Fim do controle de altura: quem ganhou e quem perdeu
Muitos engenheiros foram pegos no contrapé quando receberam no final da tarde de sexta-feira um e-mail da FIA informando que o sistema que regula a altura do carro nas freadas era considerado ilegal pela entidade.
Alguns times trabalhavam há um bom tempo no dispositivo que poderia recuperar muito da estabilidade do carro nas freadas que foi perdida com o fim dos difusores soprados. Quem mais apostava na novidade era a equipe Lotus (ex-Renault). Na parte final do ano passado, o time experimentou novos modelos de suspensão nos carros de Vitaly Petrov e Bruno Senna para colher dados para o desenvolvimento de seu sistema. No teste de novos pilotos em Abu Dhabi, ele foi utilizado pela primeira vez e chamou atenção dos concorrentes. Ferrari e Mercedes já tinham suas versões bem adiantadas.
Resta saber se a FIA resolveu proibir o sistema por iniciativa própria ou se pressionada por outros times. Nos bastidores circulava há algumas semanas a informação de que a McLaren nem tinha começado a desenvolver uma versão da novidade. A lógica aponta que ela é o time que mais ganhou com a proibição, já que não gastou nenhum tostão para fazer um dispositivo que não será utilizado.
Mas só isso não basta para acharmos que a equipe de Woking atuou nos bastidores. Talvez a FIA tenha agido sozinha neste caso, simplesmente para fazer o que sempre fez: tentar garantir uma competitividade maior no campeonato. Explico: Os times que tinham o sistema melhor desenvolvido eram os que terminaram o Mundial da 3ª à 5ª posição entre as equipes. Mas muitos especialistas apontam que este sistema não seria o suficiente para que dessem um salto tão grande a ponto de incomodarem a Red Bull. Assim, sua adoção poderia servir justamente para minar o poderio da McLaren, a única equipe que terminou 2011 em condições de incomodar a campeã.
Para evitar uma repetição de uma disputa pelo título que foi bem sem graça, melhor garantir que ela comece a temporada onde terminou a última: em condições de evoluir naturalmente um carro que chegou a fazer frente ao RB7 em algumas ocasiões. Vale lembrar que, mesmo com o fim dos difusores soprados, as mudanças do regulamento técnico para este ano são consideradas pequenas para os especialistas. A tendência é a de um quadro parecido ao do ano passado.
Discrepâncias na Fórmula 1
A coluna é sobre Fórmula 1, mas vamos nos transferir para o cenário do futebol espanhol. Enquanto os gigantes Barcelona e Real Madrid acumulam milhões entre direitos de imagem e dinheiro de patrocinadores, as outras equipes passam por sérias dificuldades financeiras e estão atrasando o pagamento de seus jogadores, o que levou a uma greve que adiou o início da temporada.
Na categoria máxima do automobilismo, as estrelas ainda recebem em dia. Mas o caminho que ela está seguindo é o mesmo. Se olharmos para as doze equipes do grid, metade delas sofre de problemas financeiros em maior ou menor grau. E são poucos os indícios de que há um movimento sério para mudar este quadro.
Os times com dificuldades no orçamento são Renault, Force India, Williams, Lotus, HRT e Virgin. Em níveis diferentes, elas buscam alternativas para compensar a debandada de grandes fontes de dinheiro na F-1. As montadoras e os bancos foram embora, o jeito é apostar na boa vontade de milionários e, principalmente, vender bem caro os cockpits.
Para reverter o quadro, os times se unem em busca de condições melhores na hora de repartir os lucros da F-1. O objetivo é que eles tenham direito a 75% do bolo a partir de 2013, contra os 50% atuais. Bernie Ecclestone se defende com unhas e dentes e a briga nos bastidores vai ferver nos próximos meses.
Mas há um ponto em que os times discordam entre si. Para ajudar os times menores, a FIA busca introduzir uma série de medidas como restrições no orçamento e no uso do túnel de vento. Mas os times grandes são contra. Muitas vezes eles têm mais dinheiro para gastar no desenvolvimento de um carro do que um time pequeno tem para construir o seu. Uma vantagem financeira da qual eles não querem abrir mão.
Sem compromisso, a bola de neve deve crescer. Será que um dia teremos greve de pilotos por falta de pagamento?
