Credencial – GP da Espanha
Mais uma edição do "Credencial" no ar, mais de uma hora de uma conversa descontraída e informativa sobre a Fórmula 1, com tudo o que aconteceu no GP da Espanha e as tendências da categoria (imediatas e a longo prazo) com as notícias da última semana, incluindo a mudança na construção dos pneus e o retorno da Honda à categoria. E, claro, buscando responder às dúvidas de vocês. Sempre na boa companha da Julianne Cerasoli e do Gabriel Lima. Ficou um programa muito legal! Clique aqui para ouvir/baixar!
Erga la bandera
Num Mundial de 19 corridas com apenas cinco tendo a participação de um piloto da casa, o triunfo de Fernando Alonso precisava mesmo de uma celebração especial. Pela classe com que ele a conquistou, com uma bonita manobra na primeira volta para ganhar duas posições que foram fundamentais para que sua estratégia funcionasse. Pela própria estratégia inteligente da Ferrari em adiantar a primeira parada do espanhol para que ele ganhasse a posição de Sebastian Vettel e partisse para a liderança. Pela festa intensa de uma torcida apaixonada, mais de 90 mil pessoas que foram empurrar o ídolo local para seu segundo triunfo na temporada.
- A cada ano eles fazem esforços maiores para vir, com uma crise econômica que está cada vez mais forte. Poder ganhar correndo em casa sempre é emocionante. É a terceira vez que eu faço isso, mas foi tão especial como a primeira. E poder dar um bom domingo para que estes torcedores voltem para casa com um sorriso é uma alegria dupla para esta vitória.
Diante de tudo isso, beirou o ridículo o fato da FIA ter chamado Alonso para dar explicações aos comissários depois da corrida por ter “recebido um objeto estranho” na volta de desaceleração. Era apenas uma bandeira espanhola, que tremulou em seus braços para delírio do povo nas arquibancadas. Ao final, prevaleceu o bom senso e o caso não foi levado adiante.
Adiante está a Ferrari quando as corridas acontecem em pistas que geram um alto desgaste de pneus. Foi assim na China e foi assim ontem em Barcelona. Neste caso, nem a Lotus, o carro que costuma ser o melhor em termos de preservar a borracha, encontra meios para superar o ritmo de corrida superior dos carros do time italiano. Como havia acontecido em Xangai, Kimi Raikkonen também terminou em segundo atrás de Alonso.
A prova teve um total de 79 paradas, uma média de 3,59 por carro, ilustrando a intensidade do desgaste acontecido na corrida. Quando isto acontece, quem costuma sofrer mais é a Red Bull, cujo carro é mais agressivo com os pneus. Assim, não surpreendeu o fato de Sebastian Vettel se mostrar bastante tranquilo depois de terminar o GP em 4º lugar. Somou doze pontos importantes para se manter na liderança do Mundial num dia que poderia ter sido bem pior para sua equipe.
Felipe Massa terminou em terceiro, conquistando seu primeiro pódio da temporada num momento importantíssimo. Em julho a Ferrari deve acelerar o processo de decisão sobre o companheiro de equipe de Fernando Alonso no ano que vem. E o desempenho do brasileiro em Barcelona foi o melhor sinal que ele poderia ter dado: se classificou a apenas um milésimo de segundo do espanhol, fez uma grande primeira volta para se recuperar da punição que sofreu depois do treino e terminou no pódio, tirando pontos do líder do Mundial, o alemão Sebastian Vettel. Mas Massa garantiu que uma eventual renovação de contrato não é algo em que ele pensa agora.
- Estou nessa equipe há oito anos, tenho certeza que eles já sabem o que eu posso fazer. O que mais me preocupa no momento é brigar para chegar no pódio e para vencer corridas. Faço o meu melhor dentro do carro e o resto, eles já sabem - afirmou.
