo da novidade no final de semana do GP da Espanha e corri para parabenizá-lo. Do grande número de jornalistas permanentes da categoria, ele certamente faz parte do grupo mais respeitado. Isso fica evidente na seriedade com que os pilotos respondem às suas perguntas nas coletivas de imprensa - que costumam ser contundentes sem jamais deixarem de ser pertinentes.
Sempre me chamou a atenção também o ótimo trânsito que ele tem com figuras importantes dos quadros técnicos das principais equipes, uma área que ele sempre cobre com muita atenção e que é, afinal, parte fundamental para se ter uma boa compreensão de como funciona um esporte complexo como a F-1.
Eu já aprendi muito com ele - éramos, afinal, companheiros da mesma equipe Estadão/JT quando cobri meu primeiro GP do Brasil, em 1995. E, embora a convivência fora do paddock seja relativamente pouca já que quase sempre estamos em hoteis diferentes e distantes, é sempre divertido dar risadas com um sujeito que, apesar da cara de sério, tem um senso de humor afiadíssimo e muito engraçado.
Legal ver essa qualidade reconhecida pelos organizadores do Troféu Lorenzo Bandini. Parabéns Livio!
Vi hoje uma foto da Brigitte Bardot no jornal e foi impossível não remeter a esta música do Tom Zé, um genial questionamento sobre musas, beleza, solidão e velhice. "BB" pode ter ficado velha mas, ao invés de ficar triste e sozinha, continua ativa na luta contra os maus-tratos aos animais. Um exemplo vivo de que o importante não é como o mundo te vê, mas como você vê o mundo. Vale muito refletir sobre isso, algo que pode te deixar um ser humano melhor. Aperte o play e boa audição!
Mais uma edição do "Credencial", mais uma edição no novo formato do programa, abordando uma série de categorias e com a participação de (quase) toda a equipe do TotalRace. Confesso que estou adorando isso, porque tenho aprendido um monte sobre categorias das quais eu passava ao largo antes. Entre lá na TV Blogo e ouça/baixe o programa para se inteirar sobre tudo o que vivenciamos no final de semana em Barcelona e também sobre Nascar, Stock Car, Brasileiro de GT, Moto GP, etc, etc, etc...
Temporada europeia é isso: pé na estrada que, com exceção de Mônaco e Valência, os circuitos ficam longe dos centros urbanos. Uma curtição, fazendo trajetos em paisagens distintas, curtindo uma boa música no carro na expectativa do que o dia de cobertura da F-1 nos trará. Para levar um pouco dessa sensação à vocês, eu coloquei um vídeo na TV Blogo com o trajeto da casa em que eu me hospedei na Espanha até o Circuito da Catalunha em Montmeló. Entre aqui para conferir!
A crise na Espanha é intensa e desde o ano passado já não faz mais sentido ter duas corridas num país em recessão brava. Mas os contratos continuam em vigência e para os organizadores, o jeito é se desdobrar para vender ingressos. A prova de Barcelona teve um público razoável. A de Valência conta com uma campanha publicitária criativa e divertida. Confira!
Eu amo a cidade que eu vivo. Especialmente nessa época do ano com a explosão da primavera e o reflexo dela nas pessoas, todo mundo na rua passeando, fazendo esporte, tirando a ferrugem da alma depois de tantos meses tão frios. E toda vez que minha paixão por Viena se acentua, me vem à mente essa música de Billy Joel, cujo pai era daqui e que sempre lhe dizia na juventude que "Viena espera por você". Uma frase que virou o slogan da campanha de turismo da cidade. Aperte o play e boa audição!
Todos de olho para ver quem será o próximo vencedor
É o campeonato mais maluco que eu vi em muitos anos. Muita gente previa que a Fórmula 1 "voltaria à normalidade" em Barcelona, depois de três semanas de pausa e um teste de três dias em Mugello. Eu já chamava a atenção no blog que o circuito da Catalunha tem suas próprias leis e que não poderíamos confiar cegamente no quadro que ele traria. Ninguém poderia prever uma vitória de Pastor Maldonado da Williams.
Passadas cinco etapas, todos sabemos que o que os engenheiros não sabem sobre os pneus deste ano é o que garante toda essa alternância. Há quem ache isso um absurdo e condene essa Fórmula 1 "lotérica". Há quem se recoste no sofá e se deleita com as inúmeras opções que tem para escolher um potencial ganhador antes de uma largada. Eu tratei de ouvir o que as pessoas de dentro da Fórmula 1 pensam sobre isso. O resultado está neste texto publicado hoje no Lance!
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O equilíbrio tremendo da temporada de 2012 da Fórmula 1 tem um motivo, mas não necessariamente uma explicação. O que os engenheiros da categoria perceberam é que há uma grande variação no comportamento dos pneus utilizados nesta temporada, dependendo das características do asfalto e do traçado de cada circuito. E também da temperatura ambiente. A meta agora é entender todas estas variações. E o consenso é que, uma hora, eles encontrarão uma resposta, como explicou ao LANCE! o chefe da equipe McLaren, Martin Whitmarsh.
