29abr/131

Imagens do Bahrein

Noite de paz no Forte Arad

Retomando o mundo que a gente vê atrás da Fórmula 1, fiz um vídeo sobre as atrações do Bahrein. Um país em que se vive uma "normalmente" em meio a um momento de instabilidade social. E que tem diversos atrativos, até por ser o mais liberal dentre os países do conservador Golfo Pérsico. Confira o vídeo clicando aqui!

26abr/132

Credencial – Bahrein

Silêncio! É hora de ouvir o Credencial

Uma hora de conversa, a maior parte dela respondendo às dúvidas e observações que vocês colocaram aqui no blog. Bom que o Credencial voltou, bom ver a equipe do TotalRace novamente reunida para o nosso podcast favorito, bom poder falar do que a gente mais gosta. Ouvindo a edição com calma, é interessante ver até como a gente que faz o programa aprende com esta troca franca de opiniões, na qual ninguém é dono da verdade. Assim que é bom. Entre aqui para ouvir o podcast e comente e divulgue nos fóruns e mídias sociais da vida.

25abr/1319

O exemplo da McLaren

Live and let live

Os fãs da Fórmula 1 assistiram admirados no último domingo ao duelo entre Jenson Button e Sergio Perez, ambos pilotos da McLaren, durante cerca de 40 voltas. Uma briga no limite - às vezes até acima dele, com os carros se tocando levemente em três ocasiões, sem consequências maiores. Duas corridas depois da categoria ficar envolvida numa polêmica sobre ordens de equipe, quem gosta do esporte respirou aliviado.

Vale lembrar: nas voltas finais do GP da Malásia, Red Bull e Mercedes ordenaram via rádio que seus pilotos mantivessem as posições. Não funcionou no time anglo-austríaco porque Sebastian Vettel desobedeceu. Todo mundo julgou a atitude do alemão, poucos a do time em interferir na disputa tão cedo no campeonato.

Pois este é o ponto central da questão. Numa fase decisiva do campeonato, é normal quem não está na briga pelo título ajudar o companheiro de equipe que está. Mas é preciso haver bom senso. Se olharmos historicamente, as ordens de equipe que geraram polêmica foram as que interviram na disputa pela vitória de uma corrida no início ou no meio de um Mundial: Áustria 2002, Alemanha 2010 (ambas na Ferrari) ou Malásia 2013 (na Red Bull e na Mercedes).

Legal ver a McLaren esfregar na cara de todas elas o quanto é bom deixar a disputa correr solta. Perez estava mais rápido que Button no Bahrein e poderia ter chegado uma posição à frente da que chegou tivesse o time ordenado que o inglês deixasse o mexicano ultrapassá-lo sem luta. O próprio Button poderia ter economizado pneus se não brigasse com Perez e, com isso, teria feito uma parada a menos e terminado a prova em oitavo ao invés do décimo lugar.

Mas o time de Woking não vai chorar estes cinco pontos jogados fora. Mesmo que, no final do ano, eles signifiquem a diferença entre uma posição acima no Mundial de Construtores e, por consequência, um prêmio maior na distribuição dos lucros da Fórmula 1. Afinal, atitudes como esta mostram que, na cabeça de seus líderes, o esporte ainda vem antes do dinheiro. Sorte nossa.

(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)

24abr/1312

Azar para espanhol ver

Erros acontecem, Fernando, não é questão de sorte

Na pista, Fernando Alonso continua com o brilhantismo de sempre. Com o problema da asa traseira móvel, fez uma corrida lutada no meio do pelotão. O fato de não ter o dispositivo funcionando o obrigou a arriscar mais na hora de fazer ultrapassagens. O fez com a competência de sempre, sem desgastar mais os pneus por conta disso. Poucos pilotos do grid conseguiriam a mesma coisa.

Mas seu discurso para a imprensa continua sendo para boi dormir. Ou para espanhol ver. Alonso fez questão de destacar o “azar” que sofreu em duas das quatro corridas neste ano. Bobagem. O problema da asa é uma falha mecânica. Se no ano passado ele cansou de destacar a competência da Ferrari em lhe dar um carro altamente confiável para terminar as corridas, a lógica aponta que o problema que sofreu no Bahrein vá para a conta de uma incompetência do time. Não há azar nisso.