Diante da melhor performance da Ferrari na temporada, que levou o time a assumir a vice-liderança no Mundial de Construtores, Massa deixou claro estar otimista para o restante do campeonato.
- Estamos num bom caminho e espero lutar por pódios em cada corrida. É o nosso ponto forte, enquanto que as classificações não tem sido fáceis para nós. É algo no qual estamos trabalhando para melhorar o carro. Mas sabemos que temos um bom carro em ritmo de corrida. Com certeza existe a chance de eu conseguir uma vitória em breve - analisou.
Com 45 pontos somados em cinco corridas, este é o seu melhor início de campeonato desde que a Pirelli passou a ser a fornecedora de pneus, a partir de 2011.
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As duas faces de Saigon
Imerso na minha longa viagem desta temporada, escrevi na TV Blogo as minhas impressão sobre uma das mais multifacetadas cidades que já visitei. Para saber mais sobre os conflitos de indentidade de Saigon, clique aqui. E para ver a galeria de fotos que eu fiz do lugar, o link é esse.
Dois anos totais
Em meio ao inacreditável calor malaio e buscando elementos para entender os resultados inesperados deste início de temporada da Fórmula 1, o TotalRace completou ontem dois anos de existência. Nada mais apropriado. Para mim, o site nasceu fruto de muito trabalho no inverno europeu de 2010/11, trabalhando com um canal aberto quase 24 horas por dia com o Brasil para colocar em prática o projeto de um espaço que tratasse o automobilismo com seriedade, buscando nas pistas do mundo suas próprias fontes e trazendo um produto com o carimbo da experiência acumulada neste processo.
Ralamos muito. Aprendemos mais ainda. Tivemos (e ainda temos) momentos difíceis. Mas nunca, jamais, de maneira nenhuma traímos o princípio que tornou o TR, para mim, um dos melhores sites sobre este esporte em todo o mundo. O desejo de fazer um jornalismo que se preocupasse com a qualidade antes dos cliques fez surgir uma rede de amizades que não tem preço. Uma infinitude de nomes que eu sempre vou associar ao sentimento carinhoso de terem ajudado a tornar este site uma realidade.
Nesta trajetória, não atingimos todos os patamares que imaginávamos, mas conseguimos coisas que nem sonhávamos. Além das amizades, me encanta o prestígio que atingimos dentro do paddock da Fórmula 1 - algo que jamais foi uma meta, mas veio como consequência de um trabalho bem feito. Hoje mesmo em Sepang fomos procurados por estrangeiros interessados em colaborar conosco de alguma forma. Isto é muito legal.
Manifestações assim, e também a certeza de termos neste período angariado um público de extrema qualidade, me deixa com um enorme orgulho deste site. Que os próximos anos tragam mais e mais motivos para este sentimento ficar ainda maior. E o site também. Viva o TotalRace!
Dez assuntos para Melbourne
Faltam poucos dias para a abertura da temporada e existem uma série de assuntos que valem a pena prestar atenção. Compilei abaixo os dez temas que julgo ser mais interessantes para este GP da Austrália. Confira e comente!
1) Felipe Massa
O brasileiro se mostra relaxado e animado para o início da temporada, especialmente depois de ter andado bem nas últimas corridas do ano passado. Mas terá tempo limitado para mostrar serviço para seu futuro, já que até julho a Ferrari (e as outras equipes de ponta) já devem estar fechando suas duplas para o ano que vem. Começar o ano com o pé direito é fundamental, mais do que nunca.
2) Pneus
A pré-temporada trouxe mais dúvidas do que respostas. Ficou a expectativa de que a temperatura baixa do inverno europeu tenha sido a responsável pelos desgaste excessivo dos pneus e de que em Melbourne, com temperaturas mais normais, o desempenho seria mais uniforme. A corrida deve confirmar se isso é verdade ou não.