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
Animais diferentes, interesses iguais
O triunfo da Ferrari em Silverstone não foi possível apenas pela regra que proibiu os difusores soprados, mas certamente a decisão teve uma grande influência na performance demonstrada pelo F150º Italia num circuito que não lhe era favorável. Outro exemplo claro de como os motores de Maranello foram os menos afetados pela medida foi o fato da Sauber, que também usa estes propulsores, ter tido uma performance melhor que equipes como Mercedes e Renault na prova da Inglaterra.
Mas a falta de clareza da mudança de regras gerou muita discussão ao longo do final de semana e os chefes das equipes se reuniram diversas vezes para decidir o que fazer. Tudo indica que eles estão dispostos a voltar atrás e liberar os escapamentos soprados pelo menos até o final da temporada. Foi o que indicou o chefe da Ferrari Stefano Domenicali depois da corrida em Silverstone:
- Se cada um pensar na própria vantagem, não dá para sair dessa situação. O fato de voltarmos, com 99% de certeza, às regras que tínhamos em Valência é um estímulo a mais para que melhoremos - disse o italiano.
É importante ficar claro que o fato do time estar disposto a abrir mão de uma vantagem que poderia lhe ajudar muito na disputa desse campeonato não é uma questão de “caridade pelo bem comum”, para que a calma volta a reinar nos bastidores.
Na verdade, as equipes perceberam que desagregar nesse momento seria mostrar fraqueza num momento de disputa com Bernie Ecclestone para que elas recebam uma parte maior da divisão de lucros da Fórmula 1. Tudo indica que ideia é deixar de lado a vaidade de cada uma delas agora para ter uma vantagem coletiva depois.
A mais completa tradução
A mudança no meio do campeonato de uma regra que nem a FIA entende direito como funciona só podia dar em confusão. Depois de determinar o fim dos escapamentos soprados nas freadas - ou, na verdade, determinar um novo limite para seu funcionamento, Charlie Whiting acabou fazendo concessões nesse limite. Primeiro para os motores Mercedes e depois para a Renault, baseado em interpretações da regra e alegações de problemas de confiabilidade.
Claro que isso gerou protestos de ambos os lados e, na coletiva oficial de hoje, Martin Whitmarsh da McLaren e Christian Horner da Red Bull trocaram acusações de vantagem indevida daquela maneira elegante que só os ingleses conseguem.
O melhor veio a seguir. Tony Fernandes pediu a palavra depois das réplicas e tréplicas dos dois, para dizer exatamente o que eu penso. Confira:
“Estou vendo estes dois à minha frente. Queria falar algo sobre isso, como alguém que é novo no esporte, no que eu acho ser um pouco ridículo termos esse tipo de discussão. Você não vê muito isso em outros esportes. As regras precisam ser muito claras. As mudanças custam muito dinheiro. Acho que um dos perigos é mudar interpretações, tem que ser preto no branco e acho que é possível que seja. Se você olhar para a GP2, é tudo muito claro. Eu tenho uma equipe de GP2 e não temos lá esse tipo de situação. É claro que a Fórmula 1 é mais avançada tecnologicamente e você precisa de todas essas coisas mas acho que quem controla o esporte precisa deixar as coisas claras. Assim não teremos isso de 10% soprado, 50% soprado, quente, frio, dentro, entre, etc. As equipes e engenheiros teriam clareza. Mesmo que nos últimos meses tivemos polemicas no futebol, mas as regras no futebol são claras, são preto no branco, fáceis do torcedor entender. Este é um grande desafio para a F-1 porque uma pessoa na arquibancada... nem eu consigo entender o que estes dois estão falando, imagina só as pessoas lá fora! Só queria acrescentar isso, como alguém relativamente novo no esporte. Acho que precisa ser mais simples e não acho que faça muita diferença para as pessoas que estão assistindo”.
Brilhante Tony! Espero que te dêem ouvidos.
Dura Lex, Muda Lex
Mudar regra durante um campeonato é sacanagem, não é? Se a CBF criasse agora um item no regulamento que obriga a Rogério Ceni a jogar com as mãos engessadas, numa tentativa de fazer com que o São Paulo perca pontos e não dispare na liderança do Campeonato Brasileiro, seria uma maneira bem artificial de interferir no andamento da disputa. Infelizmente, é o que está acontecendo na Fórmula 1.
