Lições do caso da La Sexta
As mudanças que estão ocorrendo em relação à transmissão da Fórmula 1 em alguns países da Europa ilustram o óbvio: assim como acontece em relação à organização de GPs, o modelo da categoria para ganhar dinheiro com a venda de diretos de transmissões também ficou irreal. Em tempos de crise no velho continente, isso começou com a BBC pisando no freio no meio de seu contrato e costurando um acordo para transmitir apenas dez corridas neste ano, abrindo caminho para a rival (e podre de rica) Sky.
A bolha estourou agora na Espanha. A MediaPro colocou à venda nesta semana os direitos de transmissão que tinha no país. Até 2011, mostravam a categoria pela emissora La Sexta. O poderoso grupo de comunicações se deu conta que não faz sentido pagar 45 milhões de Euros (mais de R$ 100 milhões) para um produto cuja audiência vem caindo e em um momento de crise publicitária. Mas não seria justo colocar a culpa desse quadro apenas nas mazelas econômica europeias. Apesar de seus profissionais fazerem um trabalho extenso e competente, a cobertura gira em torno de um único tema (como fica claro neste post da Julianne Cerasoli): Fernando Alonso.
Com ótimas relações com o piloto e sua entourage, os profissionais da casa aproveitam para fazer as mais diferentes pautas com o espanhol da Ferrari. Mas praticamente ignoram o resto do grid. Um exemplo: na corrida de Suzuka que deu o título a Sebastian Vettel, me juntei à roda de tevês espanholas para ouvir o alemão depois da corrida. Estavam lá repórteres das emissoras regionais de Valência e da Catalunha, mas nenhum da nacional La Sexta. Como se não importasse perguntar algo ao piloto que acabara de ganhar o campeonato.
Não precisa ser nenhum gênio para entender que essa visão unilateral da categoria cobra seu preço quando o piloto vive um ano sem chances de título, como foi o caso em 2011. Ao invés de educar seus espectadores a entender e apreciar todas as nuances da Fórmula 1, eles criaram uma legião de fãs loucos para ver “Magic Alonso” campeão. Mas não existe mágica numa categoria complexa como essa. Espectadores de países com cobertura mais equilibrada, como ingleses e alemães, sabem muito bem disso.
A crise na transmissão da televisão espanhola acontece em cima de números surpreendentemente bons se comparados aos obtidos no último ano pela Rede Globo. Na Espanha, a média de participação dos televisores em 2011 nas transmissões de F-1 foi de 33,2%. No Brasil, este número girou entre 15 e 20%.
Não se pode fazer uma comparação direta, já que as realidades são diferentes. Enquanto austeridade é a palavra da moda na Europa, a economia brasileira está aquecida como nunca. E a relação da Globo com a Formula One Management é longuíssima. Mais que uma cliente, ele assume quase o papel de parceira pelo trabalho feito na organização do Grande Prêmio do Brasil. Tudo isso conta muito para diminuir os gastos com os direitos e para aumentar a porcentagem de lucro da emissora na venda de cotas. Para a Globo, o modelo atual é vantajoso e não haveria motivos para mudá-lo.
Mas vale a reflexão do equilíbrio na cobertura. Conclamar os telespectadores para “torcer por Felipe Massa e Bruno Senna” na temporada 2012 será um erro, já que eles jamais conseguirão os resultados que espera uma torcida historicamente mal-acostumada, uma que pôde comemorar seis títulos mundiais em onze temporadas (entre 1981 e 1991) sem entender direito porque isso acontecia.
Para mim, o correto seria chamar a atenção para uma temporada que tem tudo para ser mais equilibrada que a do ano passado (e será um desastre para a categoria se não for), com seis campeões mundiais no grid e também com dois pilotos brasileiros que buscam provar o seu valor. Seria correto também tratar o produto F-1 como algo premium na grade, com espaço para programas especiais que ajudem a esclarecer uma competição esportiva que é complicada, mas nem por isso deixa de ser fascinante. Basta entendê-la.
