30jul/1458

Mercedes não prioriza ninguém

É uma disputa tão bacana, porque estragá-la sem motivos?

É uma disputa tão bacana, porque estragá-la sem motivos?

A polêmica ordem para que Lewis Hamilton deixasse Nico Rosberg ultrapassá-lo pouco depois da metade do GP da Hungria foi a senha para muitos fãs de teorias conspiratórias concluírem que a Mercedes está fazendo de tudo para prejudicar o piloto inglês e dar o título de pilotos de mãos beijadas ao alemão.

Sinto se eu decepciono alguém, mas até aqui a Mercedes está se saindo muito bem em fornecer o máximo de igualdade aos dois pilotos que disputam o título.

Sobre as quebras - quatro no carro de Hamilton, uma no de Rosberg - é a mais absoluta ignorância imaginar que uma equipe se prejudicaria “sabotando” o carro de um piloto. O que a Mercedes ganha com imagens de seu carro completamente destruído após uma batida pro uma falha nos freios ou um grande incêndio? Sem falar no risco do piloto se machucar também nestes incidentes.

Hamilton teve sim mais azar que Rosberg e isto lhe tirou pontos importantes no campeonato, mas isso não significa nenhum tipo de sabotagem - são coisas que acontecem, faz parte do esporte. Pensando por outro lado, ele teve até um pouco de sorte de que os problemas dos últimos quinze dias aconteceram nos treinos de classificação. Somando os pontos obtidas nas corridas da Alemanha e da Hungria, ele perdeu apenas sete em relação a Rosberg. Um prejuízo muito pequeno para o que poderia ter sido.

A ordem de equipe em Hungaroring aconteceu motivada pelo diretor-técnico Paddy Lowe. Desde a primeira corrida do ano, a orientação interna do time, justamente para evitar injustiças, é que ambos os pilotos utilizem a mesma estratégia em número de paradas. Cada engenheiro opta então por variações na ordem de uso dos compostos, o que gerou disputas emocionantes como no Bahrein e nas voltas finais em Barcelona.

Na Hungria, com Rosberg na pole e Hamilton largando dos boxes, o time resolveu que valia diferenciar as estratégias, colocando o alemão para fazer três paradas e aproveitar ao máximo a velocidade do carro; e Hamilton parando duas vezes, o que o ajudaria a recuperar posições. Era lógico, afinal eles fariam corridas diferentes.

Não dava para imaginar que a pista molhada e o Safety Car no começo mudaria completamente a dinâmica da prova. Em pouco tempo, Rosberg e Hamilton estava sim disputando a mesma corrida. Lowe, concentrado em fazer a estratégia inicial de cada piloto funcionar, incentivou a ordem para Hamilton. Mas o piloto reconheceu o cenário diferente e se negou a dar passagem.

Toto Wolff reconheceu depois entender a motivação do piloto inglês e admitiu que o time precisa aprender a reconhecer a linha que separa os interesses da equipe e os de cada piloto na disputa pelo título. Da minha observação do time nos últimos dois anos, posso afirmar que Wolff é foi um excelente apaziguador de ânimos e age de maneira absolutamente neutra.

Se alguém pudesse ser favorecido lá dentro seria justamente Hamilton, o favorito do consultor Niki Lauda. Foi o tricampeão austríaco quem convenceu o piloto inglês a se juntar ao time e os dois jantam juntos praticamente todas as noites de um final de semana de corrida. É uma proximidade que Rosberg não tem (e nem busca), seja com Lauda ou com Wolff.

Mas também não acho que essa relação mais estreita traga alguma vantagem para Hamilton. Vejo mais como uma maneira de Lauda manter sob controle as variações de humor que eram uma constante na carreira de seu protegido.

Se, passadas onze corridas, a Mercedes vive uma certa harmonia interna mesmo com seus pilotos batalhando acirradamente pelo título entre si, isso se deve à neutralidade de Wolff e às orientações que Lauda dá ao psicológico de Hamilton.

Ao invés de ver pêlo em ovo, seria bom reconhecer isso.

