1jul/115

Museu em movimento

Papai me empresta o carro

Começa hoje na Inglaterra o tradicional Festival de Goodwood, uma verdadeira jóia para o amante do esporte a motor. Tive o privilégio de estar lá na edição de 2005 e contei o que vi numa coluna publicada em 29 de junho daquele ano no GP Total. Vale a pena relembrar!

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Existem alguns templos sagrados para fãs da história do automobilismo. No Indianapolis Hall of Fame ou no Donington Grand Prix Collection, é possível admirar uma vasta seleção dos carros que fizeram a história do esporte a motor. Mas não há nada que se compare ao Goodwood Festival of Speed. Além de reunir, em um só evento, os principais modelos das mais diferentes categorias – como Fórmula 1, Le Mans, Indy, Nascar, Turismo Europeu e Rali Mundial –, seu principal atrativo reside no simples fato que os carros estão em movimento.

Três dias por ano, o Conde de March abre os jardins de sua gigantesca propriedade no Sul da Inglaterra para que 150 mil aficionados por corrida vivam a experiência única de comparar, por exemplo, o imponente ronco do motor de um Matra MS120 com a histeria aguda de um Honda do BAR de 2004, ou qualquer outro Fórmula 1 moderno.

Tive a incrível oportunidade de conferir o evento no último domingo. É deliciosa a constatação de que tudo o que ocorre ali dentro é movido pela emoção, seja dos espectadores, seja dos pilotos convidados ou até dos mecânicos que preparam as máquinas. No final do dia, encontrei René Arnoux, recém-saído do lindíssimo Renault RS01 (de 1977, pilotado na época por Jean-Pierre Jabouille).

Ao ver ídolo e máquina reunidos, por mais que tentasse, não consegui empunhar o gravador para uma rápida entrevista, mas corri com caneta e papel na mão para um autógrafo. O piloto sorriu e, ao entregar a assinatura, percebeu minha comoção. “Fico muito feliz que você está feliz por isso”, comentou, me dando um tapinha e caminhando em frente com o auxílio de uma muleta. Nem uma fratura de stress no pé esquerdo, ocorrida durante um jogging matinal, o deixou de fora da festa.

Claro que o momento mais arrepiante foi ver o Lotus 72 zunindo debaixo do meu nariz, com aquele inconfundível capacete preto e vermelho se destacando no cockpit. Quando nasci, Emerson já havia trocado o time de Colin Chapman pela McLaren. Mas Goodwood realiza qualquer sonho, e o meu de vê-lo em ação com um dos carros mais lindos da história da Fórmula 1 foi realizado.

E não fui o único. Apesar de não encontrar Emerson no paddock, bati um papo delicioso com um dos mecânicos que havia preparado o carro. E seus olhos se encheram de água ao relembrar a experiência que tivera na manhã. “Eu tinha 19 anos quando Emerson foi campeão com esse carro. Mas só o conheci hoje. Tive de ir correndo daqui para a linha de chegada para lhe entregar seu capacete, que ele havia esquecido aqui nos boxes. Nunca imaginei que passaria por um momento como este. Ele, além de um grande piloto, é uma pessoa adorável”, comentou.

Também foi bonito ver Nelsinho Piquet pilotando o FW11 que deu a seu pai o tricampeonato mundial de 1987. Depois, ele me deu sua opinião sobre qual a maior diferença daquele carro com um F-1 dos dias atuais. “Naquela época, você tinha de pilotar o carro de verdade!” Ah, bom saber...

Mas nem só de Fórmula 1 vive Goodwood. Um dos momentos mais deliciosos do meu domingo foi passear pelo paddock de rali. Pela primeira vez na história do evento, criaram uma especial, de terra, para que estas máquinas passeassem em seu habitat natural. E lá estavam praticamente todos os carros que sempre me fascinaram: o Lancia Stratos, o Renault 5, o Saab 96, o Audi Quattro, enfim, a lista é tão grande como o deslumbramento de acompanhar uma reunião de modelos como estes.

E, embora junte carros e pilotos do mundo todo, o Goodwood Festival of Speed é uma festa genuinamente inglesa. Organização impecável, preços exorbitantes (embora nem tanto se comparados aos de uma corrida de F-1 hoje em dia) e, acima de tudo, um público absolutamente fanático por automobilismo. Em certo ponto, um senhor de uns 70 anos perguntou a um ricaço de uns 50 anos, onde havia comprado aquela belíssima Maserati 4CLT dos anos 40. Ao ouvir que havia sido na Argentina, emendou o número do chassi, quem o havia pilotado em qual corrida e quais eram suas principais vitórias. Tanto o dono como eu ficamos absolutamente boquiabertos.

Se hoje a Fórmula 1 vai se afundando numa gigantesca crise política, o festival em Goodwood é uma sonora reafirmação dos valores quase perdidos do automobilismo. Colocando o público ao alcance de carros e pilotos, o Conde de March mostra que, em pleno século XXI, é possível ver o esporte a motor como o que ele é realmente: um esporte. Pena que não convidaram o Max pra ver...