Dias estranhos
Em julho de 2009 a Fórmula 1 acabou. As equipes, então unidas, se encontraram na sede da então Renault em Enstone e decidiram que abririam um outro campeonato com outro nome, organizado por elas próprias. O que foi anunciado como uma decisão definitiva era na verdade uma manobra, um cheque-mate que selou a saída de Max Mosley da FIA - que tentava a todo custo empurrar goela abaixo dos times um teto orçamentário para salvar a categoria num momento de crise econômica mundial.
Três anos e meio depois, o caos financeiro continua, assim como a crise política que envolve a categoria automobilística. Desde o último dia do ano passado não há um Pacto da Concórdia em vigor. O documento que determina a divisão dos lucros da Fórmula 1 sempre foi um instrumento regulador num meio cheio de espertalhões. Sem ele, as coisas nos bastidores andam quentes. O problema do calendário que eu citei neste post ou a questão das taxas que eu expliquei neste são só alguns indícios do confuso cenário.
Na semana passada, Bernie Ecclestone foi a Maranello falar com Luca di Montezemolo (Ferrari), Christian Horner (Red Bull), Martin Whitmarsh (McLaren) e Niki Lauda (Mercedes). Um encontro do alto escalão sinaliza que há muito dinheiro em jogo: mais precisamente, 40 milhões de dólares anuais que a FIA quer receber como pagamento por organizar a F-1 (sendo 25 milhões da FOM e 15 vindo das equipes). Para conseguir isso, Jean Todt pressiona com a introdução do teto orçamentário, uma ideia que os quatro times grandes da categoria abominam. Sem Pacto da Concórdia, a manobra faz sentido, ao contrário de 2009 com Max Mosley.
Um possível cenário em cima do quadro atual seria um acordo entre as partes: a FIA recebe seu dinheir(ã)o, os times ganham liberdade de gastos (mais testes, túnel de vento por 24 horas, etc) e Bernie Ecclestone ganha um novo Pacto da Concórdia assinado por todos e que regula o dinheir(aç)o que circula na categoria.
Se não houver acordo, teoricamente a FIA pode impor a medida que quiser e qualquer equipe pode deixar a Fórmula 1 quando bem entender, uma vez que não há nenhum documento vigente que as obrigue a ficar - ou a pagar multas milionárias se quiserem sair.
E tudo isso bem na seqüência de um campeonato extraordinário. Strange days have found us.
Um passo perigoso
As equipes da Fórmula 1 tentaram encontrar uma alternativa, mas não teve jeito: a FIA começa 2013 promovendo um severo aumento na taxa de inscrição dos times da categoria: 500 mil dólares (contra 400 mil do ano passado) de base mais 5 mil dólares por ponto conquistado (6 mil no caso da campeã dos contrutores). Para disputar o Mundial deste ano, a Red Bull começa desembolsando US$ 3,3 milhões - cerca de oito vezes a mais do que pagou no início do ano passado.
Mas é errado centrarmos o foco da discussão na questão da Fórmula 1. Embora a taxa cobrada na F-1 seja pesada, os times possuem orçamentos vastos e o prejuízo fica dentro de um limite com o qual eles podem arcar. O problema está num ponto mais delicado: a base.
Uma matéria interessante do semanário “MotorSport Aktuell” ilustra os problemas de campeonatos menores na Europa. Os times da Fórmula 3 Alemã (que era uma alternativa mais barata e com carros mais antigos que os da F-3 Europeia) estão tendo que gastar vinte vezes a mais neste ano com taxas de inscrição. Tudo porque a FIA resolveu taxar mais alto categorias que fazem mais de uma corrida fora de seu país de origem para dar a sua chancela.
O resultado disso já se vê. A F-3 Austríaca (uma alternativa ainda menor que a F-3 Alemã) foi cancelada. E diversos campeonatos de Subida de Montanha - uma categoria amplamente praticada por amadores amantes da velocidade - estão ameaçados.
Escarafunchar os bolsos de quem faz a base do esporte a motor é uma atitude pouco inteligente e perigosa - elitiza cada vez mais uma atividade já elitista por seu próprio formato e torna praticamente impossível que novos talentos sem dinheiro apareçam. Se a FIA quer cobrar muito mais caro como entidade reguladora, é direito dela. Mas quanto dessa grana extra será colocada de volta para fortalecer o esporte de base? Não dá para esperar que seja muito, não é da natureza dessa gente.