27jul/1475

Vitória do show – e do showman

O "assassino sorridente" faz sua primeira vítima

O "assassino sorridente" faz sua primeira vítima

Foi uma corrida para fazer a Fórmula 1 voltar a encantar o torcedor. Vivendo uma crise de identidade, com queda de audiência televisiva e público menor nos autódromos, a categoria fez no GP da Hungria a prova mais emocionante do ano. Quando faltavam dez voltas, três pilotos duelavam pela vitória separados por menos de dois segundos. E já tinha acontecido de tudo: pista molhada no começo e dois períodos de Safety Car que misturaram as estratégias dos times.

Mas o piloto também teve de fazer diferença. Com pneus mais novos, Daniel Ricciardo atacou ganhando a posição de Lewis Hamilton a quatro voltas do fim e a liderança que era de Fernando Alonso na passagem seguinte. Com isso, conquistou sua segunda vitória no ano, a anterior havia sido também um final eletrizante no GP do Canadá.

- Acho que tenho sorte de que minhas duas vitórias vieram de boas batalhas e corridas emocionantes. Não foi comigo liderando o tempo todo, tive de trabalhar por elas. Foi divertido no final com Lewis e Fernando. Eu tinha a vantagem de ter pneus mais novos, mas sabia que dois campeões mundiais não facilitariam para mim. Tive de ser decidido nas manobras - disse o australiano da Red Bull.

Apesar de ter perdido a vitória no finalzinho, Fernando Alonso não deixou de sorrir no pódio. Fez uma prova forte, conseguindo fazer um jogo de pneus macios usados durar 31 voltas. E preferiu ver o lado positivo de seu resultado.

- Tem sido uma temporada difícil e hoje também foi duro. Então chegar no pódio foi uma boa surpresa, porque é difícil pensar nisso devido às dificuldades que estamos encontrando. Precisávamos de uma corrida um pouco louca, com Safety Car, chuva, algo que saísse um pouco do normal a aproveitamos todas as oportunidades - celebrou.

O GP da Hungria marcou a segunda derrota da Mercedes na temporada. E desta vez, ao contrário de Montreal, sem que seus carros sofressem algum problema mais grave. Domínio à parte, o clima no time depois da prova não era dos melhores. Tudo por conta de uma ordem de equipe dada a Lewis Hamilton a vinte voltas do final.

O inglês não pararia mais nos boxes e tinha o companheiro Nico Rosberg logo atrás. O alemão vinha numa estratégia distinta, com pneus mais novos e a necessidade de andar rápido para fazer mais uma parada. O time pediu que Hamilton cedesse a posição, mas este se negou. O desenrolar da prova lhe deu razão.

- Aquele foi um momento decisivo para meu campeonato, de verdade. Se eu o deixasse passar ali, ele terminaria depois na minha frente. Não entendi porque me pediram para fazer isso, mas sei que vão me explicar depois.

O time pensou na possibilidade de vitória com a estratégia do alemão - de fato, o tempo perdido atrás de Hamilton tirou as chances de Rosberg vencer. Mas o chefe Toto Wolff concluiu depois da prova que não dá mais para colocar os interesses do time à frente do dos pilotos neste cenário.

- No início da temporada era fácil dizer quais eram as regras, mas agora está claro que os dois estão lutando pelo campeonato e está ficando mais intenso. Precisamos conversar para saber como melhorar e, talvez, chegaremos à conclusão de que o que tínhamos antes não funciona mais porque não podemos pedir para um piloto prejudicar sua própria campanha no campeonato para favorecer a equipe. Precisamos discutir isso - reconheceu.

Rosberg deixou o circuito de Hungaroring sem fazer qualquer comentário sobre a insubordinação de Hamilton, dizendo que era um assunto a ser discutido “internamente”. Mas fez questão de eximir o companheiro de culpa pela espremida que tomou numa tentativa de ultrapassagem na última volta.

- Aquilo foi correto. Entre nós pilotos, a curva pertence ao piloto que vai por dentro e ele pode empurrar o outro para fora do traçado desde que faça isso devagar, não de uma maneira abrupta. Só fico chateado que a chance de terminar na frente dele existia naquele momento e faltou só meio segundo, mas foi um lance normal.

Felipe Massa terminou a corrida feliz com o quinto lugar, atrás dos dois pilotos da Mercedes. A Williams não foi muito feliz na estratégia, mas o brasileiro fez uma corrida consistente e voltou a pontuar depois de duas provas em que sofreu um acidente logo na primeira volta.

