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Uma dupla do barulho

Um bom disfarce para conseguir vistos impossíveis e driblar o tumulto dos protestos

No meio do ano passado, quando saiu o calendário da temporada 2012, procurei ver o lado positivo da dobradinha China-Bahrein. As corridas mais chatas e/ou complicadas de se cobrir estavam juntas, e na parte inicial da temporada. Pelo menos, estaríamos livres delas antes mesmo que o Mundial esquentasse.

Afinal, cada GP tem o seu atrativo, seja pelo lugar ou pelo circuito. E os GPs mais legais de cobrir são os que unem estas duas coisas. O que não é o caso aqui, muito pelo contrário. Xangai é enorme, sempre com engarrafamentos gigantescos e um ar que dá para pegar com a mão de tão poluído. Manama, agitações políticas à parte, é um dos lugares mais insossos que já visitei, um canto do planeta que não tem nenhum atrativo que justifique a visita.

Mas é a questão política a que mais irrita. No caso da China, o processo para obter um visto de jornalista é infernal e piora a cada ano. Primeiro enviamos nossos dados aos organizadores, que repassam para o governo de Xangai para que este envie cartas-convite aos consulados chineses das cidades onde moramos.

O processo foi iniciado nos primeiros dias de fevereiro, mas consegui retirar meu visto apenas anteontem, dez minutos antes do consulado fechar para a Páscoa e depois de passar a manhã inteira fazendo uma triangulação telefônica com a chefe do Departamento de Imprensa de Xangai (muito atenciosa e prestativa, tenho de dizer) e o seu correspondente em Viena. Cheguei a pensar que dessa vez perderia o GP por falta de visto, mas um gol aos 49 do segundo tempo salvou a causa.

É difícil de entender porque colocar tantas barreiras para que a imprensa mundial vá cobrir um evento esportivo de grande magnitude cujo propósito é o de mostrar o país para o resto do planeta. Sendo assim, melhor cancelar o evento de uma vez.

No Bahrein, oh surpresa, o visto pôde ser feito online depois que eu enviei meus dados para a organização e eles me passaram uma senha. Em menos de dois minutos tinha o documento impresso na mão. Ótimo. Agora, o que fazer no Bahrein? Reportar sobre uma corrida entre vinte do calendário enquanto o pau come a poucos quilômetros dali?

Era óbvio que os que protestam contra o atual regime do reino aproveitariam a proximidade da prova para intensificar suas ações - o que ficou claro nesta semana. Os barenitas interessados na realização da prova argumentam que ela será um “instrumento para acelerar o processe de unificação do país”. De que jeito? Todos ganharão ingressos, com direito a passear no pitlane e a pegar autógrafos dos pilotos? Honestamente, é isto que o povo de lá precisa nesse momento?

Se a corrida for em frente, estarei lá. Seria uma situação vergonhosa para a Fórmula 1, mas meu trabalho é ver isso de perto e reportar. Se o Bahrein quer se mostrar ao mundo, vamos lá ver e passar o que vimos. Mas há muitos indícios de que as imagens descritas serão a de um país dividido e tumultuado. É isso que os governantes de lá querem?

Política e esporte não se misturam. É como deveria ser. Sei que temos incontáveis exemplos do contrário na história não só da F-1, como também das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Mas nenhum precedente justifica a odisseia do visto chinês e nem a presença sem nenhum sentido de uma corrida de carros no Bahrein neste momento. Colocar as duas provas em sequência foi, acima de tudo, uma maneira de acentuar a presença política dentro do esporte. Um baita de um gol contra sob qualquer perspectiva.

Só sei que não vejo a hora de chegar o GP da Espanha...