Por um 2013 competitivo
O Mundial deste ano foi a junção de vários campeonatos em um só. Começou com um equilíbrio sem precedentes na história da Fórmula 1, com sete ganhandores distintos nas sete primeiras corridas. Depois teve um domínio de Fernando Alonso em junho e julho, uma McLaren ditando as cartas em agosto e setembro e a Red Bull mostrando força a partir de outubro.
Justamente este fato da equipe de Sebastian Vettel ter terminado a temporada em alta fez muita gente que o campeonato de 2013 seria sem graça. Afinal, a combinação do piloto com o RB8 provou ser forte demais nas corridas mais recentes. E as mudanças técnicas para o regulamento do ano que vem praticamente inexistem. Com uma base dessas, é muito provável que a Red Bull comece o ano que vem voando.
A FIA percebeu isso e, com duas linhas no meio do extenso comunicado distribuído ontem com as decisões do Conselho Mundial, trouxe de volta a expectativa de um campeonato equilibrado, pelo menos em seu início. Me refiro à decisão de restringir o uso das asas traseiras móveis na classificação. Até este ano elas poderia ser utilizadas indiscriminadamente. A partir do ano quem, apenas nas mesmas zonas que delimitam seu uso nas corridas.
Pois a grande força da Red Bull na reta final deste veio justamente na facilidade de colocar seus pilotos na pole position, tendo desenvolvido o carro para ser estável nas curvas mesmo com a asa traseira móvel aberta. Em ritmo de corrida, o RB8 era similar aos carros dos principais adversários, mas seus pilotos aproveitavam o fato de estarem na frente para poupar pneus e reagir às decisões estratégicas de quem vinha atrás. Ganhar assim é mais fácil.
Mas a FIA cortou as asinhas do time e essa vantagem desapareceu. Pelo menos até Adrian Newey ter outra ideia mirabolante.
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
A piada do final
Eu e minha mulher temos uma dessas brincadeiras bobas de casal quando vamos ao cinema. Após o filme, quando sobem os créditos, o primeiro que levanta sempre acaba ouvindo do segundo: “espera que ainda tem a piada do final”. Uma referência a uma prática comum nos anos 80 quando, depois de subir o último nome do último crédito, ainda aparecia algum ator fazendo uma brincadeirinha. Como no clássico “Curtindo a Vida Adoidado”: “Ei, o que vocês ainda estão fazendo aí? Acabou. Vão para casa”, diz o personagem de Matthew Broderick.
Pois o Mundial de 2012 teve a sua piada do final. Quando acordei ontem e vi que havia um enorme bafafá de que a Ferrari protestaria contra uma suposta ultrapassagem de Sebastian Vettel sob bandeira amarela, ri bastante. Não da possibilidade de uma reclamação em si, escaldado que estamos por algumas atitudes discutíveis que o time tomou em passado recente. Mas por ver alguns (e sublinho o alguns) colegas da imprensa estrangeira (em sua maioria na Inglaterra e na Espanha) fazendo uma tempestade em copo d’água na absoluta ignorância de que, passada meia hora da publicação do resultado oficial de uma corrida (o que só acontece depois da FIA rever lances polêmicos, finalizar eventuais investigações pendentes, etc.), ninguém pode protestar mais nada.
Apenas a FIA poderia rever o resultado de uma prova dias depois, caso houvesse uma irregularidade decisiva que tivesse de ser revista. E nunca houve. A suposta ultrapassagem de Vettel sobre Jean-Eric Vergne em bandeira amarela surgiu depois que um inglês colocou um vídeo no YouTube chamando atenção ao lance, no qual ele não notou haver uma bandeira verde sendo agitada na entrada da reta oposta, onde ocorreu a manobra. Uma sinalização que era inclusive natural, já que o trecho de perigo naquele momento era apenas a Curva do Sol, onde a Williams de Pastor Maldonado (que depois de tantos anos no automobilismo ainda não aprendeu que não se deve atacar uma zebra úmida quando se tem pneus para pista seca) estava sendo retirada. O mais importante é que o lance foi revisto pelos comissários durante a corrida e considerado normal.