- Era muito importante chegar ao final aqui. Temos que marcar bons pontos todas as corridas. Infelizmente os que eu não tinha conseguido marcar foram por outros problemas. Mas tenho certeza que daqui para frente vai ser outro tipo de resultado e que a podemos fazer uma segunda parte do campeonato muito melhor que a primeira.

Não faltaram assuntos interessantes para explorarmos na próxima edição do "Credencial". Deixe suas  considerações e perguntas nos comentários!

26jul/1424

Mais um contragolpe

Um daqueles lances que podem decidir um título

Um daqueles lances que podem decidir um título

A cena que resumiu o sábado em Hungaroring aconteceu logo no início do treino de classificação. Cabisbaixo, Lewis Hamilton caminhou de volta aos boxes com sua Mercedes parcialmente destruída por um forte incêndio causado por um vazamento de combustível. É a quarta vez no ano que o inglês sofre algum tipo de problema mecânico. Ele vai largar dos boxes.

- Não posso dizer em público o que pensei naquele momento. Às vezes acontecem contratempos assim. Acho que terei problemas para chegar entre os dez primeiros. Temo que sairei daqui com mais de vinte pontos atrás de Rosberg na tabela. O único consolo é que ainda restam muitas corridas. É o que me faz erguer a cabeça - disse o piloto.

Sem o companheiro na disputa, Nico Rosberg não teve dificuldades para fazer a pole position. No minuto final, cravou uma volta impressionante que foi meio segundo mais rápida que a do segundo colocado, Sebastian Vettel. Depois, jurou ter sentido falta de Hamilton na sessão.

- Não estou completamente feliz pois não houve o duelo com Lewis, era algo que eu estava ansioso. É a melhor emoção quando se sai por cima de uma batalha assim e hoje não foi o caso. Fiz o meu melhor e fiquei feliz, uma volta muito boa no final e uma grande distância para a Red Bull. É fantástico ver o quão rápido é nosso carro - vibrou o piloto depois da décima pole position da carreira, quinta da temporada.

O brasileiro Felipe Massa ficou em sexto lugar no grid. Num final de semana com dificuldades, lamentou estar usando uma versão desatualizada do assoalho em seu carro, já que o time ficou sem peças de reposição depois da sequência de acidentes que sofreu. Com isso, não está satisfeito com o carro desequilibrado. O companheiro de equipe Valtteri Bottas vai largar em terceiro.

- Não tive o equilíbrio que gostaria no carro durante todo o final de semana. Mesmo assim, largar em sexto não é muito distante de onde eu deveria estar. A corrida será longa e ainda que o equipamento não seja o ideal, preciso extrair o máximo dele. Esse é o objetivo - afirmou.

25jul/1411

Esquenta a Silly Season

"Tira o olho, rapá!"

"Tira o olho, rapá!"

A intensidade da “temporada de boatos” se intensificou, como de costuma, em Hungaroring. Em anos recentes, a pausa nas fábricas abre também um espaço para a (re-)negociação de contratos em todas as esferas das equipes de Fórmula 1 - desde engenheiros até, claro, os pilotos.

Está claro que o ano chave é 2016, já que o contrato de Lewis Hamilton com a Mercedes e Sebastian Vettel com a Red Bull se encerra apenas no ano que vem. Assim, não é surpresa ver que a entrada do alemão na Mercedes tenha sido o principal assunto nos bastidores aqui em Hungaroring. Vettel terminaria seu contrato com a Red Bull no ano que vem e formaria um time completamente alemão ao lado de Nico Rosberg, que acabou de renovar por três anos, no melhor time da categoria no momento.

Quem soltou a bomba foi Helmut Marko, assoprando para jornalistas próximos uma proposta financeira “indecorosa” que a Mercedes teria feito por Vettel. Ninguém confirma nada, claro, mas não tivemos muitos desmentidos. Christian Horner disse hoje que Vettel está comprometido com o time para 2015 - e está, a notícia era para 2016. Toto Wolff soltou já na Alemanha apenas um “sem comentários”. E Vettel resumiu a dizer que “não é mais uma cara nova na F-1”, indicando ser natural que haja conversas com outras equipes.

Elas existem, é obrigação de um piloto saber quais suas alternativas no mercado a curto e médio prazo. O mesmo vale para as equipes: é preciso saber qual a disponibilidade dos principais nomes do grid. Se Marko soltou a bomba, deve ser mais para desestabilizar o clima interno da equipe adversária do que por outro motivo.

