Centenário – o décimo
Ele subiu no degrau mais alto do pódio e socou o ar como um centroavante na hora do gol. Era sua marca registrada, repetida tantas vezes em tantos pódios do planeta. Mas ali era especial, era sua casa, a sua torcida que vibrava nas arquibancadas. O que poucos sabiam é que ele estava de partida. Michael Schumacher vencera o GP da Alemanha em Hockenheim mas ainda silenciava sobre seu futuro, se iria ou não pendurar o capacete no final de 2006. E era esta a grande dúvida que pairava sobre o paddock de Hockenheim naquele meu décimo GP como jornalista.
A dobradinha da Ferrari se desenhou com naturalidade ao longo do final de semana depois de mais um episódio em que o equilíbrio de um Mundial ganha força com uma mãozinha dos dirigentes. Foi naquela corrida que a FIA proibiu os amortecedores de massa (o conceito físico, não o Felipe), o que castrou muito a competitividade do carro da Renault.
A vitória de Schumacher, no final das contas, serviu para reacender um Mundial que estava com a cara de Fernando Alonso. Ainda haveria outro episódio famoso naquele ano para ajudar o alemão, o famoso incidente em que o espanhol foi penalizado em Monza por “atrapalhar” a volta de Felipe Massa. Sim, houve um tempo em que Alonso apanhava da FIA - e isto explica muito como ele sabe usar esta política a seu favor nos dias atuais.
Eu também apanhava, ainda, da capacidade de julgamento, algo facilmente aplicável à falta de experiência. Na minha coluna no GP Total pós-corrida, eu apostava que Schumacher permaneceria na Fórmula 1 em 2007. Nada grave, mas um exemplo importante de como é importante viver a categoria de perto, a cada final de semana, para entender melhor o seus meandros e aprender a ler um quadro sempre difuso. Só assim é possível e fico feliz que tive a chance de aprender isso e melhorar bem nesse quesito.
No meu décimo GP, já tinha criado gosto pela cobertura das provas europeias da F-1, com seus motorhomes montados e desmontados com a velocidade e clima de um circo de verdade. Tanto que no domingo seguinte eu já estava na Hungria para acompanhar minha 11ª corrida. Da Alemanha, levei o carinho da família Harstall, que me hospedou com a simpatia de sempre na pequena Waghäusel. E da passagem posterior pela cidade de Nurembergue, cidade onde tenho amigos e que gosto tanto. Uma passagem que, com o passar dos anos, se tornou uma tradição para a dobradinha Alemanha-Hungria.
Amanhã eu falo um pouco do quinquagésimo.
Centenário – o primeiro
Tipicamente Ico, deixei passar completamente em branco meu 100º GP como jornalista credenciado na Fórmula 1. Não é que não tenha comemorado, já que o GP da Bélgica em Spa-Francorchamps é sempre uma celebração em si. Mas não fiz menção, não me preparei, não brindei a efeméride simplesmente porque não tinha feito as contas para me dar conta disso. Apenas há alguns dias, revirando meu baú de credenciais, consegui enumerar corrida por corrida e concluir que a próxima, em Cingapura, será minha 102ª cobertura.
As lembranças da primeira repousam frescas na memória. Foi no GP do Brasil de 1995 que um mundo novo se abriu para mim. A fascinação por aquele ambiente dinâmico que reunia gente de vários cantos do planeta foi imediata. No ano anterior havia feito uma viagem de mochilão pela Europa e a sede de sair por aí era gigantesca. Ali estava uma enorme fonte. Como se fosse um filme de um garoto do interior que resolve largar tudo para seguir o circo que passou pela cidade. Agradeço todos os dias por ter tido a coragem de dar esse passo, seguir meus sonhos e ter encontrado tantas pessoas e lugares incríveis pelo caminho.
Algumas cenas marcaram este primeiro contato. Me lembro de ter visto o treino livre de sábado de manhã do pitlane, acompanhando o trabalho frenético dos boxes. Num certo momento, me coloquei perto da entrada dos boxes, juntos dos fotógrafos profissionais. Com minha “lambe-lambe”, registrei o momento em que a Benetton de Michael Schumacher voltava da pista sem o bico dianteiro de seu carro depois de uma excursão pela grama. Não sei porque, mas me admirou muito ver um bólido avariado em ação, um sinal de que a disputa ali era séria e dura.
