25abr/125

As sepulturas de Shakhura

Um dos lados da história. E não se pode fechar os olhos para nenhum deles...

Eram exatamente 1:35 da manhã de terça-feira quando o avião da Swiss decolou de Dubai com destino à Zurique. As luzes do Burj Al-Arab, o maior prédio do mundo, brilhavam proeminentes numa altura três vezes acima dos outros, mas logo ficaram para atrás quando a aeronave adentrou o espaço sobre as águas do Golfo Pérsico.

As águas do Golfo Pérsico são muito calmas.

Não dá para falar o mesmo dos pedaços de terra que o cercam. Minutos antes de embarcar, estava conversando com uma alemã que voltava do trabalho de um mês em Basrah, no Iraque. Me descreveu um país tenso, buscando reencontrar seu caminho após uma segunda guerra em menos de vinte anos, dividido e cheio de feridas. Imediatamente, as imagens que vi no Bahrein nos dias anteriores voltaram à minha cabeça.

Ter ficado na casa de uma família brasileira residente no país - o que eu descrevi aqui e que você deve ler para completar esse relato - foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para esta cobertura. Em primeiro lugar por ter ficado à parte da bolha em que viveu a maioria dos colegas jornalistas - em hotéis arranjados pela organização do evento e com deslocamentos para o circuito em ônibus fornecidos também por eles. Não é uma crítica à eles, até porque a chance de se ter conhecidos na ilha é muito pequena. Mas era importante saírmos do nosso habitat natural e entrar no dos locais.

Tive a sorte de poder fazer isso de forma natural e, também, geográfica. Janabiya, onde fiquei, é no meio de vários enclaves xiitas: ao sul de Budaiya, onde aconteceu a maior passeata na semana do GP, e à oeste de Shakhura, onde o corpo de um protestante foi encontrado no sábado. A própria Janabiya possui uma maioria xiita (como a maior parte do país, nota-se).

Se além de acompanhar o TotalRace você acompanhou o que outros profissionais reportaram direto do Bahrein, deve ter ficado confuso. Enquanto alguns passaram um quadro de absoluta normalidade, outros viram protestos e confusão de perto, pintando com cores de fortes algo que, realmente, é forte de se ver. No balanço da semana, um lado acusou o outro de mau jornalismo.

A situação no Bahrein é tão complexa que os dois lados estão certos e errados ao mesmo tempo. Sim, dá para se viver normalmente no Bahrein hoje em dia - “normal” sendo o conceito de sair pelas ruas para trabalhar ou passear sem temor por sua segurança pessoal. Vivi isso na noite de sexta-feira, quando curti um bom show de George Benson no Fort Arad. E na noite de sábado, quando fui a um bar Shisha no bairro de Juffair. É um país onde se pode levar um cotidiano agradável e confortável.

O único fator pertubador é ficar preso no trânsito por conta de algum bloqueio criado por pneus queimados por protestantes. Ainda assim: os relatos que ouvi foram os de que os manifestantes abrem caminho pelo próprio bloqueio para carros com mulheres e estrangeiros. E não há casos registrados de ataques deliberados à cidadãos. Quando o pau quebra, é entre manifestantes e a polícia.

O que não se pode é ignorar que eles acontecem. E diariamente. Justamente nesses enclaves xiitas onde e perto de onde eu fiquei. A dinâmica é mais ou menos essa: um grupo busca bloquear alguma via de acesso um pouco mais importante com pneus. Põe fogo e tenta sair fora antes que a polícia chegue. Estes estão por toda a parte, sempre com rifles carregados de bombas de gás lacrimogênio na mão. Normalmente são recebidos com uma chuva de coquetéis Molotov e chegam descendo o pau em quem aparecer pela frente. A turma sai correndo e aciona outro grupo, em outro ponto da ilha, para bloquear um outro acesso já que estes primeiros estão ocupando a polícia. É um jogo diário de gato-e-rato.

A divisão da sociedade barenita também fica clara em alguns detalhes. A ala pró-governo - ou, para usar uma figura menos politizada, a que prefere que as coisas continuem como estão - abusa do uso das cores da bandeira do país. No autódromo do Sakhir, em um evento “pró-”, vi diversos torcedores com chapéus com o desenho do estandarte nacional ou camisetas da seleção de futebol deles. Tudo para mostrar o orgulho do Bahrein como ele sempre foi.

Mas é preciso sair da “bolha” de bem-estar que existe no país para se ter um quadro de como vivem os que estão insatisfeitos com o governo. Na manhã de segunda-feira, fui até Shakhura ver aonde vivia a única casualidade do final de semana. Um pequeno labirinto de casas simples e ruas apertadas, entrecortado por duas ou três vias maiores. As pessoas caminhavam por elas normalmente: os homens mais jovens vestindo calça jeans e camiseta, os mais velhos com surradas túnicas, as mulheres com xadores negros que só deixavam os olhos à mostra.

O tom monótono de algumas paredes das casas cor de areia era quebrado por painéis coloridos que retratavam paisagens repletas de plantas: palmeiras, coqueiros, um cenário tropical oposto à aridez do deserto. Talvez seja uma maneira de expressar o desejo de um lugar completamente diferente ao que vivem. Um sinal mais claro disso estava nas bandeiras pretas ou verdes presas em cada poste, com escritos em árabe. Nos enclaves xiitas, não há espaço para a bandeira ou as cores nacionais do Bahrein. Eles não se sentem parte do reino.

Na beira de uma das vias mais largas de Shakhura tem um cemitério. As lápides são modestas e rasas, a areia que cobre as covas cobre também todo o cenário em volta. É um cemitério discreto, pequeno, com exceção de um dos túmulos, decorado com bandeiras e flores. Fiquei pensando se seria o do manifestante falecido no final de semana, um sujeito que tinha exatamente a minha idade.

Parei ali por alguns minutos silenciosos e fiz uma prece para que os barenitas, os da vida “normal” e os das vilas xiitas, encontrem um caminho para terem uma convivência pacífica e boa para todos.

Vai demorar para isso acontecer.