Ainda assim, difícil imaginar a Mercedes dispensando Lewis Hamilton após apenas três temporadas, especialmente se o inglês conquistar o título deste ano e/ou do próximo. O que ouvi aqui também é que a Honda fez uma proposta elevada para Vettel correr na McLaren em seu retorno à F-1, mas aí a improbabilidade é grande demais por uma série de motivos: encurtar seu contrato com a Red Bull sairia caro demais; não seria do estilo do alemão abandonar a marca que o criou no meio de um contrato vigente; não se sabe qual será a competitividade do motor dos japoneses para o ano que vem.

O outro fator forte do mercado é Fernando Alonso. A Autosprint escreveu, e há tempos que se comenta, que deve haver uma cláusula de performance em seu contrato que o liberaria da equipe se determinada classificação não fosse alcançada. No momento, o time italiano está em quarto lugar no Mundial de Construtores, muito aquém do aceitável.

Comenta-se por aqui que ele teria conversado com Mercedes, Williams e McLaren - o que, repito, deve ter acontecido pela necessidade de se informar de suas possibilidades. Vejo honestamente o espanhol propenso a encarar uma mudança apenas para a primeira. Mas a oportunidade no time anglo-alemão seria só mesmo para 2016. E com Vettel também na briga por uma vaga, aparentemente. 

Sobre a chance dele ir para a Williams: ainda que o time esteja melhor que a Ferrari, há uma diferença clara no tamanho da estrutura dos dois. E entre correr para chegar em quinto ou em terceiro, Alonso certamente ficaria onde está, ganhando um salário que a Williams não poderia pagar - vale lembrar que o Santander tem contrato com a Ferrari até o final do ano que vem. Ele quer títulos, não migalhas.

Assim, os destinos de Vettel, Hamilton e Alonso parecem interligados, três campeões lutando por um lugar no melhor time do grid. A bola está na mão da Mercedes e não acho que eles já tomarão uma decisão para 2016 no meio de uma temporada como a atual, com seus dois pilotos duelando pelo título. Seria contra-producente.

Outra pessoa que pode mover o mercado é Jenson Button. Ele não esconde que deseja permanecer na McLaren, mas andou ouvindo algumas estocadas de Ron Dennis. Parece ser tudo uma tática comum nas negociações. Pelo que ouço, o principal entrave para um acordo é o time tentando obter uma redução significativa no salário do piloto que, claro, reluta. Mas não lhe sobram muitas alternativas. Se algum novo acordo for fechado nesse verão, apostaria nesse.

24jul/1418

Massa: hora de colocar a autocrítica em primeiro plano

Hora de aliviar essa carga

É preciso aliviar essa carga

Felipe Massa chega na metade da temporada tendo somado 25% dos pontos do companheiro de equipe Valtteri Bottas. A Williams passou a ocupar a terceira posição do Mundial de Construtores mas, se Massa tivesse apenas um ponto atrás do finlandês na tabela, a Williams estaria colada na Red Bull na disputa pela segunda colocação.

Mas o brasileiro se mostra tranquilo em relação à sua performance. “Quando é um problema que depende de você, quando você precisa melhorar, é mais complicado. Mas não dependia de mim. Sem dúvida essa [maré de azar] vai virar. Com meu ritmo eu não tenho preocupação. Se eu estivesse lento e não conseguisse o resultado por culpa minha, seria diferente. Foi falta de sorte, não foi culpa minha”, justificou.

Em relação ao ritmo, Massa está certíssimo. Olhando puramente para a classificação, a briga entre ele e Bottas é acirrada e o que joga a equação a favor para o finlandês (duelo interno está 6 a 4 para este) é uma oscilação de performance infelizmente comum na carreira do brasileiro. Olhando o quadro abaixo, a disputa só sai acima dos três décimos de diferença que os times costumam aceitar entre seus pilotos na Espanha (Massa foi mal na primeira e errou na segunda tentativa), Inglaterra (com pista molhada) e Alemanha. Ainda assim, tudo absolutamente dentro do aceitável.

2014: vs BOTTAS

AUS: - 0.068
MAL: - 0.296
BAH: +0.264
CHN: -0.135
ESP: +0.770
MON: -0.198 (Q1)
CAN: +0.028
AUT: -0.087
ING: +0.377
ALE: +0.319

Para ficar mais claro como Massa está certo, olhemos para o mesmo quadro em 2012, quando após dez corridas o brasileiro tinha somado apenas 13% dos pontos da Ferrari até ali. Claramente era um problema sério do piloto, nada circunstancial.