Afinal, pelo andar da carruagem, desenha-se no horizonte a possibilidade de haver uma temporada de F-1 num futuro próximo sem pilotos brasileiros. Se não mudar essa cultura, o público vai perder o interesse e os patrocinadores vão debandar. Não ter dinheiro e ter um contrato vigente com Bernie Ecclestone na mão é um baita de um problema. A MediaPro/La Sexta que o diga.


lframos@totalrace.com.br

janeiro 26th, 2012 - 16:54
Ico, li acho que no Pitpass, que a MediaPro culpou a La Sexta de não pagar para ela o que devia pelos direitos de transmissão da F1. Isso é verdade?
janeiro 26th, 2012 - 18:31
Tem como enviar este texto para a Globo….seria importante…pois os fanáticos por carros e corridas como eu, adorariam ver várias matérias da principal categoria na telinha, independente de ter brasileiro ou não na matéria.
janeiro 26th, 2012 - 19:04
Eu não sabia que na Europa a coisa andava por este pé…
Mas aqui no Brasil, conversando com amigos do site e tal, sempre tive a certeza de que o dia que não houvesse Brasileiros na categoria, ou ao menos brasileiros em carros competitivos (por que não vai adiantar ter dois, um na Marussia e outro na HRT) a TV aberta perderia o interesse (e o lucro) e repensaria a quantia que é paga pra poder retransmitir…
janeiro 26th, 2012 - 21:35
Ico, você foi muito, muito feliz neste post. Parabéns!
Eu concordo em número, gênero e grau com seu ponto de vista. E é por causa desta torcida só por brasileiros que muita gente não viu qualidades em Rubens Barrichello.
Precisamos mudar essa nossa cultura na F-1 de ter só que torcer por brasileiros. Torcer por eles, sim, mas sem ufanismos. Há um grid cheio de pilotos com diversas qualidades e potencial diferentes, e cada um ao seu estilo formam uma F-1 que vai muito além de ser observada só pelo que os pilotos brasileiros fazem.
Ainda é tempo de corrigir essa filosofia.
Um abraço.
janeiro 26th, 2012 - 23:54
Excelente análise Ico. Tenho alguns amigos que são diretores na Tv Globo e vou mandar esse texto pra eles. Tô falando sério!
Mas não tenho esperança de que esse panorama mudará.
A própria emissora não entende a F1 da forma como gostaríamos. Pra eles, o que interessa vender é o piloto brasileiro, esse é o produto pra eles, não o esporte em si.
Então não adianta espernear porque o problema é de entendimento porque ficaram anos acostumados a esse modelo e se recusam a ter uma visão mais abrangente sobre o assunto. Isso e o medo de perder a pouca audiência que ainda têm.
Já te disse isso e repito: Meu sonho é você no lugar do Galvão e a Julianne no lugar do Burti!
Como eu sei que vc é amigo do Reginaldo eu deixo ele por ali… rsrsrs
janeiro 27th, 2012 - 09:12
Dé, não é de hoje que qualquer lugar onde se comenta F1 reclama horrores da transmissão ufanista e de nível técnico zero que a Globo produz.
Tenho notado nos últimos 2 anos um aumento significativo destas reclamações, especialmente depois da popularização das redes sociais, inclusive de telespectadores do nível “average”, que não tem conhecimento direito de como a F1 funciona. Não estou levando em conta os tipos que reclamam só para incomodar. Estou falando de gente que quer levar a F1 a sério, mas não aguenta ver explicações dignas de se dar para crianças de 5 anos.
Eu não sei o que a Globo usa como base para definir as características da transmissão, mas não é possível que uma perda de 50% da audiência desde 2008 não seja suficiente para escancarar que o modelo de transmissão está muito errado. A pouca audiência da F1 já é seleta, será que é tão difícil enxergar isso?
Em tempo, essa semana começaram a exibir programetes da F1 de dois minutos, logo após o Jornal da Globo. Bem cedinho, por volta de uma da manhã. É brincadeira.
janeiro 27th, 2012 - 09:57
Sem dúvida Bruno.
Mas a arrogância daqueles caras é tão absurda que eles pensam que o problema é não ter um piloto vencedor e não a qualidade da transmissão.
Esquecem que hoje o público interessado tem acesso a várias coberturas de várias TVs.