Me lembro também de outra foto que eu fiz, esta acima. Sim, o GP do Brasil de 1995 foi um daqueles polêmicos. Na pista, Schumacher venceu, seguido de David Coulthard e Gerhard Berger. Mas a amostra de combustível dos dois primeiros colocados, que usavam motores Renault, não correspondia inteiramente com o modelo-padrão. Depois de horas deliberando, os comissários desclassificaram o alemão e o escocês. Já era noite em Interlagos quando alguém nos boxes da Ferrari improvisou uma garrafa de champanhe para Gerhard Berger celebrar uma vitória que caíra no seu colo.
A festa, porém, foi curta. Benetton e Williams apelaram e, duas semanas depois, a FIA reinstaurou a vitória de Schumacher e o segundo lugar de Coulthard. Concluiu-se que o combustível, apesar de não corresponder ao padrão, não deu nenhum ganho em performance. Teria sido um erro de manipulação dos técnicos da Elf, a fornecedora. Os times foram multados e perderam os pontos de Construtores, mas os pilotos mantiveram seus resultados e pontos. Logo em meu primeiro GP já percebi que, na Fórmula 1, muitas vezes a corrida não acaba na bandeirada final.
Curiosamente, a cena mais viva daquele domingo de muita espera (pelo resultado) e muito trabalho no pós-corrida não teve nada a ver com a Fórmula 1. Enquanto a FIA ainda deliberava, meu chefe Castilho de Andrade foi me apresentar para o assessor da Philip Morris no Brasil, um sujeito muito simpático que trabalhava também com vários pilotos - era época da “Marlboro Brazilian Team”, com a empresa patrocinando gente na F-1, Indy e categorias menores pelo mundo.
“Este aqui é o Dinho, irmão do Reginaldo Leme”, foi a introdução do Castilho. Não demorei um segundo para fazer a associação. “Dinho Leme? Você é o baterista dos Mutantes”, perguntei, recebendo um largo sorriso como resposta afirmativa. Fiquei emocionado de conhecer um dos meus ídolos musicais no mais improvável dos lugares. Anos depois trabalhei diretamente com o Dinho, me tornei seu amigo e, com um convite dele, pude ver o show de retorno dos Mutantes em Londres em 2006. Na noite anterior à apresentação no Barbican Hall, jantamos e enchemos a cara de vinho - e eu fiz questão de pagar a conta já que a minha felicidade era a mesma daquele domingo de março de 1995. A Fórmula 1 ainda era uma coisa esporádica na minha vida. Mas isso mudaria em pouco tempo.
Amanhã eu conto como foi o décimo GP.
Parabéns Sid!
Eu sempre fico admirado com pessoas que recebem um volume gigantesco de palavras carinhosas quando partem. Aquele tipo de pessoa acima de qualquer crítica, seres que espalharam o bem ao longo de toda a vida e colhem estas manifestações positivas quando morrem. Sid Watkins é um deles.
O valor dele não se restringe ao lugar em que era mais valioso: ajoelhado ao lado de um carro acidentado, fazendo o atendimento num momento crítico para o piloto. Ali constatou a situação médica desoladora de Gilles Villeneuve e Ayrton Senna logo após os acidentes que tiraram suas vidas. Ali salvou as vidas de Rubens Barrichello, Mika Hakkinen e outros.
Watkins realizou um trabalho tão fundamental quanto este fora das pistas. Em uma de suas primeiras corridas como médico responsável, o GP da Itália de 1978, o inglês foi impedido de entrar na pista por policiais e não pôde acompanhar o atendimento aos pilotos envolvidos num acidente múltiplo na largada.
De lá para cá, suas ideias revolucionaram a segurança existente na categoria: os centros médicos dos autódromos subiram de padrão; os hospitais designados próximos aos circuitos também passaram a atender requisitos solicitados por Watkins; a velocidade do atendimento médico após um acidente ficou ágil (Gerhard Berger que o diga); sua liderança na comissão surgida após o GP de San Marino de 1994 aumentou bastante os níveis de segurança de carros e circuitos.