E as duas corridas trazem traços de uma falta de zelo do piloto. Insistir em usar a asa mesmo depois do primeiro problema foi um risco assumido por Alonso. Poderia não ter resultado em nada, mas resultou na necessidade de uma nova parada nos boxes - o tempo perdido, no cálculo matemático, lhe tirou de um pódio que seria importante para jogá-lo ao oitavo lugar ao final da prova.

Na Malásia, assumiu junto do time o risco de permanecer na pista com a asa avariada, uma combinação famosa por gerar acidentes justamente com a dinâmica dela entrando debaixo do carro e o deixando incontrolável - vide este de Mark Webber no GP da Itália de 2011.

Nas duas situações, foram erros de julgamentos que acontecem, nada graves, nada demais. Não entendo porque, para Alonso, seja tão difícil admití-los. Falar em azar é jogar para a torcida. Só ele vê necessidade nisso.

23abr/136

Um GP (quase) perfeito

Dançar prá não dançar

A corrida já havia terminado há mais de três horas, mas a área comum em frente à arquibancada principal do circuito do Sakhir continuava cheia. Muita gente dançava ao som de Calvin Harris, que se apresentava ao vivo no palco principal. Muitos se espalhavam pelos colchões e almofadas para descansar, conversar ou fumar um tabaco doce em seus narguilés, uma tradição bastante difundida por lá. O clima era de festa.

Foi o fechamento de um final de semana cheio de atrações para o público. Com uma organização caprichada nos mínimos detalhes, que incluem estações para recarregar celulares ou vaporizadores para aliviar o calor, os barenitas fazem de seu GP um dos melhores do ano para quem paga ingresso. Shows de música e dança o tempo inteiro, artistas fantasiados de caubóis em pernas-de-pau, uma tenda com obras de arte com o automobilismo como tema (uma delas feitas no capô de um Porsche 911), boas opções de comida, banheiros confortáveis. É uma corrida perfeita.

Ou quase, já que há um outro lado. Os distúrbios que ocorrem ao longo do país fazem com que a corrida tenha um intenso esquema de segurança. Quem deixou para chegar na corrida em cima da hora - e muitos fizeram isso - ficou preso num enorme engarrafamento criado pelos inúmeros pontos de controle nos arredores do circuito.

Mas não é só isso que tornou a corrida do último domingo um tremendo fracasso de público. A prova do Bahrein é praticamente uma festa privada para estrangeiros ocidentais, filhos de gente rica local e alguns turistas. Por mais que se ofereçam atrativos, a falta de cultura automobilística no país faz com que o evento seja um daqueles em que as pessoas vão mais para serem vistas do que para ver. Assim, não surpreenda o fato da animação durante o show de Calvin Harris, em meio à fumaça dos narguilés de jovens esparramados nas almofadas, ter sido bem maior do que a que vimos nas arquibancadas.

Problemas sociais à parte, o deserto de torcedores já seria um motivo suficiente para justificar a saída da prova do calendário. Não que Mr. E se incomode com isso, claro...

21abr/1332

Carreira solo

Equilíbrio? Vettel fez disso uma miragem no deserto

Num Mundial marcado pelo equilíbrio, Sebastian Vettel deu no Bahrein um primeiro sinal de domínio muito claro. O trabalho mais duro do piloto alemão durou duas voltas. Na primeira, se recuperou da ultrapassagem que havia levado de Fernando Alonso com uma bela manobra na parte mais sinuosa do circuito. Na segunda, passou Nico Rosberg. Depois, sumiu na frente. Um passeio.

- Não esperava tanta facilidade. Sabia que seria crucial tomar a liderança logo, o que te permite cuidar melhor dos pneus e administrar sua corrida. Vi que deu para abrir vantagem com os compostos médios e sabia que tinha um carro bom para os jogos de pneus duro que eu havia guardado. Tudo veio na nossa direção e fiquei muito satisfeito com o resultado.

