Graham Hill e as lembranças de Watkins Glen
O pessoal que participa do GPL Brasil teve uma noite divertida ontem correndo em Watkins Glen, cheia de disputas épicas (sem exagero) e uma profusão de rodadas, batidas e acidentes. Mas tudo no clima amistoso de uma disputa saudável no automobilismo virtual.
No mundo real, as corridas em Watkins Glen ocorriam numa época também de disputas mais amistosas, embora as consequências de acidentes costumassem ser muito graves. Para ilustrar essa mistura entre risco fatal e espírito esportivo, nada melhor do que esse trecho do livro “Grand Prix Piloten”, publicado em 1972 pelo jornalista austríaco Helmut Zwickl. O assunto é o acidente de Graham Hill no circuito americano em 1969. A tradução é minha:
“Em Watkins Glen, Graham rodou em uma mancha de óleo, naquela corrida que seria a primeira vitória da carreira de Jochen Rindt. Graham abriu o fecho do cinto de segurança, pulou do carro e, enquanto buscava voltar à pista sem ajuda externa, verificou que os pneus Firestone do seu carro estavam bem desgastados. Ele fez a Lotus voltar a funcionar; por causa do espaço apertado no cockpit ele não pode afivelar os cintos novamente, o que não o incomodou já que ele queria ir para os boxes. Com um gesto ele sinalizou o pedido para a troca de pneus. Tarde demais: na mesma volta seu pneu traseiro direito estourou. Ainda que Graham não estivesse de pé embaixo nesse momento, um carro costuma escolher sua própria direção quando um pneu estoura a 200 km/h. Um barranco estava no caminho da Lotus: batida, capotamento; Graham sai voando do carro como um boneco, o que não dá para saber se foi bom ou ruim para ele.
Os dois joelhos estão quebrados; mas o que era pior: alguns nervos foram rompidos. “Se ele tiver azar, nunca mais vai pilotar um carro de corrida”, cochichavam pessoas do meio. Da cadeira de rodas Graham ditou sua “Live On The Limit” num gravador, de onde saiu o livro com o mesmo nome. O que as páginas não contam: Graham pediu para Colin Chapman como lembrança desse acidente sem sentido em Watkins Glen - como se duas pernas quebradas não bastassem! - o banco e o pedal do acelerador recolhidos nos destroços da Lotus. Claro que Chapman não negaria um pedido desses. Ele inclusive endereçou a Hill a conta das peças. Dezesseis libras. Com desconto, que fique claro.”
O humor tipicamente britânico da F-1 na época aparece também no vídeo abaixo. Numa cerimônia de premiação dos melhores do ano de 1969, Hill entra num link ao vivo do hospital onde convalescia para dizer que teria uma noite ainda melhor do que o pessoal da festa, porque chamaria umas mocinhas para “coçar o meu traseiro”. Andar com pernas arqueadas e mancando o resto da vida não alterou muito seu tradicional bom humor.
Como se sabe, Hill não consegui tapear a morte numa noite de novembro de 1975, quando insistiu em pousar no campo aéreo de Arkley apesar de recomendações contrárias e de um intenso nevoeiro. Levou junto outros cinco membros da equipe que tinha seu nome.


lframos@totalrace.com.br

março 5th, 2012 - 17:39
Eu só conhecia a parte da morte de Hill, o restante é novidade pra mim… Uma deliciosa novidade.
Agora… Aquilo lá em cima é pintura mesmo ou é só modo de falar?
março 5th, 2012 - 18:59
Também não tinha conhecimento desse episódio.
Sensacional Ico! Thanks!
março 5th, 2012 - 22:37
A+ Ico
março 6th, 2012 - 01:05
E o vídeo é incrível, Hill é um comediante nato. O texto, tempo e pausas dramáticas…
Agora, andar num F1 sem o cinto de segurança é de uma irresponsabilidade total, né?
A F1 mudou muito nessa anos todos, hoje isso seria impensável.
Conta mais Ico!