Como eu disse antes, não vejo muita chance desse panorama mudar.
janeiro 27th, 2012 - 11:03
Boa De’!! O texto do Ico resume a insistencia da Globo em produzir e cooptar a mente dos telespectadores (algo que ela ja soube fazer muito bem e ainda faz em outros programinhas meia-boca) em torno de psedo-shows. O torcedor brasileiro ou e’ um fana’tico, ou um sonhador frustrado, ou um mal-educado (quem se lembra do pobre do Hamilton em Interlagos, 2008?), ou um ser humano altamente paciente. Aumenta o ni’vel!
Por um pouco de honestidade e profissionalismo.
(Eu sempre achei o Cleber Machado legal. O Luis Roberto e’ um gente boa que nao sabe nada de F1.)
Ab e … tem mais! o Kanaan ta vendendo o peixe dele. Vamos ver o que a cobertura da Band faz nas transmissoes do ano.
janeiro 27th, 2012 - 09:27
Particularmente acho ruim a cobertura da rtvg ! Esta aquém do que poderia ser… estou torcendo muito por uma FOX forte, mesmo que paga para ter câmeras como da Eurosport de pilotos, ângulos diferentes etc…
-F1 para mim é um hobby, não tenho pátria, é uma assistência técnica…paixão mesmo!
Que Galvão continue na CFC, UFoscaralhos sei lá o nome…para sempre ou que seja nocauteado até ficar abobalhado (mais..será possível?!?!?).
janeiro 27th, 2012 - 10:26
Durante a classificação para o GP Brasil de 2010, quando uma tempestade interrompeu o treino, a Globo Veiculou matérias interessantes sobre a F1. Daí me pergunto: Por que não veiculam isso antes das transmissões aproveitando o público seleto, disposto a consumir tal material?
janeiro 27th, 2012 - 12:54
Porque existe uma grade de programação, cujo espaço é vendido pra outros patrocinadores.
Durante o espaço de GP, se a corrida para por qualquer motivo, é preciso preencher esse espaço com matérias, entrevistas ou qualquer besteira. Mas antes ou depois, não.
janeiro 28th, 2012 - 14:01
É. Tal do “Material de Gaveta”.
Dé, já que você vai falar com os conhecidos, não custa dar uma sugestão que venho pensando a tempos:
A transmissão da F1 iniciar 15′ antes da volta de apresentação. Entram os comerciais das 6 cotas (3′), aí entra o programa, com duração de 9′, contendo essas matérias, entrevistas com pilotos (onde hoje só mostra o áudio deles logo antes da volta de apresentação), características da pista, ou algum fato histórico dela, alguma explicação técnica, etc. Depois mais 3′ dos cotistas, e então entra em definitivo.
Veja bem, os cotistas estão ganhando mais uma exibição, onde hoje só tem a contagem regressiva de 5″, e uma exibição. Isso é sempre bom para a Globo tirar mais uma graninha deles.
janeiro 28th, 2012 - 22:59
Boa sugestão Bruno, meus conhecidos não são tão poderosos no jornalismo mas fica a dica!
janeiro 30th, 2012 - 09:58
Diante da crise da transmissão da F 1 e da possibilidade de ficarmos sem os nossos pilotos brasileiros num futuro próximo e mais ainda porque os Âncoras da narração da F 1 (Galvão Bueno e seu fiel escudeiro Reginaldo Leme)provavelmente irão se aposentar depois de 2014 e diante deste cenário,a Globo começará a perder o interesse pelas transmissões da categoria e consequentemente encerrar o seu contrato com a FOM.Nesta jogada,entrará de gaiato a FOX Sports.Perderemos o direito de assisti – la em TV aberta e isso será terrível para os fãs.
fevereiro 1st, 2012 - 02:17
Galvão se aposentar é algo que me atrairia mais, do que o contrário. Eu concordo plenamente com a opinião do Ico. O brasileiro em sua maioria não gosta de automobilismo atualmente, apenas de representantes brasileiros, de qualquer esporte. É uma pena que o público esteja tão atrasado. Tem gente que até hoje vem com aquele papo de “depois que o Ayrton morreu, nunca mais vi”, um raciocínio completamente sem noção.