As seis lições de uma vitória
O que sempre mais me chama a atenção no GPL é a capacidade de imersão que o jogo te oferece. Já gastei horas e horas pilotando uma série de bons jogos de computador, mas nenhum causou em mim a sensação de estar pilotando um carro de corrida tão no limite, quando a menor perda de concentração pode significar o fim da prova, e quando ao final de uma prova a satisfação de simplesmente tê-la terminado é a mesma que eu senti nas meias-maratonas que corri. Mais importante que isso é como esse jogo ensina lições de como funciona a dinâmica de uma corrida de carros.
Ontem foi assim, com a diferença que eu venci. Foi na abertura da temporada do GPL Brasil, em Norisring, e tenho de deixar claro que ganhei a prova da “segundona”. É que nos domingos de corrida se encontram cerca de 25 corredores, mas os servidores têm um limite de 19 pilotos. Então a liga faz uma pré-qualificação, na qual os 14 mais rápidos vão para o servidor 1 e o resto faz a prova da “segundona” - a classificação final para o campeonato contempla os que terminaram a prova 1 seguido pelos que terminaram a prova 2.
Fiquei com o 15º tempo na pré, o que valeu a primeira lição do dia: sem treino prévio, não se vai a lugar nenhum. Eu não andava de GPL desde antes do início da temporada e não treinei na última semana por pura falta de organização para encontrar o tempo para isso. Resultado, fui para a pista com apenas cinco minutos de experiência com aquele carro (a saber, uma Cooper) e acerto. E fiquei a pouco mais de um décimo de segundo da “nota de corte”. Daria para ter se classificado para o primeiro servidor com tranquilidade com um pouco mais de treino.
Como fui o mais rápido da “Segundona” na pré, coloquei na minha cabeça que iria ganhar a prova. Era a segunda lição: ir para a pista com uma ideia das suas possibilidades e, a partir dela, traçar um objetivo. Não é à toa que deu certo. A terceira lição é o exemplo recente de Sebastian Vettel e que já foi praticado no passado por Jim Clark e Ayrton Senna - é mais fácil ganhar uma corrida largando da frente e só controlando a distância para o resto.
Mais uma coisa que a prova de ontem relembrou - ritmo de corrida é tudo. Não é à toa ver pilotos depois de um treino de Fórmula 1 relativamente tranquilos depois de uma classificação difícil porque “o ritmo de corrida é bom”. A questão do ritmo é muito subjetiva, mas fundamental. Porque há uma diferença muito grande entre fazer uma volta voadora e ser constantemente veloz numa prova. Ontem, consegui fazer as duas coisas. Foi a quarta lição.
A quinta lição traz a tona uma frase de Jim Clark: “eu não guio mais rápido, eu só me concentro mais que os outros”. A questão da concentração também é subjetiva e muito ligada ao ritmo de corrida. É quase um transe, uma interessante mistura de atenção total e relaxamento na atividade de conduzir um carro num percurso que se repete. Neste ano, o GPL Brasil aumentou a duração das provas para cerca de uma hora e foi impressionante como foi difícil manter a cabeça na corrida nos quinze minutos finais, quando a diferença para o segundo colocado era mais que consolidada.
Enfim, foi só uma corrida besta de uma liga virtual e nem foi na divisão principal. Mas, nem pela vitória, para mim foi o reencontro com essa imersão no estado psicológico que envolve uma corrida, tão fácil de sentir e tão difícil de exprimir com exatidão em palavras. Fica a sexta, última e principal lição, feita pelo personagem de Steve McQueen no filme Le Mans: “uma corrida é a vida. O que acontece antes ou depois é apenas a espera”.


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