Infelizmente, numa era onde as coisas são muito mal apuradas, teve gente correndo para os computadores antes de correr para o telefone e perguntar para a FIA se tinham visto aquilo e se havia a possibilidade do resultado da prova ser revertido. Fazer o trabalho básico, enfim. São jornalistas que estiveram presentes em todas ou quase todas as provas do ano, sabem muito bem a quem procurar. Mas optaram pela via fácil de criar uma “polêmica”, ou de agir para atender sua própria frustração de torcedor, caso dos diários esportivos espanhóis cuja linha editorial é mesmo a de vestir a camisa e jogar longe a imparcialidade, algo que seus repórteres fazem de bom grado. Pobre torcedor que, no meio da confusão, acaba não sabendo em quem acreditar.
Mas embaraçoso mesmo é a Ferrari vir a público dizer que enviou uma carta à FIA pedindo esclarecimentos sobre a manobra. Dá até para entender a atitude diante do quanto de reclamações sua conta no twitter deve ter recebido de torcedores pedindo alguma ação contra a “roubalheira”. Mas ela também tem todos os canais abertos com Charlie Whiting para fazer a consulta diretamente e ouvir suas explicações. Deveria ter feito isso antes de se pronunciar, concluir que não havia nada de errado e vir a público dizer que estava satisfeita com o resultado do GP do Brasil, celebrar os pontos positivos de sua temporada e afirmar que voltaria à luta com tudo em 2013.
Um Mundial sensacional de 2012, com uma decisão daquelas, poderia ter terminado com um gesto nobre desses, e não com uma piada de mau gosto. Isto me faz lembrar e dar ainda mais valor ao que aconteceu em 2008. A classe demonstrada por Felipe Massa ao perder um Mundial na última curva está provando ser artigo cada vez mais raro neste esporte, o que é uma grande pena.
É proibido ser humano
O cruzamento na área não foi dos melhores. A bola veio numa altura meio baixa e Neto já havia passado do ponto em que ela cairia. Mas o camisa 10 do Guarani não titubeou um segundo: virou o corpo e acertou uma bicicleta certeira, executada num mínimo de espaço entre os dois zagueiros do Corinthians. Quando ele caiu após a executar a jogada, já tinha a consciência do golaço que tinha feito. Levantou, saiu batendo a mão no peito e gritando: “eu sou foda”.
Os microfones na beira do campo não captaram sua voz, mas a leitura labial da imagem capturada pelas câmeras de tevê era clara como água. “Eu sou foda, eu sou foda”. E era mesmo, um baita golaço num estádio lotado em dia de final de campeonato.
O golaço de Neto foi a primeira vez que eu me lembro da emoção do esporte vir ligada a um palavrão. E não me lembro de ninguém reclamar na ocasião. A mídia celebrou o craque, seu gol e sua frase pelo que eles eram: foda. Ninguém condenou seu linguajar ou cogitou uma reprimenda por parte da Federação. A emoção do momento foi preservada em seu todo.
Hoje em dia, o mundo mudou bastante. No futebol, pelo medo de mensagens religiosas, políticas e ou comerciais, a FIFA recomenda cartão amarelo para quem tirar a camisa na comemoração. Há poucos meses, na Alemanha, o atacante do Hannover 96 fez um golaço de bicicleta nos descontos do clássico regional contra o Werder Bremen que garantiu a vitória para seu time. Na emoção, tirou a camisa e correu para escalar o alambrado. Por cada uma dessas ações, recebeu um cartão amarelo e foi expulso. A mídia inteira do país questionou a severidade das regras.
O nível de babaquice chegou agora na Fórmula 1. Kimi Raikkonen soltou um “shit” e Sebastian Vettel um “fuck up” na entrevista no pódio após o GP de Abu Dhabi. A FIA resolveu agir e enviou uma carta às equipes para que isto não aconteça mais. Houve gente que aplaudiu a iniciativa. O editor de F-1 do site da Autosport, Edd Straw, colocou que “a verdade é que a Fórmula 1 é um esporte corporativo e é essencial que os pilotos se comportem da maneira correta”.
Dá um misto de medo e vergonha saber que há gente na sala de imprensa que pense assim. Gente que quer regular a emoção num esporte carregado dela. Gente que espera que um Kimi Raikkonen haja como um lorde após vencer de forma improvável em seu retorno à Fórmula 1. Ou que Sebastian Vettel capriche na norma culta após passar as duas horas anteriores lutando por posições feito um desesperado na pista.
Ninguém quer gente falando palavrão gratuitamente na televisão, mas essa preocupação exacerbada com o episódio do pódio em Abu Dhabi é um sinal de como a sociedade está ficando deturpada ultimamente. Estão querendo tirar a emoção do esportista, que pode render deslizes tão grossos quanto divertidos como o do atacante Gil na celebração da conquista de um título.
