31dez/124

Os melhores de 2012

Num ano em que as equipes viveram grandes altos e baixos e alternando em pequenos períodos (às vezes corrida por corrida) suas janelas de domínio, os destaques do ano ficaram para pilotos e para corridas específicas. Talvez o que explique esta excelente temporada tenha sido isto, como o lado humano voltou a ganhar peso num momento de grande competitividade. Com vocês, os melhores de 2012, novamente em ordem crescente:

10 - Uma corrida para Frida
Na manhã do GP da Malásia, Sergio Perez expressou no twitter sua tristeza pela morte de “Frida”, sua cachorra que vivia no México e o acompanhou em boa parte de sua vida. “Dedico a corrida de hoje para ela”, escreveu. Seguiu-se uma das grandes exibições da temporada, com Perez aproveitando condições favoráveis a sua Sauber para imprimir um ritmo alucinante e pressionar um endiabrado Fernando Alonso na briga pela vitória. Ela não veio, mas Frida foi devidamente homenageada.

9 - Nico Hülkenberg
Em sua segunda temporada completa na Fórmula 1 o alemão voltou a demonstrar sinais positivos. Demorou um pouquinho para pegar a mão, talvez fruto do ano sabático que fez, mas andou bem em diversas ocasiões. No Brasil foi onde mais chamou atenção, mas suas performances na Bélgica (onde terminou em quarto) e na Coreia do Sul (onde fez uma das ultrapassagens do ano) foram outros exemplos de um piloto com muito potencial.

8 - As corridas finais de Felipe Massa
Se as primeiras corridas foram de chorar, as duas últimas provas de Felipe Massa em 2012 fizeram lembrar o seu auge. Em ambas, superou Fernando Alonso na classificação e em ritmo de corrida, isto com o espanhol no meio de uma acirrada briga pelo título. Por conta disso, o brasileiro ainda agiu como o companheiro de equipe que a Ferrari tanto preza, recebendo um golpe abaixo da linha da cintura no Texas e fazendo uma prova tática a favor do espanhol no Brasil (protegou Alonso na ultrapassagem da segunda volta, segurou o pelotão que vinha atrás em seguida, cedeu posição perto do final). Não sabemos se foi pura forma ou se foi questão de circuito, mas se ele levar um pouco disto para 2013 fará um favor enorme a seu futuro.

7 - A apoteose de Alonso em Valência
Fernando Alonso desabou no pódio em Valência. Ao final de uma semana onde muito se falou da falta de futuro da prova em meio à turbulenta recessão que assola o país, o espanhol passou a semana dizendo que a corrida traria um bálsamo para o sofrimento geral. E ele conseguiu uma vitória improvável, largando de 11º lugar, fazendo ultrapassagens importantes e se colocando na posição certa para aproveitar o infortúnio de outros pilotos. Ao final, parou o carro diante de uma arquibancada e celebrou uma das festas mais bonitas de 2012.

6 - Os rádios de Kimi Raikkonen
Sempre me referi a Kimi Raikkonen como o “Buster Keaton” das pistas, pela sua capacidade inata de cativar sem precisar sorrir. A veia para comediante pulsou forte nas conversas pelo rádio com seu engenheiro durante o GP de Abu Dhabi. O finlandês sabia mesmo muito bem o que estava fazendo, tanto que encontrou uma equipe que o deixasse em paz nesta sua volta à Fórmula 1 - e isto o permitiu render o máximo. E nos permitiu ter acesso a momentos de comédia poética como estas falas na noite do deserto.

5 - O pódio de Kobayashi
Uma das memórias que sempre guardarei com carinho destes anos de périplo por circuitos do mundo todo foi o de ver e ouvir Suzuka explodindo no momento em que Kamui Kobayashi apareceu no pódio para receber seu troféu pelo terceiro lugar no GP do Japão. Um grito de gol há muito engasgado na garganta de um povo absolutamente fanático por Fórmula 1 para celebrar seu herói. O resultado não foi o suficiente para lhe garantir um lugar no ano que vem, mas a festa em sua casa foi algo que ele merecia muito.