3) Clima
Ainda em cima dos pneus: a previsão é de temperaturas amenas em Melbourne, em torno de 20 graus. O que não é o normal para a corrida e repetiria mais ou menos o clima que tivemos nos testes. Assim, a prova pode ser um festival de pitstops. E com mais um elemento complicador: a possibilidade de chuva na classificação no sábado.
4) Red Bull
Ficar longe das primeiras posições nos testes de pré-temporada não adiantou muito: a Red Bull continua no topo das previsões dos especialistas. Ficou a impressão de que o RB9 andou pesado o tempo todo e que só em Albert Park que os pilotos do time terão a chance de extrair o máximo de performance do carro. Que seria mais do que o dos adversários. A se confirmar. No ano passado se pensava o mesmo, mas quem dominou o final de semana foi a McLaren.
5) Lewis Hamilton
O filho pródigo saiu de casa e ganhou na Mercedes liberdades que não tinha na McLaren. Isto pode ter um efeito positivo para um piloto que sempre esbanjou talento e velocidade, mas se perdia na cabeça. A equipe de Brackley parece ter preparado um bom carro para esta temporada. Vale a pena conferir o que este gênio indomável vai fazer com ele nas mãos.
6) McLaren
Assumiu um discurso surpreendentemente negativo antes do GP da Austrália, não se vendo na briga por vitória nesta primeira etapa. Pode ser um blefe ou pode ser uma maneira de amenizar um final de semana desastroso. O fato é que o time encerrou 2012 com ótimas perspectivas ao vencer as duas últimas corridas. Vai ser interessante ver onde eles se colocam agora.
7) Adrian Sutil
De volta à Fórmula 1 depois de um ano no ostracismo, o alemão mostrou determinação para superar o lamentável episódio criminal de 2011 e conseguir novamente um cockpit. Vai correr num time que conhece e contra um companheiro de equipe que já superou. Resta saber se estará enferrujado na hora de fazer uma volta voadora, de largar ou de disputar uma posição na pista.
8 ) Os trapalhões
Romain Grosjean e Pastor Maldonado colecionaram confusões no ano passado. Especialmente o francês, que mostrou velocidade mas ganhou justificadamente o apelido de “maluco da primeira volta”. Um final de semana que alie boa performance com a ausência absoluta de erros é importante para que os dois demonstrem logo de cara que a história neste ano será diferente.
9) Valtteri Bottas
Não é a geração de estreantes mais brilhante que existe e, entre eles, sem dúvida o nome que mais chama a atenção é o de Valtteri Bottas. Campeão da GP3 e lapidado cuidadosamente no ano passado pela Williams, marcando bons tempos e colecionando elogios pelo desempenho nos treinos livres. Assim como Sutil, resta a dúvida se a falta de prática em corridas não lhe trará problemas nas horas decisivas desta prova na Austrália.
10) Os carros do gramado
Uma das coisas mais legais da corrida em Albert Park está nos carros expostos pela organização no gramado em frente ao paddock. Bólidos de corrida, alguns históricos, sempre no meio do clima festivo que acontece por lá. Certamente trarei eles retratados para que vocês também não percam nada do que acontece in loco.
Quais outros temas chamam a atenção de vocês para esta prova?
Mais um
Desde 1999 participei de todas as edições do Anuário AutoMotor Esporte, atuando a maior parte delas como coordenador editorial. Com a correria da cobertura da Fórmula 1, atuo hoje escrevendo parte dos textos desta categoria e a totalidade de algumas outras. O livro do Reginaldo Leme - e de toda a equipe por trás dele - é e sempre será um dos grandes orgulhos do meu trabalho profissional. Uma compilação do ano automobilístico feita com uma qualidade sensacional, um item de colecionador mesmo. A edição 2012/13, falando do ano passado, já chegou do forno e será lançada na terça-feira da semana que vem, dia 5 de março, na Livraria Saraiva do Shopping Morumbi, em São Paulo. Quem quiser e puder, não perca! Pelo livro e pela chance de bater um papo com o Regi.