Num dos mundiais mais emocionantes de todos os tempos, a melhor coisa que poderia acontecer seria ver um Alonso ou um Vettel subindo no carro após a conquista do título, tirando o capacete, batendo no peito e gritando: “eu sou foda, eu sou foda”. O esporte merece!
Precisamos de comissários permanentes
A importância que a atuação dos comissários de prova da Fórmula 1 ganhou nos últimos anos é inegável. Por conta disso, já passou da hora da FIA colocar um grupo de especialistas para a função. Quatro pessoas responsáveis por julgar as manobras polêmicas em todas as etapas da temporada. Comissários permanentes, não rotativos como está acontecendo até aqui.
Isto evitaria situações como as que tivemos nas últimas semanas. No final de semana do GP da Bélgica, os mesmos comissários que agiram com firmeza na hora de suspender o francês Romain Grosjean por uma corrida por ter provocado o acidente na largada - uma punição que não acontecia na Fórmula 1 há dezoito anos - absolveram o inglês James Calado de um perigoso “chega prá lá” em cima do brasileiro Luiz Razia.
Sete dias depois, em Monza, quatro comissários diferentes foram rápidos em aplicar um Drive Through para Sebastian Vettel por manobra similar sobre Fernando Alonso. Pior: nem chegaram a investigar o lance em que Paul Di Resta obriga Bruno Senna a sair da pista em plena freada, apesar de reclamação da equipe Williams. Dois lances iguais na sua essência e tratados de maneira completamente diferente.
Esse tipo de inconsistência nas decisões gera o pior dos efeitos: a impressão forte de que a FIA está julgando os lances sem objetividade. Dentre os quatro comissários em Monza haviam dois italianos e uma espanhola. Não é errado imaginar que isso influenciou na hora de tomar uma decisão que, na prática, seria uma boa ajuda para as pretensões de Alonso no Mundial de Pilotos.
Ter quatro comissários permanentes, que trariam desde a abertura do campeonato o histórico de punições e agiriam em cima disso seria uma solução óbvia. Mas será que a FIA quer objetividade nas decisões?
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de ontem do Diário Lance!)
Até onde pode chegar a Fórmula E?
O futuro da indústria automobilística vai passar pelos carros elétricos. É algo que está claro para mim desde a minha visita ao Salão de Genebra do ano passado, quando vi como as marcas levam a sério esta tendência. E não podemos ignorar a existência do Kers na Fórmula 1. O uso de baterias nos carros para armazenar e despejar potência no motor é uma realidade faz tempo.
Assim, não surpreende que a FIA abrace a causa e crie a Fórmula E. Os carros serão criados a partir do protótipo EF 01, que podemos ver no vídeo acima fazendo um irritante barulho que lembra um pouco o motorzinho das brocas de dentista. O campeonato está sendo feito por gente que entende do riscado. Alejandro Agag, é o dono da equipe Barwa Addax da GP2 e vai organizar tudo. Este blog também pode adiantar que Lucas di Grassi foi contactado para trabalhar no desenvolvimento dos carros da Fórmula E - e eventualmente competir na série também.
Hoje temos alguns carros de corrida híbridos ou mesmo completamente elétricos - como o Nissan Leaf Nismo RC - por aí. Assim, a criação de uma categoria de monospostos atende mais a uma questão de marketing do que propriamente esportiva. Levar carros de fórmula elétricos para o centro das grandes cidades, eventualmente pilotados por nomes com passagens pela Fórmula 1 ou outras categorias de ponta: que ótima maneira de reforçar a presença dos carros elétricos como uma alternativa para o futuro na cabeça das pessoas.
Este é o principal objetivo do presidente da Comissão de Campeonatos de Novas Energias e Elétricos da FIA, o alemão Burkhard Göschel. Um homem com passagem por várias grandes montadoras e fornecedoras da indústria automobilística e que já previu em entrevistas um futuro em que a maioria dos carros nas ruas sejam elétricos (mas que os movidos a derivados de petróleo sempre existirão).
Ainda acha cedo demais para que uma categoria de carros elétricos se estabeleça como exemplo de performance de ponta. Mas quem dita os caminhos pensa diferente. Que eles me surpreendam e apresentem um carro bem mais empolgante que este do vídeo acima.
