Problema de foco
A Fórmula 1 é um meio cínico, onde celebra quem vence e reclama quem perde. Sempre foi assim, sempre será. Escapamentos soprados, difusores duplos, amortecedores de massa. Basta olhar para a história recente que sempre haverá alguém descontente, culpando algum elemento técnico para justificar, mais para os patrocinadores do que para a opinião pública, uma derrota na pista. Até mesmo os pneus já foram o pivô de uma discussão recente: em 2005, quando os Michelin era claramente superiores aos Bridgestone e a Ferrari foi pressionar os franceses nos bastidores para mudarem seu produto. Como se vê, ter mais de um fornecedor não basta para cessar o mimimi. Nada adianta.
Dito isto, é uma pena que tenha se politizado a discussão sobre os pneus atuais. Achei que Paul Hembery, sempre um cara sensato, errou na conversa aos jornalistas ao afirmar que, se mudarem os pneus, a imprensa vai reclamar dizendo que a Pirelli teria dado o título nas mãos da Red Bull. Dá a impressão que foi feito um pneu anti-Red Bull. Se for o caso, poderiam fazer no ano que vem um pneu que só funcionasse nos carros de Caterham e Marussia, para equilibrar a disputa. Não é por aí.
Eu gosto da maneira que os pneus italianos apimentaram as corridas. Quando puxo na memória as corridas do Mundial de 2010, dou graças a Deus que acabaram aquelas procissões chatíssimas, com disputas só até o primeiro pitstop (e olhe lá) e um trenzinho de carros conduzidos por pilotos frustrados pela impossibilidade quase absoluta de se ultrapassar.
Mas está claro que a Pirelli errou a mão no tempero deste ano. Em janeiro eu estive no lançamento dos compostos atuais e o discurso era de corridas com duas paradas nos boxes. A média do GP da Espanha foi próxima a quatro. Ou seja, chororô de times à parte, eles mesmos não chegaram nem perto de cumprir nesta prova o objetivo que tinham proposto.
Por um lado, isto nos deu a corrida mais animada em Montmeló dos últimos anos. Por outro, confundiu ou frustrou os torcedores já que, para a própria sobrevivência da borracha, as disputas reais de ataque e defesa foram mínimas. Não deve ser assim e os italianos sabem disso.
Infelizmente a mídia internacional em geral também está perdida nesta situação e não focando no mais importante: este é um daquele raros mundiais com um equilíbrio interessante entre vários carros. Olhem só:
Temos uma Ferrari que se sobressai em ritmo de corrida especialmente em circuitos que a velocidade de reta é fundamental, como em Xangai e Barcelona. E que larga muito bem. Com isto, as deficiências do time em classificação acabam relevadas a segundo plano e os bons resultados aparecem neste tipo de circuito.
Temos uma Red Bull que funciona ao contrário, um carro que é premiado em pistas onde é o equilíbrio aerodinâmico que conta. E que pena mais em velocidade de reta, algo que eles vem sacrificando já há alguns anos. Por isso que vi um Sebastian Vettel bastante relaxado com o quarto lugar após a prova de domingo. Era uma corrida para salvar pontos e doze ficou de bom tamanho. Poderiam ter sido quinze mas eles erraram na estratégia, mostrando mais uma vez que podem se perder quando não estão no papel de líder, só controlando o que fazem os quem vêm atrás.
Temos uma Lotus bastante equilibrada e que vai bem em todos os tipos de circuito pela maneira suave com que trabalha os pneus, efeito potencializado pela qualidade de Kimi Raikkonen em fazer corridas infalíveis com a precisão de um relógio suíço, somando sempre bons pontos para suas pretensões no campeonato.
Três equipes andando em nível parecido, cada uma com seus pontos fortes e fracos e lideradas por um campeão mundial. E, como cereja do bolo, uma Mercedes diabolicamente rápida em classificação e incrivelmente lenta em ritmo de corrida, para se colocar como um fator pertubador na dinâmica das corridas deste trio da frente.
É uma equação saborosa que promete uma disputa intensa ao longo da temporada, cheia de altos e baixos para todos os envolvidos. E todo mundo olhando só para os pneus...