2012: vs ALONSO

AUS: +1.003 (Q2)
MAL: +0.352 (Q2)
CHN: +0.273 (Q2)
BAH: +0.509 (Q2)
ESP: +0.582 (Q2)
MON: +0.101
CAN: + 0.314
EUR: + 0.073
ING: + 1.319
ALE: + 1.691 (Q2)

Quanto à culpabilidade, gostaria de ver um pouco mais de autocrítica por parte de Massa. É fato que ele perdeu inúmeros pontos por questões que fogem a seu controle. Mas sei também que, revendo alguns dos acidentes, ele enxergou que deveria ter considerado o histórico agressivo de Perez e ter sido mais cauteloso, abrindo mais a trajetória no Canadá; e que poderia também ter tomado uma linha mais aberta e cautelosa na primeira curva da Alemanha, ambas observações feitas a pessoas próximas.

É normal e bom que esta revisão aconteça. Perez mudou a trajetória ideal no Canadá para fechar a de Massa e foi punido por isso. Massa usou a trajetória ideal na Alemanha, mas não considerou que poderia ter alguém ocupando aquele espaço. Poderia até ser punido por isso mas considero correta a avaliação dos comissários de um “incidente de corrida”. Há uma diferença clara entre os dois casos.

Mas seria melhor se isso fosse traduzido também na hora das entrevistas. Na Alemanha, Massa não culpou Magnussen em nenhum momento. Mas destacou que era o dinamarquês quem tinha a visão pois vinha de trás - uma observação desnecessária pela dinâmica do acidente. Depois, em língua inglesa, ainda insistiu na tecla de que são os mais jovens que se envolvem na maioria dos acidentes - no que tem razão, mas ele também cometeu erros demais no início da carreira e conseguiu diminuir a frequência dele sem sacrificar velocidade. Seria melhor uma postura mais reflexiva e proativa. Um “foi uma infelicidade, mas tomarei um pouco mais de cuidado da próxima vez” caberia melhor.

Em 2012, Massa fez um trabalho intenso de autocrítica na pausa da F-1 no verão europeu e conseguiu recuperar sua forma, pilotando muito bem nas etapas finais daquele ano. Considero o desafio de repetir isso agora ainda mais fácil. Ainda que a diferença na tabela seja grande, é circunstancial e ele sabe que está tendo performance próxima a de Bottas.

Mas, para bater o finlandês, seria bom tirar alguns pesos extras que carrega no carro. Um é esta bola de neve de infortúnios, algo que ele não pode pensar em nenhum momento - e sei que ele tenta muito, todo final de semana ele procura focar no que vem pela frente, mas ela sempre volta com peso redobrado em seu ombro depois de cada contratempo. É preciso encarar isso com mais leveza.

A outra é justamente parar de encontrar nos outros todas as explicações para todos os contratempos esportivos. Isto não significa assumir culpas que não são suas, mas buscar aceitar que o azar é parte do esporte e analisar o que fazer para minimizar os riscos de ser vítima deles.

Talvez não dê para reverter a diferença de pontuação para Bottas na tabela. Mas a do duelo de classificações (6 a 4) e a de corridas em que ambos terminaram (4 a 2), dá para Massa virar se crescer um pouco mais sua performance.

23jul/145

Credencial – GP da Alemanha de 2014

Uma corrida emocionante, com muita ação na pista e pouco público nas arquibancadas. A equipe do TotalRace debate diversos temas relativos ao GP da Alemanha: o acidente com Felipe Massa na primeira volta, a vitória de Nico Rosberg, os destaques positivos e negativos da corrida e ainda responde às dúvidas de diversos ouvintes. Com Gabriel Lima e Luis Fernando Ramos

21jul/1415

O vazio de Hockenheim

Sobraram lugares até mesmo na arquibancada mais cheia de Hockenheim

Sobraram lugares até mesmo na arquibancada mais cheia de Hockenheim

Na cantina que fica no fundo da sala de imprensa de Hockenheim estão pendurados vários quadros com fotos de corridas do passado no circuito. Uma do final dos anos 70 traz uma vista de cima dos boxes enquanto a Copersucar de Emerson passa pela reta 
 - fico fascinado em ver a simplicidade do evento, com um paddock apertado e seperado da área de circulação por uma simples cerca.

