20abr/1217

Bahrein Unplugged

As luzes noturnas das estradas barenitas ganharam reforço nessa semana

Duas horas da manhã numa vila ao noroeste da ilha do Bahrein, fora da capital Manama. É onde estou hospedado nessa corrida, na casa de uma família brasileira que reside há quatro anos no país. “Você sente também um pouco do cheiro de pólvora”, me pergunta o anfitrião. Meus olhos ardem, mas só sinto mesmo o cheiro de gás, o gás que faz lacrimejar e que está espalhado pelo ar.

Pegamos o carro para dar umas bandas pelo bairro. O vazio das ruas só é quebrado pelas viaturas policiais que estão paradas ou nos ultrapassam em alta velocidade. Numa esquina elas se concentram, limpando um bloqueio que deve ter sido erguido ali um tempo antes. Nenhum sinal de manifestantes. Apenas em uma das paredes, onde dá para ver restos de fotos. Eram de um menino do bairro que morreu num conflito recente. Sensação de medo? Nenhuma.

Algumas horas antes, tinha sido muito mais temerário. No caminho do circuito para o norte da ilha, a parte mais habitada, o trânsito diminuiu o ritmo num ponto da estrada a ponto de parar. Enquanto olhava viaturas do lado direito, escuto um enorme estouro vindo do canteiro central, bem a meu lado. Era um policial disparando uma bomba de gás lacrimogênio num campo escuro. Metros à frente, uma pequena chama indicava um molotov que estava quase apagado. No meio do asfalto da estrada que é a principal ligação entre o centro e o norte da ilha. Não vi ninguém sendo atendido e nenhum carro com sinais de destruição. Mas foi uma sensação de desconforto total.

Essa é a realidade que estamos vivendo no Bahrein. Um país que vive um momento delicado e em que conflitos acontecem de maneira diária. Uma tremenda ideia de jerico fazer um grande evento aqui neste momento.

A situação no país é extremamente complexa e vai além de um conflito entre uma minoria governante sunita e uma maioria governada xiita. Dentro do próprio governo existem duas linhas que se chocam: uma mais liberal, que pretende promover um processo de abertura mais ou menos controlada no sistema, reconhecendo a representação de xiitas em setores importantes da sociedade, inclusive na política; outra mais linha-dura, que preferiria abafar qualquer foco de mudança e deixar tudo como está (ou estava antes da chamada “Primavera Árabe”).

Parou nisso? Não. Toda a região está com os olhos bem abertos para o acontece no Bahrein. Monarquias como a da Arábia Saudita - um país do qual a economia barenita é completamente dependente - temem tanto os manifestantes xiitas como os liberais sunitas. É uma confusão política e religiosa ao mesmo tempo.

Não podemos ignorar também o fato do Bahrein ser a base da maior frota naval norte-americana no Golfo Pérsico, o que dá ao país um papel geopolítico fundamental na região. Difícil saber o que mudanças na estrutura do país causariam em relação a isso.

Conversei ontem com um empresário local, que afirmou esperar que a confusão dure “pelo menos mais uns cinco anos, e ao custo de muito sangue”. Segundo ele, o Bahrein vai reencontrar o caminho da normalidade, mas isto vai depender de muitos fatores, a maioria deles externos ao país. Até lá, a situação interna pode se agravar, principalmente se o clima de protesto e opressão continuar saindo do controle, como parece ser o caso.

No meio dessa confusão está a segurança das pessoas envolvidas no evento “GP do Bahrein de Fórmula 1”. No momento, há uma celeuma muito grande sobre recentes declarações de Martin Whitmarsh e de Sebastian Vettel comparando a situação ao Brasil. Muita calma nessa hora, já que existem dois lados dessa história. É uma temática complexa e é uma pena ela estar sendo discutida. Se tivessem cancelado a prova, estaríamos ao largo disso.

Comparar a situação como um todo com o Brasil é um erro gigantesco, isso é claro. Não sei ainda, mas acredito que Whitmarsh e Vettel também sabem disso. Mas comparar em termos unicamente de segurança é perfeitamente cabível. Antes de me crucificarem, em refiro a simplesmente “a preocupação de um cidadão em alguma cidade do planeta em relação à sua segurança pessoal” - não há nada político, cultural ou outra coisa nesse pensamento.