Os duelos internos
Após apenas quatro corridas, a classificação do Mundial de Pilotos já aponta um desequilíbrio no duelo interno das principais equipes deste ano na Fórmula 1. Uma explicação mais simplória do que simples seria dizer apenas que “fulano é melhor que beltrano” e pronto. Mas como aqui a gente gosta de ver a categoria sob todos os ângulos possíveis, aqui vai uma análise de cada disputa interna, suas causas e consequências.
Red Bull (Sebastian Vettel +45 pontos sobre Mark Webber)
A polêmica na Malásia e os problemas na China não ajudaram a causa do australiano, mas a verdade é que ele está tomando um banho de Vettel neste ano. Não largou na frente do companheiro nenhuma vez. Pior do que isso, as distâncias nas classificações podem ser enormes - no Bahrein ficaram na casa de meio segundo no Q3. Webber teve de engolir e está claro que não digeriu a situação ocorrida em Sepang. A foto do jantar com Alonso no twitter é um indício de que vai apelar para jogos psicológicos sempre que possível. É o jeito, já que na pista não há nada que funcione a seu favor.
Lotus (Kimi Raikkonen +41 pontos sobre Romain Grosjean)
Apenas no Bahrein, quando ganhou um novo chassi, que o francês fez uma boa corrida. Saindo de trás, dosando sua agressividade na hora de ganhar posições, um desempenho que o levou ao pódio como havia acontecido no ano anterior. Mas não há como imaginar mais do que lampejos pontuais de sua parte. Kimi Raikkonen está em outra esfera, mantendo a mesma regularidade incrível ao mesmo tempo em que parece ter resolvido sua fraqueza. No ano passado, o duelo entre os dois era equilibrado em treinos classificatórios. Neste ano, está 4 a 0 para o finlandês.
Mercedes (Lewis Hamilton +36 pontos sobre Nico Rosberg)
Foi um sinal de vida importante o dado por Nico Rosberg no sábado no circuito do Sakhir. Uma volta beirando a perfeição que, mais do que a pole position, lhe valeu a certeza de que pode endurecer o duelo com Lewis Hamilton. Mas a corrida foi uma ducha de água gelada nesta perspectiva. Afinal, o problema de um desgaste acentuado demais dos pneus traseiros - repetindo o problema que afligiu o time no ano passado - acabou com sua corrida, mas não com a de Hamilton. Questão de acerto do carro ou de estilo de pilotagem? São perguntas que o alemão precisa responder rapidamente para não ver o inglês sumir na sua frente.
Ferrari (Fernando Alonso +17 pontos sobre Felipe Massa)
A menor diferença entre as duplas das equipes de ponta não pode ser apenas explicada pelo abandono precoce de Alonso na Malásia. Afinal isso vai na conta de um erro de julgamento em conjunto do piloto e de sua equipe na pitwall. Massa demonstrou sinais positivos com um bom ritmo de corrida em Melbourne e boas classificações nas duas primeiras corridas. Mas voltou a demonstrar dificuldades com os pneus nas provas seguintes - desta vez com o composto médio da Pirelli. Justamente o que deve ser utilizado na maioria dos GPs deste ano. Precisa resolver isso rapidinho. Mais que o duelo com Alonso, está em jogo seu próprio futuro na Fórmula 1.
Azar para espanhol ver
Na pista, Fernando Alonso continua com o brilhantismo de sempre. Com o problema da asa traseira móvel, fez uma corrida lutada no meio do pelotão. O fato de não ter o dispositivo funcionando o obrigou a arriscar mais na hora de fazer ultrapassagens. O fez com a competência de sempre, sem desgastar mais os pneus por conta disso. Poucos pilotos do grid conseguiriam a mesma coisa.
Mas seu discurso para a imprensa continua sendo para boi dormir. Ou para espanhol ver. Alonso fez questão de destacar o “azar” que sofreu em duas das quatro corridas neste ano. Bobagem. O problema da asa é uma falha mecânica. Se no ano passado ele cansou de destacar a competência da Ferrari em lhe dar um carro altamente confiável para terminar as corridas, a lógica aponta que o problema que sofreu no Bahrein vá para a conta de uma incompetência do time. Não há azar nisso.