Atrás de Vettel, a corrida trouxe de sobra tudo o que havia faltado na etapa anterior, na China: disputas autênticas por posição. A proximidade de performance dos dois compostos de pneus juntou pilotos que atuavam em estratégias diferentes. Os duelos aconteceram em profusão. O mais intenso foi entre os companheiros de equipe da McLaren, que incluiu alguns toques entre o carro. Jenson Button, décimo colocado, chiou. Talvez até por ter terminado a prova atrás de Sergio Perez, que foi sexto.

- A grande maioria das disputas foi divertida, porque foi limpa, ao contrário do que aconteceu com meu companheiro de equipe. Ele fez um grande trabalho em termos de economizar os pneus e é ótimo que tenha conquistado pontos para a equipe, mas ele não fez isso de maneira limpa. E não acho que é só comigo. Daqui a pouco, algo sério vai acontecer, então ele tem de se acalmar. É desnecessário
Quem passou incólume às confusões do pelotão intermediário foi a dupla da Lotus. Kimi Raikkonen cimentou sua posição de vice-líder com o segundo lugar na corrida e Romain Grosjean mostrou, pela primeira vez, ter aprendido as lições do ano passado ao se envolver em diversas disputas mas em nenhum acidente. Com o terceiro lugar obtido pelo francês, repetiu-se o pódio do GP barenita do ano passado.

“Domingo amaldiçoado”. Foi assim que a Ferrari definiu o seu domingo no GP do Bahrein no comunicado oficial de imprensa depois da corrida. Todo o bom potencial demonstrado pelo F138 nos treinos livres e na classificação foi desperdiçado em uma série de problemas mecânicos e azares que jogaram seus pilotos para o fundo do pelotão. Fernando Alonso, com problemas na asa traseira móvel, foi apenas o oitavo colocado. Felipe Massa, com dois pneus furados, ficou em 15º lugar.

- Depois do primeiro problema do pneu ainda estava na briga, podia até pontuar. Mas depois do segundo a corrida acabou. Desestimula, porque você sabe que não vai marcar ponto e não vai fazer nada demais - falou o brasileiro, que antes já havia tido problemas em fazer sua estratégia funcionar. A Pirelli afirmou que vai investigar a causa das falhas nos pneus do carro de Massa.

Alonso, que ainda conseguiu salvar alguns pontinhos em uma prova em que parou quatro vezes nos boxes, preferiu ser filosófico sobre a falha de sua asa móvel traseira - o dispositivo travou aberto, foi fechado pelos mecânicos nos boxes e ele não pôde mais utilizá-lo no resto da corrida.

- Não é que desejo má sorte para os outros, mas que a nossa termine. Só peço corridas normais, sem problemas. Quando isto acontece, ganharei algumas, chegarei ao pódio em outras e isto nos ajudaria a estar na briga pelo título, já que o carro é melhor do que o do ano passado.

Aproveito o espaço dos comentários para colocar suas dúvidas e sugestões para o "Credencial"!

20abr/132

Um pole fora da briga

Hoje, ele brilhou. Amanhã, todos apostam, se apaga.

A Fórmula 1 recebeu com um ar de surpresa a pole position de Nico Rosberg para o GP do Bahrein, que acontece hoje com largada às 9hs de Brasília. O carro da Mercedes não havia demonstrado um grande potencial nos treinos livres, mas o alemão fez uma ótima volta em 1min32s330 para registrar sua segunda pole na carreira e superar o companheiro Lewis Hamilton numa classificação pela primeira vez no ano. Mesmo saindo da primeira posição, o alemão assumiu um discurso humilde em relação às suas chances de vitória.

- Somos melhores em classificação do que em corrida, vimos na China como sofremos mais com os pneus durante a prova. Amanhã vai ser difícil para nós, nos treinos livres haviam outras equipes tão boas ou melhores que a gente. É preciso ser cauteloso, mas dá para obter um bom resultado - analisou Rosberg.