Estou falando dos difusores soprados, uma sacada técnica desenvolvida pela Red Bull e (mal) copiada pelo resto das equipes. Não vale a pena entrar nos detalhes de seu funcionamento, de complicado entendimento. Mas é preciso notar que, assim que teve a ideia, a Red Bull a apresentou para a FIA para verificar sua legalidade e recebeu o sinal verde.
Então qual o motivo da mudança agora? Simples: estão arrumando uma maneira artificial de interferir no andamento da disputa. Embora as corridas estejam emocionantes - e para mim, sinceramente, isto é o mais importante -, os dirigentes temem que um domínio exagerado tire o interesse do campeonato e resolveram proibir agora o que haviam liberado antes.
Não por coincidência, a Ferrari é uma das equipes que mais favorecidas com a proibição do difusor soprado. Bem que os italianos tentaram imitar a solução da Red Bull, mas os resultados ficaram bem abaixo do esperado. Restou recorrer a uma das principais armas do time, a sua enorme influência política dentro da FIA.
O efeito dessa marmelada de meio de temporada? Difícil dizer antes de ver a proibição na prática, a partir de Silverstone - aqui em Valência eles continuam em ação, mas o mapeamento terá de ser mudado na classificação, outra maneira de frear o RB7. Até o GP da Inglaterra, a Red Bull já afirmou estar trabalhando numa maneira de compensar a perda. Com o talento de Adrian Newey, é de imaginar que conseguirão fazer isso.
Se bobear, a FIA vai ter que inventar uma outra regra até o final do ano.
(Coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
Briga política da F-1 pode vitimar Interlagos
Enquanto o esporte anda enchendo os olhos, a briga política da Fórmula 1 insiste em manchar a imagem da categoria, vide o ridículo episódio envolvendo o revogado retorno do GP do Bahrein ao calendário da temporada. O pior é que este foi apenas um capítulo do que ainda vem por aí.
Já faz algum tempo que as equipes estão buscando uma participação maior nos lucros da categoria, já que são as protagonistas do espetáculo. Às vésperas de um novo Pacto da Concórdia - o acordo que regulamenta todas as questões comerciais da categoria -, a FOTA joga com todas as suas armas para passar a ter 75% dos lucros do bolo. Atualmente, ela fica com a metade.
Neste tabuleiro, a associação dos times tem três jogadas possíveis. A primeira seria convencer a Bernie Ecclestone a atender seus anseios e recalcular essa partilha dos lucros, algo que ele já deixou claro não estar disposto a fazer.
A segunda opção seria comprar os direitos comerciais da F-1 do grupo CVC, para quem Ecclestone trabalha, algo que já foi sinalizado no início de maio em um comunicado em conjunto do grupo financeiro italiano Exor e do grupo global de mídia News Corporation - e, pelo que eu apurei, com o dinheiro e apoio de uma série de grupos financeiros árabes, o que explicaria o fato do representante das equipes no Conselho Mundial, Stefano Domenicali, ter votado a favor da volta do Bahrein ao calendário, para depois deixar a batata queimar nas mãos da FIA e de Ecclestone.
Se Bernie e a CVC permanecerem irredutíveis, a solução da FOTA é apelar para sua terceira e última alternativa: romper com eles e criar um campeonato paralelo. Algo que já foi tentado em 2009, quando acabou-se costurando o Pacto da Concórdia que vigora atualmente. A diferença dessa vez é que a FIA, com Jean Todt na presidência, está do lado das equipes, o que facilitaria na chancela de um eventual campeonato que seria a Fórmula 1 mas não se chamaria Fórmula 1 - sugestão de nomes, alguém?
Se a briga chegar a esse ponto, o GP do Brasil seria uma das vítimas do conflito. Em 2009, quando os membros da FOTA se sentaram numa mesa de reunião da fábrica da Renault e saíram de lá anunciando a criação de um novo campeonato, havia até um mesmo uma lista dos locais que receberiam as provas. Eram 14 e eu passo para vocês abaixo:
Europa
Barcelona
Brno
Jerez
Mônaco
Monza
Nürburgring
Silverstone
Spa-Francorchamps
Fora da Europa
Cingapura
Melbourne
Montreal
Sepang
Suzuka
Xangai
Sim, Interlagos teria ficado fora. E pelo mesmo motivo que fez com que nem se cogitasse uma etapa de Fórmula Indy no autódromo: a Prefeitura Municipal tem um acordo de longa data com Bernie Ecclestone e a realização de provas internacionais que não sejam a Fórmula 1 precisam de sua benção. Não é o caso das pistas listadas acima, mas é também o de circuitos como Istambul e Hungaroring.
