De volta às raízes
O Grande Prêmio da China deve expor novamente a tônica da Fórmula 1 em 2013. A pista em Xangai é especialmente dura com os pneus - quem não se lembra de Lewis Hamilton atolando sua McLaren na caixa de brita com a carcaça de um deles à mostra em 2007. E o desgaste da borracha neste ano já se mostrou excessivo nas duas primeiras corridas.
Com tudo isso, a prova do domingo vai ser uma para correr “com o freio de mão puxado”. Os pilotos vão reclamar que não podem dar o máximo do carro o tempo todo e alguns fãs também vão chiar nas redes sociais - mesmo que jamais consigam distinguir, na tevê ou ao vivo, se os bólidos cruzam a reta com 10 km/h a menos de velocidade ou se os pilotos estão freando uma fração de segundo antes para poupar borracha. Protestos que procedem?
Certamente é uma Fórmula 1 diferente da de 2008, quando os pilotos podiam andar em ritmo de classificação o tempo todo em cada fase da corrida, que contava com pneus resistentes e reabastecimento. Mas a categoria mudou bastante desde então. Começar com o carro lotado de gasolina e com pneus sensíveis para administrar fez a tristeza dos pés-de-ferro e a alegria dos volantes mais cerebrais do grid.
Mas não é um cenário inédito na categoria, muito pelo contrário. Em sua origem nos anos 50, a Fórmula 1 também era mais uma prova de resistência do que de velocidade pura. Os carros eram pesados, os pneus eram finos, a segurança era mínima e as corridas chegavam até a 500 quilômetros de duração, contra os 300 atuais.
Assim, não é coincidência que foi uma era dominada por um piloto conhecido por sua extrema inteligência: Juan Manuel Fangio. Que acharia uma tremenda bobagem as reclamações da turma de hoje sobre o desgaste excessivo do equipamento. Afinal, ele já tinha a receita do sucesso há seis décadas: largar na frente, e andar o mais devagar possível. No fundo, essa “fórmula economia” é uma mera revisão do DNA da Fórmula 1.
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance. Obrigado Dé Palmeira pela observação que levou à esta reflexão)
Viva o Barão!
Grande Prêmio de Bari, Itália, 1949. De um telefone, sem saber se sua voz estava sendo transmitida no ar, Wilson Fittipaldi iniciou a narração da corrida em que Chico Landi defendia sua vitória do ano anterior. Foi a primeira transmissão internacional de automobilismo feita no Brasil. As transmissões nacionais ele conhecia faz tempo, quando ainda adolescente ia para o Rio de Janeiro assistir às corridas no Circuito da Gávea e ouvia as informações da prova nos alto falantes espalhados pelo traçado.
O “Barão”, apelido ganho de um colega da rádio Jovem Pan, não se limitou a fazer jornalismo. Criou com o amigo Eloy Gugliano as “Mil Milhas Brasileiras”, uma das provas mais bonitas da história do esporte a motor no País, numa época que as montadoras investiam pesado nele, propiciando o surgimento de uma incrível geração de pilotos que incluía seus próprios filhos Emerson e Wilsinho, além de José Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno, Bird Clemente e uma porção de outros. Criou também as bases para o surgimento da CBA. Aqui você confere uma homenagem a ele feita pelo colega Felipe Motta em 2011, quando recebeu homenagem na festa de 50 anos da CBA.
Foi pioneiro também na transmissão da Fórmula 1 para o Brasil na esteira da vertiginosa ascenção de Emerson, com direito a narrar ao vivo para o país a conquista do título mundial do próprio filho, tarefa que cumpriu com uma bravura profissional de se tirar o chapéu.
Nas primeiras horas desta segunda-feira, aos 92 anos de idade, Wilson foi descansar - merecidamente. Tiremos o chapéu para ele. O automobilismo e o jornalismo esportivo brasileiros perdem um de seus grandes nomes. Não há homenagens suficientes para alguém de sua estatura. Melhor fazer o que ele sempre fez: arregaçar as mangas e trabalhar com o que se ama para melhorar o esporte e o ofício que se pratica, sempre.
Obrigado Barão!
TV Blogo – Juan Manuel Fangio
Muito legal esse vídeo com o lendário Juan Manuel Fangio relembrando a decisão do Mundial de 1956. Imagens de Monza com o traçado de dez quilômetros que incluía a "soppraelevata" - a parte oval do circuito. Imagens de um tempo em que ainda se falava em cavalheirismo dentro do esporte, com Peter Collins abrindo mão de suas chances e cedendo seu carro para o argentino ser campeão na Fórmula 1 pela quarta vez. Outros tempos.