E as duas corridas trazem traços de uma falta de zelo do piloto. Insistir em usar a asa mesmo depois do primeiro problema foi um risco assumido por Alonso. Poderia não ter resultado em nada, mas resultou na necessidade de uma nova parada nos boxes - o tempo perdido, no cálculo matemático, lhe tirou de um pódio que seria importante para jogá-lo ao oitavo lugar ao final da prova.
Na Malásia, assumiu junto do time o risco de permanecer na pista com a asa avariada, uma combinação famosa por gerar acidentes justamente com a dinâmica dela entrando debaixo do carro e o deixando incontrolável - vide este de Mark Webber no GP da Itália de 2011.
Nas duas situações, foram erros de julgamentos que acontecem, nada graves, nada demais. Não entendo porque, para Alonso, seja tão difícil admití-los. Falar em azar é jogar para a torcida. Só ele vê necessidade nisso.
Um pole fora da briga
A Fórmula 1 recebeu com um ar de surpresa a pole position de Nico Rosberg para o GP do Bahrein, que acontece hoje com largada às 9hs de Brasília. O carro da Mercedes não havia demonstrado um grande potencial nos treinos livres, mas o alemão fez uma ótima volta em 1min32s330 para registrar sua segunda pole na carreira e superar o companheiro Lewis Hamilton numa classificação pela primeira vez no ano. Mesmo saindo da primeira posição, o alemão assumiu um discurso humilde em relação às suas chances de vitória.
- Somos melhores em classificação do que em corrida, vimos na China como sofremos mais com os pneus durante a prova. Amanhã vai ser difícil para nós, nos treinos livres haviam outras equipes tão boas ou melhores que a gente. É preciso ser cauteloso, mas dá para obter um bom resultado - analisou Rosberg.
Não é jogo de cena. Numa Fórmula 1 em que o peso das estratégias e o desgaste dos pneus são os fatores determinantes, as posições no grid de largada são cada vez mais irrelevantes. Mesmo os adversários, normalmente politicamente corretos, não fazem cerimônia em não incluir Rosberg entre os candidatos à vitória. Fala Fernando Alonso, terceiro do grid:
- Sabemos como a Mercedes sofre com a degração dos pneus. Na China, Hamilton perdeu rendimento já na quarta ou quinta volta. Os pilotos que terei de marcar durante a prova são (Sebastian) Vettel, que sai logo à minha frente, e alguns que estão atrás, incluindo Kimi (Raikkonen), que certamente vai chegar nos ponteiros em algum momento da corrida.
Com o asfalto barenita chegando a temperaturas acima de 40 graus centígrados, a expectativa é de um desgaste elevado e de várias paradas nos boxes. Quanto para cada piloto é difícil de dizer, de acordo com Vettel:
- Uma parada é impossível para todos. Fazer duas parece impossível para a maioria. Acho que serão entre três e quatro paradas. Minha aposta foi economizar pneus duros na classificação, usando apenas médios. Não tínhamos com clareza a nossa força nesta sessão, então optamos pelos médios para se classificar o mais à frente possível no grid.
Felipe Massa larga apenas em quarto lugar na corrida de hoje. Mas todas as outras equipes estarão de olho nele. Afinal, o brasileiro optou por uma estratégia diferente de pneus, se classificando com os pneus duros, os mesmos que utilizará na largada.
- Eu não estava satisfeito com o desgaste e a aderência dos médios, achava que não poderia brigar pelas primeiras posições com ele. Vendo que haveriam dois pilotos que sofreriam punições no grid (Lewis Hamilton e Mark Webber), resolvi arriscar uma coisa diferente e, por enquanto, deu certo. Vamos ver se funciona na corrida.