Clique na imagem para ver a capa ampliada.
Jerez, dia 4 – Fim do primeiro ato
A equipe Lotus teve motivos para sorrir ao final da primeira semana dos testes de pré-temporada da Fórmula 1. Na sexta-feira em Jerez de la Frontera, Kimi Raikkonen marcou o melhor tempo do dia com 1min18s148. O outro piloto do time, o francês Romain Grosjean, já havia sido o mais veloz na quarta-feira. O melhor tempo da semana, porém, ficou com o brasileiro Felipe Massa, que registrou 1min17s879 na sua melhor passagem na quinta.
Raikkonen ficou claramente satisfeito com o trabalho feito nos dois dias em que esteve ao volante do E20. "Estar no topo da folha de tempos de um teste não significa nada. Mas progredimos bem e consegui achar um acerto mais ao meu gosto. O carro parece forte e temos uma boa ideia da direção que estamos indo com as melhoras para ele", analisou.
O segundo mais rápido do dia foi o francês Jules Bianchi, da Force Índia, tido como principal candidato à segunda vaga na equipe - a única do grid que ainda não foi confirmada. Ele aproveitou a chance e ficou a apenas 27 milésimos do tempo de Kimi Raikkonen no seu primeiro contato com o VJM06.
Luiz Razia foi o único brasileiro a andar na sexta-feira. O piloto da Marussia marcou o 11º tempo e, ao contrário do primeiro dia que andou, pôde completar algumas seqüências longas de voltas para ganhar informações sobre o ritmo de corrida de seu carro.
Ainda é cedo para tirar conclusões e pretendo fazer amanhã uma análise mais profunda das lições desta semana em Jerez, mas há indícios de que o quadro de equilíbrio verificado na maior parte do ano passado continua. O que seria uma boa notícia para uma F-1 competitiva.
Na próxima semana, o trabalho das equipes ficará concentrado nas fábricas avaliando os resultados de Jerez e preparando novidades para a próxima bateria de testes, a partir do dia 19 deste mês em Barcelona.
Resultados
1 Kimi Raikkonen (FIN) Lotus 1min18s148 83 voltas
2 Jules Bianchi (FRA) Force Índia 1min18s175 56 voltas
3 Sebastian Vettel (ALE) Red Bull 1min18s565 96 voltas
4 Esteban Gutierrez (MEX) Sauber 1min18s669 142 voltas
5 Jean-Eric Vergne (FRA) Toro Rosso 1min18s760 92 voltas
6 Lewis Hamilton (ING) Mercedes 1min18s905 145 voltas
7 Sergio Perez (MEX) McLaren 1min18s944 98 voltas
8 Valteri Bottas (FIN) Williams 1min19s851 92 voltas
9 Pedro de la Rosa (ESP) Ferrari 1min20s316 51 voltas
10 Charles Pic (FRA) Caterham 1min21s105 109 voltas
11 Luiz Razia (BRA) Marussia 1min21s226 82 voltas
12 Paul di Resta (ESC) Force Índia 1min23s435 49 voltas
Jerez dia 2 – It’s a long way
O segundo dia de ação na pista da Fórmula 1 2013 trouxe os dois brasileiros do grid em ação. Luiz Razia deu suas primeiras voltas com o MR02 e começou seu entrosamento com o time, mas novamente o carro pouco andou, desta vez com problemas no motor. O brasileiro testou apenas com pneus duros e a Caterham de Van der Garde estava com pneus macios no melhor tempo do holandês. Pelo menos isto explica a grande diferença entre os times do fundão. Ainda é cedo demais para se ter uma ideia de como a briga entre eles vai se desenhar.
