Em busca de uma impossível normalidade
Estou sentado na sala de imprensa com uma visão privilegiada do paddock no circuito do Sakhir. Os personagens da Fórmula 1 caminham por ele como se esta fosse apenas uma entre as vinte etapas da temporada: repórteres de televisão gravam passagens com a indefectível torre barenita ao fundo enquanto mecânicos passam apressados de um lado ao outro carregando pilhas de pneus.
Mas não é um final de semana comum. Muito pelo contrário. O assunto da quinta-feira foi a enrascada em que se enfiaram alguns membros da equipe Force India na noite anterior, no caminho da pista para o hotel em que se hospedam, quando encontraram a estrada bloqueada em meio a uma confusão entre manifestantes e a polícia. Uma bomba de coquetel molotov teria explodido próximo ao veículo em que se encontravam. Não aconteceu nada com eles, fora o susto.
Eu poderia ter entrado numa situação parecida. Cheguei no país de noite, aluguei um carro e liguei para a família de conhecidos do Brasil que está me hospedando nesta semana. Me surpreendi com a tranquilidade do caminho até a casa deles, até que peguei uma saída errada. O lugar pareceu estranho, telefonei novamente para a anfitriã. “Faz o retorno e volta. Rápido. Você está bem no bairro onde está acontecendo uma manifestação”. Curioso, até segui mais um quilômetro para ver se achava algo, mas só vi policiais. Pelo jeito, ela já tinha se dissipado.
De um modo geral, há uma sensação de falsa segurança por aqui. Há bastante viaturas nas ruas (mas sem exageros) e não se vê nenhuma manifestação. Porém, conversei bastante com a família brasileira que me hospeda, gente que trabalha com estrangeiros e com locais sunitas e xiitas. Que me apontam não ter havido nenhum indício de mudanças na situação desde que os primeiros protestos eclodiram no ano passado, talvez até um aumento no descontentamento.
A visão de quem não pende para nenhum lado difere bastante da de quem apoia a prova. O chefe do circuito, Zayed Alzayani, achou tudo uma questão circunstancial. “Foi um incidente isolado. Os manifestantes não estavam mirando os carros, apenas aconteceu deles estarem ali. Ninguém se machucou”.
Impossível concordar com suas palavras. Manifestações fazem parte do cotidiano aqui e era claro que elas se intensificariam (e se intensificarão) nessa semana de GP. O risco de acontecer algo com alguém da categoria, ainda que esteja muito claro que nenhum estrangeiro seja o alvo dos protestos, era óbvio. O incidente da última noite não acabou mal por uma questão de metros.
Vendo de perto o clima aqui, não tenho dúvidas de que a prova vai acontecer. Teremos um vencedor no domingo mas, pelo absurdo de fazer o evento num país que vive um momento como o que o Bahrein vive, será uma corrida na qual todos os envolvidos serão perdedores.


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