Embora a situação de desgaste seja tão preponderante como na prova anterior, na China, há uma diferença fundamental: no Bahrein, o principal problema acontece nos pneus traseiros. Massa explica as consequências disso:
- O jeito de pilotar muda. Esta pista tem um desgaste grande dos pneus traseiros, então você precisa ser muito mais progressivo na hora de acelerar na saída de curvas. Se for agressivo para ganhar tempo, acaba usando os pneus muito rapidamente.
Fim da relação?
O australiano Mark Webber completa neste final de semana sua 200ª corrida na Fórmula 1. São fortes os indícios de que não restam muitas mais pela frente. Na segunda após o GP do Bahrein, o piloto voará até a cidade austríaca de Salzburg para conversar com o dono da equipe Red Bull, Dietrich Mateschitz. Em meio a rumores cada vez maiores de que Kimi Raikkonen chegaria no time no ano que vem para substituí-lo, Webber deve definir seu futuro, dentro ou fora da F-1.
O polêmico episódio das ordens de equipe na Malásia e seus desdobramentos colocaram o australiano como o grande perdedor do incidente. No pódio, reclamou publicamente da insubordinação de Sebastian Vettel e afirmou que o time protegeria o alemão “como sempre faz”. Não pegou bem e Webber assumiu uma postura mais conciliadora, se recusando a comentar o assunto nas semanas seguintes.
Outro episódio que não caiu bem na direção da Red Bull foi a foto dele jantando com o espanhol Fernando Alonso nesta semana, publicada na conta do twitter do espanhol. Muitos leram como uma provocação a Sebastian Vettel, que já havia reclamado publicamente da maneira como Webber o atrapalhara na decisão do ano passado, quando o adversário pelo título era justamente Alonso.
Perguntado sobre o tema, Vettel ironizou: “Porque tanto barulho em cima disso? Os dois estavam pelados? Não vi a foto, me falaram sobre ela, mas todo mundo janta todo dia e é muito chato jantar sozinho”.
Fernando Alonso, espertamente, colocou a culpa da celeuma na imprensa. “Querem ver polêmica onde não existe, foi uma janta entre amigos que se conhecem há 13 anos e que possuem o mesmo empresário, o Flavio (Briatore). Temos uma boa relação. Se vocês querem publicar a foto e fazer uma matéria polêmica em cima disso, é opção de vocês”.
A aposta é que o australiano deve tomar um pito e um pedido de Mateschitz para baixar a bola até o final do ano. Insatisfeito com a situação da Red Bull e em rota de conflito com a direção do time, Webber busca alternativas. Uma possível seria correr pela Porsche na Mundial de Endurance. Há aqui no paddock quem aposte que isto seria confirmado na própria segunda-feira: a marca de Stuttgart convocou uma coletiva de imprensa para a manhã para anunciar um novo representante. Se é Webber ou não, precisamos esperar para saber.
O Grupo dos 4
O Mundial de 2013 da Fórmula 1 começou marcado pela pluralidade: vitória fácil para a Lotus de Kimi Raikkonen na Austrália; polêmica à parte, uma dobradinha relativamente fácil para a Red Bull na Malásia; e um triunfo tranquilo da Ferrari de Fernando Alonso na China. Enquanto todo mundo ainda está tentando se entender com os pneus, parece que há um espaço democrático no topo do pódio. Como havia sido no início do ano passado, quando foram sete vencedores nas sete primeiras corridas, com o registro de vitórias de cinco pilotos de equipes diferentes nas cinco primeiras provas.
Mas uma olhada no Mundial de Construtores mostra que quatro equipes já se aglomeram bem na frente das outras. Um sinal de que há um limite claro e apenas membros deste “G4” luta para vencer corridas. É o espanhol Fernando Alonso quem opina: "Red Bull, Lotus, Mercedes e Ferrari estão um passo à frente do resto e quem dentre elas desenvolver melhor o carro vai ganhar boa parte das próximas corridas. Neste sentido, temos de pressionar ao máximo a fábrica para produzir novidades que nos tragam vantagem".
Para o vencedor da última corrida, apenas no meio da temporada este “grupo dos quatro” pode se afunilar ainda mais. "Preciso esperar até a pausa de verão na Europa para vermos com clareza quem realmente está na briga pelo título. Espero estar neste grupo para o segundo semestre. Espero que o Felipe (Massa) também esteja, o que sinalizaria que temos um bom carro. Mas o quadro atual é de equilíbrio e ninguém tem uma vantagem clara", afirmou Alonso.
