Discrepâncias na Fórmula 1
A coluna é sobre Fórmula 1, mas vamos nos transferir para o cenário do futebol espanhol. Enquanto os gigantes Barcelona e Real Madrid acumulam milhões entre direitos de imagem e dinheiro de patrocinadores, as outras equipes passam por sérias dificuldades financeiras e estão atrasando o pagamento de seus jogadores, o que levou a uma greve que adiou o início da temporada.
Na categoria máxima do automobilismo, as estrelas ainda recebem em dia. Mas o caminho que ela está seguindo é o mesmo. Se olharmos para as doze equipes do grid, metade delas sofre de problemas financeiros em maior ou menor grau. E são poucos os indícios de que há um movimento sério para mudar este quadro.
Os times com dificuldades no orçamento são Renault, Force India, Williams, Lotus, HRT e Virgin. Em níveis diferentes, elas buscam alternativas para compensar a debandada de grandes fontes de dinheiro na F-1. As montadoras e os bancos foram embora, o jeito é apostar na boa vontade de milionários e, principalmente, vender bem caro os cockpits.
Para reverter o quadro, os times se unem em busca de condições melhores na hora de repartir os lucros da F-1. O objetivo é que eles tenham direito a 75% do bolo a partir de 2013, contra os 50% atuais. Bernie Ecclestone se defende com unhas e dentes e a briga nos bastidores vai ferver nos próximos meses.
Mas há um ponto em que os times discordam entre si. Para ajudar os times menores, a FIA busca introduzir uma série de medidas como restrições no orçamento e no uso do túnel de vento. Mas os times grandes são contra. Muitas vezes eles têm mais dinheiro para gastar no desenvolvimento de um carro do que um time pequeno tem para construir o seu. Uma vantagem financeira da qual eles não querem abrir mão.
Sem compromisso, a bola de neve deve crescer. Será que um dia teremos greve de pilotos por falta de pagamento?
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
Briga política da F-1 pode vitimar Interlagos
Enquanto o esporte anda enchendo os olhos, a briga política da Fórmula 1 insiste em manchar a imagem da categoria, vide o ridículo episódio envolvendo o revogado retorno do GP do Bahrein ao calendário da temporada. O pior é que este foi apenas um capítulo do que ainda vem por aí.
Já faz algum tempo que as equipes estão buscando uma participação maior nos lucros da categoria, já que são as protagonistas do espetáculo. Às vésperas de um novo Pacto da Concórdia - o acordo que regulamenta todas as questões comerciais da categoria -, a FOTA joga com todas as suas armas para passar a ter 75% dos lucros do bolo. Atualmente, ela fica com a metade.
Neste tabuleiro, a associação dos times tem três jogadas possíveis. A primeira seria convencer a Bernie Ecclestone a atender seus anseios e recalcular essa partilha dos lucros, algo que ele já deixou claro não estar disposto a fazer.
A segunda opção seria comprar os direitos comerciais da F-1 do grupo CVC, para quem Ecclestone trabalha, algo que já foi sinalizado no início de maio em um comunicado em conjunto do grupo financeiro italiano Exor e do grupo global de mídia News Corporation - e, pelo que eu apurei, com o dinheiro e apoio de uma série de grupos financeiros árabes, o que explicaria o fato do representante das equipes no Conselho Mundial, Stefano Domenicali, ter votado a favor da volta do Bahrein ao calendário, para depois deixar a batata queimar nas mãos da FIA e de Ecclestone.
Se Bernie e a CVC permanecerem irredutíveis, a solução da FOTA é apelar para sua terceira e última alternativa: romper com eles e criar um campeonato paralelo. Algo que já foi tentado em 2009, quando acabou-se costurando o Pacto da Concórdia que vigora atualmente. A diferença dessa vez é que a FIA, com Jean Todt na presidência, está do lado das equipes, o que facilitaria na chancela de um eventual campeonato que seria a Fórmula 1 mas não se chamaria Fórmula 1 - sugestão de nomes, alguém?