Não é jogo de cena. Numa Fórmula 1 em que o peso das estratégias e o desgaste dos pneus são os fatores determinantes, as posições no grid de largada são cada vez mais irrelevantes. Mesmo os adversários, normalmente politicamente corretos, não fazem cerimônia em não incluir Rosberg entre os candidatos à vitória. Fala Fernando Alonso, terceiro do grid:

- Sabemos como a Mercedes sofre com a degração dos pneus. Na China, Hamilton perdeu rendimento já na quarta ou quinta volta. Os pilotos que terei de marcar durante a prova são (Sebastian) Vettel, que sai logo à minha frente, e alguns que estão atrás, incluindo Kimi (Raikkonen), que certamente vai chegar nos ponteiros em algum momento da corrida.

Com o asfalto barenita chegando a temperaturas acima de 40 graus centígrados, a expectativa é de um desgaste elevado e de várias paradas nos boxes. Quanto para cada piloto é difícil de dizer, de acordo com Vettel:

- Uma parada é impossível para todos. Fazer duas parece impossível para a maioria. Acho que serão entre três e quatro paradas. Minha aposta foi economizar pneus duros na classificação, usando apenas médios. Não tínhamos com clareza a nossa força nesta sessão, então optamos pelos médios para se classificar o mais à frente possível no grid.

Felipe Massa larga apenas em quarto lugar na corrida de hoje. Mas todas as outras equipes estarão de olho nele. Afinal, o brasileiro optou por uma estratégia diferente de pneus, se classificando com os pneus duros, os mesmos que utilizará na largada.

- Eu não estava satisfeito com o desgaste e a aderência dos médios, achava que não poderia brigar pelas primeiras posições com ele. Vendo que haveriam dois pilotos que sofreriam punições no grid (Lewis Hamilton e Mark Webber), resolvi arriscar uma coisa diferente e, por enquanto, deu certo. Vamos ver se funciona na corrida.

Embora a situação de desgaste seja tão preponderante como na prova anterior, na China, há uma diferença fundamental: no Bahrein, o principal problema acontece nos pneus traseiros. Massa explica as consequências disso:

- O jeito de pilotar muda. Esta pista tem um desgaste grande dos pneus traseiros, então você precisa ser muito mais progressivo na hora de acelerar na saída de curvas. Se for agressivo para ganhar tempo, acaba usando os pneus muito rapidamente.

18abr/134

O conflito silencioso

Em vilas menores, as bandeiras contra o regime continuam hasteadas

Na minha volta ao Bahrein já deu para perceber que muito pouco mudou no país no último ano. As ruas e estradas continuam bastante patrulhadas por viaturas policiais, algumas vias de acesso estão bloqueadas para facilitar o controle do tráfego pelas autoridades e o resto das pessoas circula numa pretensa normalidade.

Não que os protestos contra a monarquia sunita, iniciados em 2011 na esteira da chamada “Primavera Árabe”, desapareceram. Eles continuam lá, muitos pacíficos, alguns mais agitados, acusações de violência vindas dos dois lados: do governo e da oposição. Hoje pela manhã, na vila onde estou hospedado, houve queima de pneus por protestantes armados com coquetéis molotov. Pode até ser que a intensidade das manifestações tenha diminuído. Mas o tamanho das divergências entre os dois lados permanece o mesmo. E deve perdurar assim por algum tempo.

A maior diferença entre um ano e outro está na maneira com que a comunidade da Fórmula 1 chegou e se desloca pelo país. No ano passado, havia um temor generalizado de acabar no meio de alguma manifestação mais confusa. Depois de perceber que elas aconteciam em lugares isolados, normalmente em pequenos enclaves xiitas longes da capital Manama e do circuito do Sakhir, todo mundo relaxou.

Em 2012, a turma da F-1 viveu apenas incidentes isolados e “leves” na estrada que liga a pista e a capital da ilha. Estive no meio de um deles, com um policial disparando uma bomba de gás lacrimogênio bem a meu lado em direção a um campo escuro onde, presumo, estariam manifestantes que tentavam bloquear a via. Mecânicos da Sauber também estavam ali neste momento. No dia anterior, funcionários da Force Índia viveram episódio parecido.

