31mai/126

Sobre ressurreições e santos de verdade

Uma santa iluminando um grid inteiro

Sainte-Dévote, a padroeira de Mônaco, estava especialmente generosa neste ano. De uma só vez, recuperou três casos mais ou menos irremediáveis. No sábado, agraciou o infernal Michael Schumacher com uma volta celestial que lhe deu o melhor tempo no treino de classificação - e lhe deu uma sobrevida num momento de negociação sobre o seu futuro na Fórmula 1.

Ao longo do final de semana, ela também colocou sua mão sobre Felipe Massa, devoto da terra que andou comendo o pão que o diabo amassou, com um final de semana como há muito não se via: competitivo, confiante, andando na mesma tocada do companheiro de equipe.

Para encerrar, abençoou com uma vitória o instável Mark Webber, um triunfo que o recolocou na briga pelo título e em condições de tentar dividir a equipe Red Bull como fez em 2010, sendo regular, eficiente e, acima de tudo, candidato ao título.

Toda essa missa monegasca, claro, não tem nada a ver com religião. É, acima de tudo, um retrato da temporada de 2012. No grid mais acirrado das últimas décadas, qualquer detalhe pode jogar fora um final de semana. Ou torná-lo inesquecível. Foi assim com Jenson Button na Austrália; foi assim com Sergio Perez e Bruno Senna na Malásia; foi assim com Nico Rosberg na China, com Kimi Raikkonen no Bahrein e com Pastor Maldonado em Mônaco.

Em meio a tanto espaço nos holofotes, há um fator que essa Fórmula 1 subversivamente democrática não consegue mudar: o poder de se sobressair dos fora-de-série. Se olharmos para o desempenho de Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton em cada corrida desta temporada, veremos pilotos capazes de, num final de semana ruim (com problemas nos treinos e/ou na corrida), somar pontos relativamente bons para o campeonato.

Na Espanha, Hamilton saiu da última posição para um inacreditável oitavo lugar numa corrida em que não tivemos muitas ultrapassagens na pista. Em Mônaco, Vettel pegou um carro ruim na classificação para executar uma estratégia perfeita e pular de nono no grid para o quarto lugar na chegada. O que dizer então de Fernando Alonso, superado por Felipe Massa durante todo o final de semana, menos no Q3, onde mais interessava, fazendo a base para uma corrida perfeita. Uma que, olhando depois e com calma o desenrolar das estratégias, poderia até mesmo ter vencido.

No último domingo, em Mônaco, a Besta pichou seu número em todas as paredes do Principado: seis corridas, seis vencedores, os seis primeiros na chegada separados por seis segundos. Mas Sainte-Dévote não precisa temer. Mesmo em meio ao caos, os santos de verdade continuam fazendo a diferença.

Comentários (6) Trackbacks (0)
  1. Muito bom! 666 :-)

  2. Perfeita e divertida a crônica eheheh.

    Tem gente tentando desvendar coisas “sobrenaturais”
    como os pneus;
    Temos os pilotos que vão do céu ao inferno em poucas horas; da água pro vinho.
    Temos os que podem ressuscitar;
    Temos pilotos que cometem pecados, porém é o mais “santinho” quem vai vencer no final;
    Tem uns que precisam de um sermão e outros que rezam pra continuar ano que vem.
    E alguns que parecem causas perdidas ou que precisam ser exorcizados – só um milagre mesmo!
    E tem aqueles que fazem a diferença, ou melhor, um milagre; nada mais do que competência e vontade vencer.

    Uma coisa é certa – todos precisam muito confiar em si mesmos pra alcançar alguma coisa.
    Então milagres, como o da Williams, acontecem.
    Aqui e ali, são mais raros os profetas que se atrevem a prever alguma coisa.
    Nós, apenas meros fiéis seguidores.

    abr.

    P.S – Com o Webber mais, digamos regular, como andam as “profecias” da STR?

  3. Ico, um comentário! Sebastian não pulou de nono no grid para quarto lugar “na temporada”, mas para quarto “no resultado final da corrida” e vice-líder no atual estado da temporada.
    Você poderia comentar sobre os protestos estudantis que estão ocorrendo no Canadá e a relação deles com o corrida?
    Obrigada,
    Ester

  4. Texto genial! F1 maravilhosa! Que assim continue a temporada: repleta de emoções e disputas mais equilibradas.

  5. Vou elogiar não, tá virando redundância dizer que mandou bem e coisas assim…

    Só uma questão: A temporada está ressuscitando alguns, mas… Tá enterrando de vez alguém?
    Se está, quem?

  6. fantástico o texto


Leave a comment

(required)

Sem trackbacks