29abr/118

Sobre príncipes e casamentos em crise

"Quem manda aqui sou eu, entendido?"

Foi extremamente inoportuna a declaração de Bernie Ecclestone sugerindo mais tempo para uma decisão sobre a realização do GP do Bahrein neste ano - justamente num momento em que quatro manifestantes foram condenados à morte pela justiça de lá.

Pode parecer que o chefão da Fórmula 1 está cego ao fato de que a minúscula ilhota do golfo pérsico está sendo o explosivo termômetro de uma importante questão da região, a briga dos sunitas contra os xiitas. Muitos dos países vizinhos, especialmente a Arábia Saudita, temem uma abertura num regime que funcionou muito bem a favor da minoria sunita durante anos e querem sufocar os protestos a qualquer preço.

Mas, como sempre, Bernie atirou para um lado mirando um alvo na direção contrária. Ele tem peso sim na decisão sobre a realização da prova e talvez, no seu íntimo, seja claro que ela não pode ser realizada neste ano. Mas pedindo uma prorrogação em público, ele mina diretamente a autoridade do presidente da FIA, Jean Todt, com quem luta por questões mais relevantes para ele.

Não é a perda da taxa de 40 milhões que aflige Bernie, mas sim uma fatia menor nos lucros para a sua FOM no novo Pacto de Concórdia que está sendo negociado. Uma mudança que as equipes querem e contam com o apoio de Todt para isso. No fundo, se houver mesmo essa prorrogação no prazo sobre a realização da prova, Ecclestone terá demonstrado na prática ter mais poder que seu rival - e é isso que ele quer.

Sobre a questão prática, é preciso dizer que as chances da F-1 voltar ao Bahrein - não só neste ano, mas num futuro próximo - diminuíram bastante depois que o príncipe Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa foi afastado das decisões governamentais. Ele apoiava uma política reformista para solucionar a crise no país e salvar o evento. Agora não apita mais nada. Abafar o movimento xiita na base da força parece o caminho que os governantes barenitas querem tomar. Um caminho do qual a Fórmula 1 deveria manter distância.

Comentários (8) Trackbacks (1)
  1. “Que fim levaram todas as flores, que a rainha louca (Mosley) não gostava?” Ney Matogrosso.

  2. Eu acho que o choque de vaidades destes dois senhores ainda fará muito mal ao automobilismo,principalmente a F1.

  3. Ééé… Mais um passinho dado rumo ao fim da era Ecclestone. E confesso que não vejo a hora disso acontecer.

  4. Por mim a F1 não precisaria voltar ao Bahrein não. Acho a pista chata.

    Mas quanto a situação politica, me parece que é uma regressão se o estado barenita passar a ser governado por fundamentalistas xiitas (ou quaisquer outros fundamentalistas religiosos)
    O povo por lá ainda vai passar por maus bocados…

  5. Bernie Ecclestone já admitiu em outros momentos sua admiração por regimes totalitários, afinal, quem está no poder, como ele, não admite ser contrariado, e o que vale é o que ele quer, não importando se está ou não com a razão. Não há como negar que ele fez muito pela F-1, mas a esta altura da vida, poderia ser um pouco mais sensato e menos ganancioso. Ou será que ele pretende levar sua fortuna junto para o túmulo? Aproveitando a ocasião, convido todos aqui a conhecerem meu blog de automobilismo, no endereço http://pista-e-box.blogspot.com, onde posto minhas colunas semanais de automobilismo, com destaque para a F-1. Escrevo desde 1993, e aos poucos, pretendo colocar no ar todas as minhas antigas colunas. Sejam todos bem-vindos para ler e comentar…

  6. Ico,

    É uma atitude extremamente estúpida de Ecclestone, aliás mais uma.
    Ainda que tenha muitas riquesas, é um ser de alma pobre.
    Pensa que vai viver 200 anos, e quando morrer vai levar tudo junto…

    abs

  7. Bem colocado. Nestes momentos a denominação “circo” parece bastante apropriada, mas no sentido pejorativo. Bernie foi muito importante para a F1, mas acho que “foi”, passou seu tempo. A cada absurdo, é de se imaginar como as coisas continuam a funcionar sendo tratadas dessa forma. O episódio de Kyalami em pleno Apartheid parece não ter ensinado nada sobre sensatez. Não somos inocentes, a F1 é um grande negócio (e o que não é?), mas tudo tem seu limite.


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