Curiosamente, em 2009 uma das prioridades da FOTA era a manutenção da prova brasileira no calendário - por sua tradição e pela importância do país para as equipes e patrocinadores. Mas não teve jeito. O pior é que uma alternativa não existe: Jacarepaguá morreu e Curitiba é impraticável para uma prova de F-1, curto demais. E Bernie jamais daria sua benção para que um campeonato "pirata" corresse em Interlagos.
Assim, um eventual “racha” seria um golpe profundo não só na estrutura da F-1 em si como na presença de seus atores no Brasil. O bom é que esta alternativa, no momento, parece ser a menos provável das três que a FOTA está tentando.
Lição de casa
Se a Fórmula 1 fosse um país, sua história política poderia ser resumida mais ou menos assim:
“Era uma vez um pequeno reinado governado por um déspota chamado Órgão Regulador que se preocupava apenas em garantir o seu dinheiro e se sustentava com o apoio de um senado composto por Organizadores de GPs, que também tiravam o seu quinhão de um espetáculo bonito mas cheio de sangue promovido pela plebe, também conhecida como Equipes.
Eis que no meio dessa plebe surge o grande libertador Carlos Bernardo, que une as distintas facções em torno do bem comum de lhes dar acesso maior à riqueza. A briga com o Órgão Regulador é dura e vencida apenas graças às incríveis capacidades de negociador do libertador. Durante um tempo, ao qual batizamos de ‘primeira república’, Bernardo consegue deixar o poder executivo nas mãos do Órgão Regulador, mas consegue que as Equipes controlem a riqueza e subjuguem os Organizadores de GP.
O pequeno país cresce e vira uma rica potência global. Mas Bernardo faz valer sua latente ganância e trai as equipes, fazendo um acordo com o Órgão Regulador para que a maior parte das riquezas do reino fique só com ele, deixando às Equipes uma parcela menor - bem maior que na época do pequeno reinado, mas proporcionalmente menor ao que elas queriam. É o ‘período moderno’.
Nos dias atuais, a república vive a ameaça de uma revolução, já que as Equipes querem diminuir o poder de Carlos Bernardo e, para isso, contam com o apoio justamente do Órgão Regulador. Mas isso está gerando alguns problemas. O acordo comercial com um importante reino do Oriente naufragou pelos problemas internos deste, mas a tentativa de retomada do negócio deixou clara que falta à República da Fórmula 1 uma política coesa, pois é um país com três facções que possuem interesses individuais. E não muito chegadas à uma boa política de coalizão”.
Deixando de lado aqui a óbvia constatação de que o Bahrein ainda tem coisas muito mais urgentes para resolver como Nação - algo que é muito mais relevante do que uma categoria esportiva - vale olhar para a história desse país chamado F-1 e pensar no seu futuro. O que aconteceu na última semana foi um fiasco que daqui a alguns anos vai render apenas uma nota de rodapé nos livros que falarão da temporada 2011. Mas é preciso tirar lições disso.
Vejo apenas dois caminhos possíveis para a política da Fórmula 1. O primeiro seria a união dessas três partes sendo que cada uma abrisse mão de alguns de seus interesses pelo bem comum de fazer a categoria voltar a ter a credibilidade que já teve um dia como um grande evento esportivo e, assim, atrair mais tantos patrocinadores como no passado. Mas as perspectivas disso acontecer são pequenas, pois já se passaram alguns anos em que estas partes estão se degladiando e não vejo a perspectiva disso terminar.
A outra seria um racha. Sem o apoio da FIA e de Bernie Ecclestone, as equipes teriam de seguir o caminho da DTM, criando um grupo delas que cuidasse de fazer as regras, administrar o campeonato e cuidar de seu marketing. Seria uma F-1 menor e, pelo conhecido fato dos times muitas vezes não falarem a mesma língua, um que dificilmente funcionaria - exemplo maior disso foi o fato de que, de acordo com Jean Todt, o representante das equipes no Conselho Mundial Stefano Domenicali votou a favor da reinclusão do Bahrein no calendário, enquanto a FOTA era contra.