- É preciso acreditar que existe uma lógica. Do contrário, você desiste! É algo difícil, pneus são os elementos mais orgânicos da questão técnica. Não há uma equipe hoje que poderia dizer que entende como eles funcionam e que sabe como trabalhá-los. Isto significa que você vai para cada sessão cronometrada, com cada jogo de pneus, sem saber como o carro vai se comportar. Mas eu não acho que estes pneus sejam inconsistentes. Existe um grande desafio de trabalhar com temperatura e pressão para aprender a tirar o máximo desses pneus.
Do lado dos pilotos a incompreensão é a mesma. Mas nem por isso estas variações no equilíbrio entre as equipes são mal vistas. Pelo contrário.
- É raro ver pilotos de tantas equipes diferentes vencendo corridas. É algo que encoraja a todos porque você chega a cada final de semana sabendo que pode ter um bom resultado. Essa questão e o desempenho do Pastor (Maldonado) neste final de semana me deixam muito animado para Mônaco. No trecho mais lento de Barcelona ele obteve o melhor setor. E a pista de Monte Carlo é muito travada - disse o brasileiro Bruno Senna.
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Vocês já sabem o que eu penso disso. O pneu é o mesmo para todos, que todos trabalhem para tirar dele o melhor. E valorizo demais a Pirelli ter conseguido, com ou sem intenção, minimizar o poderio econômico (e, portanto, tecnológico) das grandes organizações e ver a não tão grande (embora de história gigante) Williams ganhando uma prova.
E pegando uma opinião de fora - e muito avalizada -, fico com o que o João Paulo Oliveira, um da turma de pilotos brasileiros que conseguiu se estabelecer como profissional em automobilismo de ponta no Exterior, escreveu em seu twitter: "A Fórmula 1 atual é verdadeira. Menos máquina, mais habilidade, corridas disputadas. Uma boa administração dos pneus na corrida igual a sucesso. O fator de desafio aumentou".
Na mosca. Este ano está ficando cada vez melhor. Que Mônaco chegue logo!
Uma explosão de solidariedade (Foto Felipe Motta/TotalRace)
O “circo” da Fórmula 1 tem uma penca de gente. Num final de semana de corrida, pilotos, mecânicos, engenheiros, membros das equipe e jornalistas passam quatro dias de horários bastante intensos e apertados. Uma entropia sincronizada que resulta num momento de ápice nos sessenta minutos que antecede uma largada e vai se dissipando aos poucos depois da prova, com entrevistas, equipamentos sendo empacotados, festa dos vencedores. Uma energia tão difícil de ser descrita quanto legal de ser vivida.
É claro que esse ritmo não deixa muito espaço para altruísmo. Não que ele não exista, mas acontece de forma pontual. E a cordialidade existe sempre para quem é cordial, assim como a grosseria para quem é grosseiro - e numa amostragem tão grande de pessoas, é claro que abundam exemplos dos dois lados.
Mas alguns episódios ao longo do tempo provaram que o “circo” é uma comunidade imbuída de um enorme espírito coletivo quando a situação aperta. Quando a roubada é geral, todos se unem e se sentem parte da mesma família. Isso aconteceu nas incertezas com o retorno da China em 2010 por conta do vulcão islandês. E também na mesma China neste ano com as incerteza do que encontraríamos no Bahrein. Todos querem saber da situação do outro, passam dicas e apoio, é uma simbiose bacana.
Mas o que aconteceu ontem em Barcelona foi mais forte ainda. A explosão do reservatório de combustível nos boxes da Williams aconteceu num momento em que havia muita gente lá dentro. E fogo é algo muito perigoso, especialmente com tanto material inflamável e tóxico em volta. O saldo final foi de 31 feridos, sete mais sérios, só foi possível pela pronta ação de muita gente ali dentro. Ver uma espessa fumaça negra tomando conta de tudo foi assustador. Ver mecânicos correndo em direção à ela vindos de todos os lados com extintores na mão foi tocante.
Eu estava na sala de imprensa quando o incêndio ocorreu, mas corri em seguida para o Centro Médico do autódromo. Vários membros de equipes, especialmente da Williams, corriam para cima e para baixo. Cada um que era tratado com ferimentos leves e voltava caminhando recebia abraços apertados, tapinhas nas costas, sorrisos de alívio. O lado humano de uma categoria que às vezes deixa ele meio escondido em sua pura essência.
Repórter de Fórmula 1 do Grupo Bandeirantes de Rádio, do diário Lance e da revista Racing. Apreciador de boa música, viagens e velocidade. Guitarrista amador, corredor de rua e piloto virtual. Colunista do TotalRace.