Já Felipe Massa foi um dos muitos pilotos que começaram a fazer os testes mais importantes para esta semana, os “long runs”. Um número maior de voltas permite uma compreensão melhor dos novos compostos da Pirelli, o que vai ser a chave neste início de ano. Os outros foram Mark Webber, Sergio Perez, Romain Grosjean, Nico Hulkenberg, Paul di Resta e Daniel Ricciardo. Todos encerraram o dia com a sensação de dever cumprido. O melhor tempo do francês da Lotus, dentro desse contexto, é irrelevante. Ninguém ainda começou a pôr as manguinhas de fora e andar com pouca gasolina. Se o tivessem feito, estariam na casa de 1min16s.
Sinal de alerta para a Mercedes. Apenas 26 voltas completadas em dois dias de testes - hoje o carro de Lewis Hamilton ficou danificado após um acidente causado por um problema nos freios traseiros. Metade da primeira semana de testes já foi jogada fora e o time precisa de acumular bons dados nos dias que restam, senão vai chegar em Barcelona com o cronograma atrasado e correndo atrás do prejuízo. Tudo o que um time em busca de estabilidade não precisa neste momento.
Resultados
1 Romain Grosjean (FRA) Lotus 1min18s218 95 voltas
2 Paul di Resta (ESC) Force Índia 1min19s003 95 voltas
3 Daniel Ricciardo (AUS) Toro Rosso 1min19s134 83 voltas
4 Mark Webber (AUS) Red Bull 1min19s338 101 voltas
5 Nico Hülkenberg (ALE) Sauber 1min19s502 99 voltas
6 Lewis Hamilton (ING) Mercedes 1min19s519 15 voltas
7 Sergio Perez (MEX) McLaren 1min19s572 81 voltas
8 Felipe Massa (BRA) Ferrari 1min19s914 78 voltas
9 Pastor Maldonado (VEN) Williams 1min20s693 71 voltas
10 James Rossiter (ING) Force Índia 1min21s273 19 voltas
11 Giedo van der Garde (HOL) Caterham 1min21s311 88 voltas
12 Luiz Razia (BRA) Marussia 1min23s537 31 voltas
Ridículo
Faltam menos de 50 dias para o início do Mundial de 2013 da Fórmula 1 e teremos hoje, pela Internet, a apresentação do primeiro carro da temporada, o E21 da Lotus. Falta pouco e a Fórmula 1 se vê na estúpida posição de ainda não ter o seu calendário definido. A data reservada para um GP na Europa no dia 21 de julho parece que não será ocupada e agora surgem dúvidas também sobre a realização do GP da Alemanha, marcado para o dia 7 daquele mês.
Se ele não der certo, teremos apenas 18 corridas com apenas seis no continente europeu. A distribuição das provas também ficaria pouco balanceada: seis entre março e maio, apenas três entre junho e agosto e oito entre setembro e novembro. Um monumento à incompetência dos dirigentes de dar inveja aos do futebol brasileiro.
Claro que toda esta confusão advém do atual sistema de organização de corridas criado por Bernie Ecclestone. Na Alemanha (e na França, Turquia, Áustria e Portugal) existem promotores com know-how e vontade de organizar um GP de Fórmula 1, mas sem o dinheiro para pagar a exorbitante taxa cobrada pelo dirigente.
A FIA e as equipes, que por contrato não apitam nada nessa área, assistem à tudo caladas. Nos bastidores a disputa anda quente por uma mudança na distribuição dos lucros da categoria e as velhas raposas apostam que no coração do prudente descansa a sabedoria.
Enquanto isso a categoria vive essa situação ridícula que mostra mais uma vez que este sistema de organização das corridas está ultrapassado faz tempo.
Uma questão importante
O Mundo não acabou no dia 21 do mês passado como os Maias jamais previram. Mas a verdade é que o Mundo anda muito doente. Barbáries acontecem diariamente pelo planeta, vomitadas pelo noticiário para uma plateia ávida para consumí-las. Nossa reação mais imediata é a de pensar algo como “que bom que a Síria não é aqui perto”. Mas o país existe e quem está lá passa por apertos inacreditáveis. É real.