Isso pode doer no orgulho de muitos brasileiros, mas São Paulo é uma cidade muito violenta. Eu vou para todas as corridas da temporada, e não há lugar onde a comunidade da F-1 se sente mais vulnerável. E de forma justificada. Na noite de domingo da prova do ano passado, os colegas Felipe Motta e Julianne Cerasoli tiveram seus pertences roubados em um “arrastão” num semáforo a poucos metros da saída de Interlagos. Os criminosos portavam até metralhadoras. Isso também dá muito medo. Sim, eu sei que Bernie Ecclestone foi assaltado e atacado em Londres, um contra-argumento comum nesse caso. Mas compare o índice de homicídios das duas cidades. Melhor: compare os índices de homicídio das grandes cidades brasileiras com os da Guerra do Iraque. Não há como justificar, melhor seria a sociedade trabalhar para mudar isso.

Inicialmente, eu achei que membros da Fórmula 1 poderiam ser alvo de manifestantes - o que, nesse sentido, traria uma diferença decisiva em relação ao caso de São Paulo, já que estaríamos como alvo de violência de uma questão política/ideológica/religiosa que ninguém tem a ver com ela. Mas depois de tudo o que vi por aqui, fica claro que o risco disso acontecer é praticamente inexistente, pelos interesses dos manifestantes, pela índole do povo beduíno em geral, pelo quadro de diferentes e complexos interesses que envolvem o Bahrein nesse momento. Um ataque dirigido à qualquer pessoa da F-1 seria um desastre tanto para os manifestantes (que justificariam assim internacionalmente uma ação mais pesada e opressora por parte dos governantes) como para o governo, que resolveu tocar a prova e deu garantias de segurança para todos.

Se algo der errado, é mais uma questão de estar no lugar errado na hora errada. Como aconteceu comigo ontem. Como aconteceu com membros da equipe Force Índia na quarta-feira.

Dito tudo isso, então é de se pensar que a corrida desta semana deveria ocorrer normalmente se a questão de segurança é a mesma de São Paulo, onde a prova ocorre normalmente. E se pensarmos na questão de direitos humanos, a categoria também corre na China, afinal.

Mas insisto no erro desse evento pela complexidade da questão, como descrevi no início do texto. Existe uma pletora de interesses internos e externos em ação no Bahrein nesse momento. É um vulcão em erupção e está todo o mundo (literalmente, no sentido global do termo) de olho para ver qual a direção que a lava vai escorrer.

E, que eu saiba, a F-1 não faz corridas quando tem um vulcão em erupção.

Comentários (17) Trackbacks (1)
  1. Excelente texto! Concordo com a sua exposição sobre os comentário do Vettel, Martin Whitmarsh e cia… aliás, encontrei alguém que colocou tudo que eu pensava sobre o caso em palavras… Infelizmente pilotos e até equipes são apenas parte dessa circo chamado F1, talvez a parte mais fraca e vulnerável, se são “obrigados” a ir pro meio de uma guerra, então vão se justificar falando que tá tudo bem e que o sistema de segurança deles funciona (afinal, é testado anualmente no Brasil, como bem querem demonstrar)… Mas o problema vai além dessa tal segurança, são pessoas que não podem assistir um GP, muitas vezes pq estão velando parentes e amigos mortos em uma guerra =/
    É triste e lamentável toda essa loucura que está acontecendo, ao Bahrein e também à F1, que não precisa disso!
    Espero um F1 tranquilo, na medida do possível, a todos os envolvidos, inclusive a toda a imprensa, e o fim desse conflito o mais rápido possível àquela população!

  2. Ótima análise da situação.
    É a diferença de estar in loco.