4 - A reação ao incêndio
Numa temporada em que a trajetória esportiva de todo mundo foi similar a de uma montanha-russa, um dos momentos mais dramáticos foi justamente um episódio que fez aflorar o lado humano em um meio tão competitivo. A explosão de um tanque de combustível dentro dos boxes da Williams após o GP da Espanha aconteceu quando a equipe e vários jornalistas estavam na frente dos boxes para festejar o inesperado triunfo de Pastor Maldonado. Em poucos instantes, membros de todas as equipes se uniam para combater o incêndio enquanto muitos ali presentes cuidaram de ajudar quem estivesse do lado a sair da zona das chamas com segurança. Um voto de esperança na espécie humana.

3 - GP dos Estados Unidos
Austin, a capital do Texas, foi um dos maiores presentes que a Fórmula 1 poderia ganhar em mais de 60 anos de história. Uma cidade alegre, que celebra a música ao vivo e com espírito jovem, um oásis bem no meio do conservadorismo daquele estado. A turma de lá construiu um circuito excepcional e fez do evento um show como os norte-americanos são especialistas em fazer. E, como a cereja do bolo, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel protagonizaram durante mais de 40 voltas uma sensacional briga de gato-e-rato pela vitória. Que tenha sido o primeiro GP de muitos por ali.

2 - GP do Brasil
A briga está quente no pelotão intermediário, com posições sendo trocadas o tempo todo. Corte para a ultrapassagem de Jenson Button sobre Lewis Hamilton para assumir a liderança. Corte para a Lotus de Romain Grosjean escapando no mergulho e batendo na barreira de pneus. Corte para a briga intensa ali no meio, com gente escapando no final da reta e batendo rodas no “S” do Senna. Foi este o ritmo de intensidade da prova que encerrou um grande ano. Que ainda por cima carregou nos tons dramáticos da disputa pelo título, com um Sebastian Vettel escapando de maneira milagrosa de uma pancada tripla na primeira volta (e de mais um ou outro erro de estratégia) para fazer uma notável prova de recuperação e ganhar seu terceiro título consecutivo e fazer história. Numa corrida que vai entrar para a história como uma das melhores que a categoria já celebrou. Para mim, a melhor.

1 - A nova geração de ouro
Parece uma saída fácil escolher quatro pilotos para o único posto de melhor do ano, mas foi como se os planetas se alinhassem em 2012 para uma era estelar na Fórmula 1: um Sebastian Vettel ganhando seu título mais difícil num ano em que teve de trabalhar duro para deixar o carro do jeito que lhe aprazia e capitalizar quando isto aconteceu; um Fernando Alonso no auge de suas faculdades como piloto, atuando com destreza absoluta a cada segundo para maximizar suas chances de ser campeão, seja na pista ou fora dela, e por muito pouco não ganhou um título bastante improvável; um Kimi Raikkonen atuando na base do puro talento para completar quase todas as voltas do ano (só perdeu uma, no Brasil, justamente por ter pego um caminho errado numa escapada em Interlagos), vencer um GP e terminar o ano num terceiro lugar muito além do seu equipamento; e um Lewis Hamilton que reencontrou seu caminho, pilotando muito para vencer três vezes e ver três triunfos que estavam a seu alcance se desvanecerem em um instante (em Cingapura, Abu Dhabi e Brasil). No fundo, quando olhar para 2012, o que mais vou lembrar será o privilégio que eu tive de ver esta geração de ouro correndo, cada um dando o máximo de si e, juntos, sendo os principais responsáveis pelo grande espetáculo que foi esta temporada.

27dez/1212

Os piores de 2012

Já é uma tradição do meu blog a eleição dos piores e dos melhores do ano. E numa temporada que foi tudo de boa, nem tudo foi bom. Equipes que decepcionaram ou não fizeram valer as expectativas, pilotos que tiveram momentos ruins e outras bobagens que não fizeram jus a um grande ano da Fórmula 1 ganharam espaço na nossa lista. Que, como sempre, vai em ordem crescente, com o pior, pior mesmo do ano lá no fim do post. Boa leitura e dê também os seus pitacos nos comentários!