Sid Watkins era uma espécie de anjo da guarda na terra - e certamente foi recebido com festa pelos seus iguais do céu quando chegou por lá.
Mais que um obrigado, o doutor merece os parabéns por ter vivido uma grande vida. O mundo seria um lugar melhor se todos nós fôssemos um pouquinho como ele. Valeu Sid!
O legado de Jochen Rindt
Neste aniversário da morte de Jochen Rindt, reproduzo este texto publicado há exatamente dois anos na versão antiga do blog, quando se completaram 40 anos daquele trágico sábado em Monza. Vale a pena reler, ou ler pela primeira vez para quem não o fez.
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O espaço da galeria é modesto. Cada espaço na parede é utilizado para abrigar fotos de Jochen Rindt, o velho campeão da Fórmula 1 falecido no dia 5 de setembro de 1970. “Era uma época fantástica. Talvez a mais bonita na história do esporte, mas infelizmente uma em que era muito difícil sobreviver”, diz Gerhard Berger, os olhos fixos nos retratos que registram toda a movimentação em frente ao box da Lotus em Monza naquela fatídica tarde.
Jochen Rindt está falando ao microfone. Ele grava uma passagem para o programa “Motorama” da televisão estatal ORF. É uma iniciativa sem paralelo na história da mídia mundial. Um formato em que a grande estrela da Fórmula 1 aparece semanalmente nos aparelhos de televisão do país dando dicas de condução, numa parte do programa, e atuando como repórter e comentarista sobre a categoria em outra parte.
Um piloto entrevistando seus colegas numa época em que abundava respeito e amizade no paddock: foi uma mistura que rendeu momentos de pura poesia para a cobertura do esporte. Foi ao microfone de Rindt que Jack Brabham deu sua única entrevista após perder a vitória no GP de Mônaco de 1970 na última curva. “Você danificou muito o carro”, pergunta o austríaco, que herdou o triunfo. “Não, quase nada. Foi o suficiente para você me passar”, explica Brabham. “Então eu tive sorte”, diz, modesto, Rindt. “Sim”, sorri o australiano.
Outra passagem arrepiante foi a feita após o GP da Alemanha, em Hockenheim. “Não estou triste com o segundo lugar. Nós tivemos uma briga muito boa. E foi ela que permitiu que a gente abrisse em relação aos outros pilotos. Eu realmente me diverti muito”, confessa Jacky Ickx a Rindt, que ainda veste a coroa de louros depois de triunfar por apenas sete décimos de segundo.
Em Monza, Rindt relata sobre o carro que está usando. “É a Lotus 72, mas sem os aerofólios porque aqui é importante ter mais velocidade em reta. Não estamos usando a Lotus Turbina. Por mais que seja um projeto promissor, eu não acho que ele já esteja pronto para o uso. Mesmo assim, temos um bom carro para tentar vencer neste final de semana”, diz. O final da última frase sai com a voz abafada pelos motores dos outros carros que cruzam o pitlane na sessão recém-iniciada. Rindt se vira ao diretor de programa, diz que vai dar umas voltas com o carro e que volta em seguida para terminar a gravação. Minutos depois ele estava morto.
Não há fotos do momento do acidente na exposição. Acho que nenhuma foi tirada, mas não seria mesmo preciso. A imagem de um mecânico da Lotus com a mão no rosto em puro desamparo diz muito sobre a dimensão da perda. Mais ainda o instantâneo do momento em que Jackie Stewart está nos boxes dando a notícia de que Rindt havia sofrido um grave acidente para sua esposa Nina. O toque final é dado pela foto do carro acidentado descansando numa garagem da região 25 anos depois, esquecido pela Lotus, pelas autoridades italianas e encontrado por mero acaso por um fã austríaco.
Eram mesmo outros tempos. Eu sempre tracei alguns paralelos entre as mortes de Rindt e de Ayrton Senna: dois pilotos vencedores, sucumbindo na pista ainda no auge de suas trajetórias. Dois homens cujos testemunhos falam acima de tudo do enorme carisma que tinham. Duas tragédias que abalaram seus países de origem, a ponto de todos se lembrarem o que faziam e onde estavam quando o fato ocorreu.