TV Blogo – Targa Florio
O trecho acima mostra o tamanho do desafio que era a Targa Florio, uma das corridas mais tradicionais de Endurance e que acabou simplesmente porque ficou impraticável dar um mínimo de segurança para um evento em estradas abertas e sinuosas com carros tão potentes - e que atraíam um grande público que ficava na beira da pista. Absolutamente insano. Ótima dica do amigo Raoni Frizzo. Aperte o play e confira!
(E, para os especialistas, o vídeo cita o carro como sendo um Porsche 908, mas nos comentários do You Tube há quem diga ser um Alfa 33 ou uma Ferrari 312. Alguém tem um palpite fundamentado?)
Foto do dia – Kimi Raikkonen
Nestes dias de colocar em ordem a casa e o computador, encontrei e achei curiosa essa antiga imagem de Kimi Raikkonen. Com ainda mais cara de bebê e já vencendo - e feliz empunhando uma garrafa de bebida, diriam alguns. Vamos ver se um dos protagonistas do ano passado brilha de novo neste ano! Para ampliar a imagem, clique nela. E se você ainda não viu meu texto listando os melhores de 2012, clique aqui.
TV Blogo – Michael Schumacher
Muito legal mesmo a homenagem que a tevê alemã RTL fez a Michael Schumacher na sua despedida da Fórmula 1. Claro que para quem entende alemão é muito mais bacana para entender a letra do Rap - e como eles foram felizes em colocar frases ditas pelo próprio Schumi no meio da letra, combinando o conteúdo da frase e o ritmo com que ela é dita. Mas vale a pena conferir mesmo que você não saiba nem contar até Drei no idioma de Goethe, já que as imagens são bacanas, algumas raras, e contam bastante da trajetória do heptacampeão. Grande dica da minha gatinha. Aperte o play e boa audição!
Respeito a Jim Clark
Quando comecei a companhar Fórmula 1, o número mágico quando se falava em pole positions era 33. As 33 voltas endiabradas de Jim Clark, aquele que era o piloto mais rápido que já existiu em uma volta rápida. A encarnação da velocidade. Nesse interim, surgiu outro cara que emulou e superou o escocês, o brasileiro Ayrton Senna. E um Michael Schumacher que arrebatou as marcas dos dois em meio a um período de dominação jamais visto na categoria.
Mas, para mim, o rei das poles sempre foi Clark, minha primeira referência disso quando me apaixonei por este esporte.
Sei que Sebastian Vettel é um dos poucos nomes do grid atual que conhece bem a história da F-1. Sei também que ele nem era nascido quando eu comecei a acompanhar a categoria. Mas eu precisava perguntá-lo hoje sobre o significado de superar o escocês nas estatísticas. Ele sorriu, olhou para o vazio e deu uma bela demonstração de respeito. “É bom ser comparado com pilotos assim mas, com todo respeito, Clark morreu enquanto ainda estava correndo. Se tivesse continuado, provavelmente estaria na minha frente”.
Vettel sabe relativizar números e admira demais alguns grandes nomes de uma era em que correr na Fórmula 1 era bailar de mãos dadas com a morte. Bom ver isso em um cara que vai escrevendo sua própria história. “Vou seguir meu caminho e é legal alcançar estes números mas minha maior motivação ainda é se divertir quando entro no carro”. E uma de suas maiores diversões é justamente empregar extrema velocidade em uma volta rápida. Imagino que o próprio Clark, também um cara simples e humilde, ficaria admirado com as 34 poles conquistadas pelo alemão.
Centenário – o quinquagésimo
Não havia muita gente para cobrir aquele GP inaugural de Abu Dhabi, em 2009. A disputa pelo título tinha acabado duas semanas antes no Brasil e a distância e os custos para ir de um ponto a outro fez com que muita gente optasse pela economia. Algo perfeitamente justificável, já que o único atrativo daquela prova estava nas instalações do circuito de Yas Marina. Mas é claro que eu estava lá.
O mais suntuoso dos circuitos desenhados por Hermann Tilke realmente impressiona: tudo muito limpo e bem acabado. O asfalto mais nivelado, a sala de imprensa mais luxuosa, o paddock bem confortável. Mas foi como eu escrevi na época: faltava (e ainda falta) alma àquele lugar.
Pelo menos, ficar hospedado ao lado do circuito - do meu quarto até a minha cadeira na sala de imprensa não demorava mais do que dez minutos - teve suas vantagens. Como na sexta-feira, quando a BMW promoveu uma recepção para sua despedida da Fórmula 1 que se transformou numa divertida (e exagerada) degustação de cervejas alemãs com colegas de todo o mundo. Daqueles eventos com clima de excursão do colégio, todo mundo feliz, todo mundo meio em clima de férias. Também não sabia na época, mas foi uma bela comemoração para o quinquagésimo.
Amanhã eu falo um pouco sobre o centésimo.






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