6jun/127

É ele quem diz

Sir Jackie fala o que pensa. E sabe o que fala.

A viagem até Montreal não poderia ter sido mais tranquila. O dia marcado por surpresas positivas começou com minha primeira visita ao novo e moderníssimo terminal do aeroporto de Viena, inaugurado ontem. Uma obra que demorou mais que o esperado por ter custado mais que o esperado. Como no Brasil? Mais ou menos, assim que os valores galoparam, o governo interveio. Parou a obra por tempo indeterminado até encontrar e afastar os responsáveis pelo rombo. No final das contas, se o contribuinte pagou mais do que deveria, pelo menos ganhou um aeroporto praticamente novo, muito melhor que o terminal velho, datado dos anos 70 na idade e na arquitetura.

Depois de uma escala rápida e tranquila em Zurique, as boas novas continuaram com um inesperado upgrade de última hora para a classe Business no vôo da Swiss para Montreal. Perfeito para um trajeto relativamente longo. Em meio à figurinhas carimbadas do paddock - como Peter Sauber, Monisha Kaltenborn, Pedro de la Rosa, Bernd Maylander, David Coulthard e, ah, a sua esposa - foi ótimo desfrutar do conforto (ainda mais depois de uma noite com poucas horas de sono) de uma poltrona que praticamente vira uma cama. E também de um menu diferente feito por um festejado mâitre suíço. É a segunda vez que viajo nesta classe na minha vida, ambas por upgrade de última hora. Um mimo agradável que pode acontecer para quem vai avançando no status dos programas de milhagens. E é inevitável notar a diferença que isso faz para quem tem num avião a sua segunda casa de tanto viajar.

Durante o voo devorei também um monte de linhas de livro, revistas e jornais. O que mais me chamou a atenção foi uma excelente reportagem do semanário “Speedweek” com Jackie Stewart. Tricampeão mundial, o escocês não deixou a Fórmula 1 mesmo depois de pendurar o capacete, trabalhando como comentarista de tevê, dono de equipe e embaixador de diversas empresas envolvidas no esporte. Um cara com embasamento de sobra - e liberdade para dizer o que pensa - para dar um peso enorme às suas palavras.

“Espero que cada fã de corridas saiba valorizar: estamos no meio de uma era dourada, é a melhor Fórmula 1 que já existiu! Nunca houve um grid com essa qualidade, a começar pelos campeões do mundo - os jovens famintos como Vettel e Hamilton, estrelas estabelecidas como Alonso, Button e Raikkonen, além do recordista Schumacher. Temos onze pilotos no grid que já venceram corridas, praticamente a metade dele. E vimos seis vencedores diferentes nas seis primeiras corridas do ano. Acho isso único e mal posso esperar para ver o que vai acontecer no Canadá”.

Há tempos que me sinto como Jackie Stewart - e nunca me cansei de dizer isso seja no blog, na rádio, no jornal ou no Credencial. Claro, sempre tem gente que vê defeito em tudo, quem aponta uma “F-Loteria”, quem lamenta a ausência de lógica numa categoria consagrada como uma ciência exata pelo trabalho de engenheiros mais do que competentes. Vejamos então no que o escocês baseia seu pensamento.

“No final dos anos 60 e início dos 70 também tínhamos substância de sobra no grid. Campeões como Jack Brabham, John Surtees, Graham Hill, Denny Hulme e um certo escocês de Dumbartonshire, cujo nome eu esqueci agora... Tínhamos Jochen Rindt, que infelizmente se foi cedo demais, além de Emerson Fittipaldi e uma lista de pilotos com talento para ser campeão: Jacky Ickx, François Cevert e Ronnie Peterson. A F-1 era interessante na época pois permitia um certo grau de chances iguais para todos. Haviam equipes como Ferrari e BRM que construíam completamente seus carros, enquanto o resto das equipes usavam motores Cosworth, câmbio Hewland e os mesmos pneus. Não havia uma vantagem explícita de motor como na era turbo ou uma unidade como a de Schumacher-Ferrari-Bridgestone para dominar o esporte. Dependia apenas do chassi e do piloto, e hoje voltou a ser assim. As mudanças de regras nos últimos anos trabalharam para essa igualdade. O melhor exemplo disso foi o congelamento no desenvolvimento dos motores, o que fracionou corretamente os custos que haviam nessa área. Também gosto que temos apenas um fornecedor de pneus. E que a Pirelli não facilita a vida das equipes com seus compostos. Isso exige que pilotos e equipes trabalhem em cada detalhe se quiserem vencer”.

Não tenho a menor ideia de como vai se desenrolar essa temporada, mas tenho a certeza que daqui a dez, vinte anos, olharemos para ela com um olhar afetuoso de um ano realmente especial. A cada corrida é uma diversão enorme ficar “com um olho no peixe e outro no gato”, acompanhando as imagens nos monitores da televisão, concentrado na transmissão que fazemos na rádio e, acima de tudo, de olho no que o cronômetro vai nos mostrando: quem está perdendo rendimento rapidamente, quem está voando de pneus novos, quais os indícios de que uma nova janela de pit-stops está se aproximando...

A Fórmula 1 pode ser uma modalidade complexa demais se comparada com a simplicidade lúdica do futebol. Mas pode ser tão ou mais interessante quanto se você está disposto a entendê-la no seu todo e a desfrutar de tantas nuances. Um esporte que evoluiu tanto que não basta mais se apegar a verdades absolutas e a reproduzir obviedades como tanta gente faz, torcedores e “especialistas” do mundo todo.

De todos os detalhes que ela tem atualmente, o único que me incomoda é a falta de carisma da maioria dos pilotos num ambiente onde impera o politicamente correto e o discurso corporativo. Nos final dos anos 60, início dos 70, não era assim. Tínhamos gente pensante e articulada como Jackie Stewart. E é ele quem diz que a temporada atual é a de uma safra dourada. E eu concordo plenamente.

6jun/125

Montreal e o clima de festa

Montreal = especial

A Fórmula 1 adora o GP do Canadá. É daquelas viagens do ano que animam a qualquer pessoa do paddock. Principalmente pela maneira com que Montreal abraça o evento, transformando a cidade numa grande festa. É por isso que todo mundo está um pouco apreensivo com eventuais ameaças de estudantes descontentes. Não que seja um temor parecido ao que tivemos antes de ir para o Bahrein. Mas é algo que não combina nada com o clima que encontrei lá, por exemplo, em 2010. Uma cobertura especial que eu já havia relatado na versão antiga do blog e que republiquei agora na TV Blogo. Uma boa opção para você que não leu, ou que quiser reler, nesse dia em que estou viajando para lá. Nos próximos dias, trarei as informações dos bastidores desse movimento no blog. E também muita coisa interessante da Montreal para o turista no nosso canal de viagens. Fique ligado, é uma das cidades mais interessantes visitadas pela F-1!