O finlandês Kimi Raikkonen segue o mesmo discurso de Alonso e prevê um quadro de equilíbrio nas próximas etapas, começando pelo GP do Bahrein neste final de semana. "Uma equipe que é forte numa corrida acaba vivendo uma estória diferente na seguinte. Acredito que as quatro primeiras colocadas na tabela estão próximas também na pista, então quem trabalhar melhor aos sábados e aos domingos sairá vencedor. Será interessante".
A volta do matador
Não demorou muito para Fernando Alonso encontrar o caminho da vitória nesta Fórmula 1 em 2013, pautada sobretudo por um ritmo contido para controlar o desgaste dos pneus. Ainda que os três primeiros colocados do pódio tenha utilizado a mesma estratégia - três paradas, usando o composto macio apenas no início da corrida - o espanhol sacramentou seu triunfo em pouquíssimo tempo, superando Kimi Raikkonen na largada e Lewis Hamilton na reta dos boxes na quinta volta. Depois, abriu vantagem e controlou seu ritmo como quis. Um triunfo encorajador para deixar o espanhol otimista em relação às suas chances no campeonato. Ele ocupa agora a terceira colocação na tabela.
- Foi uma corrida perfeita, por vários fatores: o trabalho da equipe, a competitividade do carro. E tem mais por vir. Não por um mero desejo meu, mas estamos em débito com a sorte. Na Malásia eu abandonei depois que a asa dianteira entrou debaixo do meu carro depois de um toque; e hoje vimos Kimi (Raikkonen) terminar em segundo também depois de tocar outro carro com o bico. Acho que tive falta de sorte já e ela vai ser compensada ao final de dezenove corridas - avaliou.
Mas Alonso não deveria maldizer a sorte de Raikkonen na corrida de ontem. Afinal, o finlandês terminou a prova a apenas dez segundos do espanhol mesmo após colidir com a traseira do carro de Sergio Perez.
- Não dá para dizer o quanto o dano com a asa afetou minha corrida, mas o carro não foi desenhado deste jeito então certamente não ajudou. Mas confesso que fiquei surpreso o quão bom o carro esteve apesar de tantos danos ali na frente - falou o finlandês.
Lewis Hamilton chegou em terceiro lugar usando uma estratégia similar aos dois primeiros colocados e festejou o bom início de ano com a Mercedes, embora destacou que o ritmo ainda não está no mesmo nível da classificação. Sebastian Vettel quase superou Hamilton na última volta numa prova em que inverteu a estratégia ao usar o pneu macio apenas no final da corrida. Ainda líder do Mundial, o alemão despejou sua frustração com a dinâmica atual das corridas.
- Saber a atual divisão de forças no momento é uma piada, não parece muito uma corrida atualmente já que tudo depende exclusivamente dos pneus. Mas é assim que são as coisas e hoje, infelizmente, tiveram três que fizeram um trabalho melhor que o nosso.
No próximo domingo, no Bahrein, embaralham-se as cartas, os compostos e o jogo começa novamente.
O verso e o reverso
A forte rouquidão, efeito implacável do calor extremo do exterior e do frio acachapante dos ares condicionados, não diminuiu a alegria de Felipe Massa. Não era para menos. Pela quarta vez consecutiva ele se classificou num sábado à frente de Fernando Alonso, um feito que foi o principal ponto de conversa no paddock de Sepang nas horas seguintes à sessão. Ele destacou isso com propriedade.
“Tem um trabalho acontecendo desde agosto do ano passado – até antes disso, pois houve corridas em que estive bem, mas nas quais o resultado não aconteceu por falta de sorte. Compreendemos o que fazer com o carro e isso mostra que, se eu tiver o carro que quero, consigo ser competitivo, como sempre mostrei na minha carreira. Houve alguns anos em que as coisas não aconteceram, mas estou feliz com o carro que estou guiando – até em condições difíceis, mostrei um bom trabalho. O astral, tendo o carro na mão e estando competitivo, é alto. Isso e os resultados me ajudaram a colocar a cabeça no lugar e a voltar a ser como sempre fui.”