Quando olhava outra imagem da Lotus de Jochen Rindt na primeira corrida de F-1 na pista, em 1970, um jornalista alemão chegou do meu lado e apontou para o público que estava no fundo da imagem: “eu estava por aqui, criança ainda. Meu irmão mais para cá, meu pai um pouco para baixo. Tinha tanta gente, mas tanta gente que não deu para sentarmos juntos. Mas não me importei: só queria ficar ali vendo os carros passarem”.

Hockenheim é um circuito que colocava fácil 100 mil pessoas para ver provas de Fórmula 2 nos anos 80. E muito mais do que isso no início da década passada, auge da era Schumacher na Fórmula 1. Ontem foram 52 mil de acordo com os organizadores (parecia menos), um público pífio para um GP da Alemanha. A soma do final de semana todo ficou em 90 mil, em números oficiais.

Vale entender alguns dos motivos que levam a isso:

1) Ingressos: A sanha absurda de Bernie Ecclestone em fechar contratos fora da realidade com os organizadores de corrida os obrigam a colocar os preços lá em cima. E o torcedor que assume pagar isso recebe muito pouco em troca: não dá nem para chegar perto do paddock e o contato com os pilotos fica resumido a uma sessão de autógrafos na quinta-feira - quando a maioria dos fãs nem se deslocou para o local da corrida por estar trabalhando - e a curta entrevista no pódio com os três primeiros da prova. No domingo anterior, em Sachsenring, a MotoGP levou 90 mil pessoas para a pista apesar do calor forte e da Alemanha jogar uma final de Copa do Mundo no final do dia.

2) Crise de imagem: é o principal problema que aflige a Fórmula 1 hoje em dia - e que será bastante explorado aqui no blog nas próximas semanas. Falta estratégias de divulgação e comunicação para traduzir o que o esporte tem de bom para novos torcedores. Regras complicadas dificultam isso ainda mais.

3) Pilotos: o típico fã alemão de Fórmula 1 não tem a menor identificação com Nico Rosberg e nem com a Mercedes. Os torcedores gostam de tomar muita cerveja, acampar e fritar salsichas. Vêm da classe trabalhadora, como Michael Schumacher e Sebastian Vettel - o primeiro bem mais popular que o segundo por ter, de sobra, o mesmo jeito meio “bronco” dos fãs. Uma turma dessas não vê a menor graça no menino bem-vestido, criado em Mônaco e poliglota.

4) Fase: muitos jornalistas alemães acham que os efeitos do "boom" da F-1 gerado por Michael Schumacher no grande público já acabou. O país teria vivido ondas de entusiasmo temporário semelhantes com o tênis - nos anos 80, com Boris Becker surgindo aos 17 anos depois de ganhar Wimbledon - e com o salto de esqui - no início da década passada, com uma boa geração de saltadores liderada por Sven Hannawald.

5) Revezamento: o sistema de revezamento também prejudica o GP alemão. Um exemplo: em Silverstone, soube dos organizadores que eles começaram a vender entradas para 2015 na segunda-feira logo após a prova - e que é a semana em que se vende o maior número de ingressos, pois a corrida anterior ainda está fresca na memória do torcedor. Na Alemanha, com o revezamento, isso é impossível fazer.

6) GP da Áustria: a prova deste ano em Spielberg foi um sucesso absoluto de público e atraiu muita gente da Alemanha. Era uma semana com feriado prolongado a partir de quinta-feira, havia o apelo de um evento “novo” no calendário e com opções de hospedagem bem mais baratas. A opção por trocar Hockenheim por Spielberg foi óbvia para muita gente.

20jul/1434

A solidão do corredor de longa distância

O único momento de tensão de Rosberg hoje em Hockenheim

O único momento de tensão de Rosberg hoje em Hockenheim

O Grande Prêmio da Alemanha foi bastante agitado em Hockenheim, com inúmeras trocas de posições e boas disputas baseadas em estratégia. Menos para o vencedor. Nico Rosberg largou da pole position e jamais sofreu qualquer tipo de ameaça ao longo das 67 voltas da prova para garantir a sua sétima vitória na carreira, quarta na temporada e primeira em seu país natal.