  3. Parabéns pelo texto, Ico.
    Concordo com tudo, porém acrescento que me resta uma pequena preocupação em relação à segurança das pessoas que estão no Bahrein para trabalhar no evento F1: “vai que” algum grupo resolva atentar contra o evento na tentativa de colocar a culpa no grupo contrário…
    Abraços,
    Ricardo Talarico

  4. Gostei bastante da sua análise, e acho que a comparação do Vettel tem lá seu sentido sim, e o fato de um velho ter sido assaltado e levado um soco na cara em Londres não transforma São Paulo numa Genebra, sinto muito.

  5. Li e parcialmente de acordo…Força dos Dollars, também não existe GP da Noruega e ano passado houve um massacre..E no Japão??Os Tsunami e Teramotos???Quando infelizmente dà não exs!ite como evitar..Mas GP do Barehein é como comprar lenha para se queimar…

  6. “E, que eu saiba, a F-1 não faz corridas quando tem um vulcão em erupção.”
    Não dá idéia para o Bernie Ico…. Vai que ele anima….
    :)
    Abração !

  7. Basicamente concordo com tudo que você escreveu.

  8. Parabéns Ico, pelo excelente texto. Até agora, independentemente de idioma, o relato mais lúcido da situação que pude ler.

  9. Parabéns pelo texto, Ico. Estou de pleno acordo.

    Só para agregar uma informação, a relação entre o Bahrein e a Arábia Saudita é bastante intrincada. Não só porque a economia da ilha é dependente do páis continental, mas também porque os sauditas, especialmente ricos, pelo que soube, enxergam o Bahrein como um lugar mais liberal onde eles podem fazer tudo – tudo – o que a lei proíbe em sua terra.

  10. Felizmente o Vettel não deve saber a respeito dos nossos politicos!parabéns pela sinceridade dele e principalmente pelo seu esclarecedor texto.
    Abraços e até mais.

  11. Sei que há diferenças que podem ser chamadas de “gritantes”, mas a F1 correu no Brasil e na Argentina mesmo durante os anos de chumbo, com gente sumindo, sendo torturada…
    Correu na África do Sul quando ser negro era crime.
    Correu nos EUA, mesmo com Guantanamo à vista do mundo…

    Ou seja, a F1 nunca deixou de ir a um lugar que não respeita direitos humanos.
    A corrida vai transcorrer na maior normalidade (e chatice) possível.

  12. Belissimo texto, Ico. Seguro, pés no chão, falou a verdade.

    Concordo em número, genero e grau.

    Parabéns!

    Agora é torcer para que tudo se transcorra dentro da normalidade, dentro e fora da pista.

    Um abraço.

  13. No meio da semana tive uma “mini-discussão” com Rafael Lopes do “Voando Baixo” e foi justamente essa coisa de que se *focar em segurança*, São Paulo/Brasil vira exemplo negativo na F1 com motivo. E sim, ele usou o argumento de Bernie… ¬¬

  14. Basta lembrar que Button, há pouco tempo, pelo que me lembro, teve seu carro cercado por criminosos em São Paulo.

  15. Grande Luis Fernando Ramos, muito obrigado pelo excelente texto, o qual nos transfere nitidamente a realidade q vcs estão vivendo ai no Barhein.
    E nós aqui, digamos q de camarote, torcendo para q tudo saia bem e que o esporte prevaleça em relação aos pbs políticos vividos no país.
    Dizem q o espírito olímpico une nações, diga-se de passagem, ja vimos sul e norte coreanos entrarerm abraçados em uma abertura olímpica, um jesto completamente louvável q se tivesse surtido o efeito q fez a todos nós naquele momento seria o grande exemplo para misturarmos o pbs políticos com o esporte..
    Mas na prática isto não existe, eles ainda possuem diferenças q nem aquele ato conseguiu dissipar e com certeza a F1 tb não conseguirá fz nos próximos anos no Barhein..

    Um gde abraço e se cuida meu amigo..

  16. Ico:
    Mais uma análise lúcida,como habitual. Mas nada como a tranquilidade vienense, onde a violência fica por conta de malucos pontuais. Quero ver esta etapa terminando bem para todos e que v. logo esteja batendo um papo regado à música e cerveja em locais mais aprazíveis.
    Saudades imensas.
    Pai


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