Se a briga chegar a esse ponto, o GP do Brasil seria uma das vítimas do conflito. Em 2009, quando os membros da FOTA se sentaram numa mesa de reunião da fábrica da Renault e saíram de lá anunciando a criação de um novo campeonato, havia até um mesmo uma lista dos locais que receberiam as provas. Eram 14 e eu passo para vocês abaixo:
Europa
Barcelona
Brno
Jerez
Mônaco
Monza
Nürburgring
Silverstone
Spa-Francorchamps
Fora da Europa
Cingapura
Melbourne
Montreal
Sepang
Suzuka
Xangai
Sim, Interlagos teria ficado fora. E pelo mesmo motivo que fez com que nem se cogitasse uma etapa de Fórmula Indy no autódromo: a Prefeitura Municipal tem um acordo de longa data com Bernie Ecclestone e a realização de provas internacionais que não sejam a Fórmula 1 precisam de sua benção. Não é o caso das pistas listadas acima, mas é também o de circuitos como Istambul e Hungaroring.
Curiosamente, em 2009 uma das prioridades da FOTA era a manutenção da prova brasileira no calendário - por sua tradição e pela importância do país para as equipes e patrocinadores. Mas não teve jeito. O pior é que uma alternativa não existe: Jacarepaguá morreu e Curitiba é impraticável para uma prova de F-1, curto demais. E Bernie jamais daria sua benção para que um campeonato "pirata" corresse em Interlagos.
Assim, um eventual “racha” seria um golpe profundo não só na estrutura da F-1 em si como na presença de seus atores no Brasil. O bom é que esta alternativa, no momento, parece ser a menos provável das três que a FOTA está tentando.
Lição de casa
Se a Fórmula 1 fosse um país, sua história política poderia ser resumida mais ou menos assim:
“Era uma vez um pequeno reinado governado por um déspota chamado Órgão Regulador que se preocupava apenas em garantir o seu dinheiro e se sustentava com o apoio de um senado composto por Organizadores de GPs, que também tiravam o seu quinhão de um espetáculo bonito mas cheio de sangue promovido pela plebe, também conhecida como Equipes.
Eis que no meio dessa plebe surge o grande libertador Carlos Bernardo, que une as distintas facções em torno do bem comum de lhes dar acesso maior à riqueza. A briga com o Órgão Regulador é dura e vencida apenas graças às incríveis capacidades de negociador do libertador. Durante um tempo, ao qual batizamos de ‘primeira república’, Bernardo consegue deixar o poder executivo nas mãos do Órgão Regulador, mas consegue que as Equipes controlem a riqueza e subjuguem os Organizadores de GP.
O pequeno país cresce e vira uma rica potência global. Mas Bernardo faz valer sua latente ganância e trai as equipes, fazendo um acordo com o Órgão Regulador para que a maior parte das riquezas do reino fique só com ele, deixando às Equipes uma parcela menor - bem maior que na época do pequeno reinado, mas proporcionalmente menor ao que elas queriam. É o ‘período moderno’.
Nos dias atuais, a república vive a ameaça de uma revolução, já que as Equipes querem diminuir o poder de Carlos Bernardo e, para isso, contam com o apoio justamente do Órgão Regulador. Mas isso está gerando alguns problemas. O acordo comercial com um importante reino do Oriente naufragou pelos problemas internos deste, mas a tentativa de retomada do negócio deixou clara que falta à República da Fórmula 1 uma política coesa, pois é um país com três facções que possuem interesses individuais. E não muito chegadas à uma boa política de coalizão”.
Deixando de lado aqui a óbvia constatação de que o Bahrein ainda tem coisas muito mais urgentes para resolver como Nação - algo que é muito mais relevante do que uma categoria esportiva - vale olhar para a história desse país chamado F-1 e pensar no seu futuro. O que aconteceu na última semana foi um fiasco que daqui a alguns anos vai render apenas uma nota de rodapé nos livros que falarão da temporada 2011. Mas é preciso tirar lições disso.