Prefiro a primeira opção, com a união das partes. Mas trocando os comandantes de cada uma delas. Depois desse papelão, essa turma toda que está aí merece mesmo é ficar de recuperação.
Sabonete
Ainda estou para conhecer alguém mais liso do que Bernie Ecclestone. Quando se pensa que ele está num beco saída, surge um golpe de mestre e ele sai por cima, fazendo valer o seu interesse - que normalmente não tem nada a ver com o interesse que está sendo discutido. É como se ele fosse um enxadrista excepcional que sacrifica o cavalo, o bispo e a rainha para dar xeque-mate em seguida com o peão, quando todos achavam que sua partida tinha ido pro brejo. Depois revemos as jogadas e percebemos que ele tinha calculado tudo.
No dia em que a FIA anunciou a volta do Bahrein no calendário, era conhecido que pessoas importantes da FOTA haviam pedido a Bernie para que a temporada não se estendesse dezembro adentro. Assim, ficou parecendo que ele pesou tudo e a balança pendeu claramente para os 40 milhões de Euros que ele receberia pela realização da prova. Foi o que eu li da situação também.
Mas me chamou a atenção como ele vestiu a toga de Nero e passou a incendiar Roma em meio à escandalizada reação da opinião pública em cima da decisão. E continua com sua piromania, garantindo agora que a prova barenita não vai ocorrer dia 30 de outubro, “porque as equipes não querem”.
Ele só mentiu quando disse que “não era uma questão de dinheiro”. Era sim, mas bem mais que os 40 milhões já citados. O que Bernie Ecclestone conseguiu com esse episódio que há quase uma semana toma os noticiários foi jogar a FOTA contra Jean Todt - os dois que eram os maiores aliados na briga para diminuir os lucros da FOM com a Fórmula 1. E dentro das fatias desse bolo, 40 milhões é migalha.
No saldo final, a imagem do esporte pode ter sido arranhada, mas Bernie sabe medir isso muito bem. Basta um GP do Canadá que tem tudo para ser emocionante para curar essas marcas. Só que agora ele desagregou seus principais adversários na briga mais importante para ele, a do novo Pacto da Concórdia. Xeque. As equipes estão vendo que o homem da FIA em quem elas queriam confiar tem a sua própria agenda e, para cumprí-la, passaria sobre o desejo delas sem receios.
Xeque-mate?
Uma $ábia decisão
A decisão de recolocar o Bahrein no calendário deste ano vai ao encontro do interesse de todo mundo que tem voz ativa na categoria. Para Bernie Ecclestone, a decisão mantém o pagamento milionário que recebe do governo barenita pela realização do evento; o presidente da FIA agrada a um importante parceiro financeiro da entidade e um dos maiores apoiadores de sua campanha; e a Ferrari - representante das equipes no Conselho Mundial - atende o desejo das marcas de carros preocupadas se promover no mercado árabe, o que inclui também a Mercedes e a McLaren (equipe que tem a família real barenita como uma de suas acionárias).
O comunicado da oficial da FIA, é claro, segue um tom altruísta: “a decisão reflete o espírito de reconciliação no Bahrein, o que é evidente no forte apoio que a corrida recebe do governo e todos os grandes partidos do país, incluindo o maior grupo de oposição. O Conselho Mundial reconhece que recolocar o GP no calendário é uma forma de ajudar a unir as pessoas num país que busca olhar em frente”.
O único sinal público de descontentamento partiu da Red Bull, que reconheceu a decisão e disse que irá discutí-la nos fóruns apropriados com as outras equipes da Fórmula 1 e membros da FOTA. Deixar os funcionários trabalhando até o meio de dezembro é justamente o que desagrada a esta e outras equipes também. Mas com os diretores de Ferrari, McLaren e Mercedes apoiando o GP, como imaginar que vão pensar na família do Zé Ninguém que ganha a vida polindo rodas?
Se o futebol, esporte mais popular do mundo, está se afundando na máfia comandada por Joseph Blatter e seus comparsas, a F-1 provou hoje que não deve em nada em falta de escrúpulos e de bom senso. Com estes no comando, estamos ferrados.











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