Gerhard Berger me conta: “Eu ainda não tinha me metido com automobilismo. Era um garoto, estava na casa de meus pais e me lembro de ouvir a notícia pelo rádio. Rindt e Senna são feitos do mesmo material. Infelizmente ambos morreram muito cedo. Tinham não apenas a vida inteira pela frente, mas muito sucesso a ser conquistado também. Existe uma divisão especial no nosso esporte de pilotos que estão muito acima dos outros. E os dois estavam nessa divisão, sem dúvida alguma”.
Mas as semelhanças param por aí. Ninguém busca um culpado pela morte de Jochen Rindt – embora alguns jornalistas que eram próximos ao piloto sempre sublinhem a conhecida obsessão de Colin Chapman por materiais leves como a causa da falha de um dos freios que levou ao acidente. Não há qualquer traço de revolta, qualquer acusação de Fórmula 1 assassina, como houve em 1994.
Morrer fazia parte do jogo. “É uma sensação que come seus nervos, porque a morte é a sua co-piloto. E se você se esquecer disso por um segundo, ela ganha a disputa”, escreveu o cantor Udo Jürgens na canção-homenagem “Der Champion”. Mesmo os personagens vivos hoje suspiram resignados e murmuram que “Jochen teve azar”. Nina Rindt, em entrevista à ORF: “Algumas vezes nós saíamos, esposas e namoradas de pilotos, para comprar um vestido preto para o próximo enterro. Pode parecer insensível, mas era mesmo assim naquela época”.
Sua morte, brutal e registrada em Tecnicolor na freada da curva Parabólica, foi apenas a coroação de um ano maldito que levou também Bruce McLaren e Piers Courage. A lista continuaria no ano seguinte com Ignazio Giunti, Pedro Rodriguez, Jo Siffert... “Você morreu fazendo o que gostava”, discursou ao microfone o sueco Jo Bonnier no enterro de Rindt em Graz. Palavras que seriam repetidas dois anos depois no enterro do próprio Bonnier na Suécia. Uma época em que desafiar o cronômetro era bailar numa corda bamba cujo fio era o de uma navalha.
E ninguém, ninguém mesmo bailou tão bonito sobre este fio como Jochen Rindt. “Ele foi um dos pilotos mais rápidos que já existiram. E quando se tratava de andar perto do limite, nunca houve alguém como ele”, fala Helmut Marko, amparado por imagens que mostram os carros de Rindt atravessados numa curva, o piloto cruzando o braço no contra-esterço com o olhar firme na saída dela, o pé cravado no acelerador para domar aquela veloz banheira de ferro e combustível.
Marko era mais do que o amigo do ginásio de Rindt, uma dupla cujos rachas pelas ruas de Graz eram tão famosos quanto indesejados. Era também um dos que devem a ele a chance de fazer uma carreira toda no esporte. As vitórias, a presença na mídia através do “Motorama”, a criação da feira “Jochen Rindt Show” (uma exposição especializada em automobilismo realizada anualmente em Viena e contando com a presença maciça dos maiores nomes da época): o piloto com um nariz inacreditável, bem a seu estilo explosivo, viciou uma nação inteira em velocidade.
“Antes de Jochen, pensar em automobilismo era algo como ir para a Lua. Mas foi através do seu sucesso que as portas se abriram para mim, para Lauda e para a construção dos circuitos na Áustria, o de Zeltweg e o de Salzburg”, diz o hoje conselheiro da equipe Red Bull. Helmut Marko também é firme ao especular sobre o que Rindt faria se tivesse sobrevivido ao voraz automobilismo dos anos 60/70. “Ele descobriu muito cedo o potencial do lado comercial do esporte, organizou as exposições de automobilismo. Estaria hoje ao lado de Bernie Ecclestone comandando o circo da Fórmula 1”.