Vejo apenas dois caminhos possíveis para a política da Fórmula 1. O primeiro seria a união dessas três partes sendo que cada uma abrisse mão de alguns de seus interesses pelo bem comum de fazer a categoria voltar a ter a credibilidade que já teve um dia como um grande evento esportivo e, assim, atrair mais tantos patrocinadores como no passado. Mas as perspectivas disso acontecer são pequenas, pois já se passaram alguns anos em que estas partes estão se degladiando e não vejo a perspectiva disso terminar.
A outra seria um racha. Sem o apoio da FIA e de Bernie Ecclestone, as equipes teriam de seguir o caminho da DTM, criando um grupo delas que cuidasse de fazer as regras, administrar o campeonato e cuidar de seu marketing. Seria uma F-1 menor e, pelo conhecido fato dos times muitas vezes não falarem a mesma língua, um que dificilmente funcionaria - exemplo maior disso foi o fato de que, de acordo com Jean Todt, o representante das equipes no Conselho Mundial Stefano Domenicali votou a favor da reinclusão do Bahrein no calendário, enquanto a FOTA era contra.
Prefiro a primeira opção, com a união das partes. Mas trocando os comandantes de cada uma delas. Depois desse papelão, essa turma toda que está aí merece mesmo é ficar de recuperação.
Sabonete
Ainda estou para conhecer alguém mais liso do que Bernie Ecclestone. Quando se pensa que ele está num beco saída, surge um golpe de mestre e ele sai por cima, fazendo valer o seu interesse - que normalmente não tem nada a ver com o interesse que está sendo discutido. É como se ele fosse um enxadrista excepcional que sacrifica o cavalo, o bispo e a rainha para dar xeque-mate em seguida com o peão, quando todos achavam que sua partida tinha ido pro brejo. Depois revemos as jogadas e percebemos que ele tinha calculado tudo.
No dia em que a FIA anunciou a volta do Bahrein no calendário, era conhecido que pessoas importantes da FOTA haviam pedido a Bernie para que a temporada não se estendesse dezembro adentro. Assim, ficou parecendo que ele pesou tudo e a balança pendeu claramente para os 40 milhões de Euros que ele receberia pela realização da prova. Foi o que eu li da situação também.
Mas me chamou a atenção como ele vestiu a toga de Nero e passou a incendiar Roma em meio à escandalizada reação da opinião pública em cima da decisão. E continua com sua piromania, garantindo agora que a prova barenita não vai ocorrer dia 30 de outubro, “porque as equipes não querem”.
Ele só mentiu quando disse que “não era uma questão de dinheiro”. Era sim, mas bem mais que os 40 milhões já citados. O que Bernie Ecclestone conseguiu com esse episódio que há quase uma semana toma os noticiários foi jogar a FOTA contra Jean Todt - os dois que eram os maiores aliados na briga para diminuir os lucros da FOM com a Fórmula 1. E dentro das fatias desse bolo, 40 milhões é migalha.
No saldo final, a imagem do esporte pode ter sido arranhada, mas Bernie sabe medir isso muito bem. Basta um GP do Canadá que tem tudo para ser emocionante para curar essas marcas. Só que agora ele desagregou seus principais adversários na briga mais importante para ele, a do novo Pacto da Concórdia. Xeque. As equipes estão vendo que o homem da FIA em quem elas queriam confiar tem a sua própria agenda e, para cumprí-la, passaria sobre o desejo delas sem receios.
Xeque-mate?
Uma $ábia decisão
A decisão de recolocar o Bahrein no calendário deste ano vai ao encontro do interesse de todo mundo que tem voz ativa na categoria. Para Bernie Ecclestone, a decisão mantém o pagamento milionário que recebe do governo barenita pela realização do evento; o presidente da FIA agrada a um importante parceiro financeiro da entidade e um dos maiores apoiadores de sua campanha; e a Ferrari - representante das equipes no Conselho Mundial - atende o desejo das marcas de carros preocupadas se promover no mercado árabe, o que inclui também a Mercedes e a McLaren (equipe que tem a família real barenita como uma de suas acionárias).