10 - Os erros da McLaren
Num ano muito equilibrado, a equipe de Woking teve dois momentos de superioridade de performance: nas primeiras corridas e no auge do verão europeu. Em ambas, não capitalizou isso por uma sucessão de erros. Na parte inicial, o grande problema da equipe foi uma série de pit-stops desastrados. Depois o time se acertou, bateu diversos recordes de tempo de parada. Mas aí a confiabilidade decaiu, com quebras que tiraram do time uma dobradinha em Monza e uma vitória em Cingapura - e, mais tarde, outra vitória que parecia certa em Abu Dhabi. Resultados que custaram à McLaren o vice-campeonato entre os Construtores. E, com isso, alguns milhões a menos na conta.

9 - A “polêmica” de Interlagos
Foi uma das melhores finais de campeonato da história, um GP de tirar o fôlego do início ao fim. Mas que teve um epílogo estúpido, feito através da cegueira de torcedores travestidos de jornalistas na Europa, fazendo barulho por nada ao invés de fazer seu trabalho propriamente, consultando a FIA antes de escrever um monte de besteiras em seus veículos. Tivessem feito isto, saberiam que a entidade nunca questionou a ultrapassagem de Vettel sobre Jean-Eric Vergne pois conheciam as regras e sabiam que havia uma bandeira verde agitada no início da reta. Criaram uma polêmica que jamais existiu.

8 - Michael Schumacher em Cingapura
Se o conjunto da obra do alemão nestes três anos de Mercedes é triste, até que neste 2012 ele teve alguns brilhos eventuais, como o pódio em Valência e o melhor tempo na classificação em Mônaco. Mas também fez muitas lambanças, inclusive não capitalizou sua performance do sábado em Monte Carlo pela justa punição sofrida após o acidente bobo com Bruno Senna na corrida anterior em Barcelona. Mas foi em Cingapura que Schumacher estava impossível: perdeu a homenagem a Sid Watkins no grid (apesar da FIA ter insistido com todos o final de semana inteiro da importância dela), estampou seu carro na traseira da Toro Rosso de Jean-Eric Vergne de maneira ridícula e ainda chamou o francês de “Jean-Marc” ao pedir desculpas, ao mesmo tempo em que não assumiu completamente a culpa pela batida. Não é à toa que os diretores da Mercedes não perderam um segundo para dar “sim” à Lewis Hamilton quando este ligou para fechar negócio na semana seguinte. Posto na rua sem contrato, restou ao alemão se aposentar para tentar passar menos ridículo.

7 - Mark Webber
O australiano fez um bom campeonato até o GP da Inglaterra, quando pontuou com consistência e venceu duas corridas. Renovou seu contrato com a Red Bull após a corrida de Silverstone e... entrou de férias? É a impressão que fica, mas a queda do australiano tem a ver também com sua incapacidade de tirar o máximo do RB8 à medida em que ele foi sendo desenvolvido, ao contrário do que fez Sebastian Vettel. E se ver novamente batido claramente pelo companheiro de equipe lhe fez mal e criou uma bola de neve que jogou sua performance ainda mais para baixo. O que aconteceu em Abu Dhabi, quando foi alcançado por Sebastian Vettel antes da metade da corrida, sendo que havia largado em segundo e o alemão, em último, é um bom exemplo disso.

6 - Williams
Não concordo quando leio que 2012 foi o ano do renascimento da Williams. Pelo contrário, para mim foi o ano em que a equipe desperdiçou condições excepcionais para dar um grande salto rumo ao topo. Na temporada em que voltou a vencer e em que Pastor Maldonado largou onze vezes entre os dez primeiros, o time ficou apenas em oitavo na tabela, atrás de equipes com carros nitidamente piores que o FW34. O problema é que o venezuelano apagou o brilho de seu triunfo em Barcelona com uma sucessão de bobagens na pista que lhe tirou muitos pontos - e lhe rendeu muitas punições. E que Bruno Senna tenha passado o ano todo sem resolver seu problema em treinos de classificação - o ‘handicap’ que sofreu por ceder lugar a Valteri Bottas em quinze treinos livres não justifica que ele só tenha passado para o Q3 uma única vez. Com dois pilotos mais consistentes, dá para imaginar tranquilamente a equipe terminando o ano em sexto, talvez até mesmo em quinto lugar. O que a tornaria menos dependente do dinheiro que seus pilotos trazem.