Não é exagero. O homem-forte da Fórmula 1 era uma espécie de empresário de Rindt na época, além de um grande amigo pessoal. E os dois tinham planos para abrir sociedade e fundar uma equipe de Fórmula 2 em 1971. Hoje, Bernie não economiza nos superlativos na hora de falar sobre a qualidade do piloto austríaco. E empregou a filha de Jochen, Natasha, durante muitos anos na empresa que comanda a F-1. Só fecha a cara quando lhe pedem para falar do fatídico 5 de setembro de 1970. “Não quero lembrar desse dia”, disse numa entrevista à tevê austríaca, os olhos úmidos de lágrimas. Ecclestone foi até a Parabólica e constatou de perto a morte de seu parceiro. Pegou o capacete cheio de sangue, caminhou até os boxes e enfiou a peça numa bolsa de couro. Fechou o zíper e nunca mais abriu a boca para dizer o que sentiu naquele momento.
Jacky Ickx também está presente na exposição em Viena. A pele traz rugas que o mesmo Ickx retratado nas imagens das paredes não tinha. Mas o espírito da época permanece. “Jochen liderou o campeonato até a última corrida. Sinceramente, ele merecia mais do que ninguém aquele título. Quando eu tive um problema na prova de Watkins Glen que me jogou para trás, achei que tinha sido uma coisa muito boa. Prefiro perder o único título que poderia ter ganho na Fórmula 1 para alguém como ele do que superar um adversário que não tem como defender os seus pontos. Nunca tive problemas com essa situação”, explica o belga.
Na porta da galeria Westlicht já se formou uma multidão. São duas, talvez três centenas de pessoas, ansiosas para entrar no modesto espaço e reverenciar seu maior ídolo. Já se passaram quatro décadas, a Áustria fez um tricampeão do mundo, ganhou algumas dezenas de corridas, não há como ignorar o homem que deu asas ao sonho dessa torcida. “Se existe um céu, Jochen está olhando hoje para este ponto. E sorrindo ao ver que não se esqueceram dele”, aponta Ickx. Jochen morreu há 40 anos. Jochen vive.
Herman, The German
Michael Schumacher foi um dos assuntos da quinta-feira em Spa-Francorchamps. A melhor medida da sua importância neste seu GP de número 300 esteve no conteúdo do que os outros pilotos falaram sobre ele. Especialmente Fernando Alonso, a quem eu perguntei se o alemão ainda era hoje a mesma referência de quando ele, Alonso, começou na Fórmula 1. A resposta você confere nessa matéria.
O alemão recordista e bem-sucedido é conhecido e reverenciado por todos. Mas eu compilei algumas curiosidades sobre Michael Schumacher, coisas que não são tão conhecidas assim:
- O heptacampeão tem um nome do meio. Seu nome completo é Michael Fritz Schumacher.
- Seu melhor amigo no automobilismo é o italiano Luca Badoer, piloto de testes da Ferrari durante boa parte do período em que o alemão correu pela equipe.
- Michael Schumacher não toma de café por questão de gosto.
- Até hoje ele mantém o hábito de dormir cinco minutos no motorhome antes de ir para o grid de largada.
- O alemão tem uma fascinação pela Escócia. “Se eu pudesse voltar no passado, seria na Escócia da idade média. Adoro filmes como ‘Highlander’ e ‘Braveheart’, a paisagem é muito ampla e impressionante”.
- “Herman, The German” era o apelido que Nelson Piquet deu a Schumacher quando o alemão entrou na Benetton para ser companheiro do brasileiro.
- O coquetel favorito é do alemão é Cuba Libre.
- O fanático por futebol Schumacher é torcedor do Colônia, atualmente na segunda divisão do Campeonato Alemão.
- As inscrições em chinês em seu capacete são os nomes de sua esposa Corinna e dos filhos Gina Maria e Mick.
- O primeiro carro de sua vida foi um Fiat 500
Além da lista acima, reproduzo um texto meu publicado originalmente no GP Total (um site que sempre vale a visita) após o GP da Bélgica de 2004, quando, aqui em Spa, ele confirmou seu sétimo título mundial.
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Uma das características mais impressionantes de Juan Manuel Fangio era sua imponência ao discursar. A fala pausada e a auto-confiança que transmitia o ajudaram muito a se transformar em um mito. Não importa onde estivesse, suas palavras eram sempre proferidas no então ultra-exótico castelhano, o que deixava as platéias ainda mais admiradas. O argentino até arranhava um italiano, mas deixava que seu público se virasse para entendê-lo. Afinal, ele era O Fangio. Sem falar que atingiu o ápice de sua carreira com mais de 45 anos, numa época em que a experiência contava muito na Fórmula 1, ao contrário de hoje.