- Hoje não houve realmente qualquer tipo de pressão, a não ser o medo de uma entrada do Safety Car perto do final quando o carro de Adrian Sutil ficou rodado no meio da reta dos boxes. Mas nunca há uma corrida fácil. Você precisa se manter concentrado o tempo todo e é preciso tomar com cuidado com retardatários que muitas vezes estão disputando posições entre si.

Foi também o primeiro triunfo da Mercedes num GP da Alemanha em 60 anos - Juan Manuel Fangio ganhou com um carro da marca a corrida em 1954, disputada em Nürburgring.

Em Hockenheim, as emoções ficaram reservadas para as posições seguintes. Valtteri Bottas celebrou seu terceiro pódio consecutivo depois de imprimir um ótimo ritmo de corrida e de saber usar com inteligência seu equipamento para se defender dos ataques de Lewis Hamilton nas voltas finais.

- Quando vi ele chegando nos espelhos, e com pneus supermacios, sabia que deveria segurar seus ataques iniciais para fazer a borracha dele superaquecer. No final, ele conseguiu me pressionar até a última volta, mas trabalhamos bem nas regulagens de motor e conseguimos deixá-lo atrás. Estar pela 3ª vez seguida no pódio é uma ótima sensação.

Terceiro colocado, Lewis Hamilton viu Rosberg ampliar sua vantagem na tabela para 14 pontos - 190 a 176. Mas o inglês da Mercedes preferiu destacar os pontos somados depois de ter largado apenas da 20ª posição por conta do acidente sofrido na classificação do sábado.

- Infelizmente foi outro final de semana ruim. Tive novamente de fazer alguma mágica na corrida. Felizmente tudo se encaixou, não danifiquei muito o carro ultrapassando tantos outros e fico feliz com esses pontos conquistados.

O ótimo trabalho de Hamilton, porém, acabou relativizado pelo quarto colocado, o alemão Sebastian Vettel da Red Bull.

- Depois da primeira curva eu era terceiro e pensei que um pódio seria possível. Mas depois da minha primeira parada vi que Lewis estava na frente. Não dá para fazer nada. Ele pode largar de último ou com uma volta atrás que, com o ritmo e potência de motor que tem, consegue ir para o pódio.

Destaque também para as boas corridas de Fernando Alonso, quinto colocado, e Daniel Ricciardo, o sexto, que caiu para trás depois da confusão do acidente de Felipe Massa na primeira curva e fez nova corrida combativa.

Pela segunda corrida consecutiva - e pela terceira vez na temporada - Felipe Massa abandonou logo na primeira volta por conta de um acidente. Acabou colidindo com a McLaren de Kevin Magnussen na primeira curva do circuito. O pneu dianteiro esquerdo do carro do dinamarquês tocou o traseiro direito da Williams, que capotou. Massa deixou o cockpit ileso, mas profundamente decepcionado.

- Era mais um corrida em que tudo poderia acabar bem, o carro era bom, constante e eu largava de uma boa posição em terceiro. De novo, aconteceu um imprevisto logo no início da corrida. É difícil achar uma resposta para isso tudo - admitiu.

Os comissários da FIA consideraram o ocorrido um incidente normal de corrida. Massa admitiu não ter visto o carro de Magnussen.

- O Valtteri (Bottas) acabou largando um pouco mal e botei do lado. É claro que dividir a curva por fora com meu companheiro estava fora de questão, então tirei um pouco o pé e tinha outro carro ali. A diferença é que o Magnussen sabia que eu estava lá e eu não sabia que ele estava ali. Não entendi nada quando bateu.

Este novo abandono somado a mais um pódio de Bottas significa que o finlandês soma mais do que o triplo de pontos de Massa na tabela. Mas o brasileiro credita o quadro à série de infortúnios ao longo do ano. E garante:

- Sei do que sou capaz, o que posso fazer pela equipe, a minha velocidade. Não devo nada a ele. Posso fazer tanto quanto Bottas fez nas últimas corridas ou melhor. Não tenho nenhuma preocupação com isso. Fico feliz pela sequência de resultados dele, que fez por merecer pelo trabalho feito. Mas nossa equipe poderia estar bem na frente da Red Bull na tabela se tudo o que aconteceu comigo, incluindo o acidente da primeira corrida, não tivesse acontecido.

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A trilha do post que inspirou o título é esta aqui.