Desta vez, as duas equipes declararam que não temem em nada pela segurança no país. Mais do que isso: o chefe da Red Bull, Christian Horner, deu o tom perfeito de como a Fórmula 1 se preocupa com o Bahrein. “Tenho meus próprios problemas, como lidar com minha dupla de pilotos”. Está todo mundo se lixando para um país que vive um turbulento momento de divisão.

No conflito silencioso do Bahrein, o da categoria é o que mais incomoda.

3mai/125

Um Credencial muito especial

Um programa campeão!

O Credencial começou numa madrugada australiana em 2009 como um bate-papo absolutamente informal sobre a corrida que tinha ocorrido horas antes. Desde então, ele aconteceu nas mais diversas formas e tamanhos. O que não impediu do podcast se firmar como um alternativa de muito respeito e envergadura para quem gosta de se aprofundar sobre a Fórmula 1. O diferencial de trazer a vivência de dentro do paddock se mostrou decisivo nisso.

A partir de agora, o Credencial cresceu. Cresceu junto com o TotalRace, incorporando outras categorias como a Indy, a Stock Car, o Brasileiro de GT e a Nascar (essa, a partir da próxima edição), que contam com a cobertura da equipe do site da maneira que a gente preza, buscando a informação onde ela acontece e produzindo seu próprio conteúdo.

Assim, o que era o “podcast do Ico” passa a ser mais do que nunca o “podcast do TotalRace”, com todo mundo que o faz tendo voz e participando sempre que as agendas permitirem.

Para ampliar ainda mais a qualidade do programa, a ideia é termos a cada edição um piloto convidado, para explorar a fundo a realidade da categoria que ele participa trazendo a visão de quem se senta no cockpit. Sempre com a qualidade de conteúdo que marca o nosso site. Neste programa, bati um papo muito legal com o Luiz Razia, piloto da GP2 e colunista do site, uma conversa que por si só mereceria um programa à parte. Mas tem muito mais coisas também!

É, enfim, um Credencial mais completo e abrangente. Uma cara que o cara que começou tudo isso numa madrugada australiana gosta muito.

Para acessar ao Credencial, vocês sabem, é só entrar na TV Blogo. Corram lá, escutem, baixem, comentem, divulguem!

25abr/125

As sepulturas de Shakhura

Um dos lados da história. E não se pode fechar os olhos para nenhum deles...

Eram exatamente 1:35 da manhã de terça-feira quando o avião da Swiss decolou de Dubai com destino à Zurique. As luzes do Burj Al-Arab, o maior prédio do mundo, brilhavam proeminentes numa altura três vezes acima dos outros, mas logo ficaram para atrás quando a aeronave adentrou o espaço sobre as águas do Golfo Pérsico.

As águas do Golfo Pérsico são muito calmas.

Não dá para falar o mesmo dos pedaços de terra que o cercam. Minutos antes de embarcar, estava conversando com uma alemã que voltava do trabalho de um mês em Basrah, no Iraque. Me descreveu um país tenso, buscando reencontrar seu caminho após uma segunda guerra em menos de vinte anos, dividido e cheio de feridas. Imediatamente, as imagens que vi no Bahrein nos dias anteriores voltaram à minha cabeça.

Ter ficado na casa de uma família brasileira residente no país - o que eu descrevi aqui e que você deve ler para completar esse relato - foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para esta cobertura. Em primeiro lugar por ter ficado à parte da bolha em que viveu a maioria dos colegas jornalistas - em hotéis arranjados pela organização do evento e com deslocamentos para o circuito em ônibus fornecidos também por eles. Não é uma crítica à eles, até porque a chance de se ter conhecidos na ilha é muito pequena. Mas era importante saírmos do nosso habitat natural e entrar no dos locais.

Tive a sorte de poder fazer isso de forma natural e, também, geográfica. Janabiya, onde fiquei, é no meio de vários enclaves xiitas: ao sul de Budaiya, onde aconteceu a maior passeata na semana do GP, e à oeste de Shakhura, onde o corpo de um protestante foi encontrado no sábado. A própria Janabiya possui uma maioria xiita (como a maior parte do país, nota-se).