5 - As primeiras voltas de Romain Grosjean
Romain Grosjean é veloz e capaz de fazer corridas consistentes que o levem ao pódio. Desde que sobreviva às voltas iniciais da prova, que fique claro. A quantidade de confusões que o francês aprontou em largadas ou disputas nos momentos iniciais das corridas foi muito além do aceitável e a suspensão de um GP após a batida em Spa-Francorchamps foi merecida (embora os critérios utilizados pela FIA para fazê-lo não tenham sido os corretos, como discuti aqui). Que a lição tenha sido aprendida e o “maluco da primeira volta”, como foi apelidado pelos colegas, fique no passado.

4 - Paul di Resta
O escocês chegou na Fórmula 1 em 2011 como campeão da DTM, agraciado pelo chefe da Mercedes Norbert Haug e tido como substituto natural de Michael Schumacher na equipe prateada. Até começou bem suas duas temporadas até aqui, mas nas duas acabou atropelado e claramente superado pelos companheiros de equipe que teve, primeiro Adrian Sutil e depois Nico Hülkenberg. Dá a impressão de só permanecer na Force Índia por trazer um eventual desconto no fornecimento dos motores Mercedes. Com a saída de Haug da categoria, precisa andar bem em 2013 para garantir um futuro na categoria.

3 - As primeiras corridas de Felipe Massa
A sala que a Ferrari reservou para as entrevistas de seus pilotos no paddock de Sepang era no segundo andar de um puxadinho feito para abrigar as equipes. Foi lá que vimos um Felipe Massa no fundo do poço, atônito com o abismo gigantesco que separava sua performance da de Fernando Alonso. De fato, nas duas primeiras corridas do ano, o brasileiro chegava a levar um segundo por volta do espanhol. Um desempenho que justificaria qualquer troca no meio da temporada, em qualquer equipe. O desenvolvimento do F2012 o ajudou a reencontrar seu caminho e no final do ano ele esteve muito bem, mas até o GP de Mônaco sua performance foi de dar dó.

2 - Mercedes
Num ano cheio de paradoxos, a equipe anglo-germânica foi o maior deles. Começou o ano com uma vitória incontestável num final de semana de domínio total na China. Encerrou penando em lutas na parte de trás do pelotão intermediário. A total incapacidade em desenvolver o W03 preocupa. A direção de Stuttgart parece receosa em entrar com os dois pés no projeto da equipe de Fórmula 1, controlando como pode os gastos. Se em 2013 a performance continuar nesta espiral descendente, não seria surpreendesse se puxassem o carro. No sentido figurado e no literal também.

1 - Comissários da FIA
Quatro horas para saber quem era o vencedor do GP de Cingapura, para entender a questão do combustível no RB8 de Sebastian Vettel na classificação em Abu Dhabi, para julgar um sem número de decisões com potencial influência no resultado final de uma corrida ou de um grid de largada. A falta de agilidade da FIA foi o fator mais lamentável num ano em que a Fórmula 1 teve pouco a lamentar. Mesmo com acesso à telemetria e a inúmeros replays, algumas decisões demoraram demais para serem tomadas. Sem falar que a rotatividade de comissários gerou algumas decisões inconsistentes, deixando os pilotos muitas vezes confusos com o que pode e o que não pode ser feito. A ideia do sistema não é ruim, mas ele precisa ser aprimorado com urgência.

1dez/124

Credencial – GP do Brasil de 2012

Obrigado pela audiência do Credencial!

Fazer uma boa discussão sobre este GP do Brasil, com tantos acontecimentos e emoção envolvidos, é fácil. Fazer uma grande discussão com o apoio de ótimas perguntas dos Internautas é só no Credencial! Este não é o último do ano, já que faremos ainda uma edição repassando todas as categorias e projetando para 2013 com toda a equipe do TotalRace. Mas é uma edição que já fala muito do que pode acontecer no ano que vem na Fórmula 1. E muito do que aconteceu no domingo passado em Interlagos. Uma edição para ouvir e guardar com carinho. Entre aqui e ouça/baixe! E divulgue para os amigos também!