Outros campeões mundiais também se destacaram por saber transmitir em palavras todos os permeios que formam um grande piloto, como Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda. E não podemos esquecer de Ayrton Senna, que trouxe o discurso metafísico ao automobilismo (visões de Deus, corpo que se derrete no cockpit) e ganhou com isso tantos admiradores quanto detratores. Eram sensações tão estranhas ao homem comum, coisa de gente com alma tão impenetrável quanto misteriosa. Isto deixou muitas vezes no ar a sensação que é preciso ter um dom especial para ser um grande piloto. É como se fosse um desperdício, um erro se interessar por outra atividade, diante de tanto talento para domar a máquina e escravizar o cronômetro.
E tem Michael Schumacher, oriundo da classe média-baixa alemã e detentor de pelo menos ¾ de todos os recordes que alguém se dispuser a imaginar na Fórmula 1. No último domingo, quando obteve a incrível marca de sete títulos mundiais, o piloto ostentava a mesma tranqüilidade e simplicidade de alguém que ganhou um torneio regional de truco. Diante da insistente tentativa dos repórteres em captar a emoção do momento histórico, o piloto se saiu com esta: “Só estou meio perdido em pensamentos. Foi, em parte, um dia caótico. Sou heptacampeão e tenho de admitir que a ficha ainda não caiu. Infelizmente não sou nenhum poeta, que encontra as palavras certas para expressar seus sentimentos”.
É impressionante como Michael Schumacher se humanizou desde 2000, quando tirou de suas costas o peso da responsabilidade de tirar a Ferrari da fila. Repare: desde então, o alemão nunca detalhou em suas entrevistas o que pensa sobre suas habilidades técnicas, nunca fez discursos filosóficos sobre sua capacidade de concentração, nunca louvou seu triunfo sobre este ou aquele inimigo.
Pelo contrário, se tornou mais um homem de família e sempre creditou seu sucesso à todos que o cercam, de Jean Todt até a faxineira de Maranello. Ao dividir os louros da vitória, fez a opção clara de despir a vestimenta de semi-Deus e foi curtir a vida. Suas atividades extra-pista se tornaram prosaicas: bater bola com os amigos (e também com Zico, Zidane, Ronaldinho, Robinho e Figo, afinal ele pode); levar os filhos à Disneilândia (onde consegue andar incógnito); passear, também protegido pelo anonimato de um capacete, com sua Harley Davidson pelas estradas européias; tomar uma cerveja e fumar um charuto todos os domingos após as corridas, em uma sala reservada no motorhome da Ferrari para o ritual sagrado de um homem normal após um dia duro no escritório.
Infelizmente no Brasil, especialmente pela parca cobertura feita pela emissora detentora dos direitos de transmissão, a imagem de Schumacher vive deturpada. Em toda a Europa, especialmente na Itália e na Alemanha, todos vibram com a habilidade ao volante de um homem que, por seus hábitos (futebol, cerveja, família), podia ser um colega de trabalho. Com sua disciplina e sisudez alemã (o que talvez explique sua falta de magnetismo no caráter), o piloto colocou o povo no Olimpo sagrado dos grandes nomes da Fórmula 1. Alguém cuja vida não se resume à corridas, vitórias e recordes, mas também inclui atividades realizadas e valorizadas por gente como eu e você.
Outros campeões também foram como Schumacher. Gente como Nelson Piquet, que também manteve uma aura de pessoa comum, mesmo após tanto sucesso. No auge de sua carreira, o brasileiro dava tanto valor à vitória quanto a uma noite bem-dormida no seu barco, de preferência em companhia feminina.
Mas há uma diferença marcante entre estes dois, e para notá-la basta reparar nas entrevistas. Piquet sempre disse o que pensava, era de uma época em que isto ainda era possível. Isto feriu muitos sentimentos e fez com que a maioria burra da opinião pública o deixasse de fora dos primeiros lugares nas inúteis listas dos maiores pilotos de todos os tempos (não que o brasileiro se importe com isto). Mas como os italianos podem ter simpatia por alguém que disse que o Comendador Enzo Ferrari estava gagá (quando estava)? Como os ingleses vão gostar de alguém que chamou a mulher do endeusado Nigel Mansell de feia (embora ela seja)?