O comunicado da oficial da FIA, é claro, segue um tom altruísta: “a decisão reflete o espírito de reconciliação no Bahrein, o que é evidente no forte apoio que a corrida recebe do governo e todos os grandes partidos do país, incluindo o maior grupo de oposição. O Conselho Mundial reconhece que recolocar o GP no calendário é uma forma de ajudar a unir as pessoas num país que busca olhar em frente”.
O único sinal público de descontentamento partiu da Red Bull, que reconheceu a decisão e disse que irá discutí-la nos fóruns apropriados com as outras equipes da Fórmula 1 e membros da FOTA. Deixar os funcionários trabalhando até o meio de dezembro é justamente o que desagrada a esta e outras equipes também. Mas com os diretores de Ferrari, McLaren e Mercedes apoiando o GP, como imaginar que vão pensar na família do Zé Ninguém que ganha a vida polindo rodas?
Se o futebol, esporte mais popular do mundo, está se afundando na máfia comandada por Joseph Blatter e seus comparsas, a F-1 provou hoje que não deve em nada em falta de escrúpulos e de bom senso. Com estes no comando, estamos ferrados.
Guerra Fria
Quem apenas lê as manchetes deve estar estarrecido que um grupo financeiro italiano que tem a Ferrari entre as empresas que possui vá fazer uma proposta pela compra da Fórmula 1. Pode passar a impressão que a equipe vai comprar a bola e o juiz para fazer um campeonato do qual ela sempre saia vencedora. Mas, como sempre no complicado tabuleiro do xadrez político da Fórmula 1, é preciso dar um passo atrás para ver com calma todas as jogadas que estão implícitas após o último movimento.
O fato é que a partida entrou faz um tempo em sua fase decisiva e as peças comandadas pelas equipes deram um “xeque” no rei Bernie Ecclestone. Longe de ser mate. Isso fica claro na própria formulação do comunicado distribuído ontem pelo grupo Exor, indo na linha do “anunciamos que estamos pensando em fazer algo que no final das contas nem sabemos se vamos fazer de verdade”.
Senão, vejamos o texto na íntegra: “Exor, um dos maiores grupos de investimentos da Europa, e News Corporation, o grupo global de mídia, confirmam que estão em estágios iniciais de criar um consórcio com a visão de formular um termo a longo prazo para o desenvolvimento da Fórmula 1 no interesse de seus participantes e dos fãs.
Nas próximas semanas e meses, EXOR e News Corporation vão conversar com parceiros minoritários em potencial e sócios importantes do esporte. Não há certeza se isso levará a uma oferta aos atuais proprietários da Fórmula 1”.
Esta aí, preto no branco, uma maneira muito elaborada das equipes dizerem “Bernie, a gente vai quebrar o pau por conta desse novo Pacto da Concórdia. Não queira endurecer porque a gente tem bala para comprar tudo e deixar você de mãos vazias”. Até porque o CVC, a quem Ecclestone responde, é naturalmente interessado em ouvir uma proposta se ela for vantajosa, mesmo que oficialmente a categoria não esteja à venda. Afinal, eles também são investidores e eles vivem disso.
É claro que a Ferrari, como principal marca associada à Fórmula 1, foi quem liderou o movimento, mas não seja ingênuo a ponto de imaginar que as outras equipes da FOTA não estejam por trás. Os “sócios importantes do esporte” são elas e é claro que estão todas no mesmo barco - menos a Hispania, que se desassociou à FOTA para agradar Bernie e ganhar mais chances de sobrevivência na F-1 atual, onde ele ainda manda.
Ainda faltam dois meses, mas sinto que o final de semana do GP da Inglaterra, em Silverstone, vai ferver como há dois anos, quando os times da categoria chegaram a anunciar um racha e voltaram atrás. Resta saber, caso optem pela mesma ruptura, não seria de forma definitiva.







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