
Ouvir Barrichello hoje, só amanhã...
Cheguei em Spa e, como de costume, fui conferir os horários das entrevistas dos pilotos para a quinta-feira nas folhas de cada equipe afixadas num mural. Quando olhei no papel da Williams, o susto: Rubens Barrichello e Pastor Maldonado não estavam escalados para falar hoje - apenas na sexta, sábado e domingo.
Logo chegou a assessora da equipe, um amor de pessoa, para dar explicações. “Ultimamente saiu muitas reportagens negativas sobre a equipe na imprensa. Queremos nos concentrar em melhorar o carro”. Como é, querida? Se formos esperar o time voltar a vencer para ouvir o que os pilotos pensam, talvez esperaremos algumas gerações.
Questionei a prática estranha. Toda educada, ela me pediu mil desculpas, mas comentou que ultimamente saíram várias reportagens negativas sobre o time, que eles admitiam o bom momento e preferiam se resguardar para que os pilotos falassem apenas sobre o desenvolvimento do carro. E acrescentou: “saiu muita besteira também sobre a situação contratual dos pilotos e nossa equipe não costuma comentar sobre esse assunto na imprensa”.
Quase caí para trás. “A imprensa sempre escreveu mil linhas sobre a situação contratual dos pilotos da Williams. Especialmente quando vocês mandaram campeões mundiais embora, como Nigel Mansell ou Damon Hill”. Ela sorriu amarelo, pediu desculpas novamente mas manteve firme a postura da equipe. Explicou que era uma situação temporária e abrimos negociações para mudar o quadro em Monza.
A atitude de blindar os pilotos é de uma imbecilidade sem fim. Mas, infelizmente, não é algo inédito na Fórmula 1. Em 2009, na seqüência do “escândalo da mentira”, a McLaren ficou mais de meia temporada sem disponibilizar Lewis Hamilton para as entrevistas de quinta-feira. Quem quisesse saber algo de uma das equipes mais importantes do grid tinha de se contentar com o insosso Heikki Kovalainen. Lamentável.
No final das contas, o silêncio dos pilotos da Williams acaba sendo mais sonoro do que debater abertamente os motivos para a situação confusa que ela vive. Mais uma decisão errada no que está parecendo um amontoado de decisões erradas que o time tomou neste ano, como a desastrada entrada na bolsa de valores (cujas ações já perderam 50% do valor) ou a necessária mas mal conduzida mudanças na equipe técnica. Quem te viu, quem te vê, Williams...

Hispânia versus Ferrari
A coluna é sobre Fórmula 1, mas vamos nos transferir para o cenário do futebol espanhol. Enquanto os gigantes Barcelona e Real Madrid acumulam milhões entre direitos de imagem e dinheiro de patrocinadores, as outras equipes passam por sérias dificuldades financeiras e estão atrasando o pagamento de seus jogadores, o que levou a uma greve que adiou o início da temporada.
Na categoria máxima do automobilismo, as estrelas ainda recebem em dia. Mas o caminho que ela está seguindo é o mesmo. Se olharmos para as doze equipes do grid, metade delas sofre de problemas financeiros em maior ou menor grau. E são poucos os indícios de que há um movimento sério para mudar este quadro.
Os times com dificuldades no orçamento são Renault, Force India, Williams, Lotus, HRT e Virgin. Em níveis diferentes, elas buscam alternativas para compensar a debandada de grandes fontes de dinheiro na F-1. As montadoras e os bancos foram embora, o jeito é apostar na boa vontade de milionários e, principalmente, vender bem caro os cockpits.
Para reverter o quadro, os times se unem em busca de condições melhores na hora de repartir os lucros da F-1. O objetivo é que eles tenham direito a 75% do bolo a partir de 2013, contra os 50% atuais. Bernie Ecclestone se defende com unhas e dentes e a briga nos bastidores vai ferver nos próximos meses.
Mas há um ponto em que os times discordam entre si. Para ajudar os times menores, a FIA busca introduzir uma série de medidas como restrições no orçamento e no uso do túnel de vento. Mas os times grandes são contra. Muitas vezes eles têm mais dinheiro para gastar no desenvolvimento de um carro do que um time pequeno tem para construir o seu. Uma vantagem financeira da qual eles não querem abrir mão.
Sem compromisso, a bola de neve deve crescer. Será que um dia teremos greve de pilotos por falta de pagamento?
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)