É bom ver sua confiança. É bom, também, tentar entender os motivos desta marca do brasileiro: desde que Alonso dividiu a McLaren com Lewis Hamilton em 2007 que isto não acontecia. Vale notar que as duas classificações foram em condições diferentes - na Austrália numa sessão dividida em dois dias e com um Q3 com um asfalto gelado; e hoje com a pista meio seca e meio molhada.
Pelo que deu para depreender das sessões oficiais realizadas até agora, Massa tem um estilo de pilotagem que esquenta melhor os pneus - algo importante nas duas condições de Q3 que tivemos até aqui. Mas também desgasta mais do que Alonso - isto (e o fato de estar atrás) deixou o espanhol mais à vontade para arriscar a parada antecipada em Melbourne, sabendo ser capaz de controlar mais a durabilidade da borracha. Isto não é mérito ou demérito de nenhum dos dois, mas apenas um elemento para olharmos em cima dos resultados que estão ocorrendo
Seria interessante se a corrida amanhã fosse no seco para observar se esta tendência se confirmaria. E também se a Lotus levaria novamente a vantagem em ritmo de corrida que mostrou nos treinos livres - saindo lá de trás, seria um show interessante.
Mas é Sepang, é Malásia. Devemos ter uma pancada de chuva boa durante a prova e condições variáveis. Ingredientes para uma corrida interessantíssima. E para não nos dar nenhum elemento a mais para entender o andamento da briga Massa/Alonso e outros assuntos interessantes que este Mundial de 2013 nos está colocando.
Que venha a corrida!
A importância de ser reconhecido
A quinta-feira em Sepang não foi das mais agitadas, com a FIA colocando os cinco estreantes e Kimi Raikkonen para uma coletiva de imprensa em que o único personagem realmente de peso jornalístico não fala nada. Pelo menos o dia foi salvo pela coletiva de Fernando Alonso, brilhante como sempre ao variar o discurso dependendo da mídia com que conversa (espanhola, italiana ou inglesa) para garantir as manchetes que mais lhe convém. É mais um diferencial no enorme arsenal que o torna o piloto mais completo do grid.
Falando em sua língua materna e às vésperas de sua participação de número 200 em um GP, Alonso deu uma resposta interessante a uma pergunta surpreendentemente contundente: se ele não temia ter um final de carreira “carregado de vices” como Stirling Moss. A resposta foi digna de um leonino da gema:
“Não tenho medo nenhum. Acho que em breve posso passar Michael Schumacher como o piloto que mais pontos somou na história da Fórmula 1 - não mais pontos em uma temporada, mas em toda a história. Também estou entre os primeiros em número de vitórias e de pódios. Foram 200 corridas fantásticas e, quando me aposentar, terei somado números que nunca imaginaria alcançar. Por mais ou menos campeonatos que eu tenha, não é algo que vai diminuir o meu orgulho do que fiz”.
Interessante como o espanhol convenientemente relevou a mudança no sistema de pontuação que jogou a estatística a seu favor - ele tem 184 pontos a menos que o alemão, mas conquistou em torno de 70% do seu total com o novo sistema, Schumacher apenas 15%.
Interessante também notar como não é a primeira vez que ele demonstra preocupação em ser reconhecido como um dos grandes pilotos da história. A ausência de títulos (já se passaram seis temporadas sem eles) parece incomodá-lo, embora o discurso jure o contrário - e justamente por isso.
Mas não deveria incomodar. Alonso precisa deixar o julgamento de sua carreira para os outros. Como é natural nesses casos, não haverá uma unanimidade. Mas eu o coloco facilmente entre os dez, quinze melhores da história. E tenho certeza que muita gente também. Quanto a isso, o espanhol pode ficar relaxado. Seu reconhecimento virá das pistas. Sublinhá-lo com palavras só é um pouco deselegante.











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