Comissários inconsistentes
O Grande Prêmio da Europa em Valência foi daqueles para deixar o quarteto de comissários da FIA ocupados o tempo inteiro. Num dia em que os pilotos da Fórmula 1 mandaram a prudência às favas, foram diversos lances e incidentes que passaram pelo crivo deles. Algumas decisões foram polêmicas, como considerar o brasileiro Bruno Senna culpado no incidente com Kamui Kobayashi.
Mas pelo menos duas decisões se mostraram absolutamente inconsistentes. A mais óbvia envolveu Michael Schumacher. Na parte final da prova, ele abriu a asa traseira móvel numa área em que bandeiras amarelas eram agitadas, algo que não é permitido pelo regulamento e foi captado pelas câmeras de televisão. A FIA alegou depois que, mesmo com a contravenção, ele claramente reduziu a velocidade no trecho. Só que no GP da Espanha, em maio, tanto Sebastian Vettel como Felipe Massa receberam punições pelo mesmo motivo. Parece que diante do primeiro pódio diante do heptacampeão, uma das grandes notícias de um grande dia, os responsáveis resolveram fazer vista grossa. O que jamais deveria acontecer.
O pior é que um outro lance da prova contradiz o argumento da FIA para o caso Schumacher. Lewis Hamilton havia sido investigado por não aliviar num setor de bandeiras amarelas (agitadas enquanto o carro de Vettel era empurrado para fora da pista). O computador mostra que ele passou ali 0s05 mais rápido ali do que na volta anterior. Para se ter uma ideia, Alonso foi 0s23 mais lento, Grosjean passou acima de um segundo mais lento. Ainda que a “acelerada” de Hamilton tenha sido marginal, ele claramente não tirou no pé. E era uma área de bandeiras amarelas duplas!
Apesar das inconsistências, acho importante a atuação dos comissários. Especialmente depois de decisões de Mundiais como as de 89, 90 e 94, quando um piloto que jogou o carro propositadamente em cima de outro e saiu campeão. Bom saber que isso não aconteceria hoje. Foram três títulos discutíveis, para não dizer vergonhosos.
Pobre WRC
A gestão de Jean Todt no comando da FIA está sendo incrivelmente bipolar. Por um lado, a entidade está trabalhando pesado numa campanha para aumentar a segurança nas estradas, um trabalho importante para o automóvel clube central do planeta. E a maneira discreta com que ele age na Fórmula 1 é, no final das contas, bem mais agradável que a gestão espalhafatosa de Max Mosley. Todt também foi inteligente em prosseguir com um regulamento mais ou menos estável, o que contribuiu de forma decisiva para o equilíbrio de forças atual que vivemos na categoria.
Mas outros pontos importantes foram deixados de lado. O Mundial de Turismo (WTCC) virou um campeonato pequeno e pouco significativo, que não atrai mais o interesse de nenhuma montadora - é apenas um palco para a Chevrolet, a única que sobrou ali, correr e vencer contra uma concorrência praticamente inexistente.
Esperava-se também que Todt seria a pessoa que recolocaria o Mundial de Rali no patamar que ele merece, até pelo seu passado na modalidade. Aqui também há um mar de decepções. O WRC perdeu seu promotor e o processo para se encontrar um novo está sendo lento e demorado demais.
Na última sexta-feira, a FIA anunciou onde serão os treze ralis da próxima temporada. A inclusão de apenas três fora da Europa (Austrália, Argentina e México) surpreendeu e fez sentido num momento de crise intensa na economia europeia, algo que se abate com força ainda maior numa categoria como o WRC.
Mas a lista não trouxe a data de nenhuma das etapas. A FIA explica que é porque não houve uma definição de calendário dos “outros campeonatos” (leia-se Fórmula 1) é que é preciso esperar para não haver um encontrão de datas. Mas a imprensa europeia relata uma briga nos bastidores entre ela e os organizadores de cada rali. Tudo porque, sem um promotor para a categoria, a FIA pretenderia passar a conta paga à empresa que faz a cronometragem para os organizadores de cada evento. Estes resolveram se unir e deixar claro que não pretendem assumir o abacaxi. Negociações seguem nos bastidores.
Enquanto isso, a categoria sumiu da cobertura nas televisões, o que significa praticamente sumir do radar dos patrocinadores, do interesse dos torcedores, enfim, praticamente sumir do mapa. Mudar este quadro, com urgência, deveria ser a prioridade número um da FIA para os próximos meses, semanas, dias, horas.


















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