Michael Schumacher, ícone da Fórmula 1 regulamentada pelos diretores de marketing dos patrocinadores, só demonstra medo nas entrevistas. Eu já estive presente em um par delas, e é um espetáculo interessante: o piloto está sempre aberto para aquelas perguntas já mil vezes formuladas e respondidas. Mas quando o assunto é mais delicado, seu queixo vai ainda mais para a frente, a boca vira um bico e o rosto se retorce. O ser humano que não tem problemas em dividir freadas a mais de 200 km/h se borra de medo de falar alguma coisa errada. E vai bloqueando qualquer tentativa de quebrar sua superfície, com silêncio ou respostas evasivas.
Nisso, ele está no mesmo pé que gente como Fangio, Stewart ou Senna. A falta de eloqüência no seu discurso o deixa tão impenetrável e misterioso como os outros. Subvertendo a operação, Schumacher chega ao mesmo resultado. Resta a nós continuar divagando sobre se não há realmente um segredo que une os, com a licença do Edu, Grandes Senhores das Pistas.
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Em dias de celebrar o esportista Schumacher, este post vem com o propósito de valorizar o homem por trás do esportista. É ele, afinal, quem teve papel preponderante nessa incrível carreira de sucesso na Fórmula 1.
Spa antiga, on board
A primeira vez que andei por lá foi no simulador Grand Prix Legends. Mesmo num mundo virtual, tinha de prender a respiração antes de encarar curvas como a Masta. Tudo passava numa velocidade alucinante e postes, árvores e casas na beira da pista invariavelmente recolhiam os destroços dos meus carros a cada trajetória mal-feita. Acertar uma volta limpa não era nada fácil e foi lá que eu aprendi uma máxima do automobilismo: é mais difícil ganhar tempo em curvas de alta velocidade do que nas lentas.
Na vida real, “descobri” a pista antiga na minha primeira cobertura de um GP da Bélgica, em 2008. Eu voltava do circuito atual para a casa em que me hospedo no vilarejo de Malmedy quando estranhei a familiaridade que meu cérebro demonstrava com um caminho que fazia pela primeira vez. Demorou um segundo para identificar que estava na descida para a Burnenville.
Poder fazer este passeio retratado no vídeo linkado acima é roteiro obrigatório em qualquer visita a Spa. Muito pouco mudou por ali desde os anos 70 e os postes, árvores e casas ainda estão por lá. Um museu vivo de uma época em que a Fórmula 1 era um eterno bailar de mãos dadas com a morte a velocidades muito acima de 300 km/h e mergulhado numa banheira de gasolina, com um mínimo de segurança. Tinha que ter muito culhão para fazer isso.
Foto do dia – GP do Canadá de 1980
A repercussão do procedimento de entrevistas utilizado em Silverstone teve uma repercussão extremamente positiva no paddock da Fórmula 1. Ao invés das geladas entrevistas na frieza de uma sala reservada com perguntas feitas por um jornalista, os pilotos foram entrevistados ainda no calor da festa do pódio por ninguém menos que Jackie Stewart, um dos maiores embaixadores da categoria.
Fazer a associação do escocês em pódios do passado celebrando seus resultados nas pistas é algo óbvio. Mas o que pouca gente se lembra é que ele costumava também fazer entrevistas ali depois de ter se aposentado. Foi no final da década de 70 e em boa parte dos anos 80, quando Stewart trabalhava nos comentários para a emissora ABC. Como mostra a foto acima, feita em Montreal quando Alan Jones conquistou o título da temporada de 1980. Clique na imagem para ampliar!
Prost, com e sem pressão
Já tinha visto e até feito perguntas a Alain Prost na entrevista coletiva da edição de 2010 do Race of Champions, quando estive em Dusseldorf. Mas o encontro que tivemos com ele na semana passada em Mônaco foi especial. Por ter sido num clima mais amistoso e por ele estar ali aberto a falar sobre qualquer assunto, sem ter um evento para participar como piloto.