Se além de acompanhar o TotalRace você acompanhou o que outros profissionais reportaram direto do Bahrein, deve ter ficado confuso. Enquanto alguns passaram um quadro de absoluta normalidade, outros viram protestos e confusão de perto, pintando com cores de fortes algo que, realmente, é forte de se ver. No balanço da semana, um lado acusou o outro de mau jornalismo.

A situação no Bahrein é tão complexa que os dois lados estão certos e errados ao mesmo tempo. Sim, dá para se viver normalmente no Bahrein hoje em dia - “normal” sendo o conceito de sair pelas ruas para trabalhar ou passear sem temor por sua segurança pessoal. Vivi isso na noite de sexta-feira, quando curti um bom show de George Benson no Fort Arad. E na noite de sábado, quando fui a um bar Shisha no bairro de Juffair. É um país onde se pode levar um cotidiano agradável e confortável.

O único fator pertubador é ficar preso no trânsito por conta de algum bloqueio criado por pneus queimados por protestantes. Ainda assim: os relatos que ouvi foram os de que os manifestantes abrem caminho pelo próprio bloqueio para carros com mulheres e estrangeiros. E não há casos registrados de ataques deliberados à cidadãos. Quando o pau quebra, é entre manifestantes e a polícia.

O que não se pode é ignorar que eles acontecem. E diariamente. Justamente nesses enclaves xiitas onde e perto de onde eu fiquei. A dinâmica é mais ou menos essa: um grupo busca bloquear alguma via de acesso um pouco mais importante com pneus. Põe fogo e tenta sair fora antes que a polícia chegue. Estes estão por toda a parte, sempre com rifles carregados de bombas de gás lacrimogênio na mão. Normalmente são recebidos com uma chuva de coquetéis Molotov e chegam descendo o pau em quem aparecer pela frente. A turma sai correndo e aciona outro grupo, em outro ponto da ilha, para bloquear um outro acesso já que estes primeiros estão ocupando a polícia. É um jogo diário de gato-e-rato.

A divisão da sociedade barenita também fica clara em alguns detalhes. A ala pró-governo - ou, para usar uma figura menos politizada, a que prefere que as coisas continuem como estão - abusa do uso das cores da bandeira do país. No autódromo do Sakhir, em um evento “pró-”, vi diversos torcedores com chapéus com o desenho do estandarte nacional ou camisetas da seleção de futebol deles. Tudo para mostrar o orgulho do Bahrein como ele sempre foi.

Mas é preciso sair da “bolha” de bem-estar que existe no país para se ter um quadro de como vivem os que estão insatisfeitos com o governo. Na manhã de segunda-feira, fui até Shakhura ver aonde vivia a única casualidade do final de semana. Um pequeno labirinto de casas simples e ruas apertadas, entrecortado por duas ou três vias maiores. As pessoas caminhavam por elas normalmente: os homens mais jovens vestindo calça jeans e camiseta, os mais velhos com surradas túnicas, as mulheres com xadores negros que só deixavam os olhos à mostra.

O tom monótono de algumas paredes das casas cor de areia era quebrado por painéis coloridos que retratavam paisagens repletas de plantas: palmeiras, coqueiros, um cenário tropical oposto à aridez do deserto. Talvez seja uma maneira de expressar o desejo de um lugar completamente diferente ao que vivem. Um sinal mais claro disso estava nas bandeiras pretas ou verdes presas em cada poste, com escritos em árabe. Nos enclaves xiitas, não há espaço para a bandeira ou as cores nacionais do Bahrein. Eles não se sentem parte do reino.

Na beira de uma das vias mais largas de Shakhura tem um cemitério. As lápides são modestas e rasas, a areia que cobre as covas cobre também todo o cenário em volta. É um cemitério discreto, pequeno, com exceção de um dos túmulos, decorado com bandeiras e flores. Fiquei pensando se seria o do manifestante falecido no final de semana, um sujeito que tinha exatamente a minha idade.

Parei ali por alguns minutos silenciosos e fiz uma prece para que os barenitas, os da vida “normal” e os das vilas xiitas, encontrem um caminho para terem uma convivência pacífica e boa para todos.

Vai demorar para isso acontecer.