Sobre príncipes e casamentos em crise
Foi extremamente inoportuna a declaração de Bernie Ecclestone sugerindo mais tempo para uma decisão sobre a realização do GP do Bahrein neste ano - justamente num momento em que quatro manifestantes foram condenados à morte pela justiça de lá.
Pode parecer que o chefão da Fórmula 1 está cego ao fato de que a minúscula ilhota do golfo pérsico está sendo o explosivo termômetro de uma importante questão da região, a briga dos sunitas contra os xiitas. Muitos dos países vizinhos, especialmente a Arábia Saudita, temem uma abertura num regime que funcionou muito bem a favor da minoria sunita durante anos e querem sufocar os protestos a qualquer preço.
Mas, como sempre, Bernie atirou para um lado mirando um alvo na direção contrária. Ele tem peso sim na decisão sobre a realização da prova e talvez, no seu íntimo, seja claro que ela não pode ser realizada neste ano. Mas pedindo uma prorrogação em público, ele mina diretamente a autoridade do presidente da FIA, Jean Todt, com quem luta por questões mais relevantes para ele.
Não é a perda da taxa de 40 milhões que aflige Bernie, mas sim uma fatia menor nos lucros para a sua FOM no novo Pacto de Concórdia que está sendo negociado. Uma mudança que as equipes querem e contam com o apoio de Todt para isso. No fundo, se houver mesmo essa prorrogação no prazo sobre a realização da prova, Ecclestone terá demonstrado na prática ter mais poder que seu rival - e é isso que ele quer.
Sobre a questão prática, é preciso dizer que as chances da F-1 voltar ao Bahrein - não só neste ano, mas num futuro próximo - diminuíram bastante depois que o príncipe Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa foi afastado das decisões governamentais. Ele apoiava uma política reformista para solucionar a crise no país e salvar o evento. Agora não apita mais nada. Abafar o movimento xiita na base da força parece o caminho que os governantes barenitas querem tomar. Um caminho do qual a Fórmula 1 deveria manter distância.


lframos@totalrace.com.br

abril 29th, 2011 - 10:12
“Que fim levaram todas as flores, que a rainha louca (Mosley) não gostava?” Ney Matogrosso.
abril 29th, 2011 - 11:26
Eu acho que o choque de vaidades destes dois senhores ainda fará muito mal ao automobilismo,principalmente a F1.
abril 29th, 2011 - 14:59
Eu acredito que não, até porquê, não mal maior fará do que a conevivência de outros já fez.
abril 29th, 2011 - 15:47
Ééé… Mais um passinho dado rumo ao fim da era Ecclestone. E confesso que não vejo a hora disso acontecer.
abril 29th, 2011 - 15:58
Por mim a F1 não precisaria voltar ao Bahrein não. Acho a pista chata.
Mas quanto a situação politica, me parece que é uma regressão se o estado barenita passar a ser governado por fundamentalistas xiitas (ou quaisquer outros fundamentalistas religiosos)
O povo por lá ainda vai passar por maus bocados…
abril 30th, 2011 - 13:32
Bernie Ecclestone já admitiu em outros momentos sua admiração por regimes totalitários, afinal, quem está no poder, como ele, não admite ser contrariado, e o que vale é o que ele quer, não importando se está ou não com a razão. Não há como negar que ele fez muito pela F-1, mas a esta altura da vida, poderia ser um pouco mais sensato e menos ganancioso. Ou será que ele pretende levar sua fortuna junto para o túmulo? Aproveitando a ocasião, convido todos aqui a conhecerem meu blog de automobilismo, no endereço http://pista-e-box.blogspot.com, onde posto minhas colunas semanais de automobilismo, com destaque para a F-1. Escrevo desde 1993, e aos poucos, pretendo colocar no ar todas as minhas antigas colunas. Sejam todos bem-vindos para ler e comentar…
abril 30th, 2011 - 14:20
Ico,
É uma atitude extremamente estúpida de Ecclestone, aliás mais uma.
Ainda que tenha muitas riquesas, é um ser de alma pobre.
Pensa que vai viver 200 anos, e quando morrer vai levar tudo junto…
abs
abril 30th, 2011 - 18:43
Bem colocado. Nestes momentos a denominação “circo” parece bastante apropriada, mas no sentido pejorativo. Bernie foi muito importante para a F1, mas acho que “foi”, passou seu tempo. A cada absurdo, é de se imaginar como as coisas continuam a funcionar sendo tratadas dessa forma. O episódio de Kyalami em pleno Apartheid parece não ter ensinado nada sobre sensatez. Não somos inocentes, a F1 é um grande negócio (e o que não é?), mas tudo tem seu limite.