Foram vinte minutos que passaram voando. Simpático, sorridente, o tetracampeão falou sobre diversos assuntos. A um metro dele, fui ficando impressionado a cada resposta com o contraste deste senhor com aquele Alain Prost sisudo e sério que víamos nas entrevistas pela televisão nos anos 80. Foi aí que eu perguntei se ele era hoje uma pessoa mais feliz do que naquela época. A resposta não deixou dúvidas:
“Claro. Quando eu pilotava na F-1, botava muita pressão em mim e tinha muita pressão, principalmente na luta com Ayrton [Senna]. Antes, só sentia a minha pressão, pois queria vencer corridas, ser campeão. Com ele, senti muita pressão e tive problemas com imprensa, público... Não gostava dessa pressão, para ser honesto. Por isso abandonei a Fórmula 1.”
Quando comentei isso com um veterano jornalista estrangeiro, sua reação veio em um segundo: “Ayrton acabou com o clima de amizade que existia na Fórmula 1”. Não sei dizer se isso é real ou exagero. Mas a verdade é que hoje o clima de competição que existe entre os pilotos na categoria é extremo. E fica claro que a rivalidade entre Senna e Prost teve um papel preponderante, tanto nesse quadro como na explosão de popularidade que o esporte viveu no final dos anos 80. Teria sido muito legal ver aquilo de perto para ter uma noção melhor de como ela funcionava no cotidiano do paddock.
Para ler todos os tópicos da conversa com Prost, clique aqui.
Viva Maria
Ela é baixinha, um metro e meio de altura no máximo, e lembra muito a minha avó. Normal, ela é napolitana, minha avó é filha de um amalfitano, poucos quilômetros e uma ribanceira separam as duas cidades do sul da Itália. Mas ela também é gigante. Numa época em que as mulheres estavam começando a votar, mera distração em meio à noção de “mantenedoras do lar” que tinham, ela vestia capacete, luvas e ia se medir numa pista de corridas com o mínimo de segurança com os melhores pilotos do Mundo.
Maria Teresa de Filippis não brilhou na Fórmula 1. Fez apenas três corridas, a única bandeira quadriculada que viu foi com duas voltas de atraso para o vencedor. Nos dias atuais de regra de 107%, não teria permissão para largar em nenhuma delas. Mas isso não importa. O que importa é que houve uma corrida em que ela realmente não pôde largar, o GP da França de 1958, depois de ouvir do diretor de prova que “o único capacete que uma mulher deve usar é o do cabelereiro”. Claro que isso não abalou em nada a sua determinação.
De Filippis somou vitórias em corridas de carros esporte, muitas delas defendendo a equipe oficial de fábrica da Maserati. Uma prova de sua qualidade ao volante numa época onde a morte se escondia a cada curva. No final das contas, foi isso que a fez parar de correr. Depois de ver o amigo Jean Behra morrer num acidente na pista alemã de Avus em 1959 (a italiana estava presente e correria uma outra corrida no evento), ela se cansou de ver colegas perdendo a vida e foi viver a sua. Casou, criou família e hoje, aos 85 anos, é um dos nomes mais atuantes do Clube Internacional de Ex-Pilotos da Fórmula 1, uma organização iniciada por colegas de sua época, como o suíço Emmanuel ‘Toulo’ de Graffenried. Também participa de eventos com carros históricos.
Hoje, quando eu estava para entrar no paddock de Mônaco, ela estava passando apressada. Mas parou para tirar uma foto com este humilde fã. Como eu disse, baixinha. Mas é gigante, a Maria.
Miniaturas – Ferrari 126C2
Para encerrar esse dia de lembranças de Gilles Villeneuve, uma das minhas miniaturas mais especiais: esse modelo da Ferrari de 1982, feito pela Brumm, traz a asa dupla usada na prova de Long Beach.
Uma corrida em que o canadense chegou em terceiro lugar, mas acabou desclassificado justamente por isso. Era o auge da guerra entre a associação das equipes da época, a FOCA, e a federação, que se chamava FISA (hoje FIA). Certas coisas nunca mudam.
O legal dessa mini é que ela veio só com o carro. Mas eu achei uma vez um “Gilles” solitário no eBay, arrematei e coloquei no modelo, gerando um resultado ainda mais bacana. Clique na imagem para ampliar!











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