Playground familiar
Em uma sacada com vista para a reta dos boxes, de braços cruzados, peito estufado e com um blazer apoiado nos ombros, Dietrich Mateschitz assistia a tudo como um pai orgulhoso. Na pista, seus amigos e comandados faziam uma corrida bizarra: Sebastian Vettel num Porsche Carrera GTS, com o filho de Adrian Newey como passageiro; num F-3000, Christian Horner; Helmut Marko pilotou um protótipo Porsche dos anos 70; Gerhard Berger estava ao volante de um carro da Nascar; Christian Danner se virou como pôde com o carro da Williams de 1982 e pneus slicks no piso molhado; o vencedor, Niki Lauda, comandou um Pace Car da Mercedes - sem capacete, trajando apenas o indefectível boné.
Até hoje, na Fórmula 1, a Ferrari se orgulha de funcionar como uma “família” - e, a história mostra, nem todos os “primos” vivem satisfeitos dentro dela. Mas o espetáculo visto hoje em Spielberg foi de outra família, a da Red Bull, que demonstra união e agora tem o seu próprio playground para se reunir.
O nome “Spielberg”, como quase todos em alemão, também tem um significado: montanha de brincar. Foi dentro desse espírito que a marca convidou neste sábado alguns jornalistas para a abertura de seu parque de diversões motorizado. Pudemos dar uma volta pela pista como passageiros no Porsche Carrera. Pudemos acelerar um KTM X-Bow num percurso de slalom marcado por cones em uma área asfaltada. Puderam (eu tentei mas não consegui) pilotar uma moto de trial num percurso acidentado criado no meio de umas árvores.
O Red Bull Ring (antigo A1-Ring, Spielberg, Österreichring ou Zeltweg) tem esse propósito. Qualquer um pode ir e alugar um carro ou moto e alguns minutos para dar voltas em algumas das seguintes opções: pista de corrida, de kart, de enduro, de trial, de autocross e de testes para veículos com tração nas quatro rodas. Um verdadeiro templo para veículos motorizados.
Inevitavelmente, fica a pergunta se a bela pista cravada no meio das montanhas da Estíria pode voltar a receber a Fórmula 1. “Sem dúvida. A estrutura é moderníssima. E não tem nada do traçado ser curto demais: corremos normalmente em Interlagos ou em Hungaroring, que são pistas curtas. Seria muito legal se voltássemos a correr aqui”, refletiu Mark Webber.
Claro que essa questão depende muito mais de questões comerciais do que técnicas. Desde 2003 o austero governo austríaco entendeu que realidade financeira da Fórmula 1 não cabe mais no seu orçamento. Uma volta dependeria da vontade do dono do playground. Mateschitz pode ter bastante dinheiro, mas também não gosta de jogá-lo fora. Se entrar num acordo com Bernie Ecclestone por um preço camarada, pode até ser que o GP da Áustria volte ao calendário. O homem-forte da Fórmula 1 deu as caras por aqui hoje e inevitável pensar que os dois abordaram o tema em suas conversas.
Mas, mesmo que o GP não saia, a abertura do Red Bull Ring deixa claro que os motores dos carros do time voltarão a roncar nas montanhas de Spielberg, ainda que com modelos do ano anterior como foi o caso da demonstração feita hoje por Sebastian Vettel (RB6) e Jaime Alguersuari (STR5). Pelo menos isso.
Para quem, como eu, já viveu o delicioso clima rural de um Grande Prêmio da Áustria, fica a torcida para que se concretize o que por enquanto é apenas um desejo. Andar hoje pelas vias de acesso ao circuito e pelo paddock foi uma bela viagem nostálgica. Que ela vire presente o quanto antes. A pista está com a homologação máxima da FIA e pronta para escrever novos capítulos na sua história com a Fórmula 1.
TV Blogo – DTM A1 Ring 2002
Uma das melhores corridas que já assisti na minha vida foi do alto de uma arquibancada. Em 2002, tirei o final de semana para acompanhar a prova da DTM no circuito de A1 Ring, onde estou agora conferindo sua reabertura como o nome de Red Bull Ring. Foi uma disputa típica para este cenário: disputas acirradas, com as voltas finais de tirar o fôlego por conta da infalível chuva fina que sempre dá as caras por aqui. Aperte play e boa diversão!


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