De vez quando algum evento em especial cria uma onde de indignação em algumas sociedades. O horroroso episódio de estupro com uma jovem na Índia foi um deles. Aconteceu em Delhi, a mesma cidade em que eu estive durante uma semana no ano passado e que me impressionou por um montão de coisas, boas e ruins. O povo de lá parece ter acordado e resolveu agir para mudar a situação de um crime que se tornou corriqueiro justamente pela falta de controle, de punição para quem o comete.
Por coincidência, quando este fato em particular aconteceu eu estava (ainda estou) no meio da leitura de um livro excelente sobre a sociedade de lá, “Maximum City” de Sukatu Mehta. São quase 600 páginas mapeando a vida da cidade de Bombay/Mumbai. O problema do estupro (muitas vezes praticados pela própria polícia) é apenas um dos muitos que acometem o país. Nem é o maior, se olharmos para a questão da pobreza que é muito feia por lá. Mas não importa: a sociedade se juntou para gritar um “basta” e foi cobrar do governo uma mudança de atitude. Estão todos pensando juntos e olhando para o problema. Querem erradicá-lo. Pode não dar certo, mas a atitude em si é muito positiva.
O Brasil também tem muitos problemas. Muitos! Um deles é a violência no trânsito. Quem não conhece alguém, mesmo que não seja muito próximo, que tenha perecido nas ruas ou estradas brasileiras? Os números são assustadores e a sociedade parece mais preocupada em qual será o próximo modelo do seu carro do que em pensar a fundo esta questão e mudar uma cultura tão enraizada que torna difícil este desafio. Principalmente porque nascemos achando que não há problema nenhum em voltar para casa dirigindo depois de beber. Todo mundo faz.
Eu gastei uma boa dose da paciência dos anjos da guarda meu e de algumas pessoas em um episódio na adolescência. Saí de uma festa em Osasco e fui dirigindo até a Zona Oeste. Eu não tinha a menor condição para dirigir (e, naquele momento, nem para dançar, para namorar, para andar em linha reta, para nada). Ainda assim, cheguei em casa por algum milagre. Poderia ter dado uma besteira federal.
Para muitos brasileiros, deu. Gente que morreu por ter bebido e dirigido depois. Gente que morreu dirigindo vítima de outro motorista embriagado. Gente que vive com sequelas até hoje por conta disso. Gente que morreu sem nem ter bebido e nem estar dirigindo, simplesmente por estar na rua na hora e no lugar errado e pagar com a vida pela irresponsabilidade de outras pessoas.
É real.
O vídeo acima mostra a reação de grupos de parentes e amigos de vítimas desse tipo de violência no trânsito. É imprescindível que você assista, tire o tempo necessário para isso. Gente que, como as mulheres e a sociedade da Índia em geral, resolveu dizer chega e arregaçar as mangas para mudar alguma coisa. Uma das maneiras que eles encontraram é esta petição para a mudança das leis que regulamentam a punição para álcool ao volante. Sugiro você explorar o site e pensar sobre o tema.
Eu refleti por uns dias, queria mesmo pensar na questão com calma. E assinei ela ontem com absoluta tranquilidade. Mesmo não concordando 100% com todos os pontos, a proposta certamente diminuiria a carnificina viária cotidiana. Neste estágio é o mais importante, os ajustes podem ser pensados depois - e acompanhado de mudanças em outros setores da sociedade também.
Mas acho que a principal vitória que uma reflexão sobre o tema poderia ter seria se cada um de nós mudasse nossa atitude. Que cada um de nós pensasse em estratégias quando formos sair para uma noite divertida com os amigos. Quero beber muito? Então será que posso ir de táxi ou de transporte público? Alguém que vai comigo pode não beber e levar a turma para casa? Ou eu posso dormir na casa de um amigo onde é a festa/balada ou perto dela para pegar o carro só no dia seguinte?
Pense nisso. Fale sobre isso. É importante!









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