30nov/1218

A piada do final

Eu e minha mulher temos uma dessas brincadeiras bobas de casal quando vamos ao cinema. Após o filme, quando sobem os créditos, o primeiro que levanta sempre acaba ouvindo do segundo: “espera que ainda tem a piada do final”. Uma referência a uma prática comum nos anos 80 quando, depois de subir o último nome do último crédito, ainda aparecia algum ator fazendo uma brincadeirinha. Como no clássico “Curtindo a Vida Adoidado”: “Ei, o que vocês ainda estão fazendo aí? Acabou. Vão para casa”, diz o personagem de Matthew Broderick.

Pois o Mundial de 2012 teve a sua piada do final. Quando acordei ontem e vi que havia um enorme bafafá de que a Ferrari protestaria contra uma suposta ultrapassagem de Sebastian Vettel sob bandeira amarela, ri bastante. Não da possibilidade de uma reclamação em si, escaldado que estamos por algumas atitudes discutíveis que o time tomou em passado recente. Mas por ver alguns (e sublinho o alguns) colegas da imprensa estrangeira (em sua maioria na Inglaterra e na Espanha) fazendo uma tempestade em copo d’água na absoluta ignorância de que, passada meia hora da publicação do resultado oficial de uma corrida (o que só acontece depois da FIA rever lances polêmicos, finalizar eventuais investigações pendentes, etc.), ninguém pode protestar mais nada.

Apenas a FIA poderia rever o resultado de uma prova dias depois, caso houvesse uma irregularidade decisiva que tivesse de ser revista. E nunca houve. A suposta ultrapassagem de Vettel sobre Jean-Eric Vergne em bandeira amarela surgiu depois que um inglês colocou um vídeo no YouTube chamando atenção ao lance, no qual ele não notou haver uma bandeira verde sendo agitada na entrada da reta oposta, onde ocorreu a manobra. Uma sinalização que era inclusive natural, já que o trecho de perigo naquele momento era apenas a Curva do Sol, onde a Williams de Pastor Maldonado (que depois de tantos anos no automobilismo ainda não aprendeu que não se deve atacar uma zebra úmida quando se tem pneus para pista seca) estava sendo retirada. O mais importante é que o lance foi revisto pelos comissários durante a corrida e considerado normal.

Infelizmente, numa era onde as coisas são muito mal apuradas, teve gente correndo para os computadores antes de correr para o telefone e perguntar para a FIA se tinham visto aquilo e se havia a possibilidade do resultado da prova ser revertido. Fazer o trabalho básico, enfim. São jornalistas que estiveram presentes em todas ou quase todas as provas do ano, sabem muito bem a quem procurar. Mas optaram pela via fácil de criar uma “polêmica”, ou de agir para atender sua própria frustração de torcedor, caso dos diários esportivos espanhóis cuja linha editorial é mesmo a de vestir a camisa e jogar longe a imparcialidade, algo que seus repórteres fazem de bom grado. Pobre torcedor que, no meio da confusão, acaba não sabendo em quem acreditar.

Mas embaraçoso mesmo é a Ferrari vir a público dizer que enviou uma carta à FIA pedindo esclarecimentos sobre a manobra. Dá até para entender a atitude diante do quanto de reclamações sua conta no twitter deve ter recebido de torcedores pedindo alguma ação contra a “roubalheira”. Mas ela também tem todos os canais abertos com Charlie Whiting para fazer a consulta diretamente e ouvir suas explicações. Deveria ter feito isso antes de se pronunciar, concluir que não havia nada de errado e vir a público dizer que estava satisfeita com o resultado do GP do Brasil, celebrar os pontos positivos de sua temporada e afirmar que voltaria à luta com tudo em 2013.

Um Mundial sensacional de 2012, com uma decisão daquelas, poderia ter terminado com um gesto nobre desses, e não com uma piada de mau gosto. Isto me faz lembrar e dar ainda mais valor ao que aconteceu em 2008. A classe demonstrada por Felipe Massa ao perder um Mundial na última curva está provando ser artigo cada vez mais raro neste esporte, o que é uma grande pena.

27nov/1235

O mercado para 2013

Um carro cobiçado à frente dos outros

A Williams vai anunciar Valteri Bottas até o final da semana como companheiro de Pastor Maldonado para o ano que vem. A decisão foi tomada no início da semana passada e o clima na equipe em Interlagos não era dos melhores. Muita gente da parte técnica gostaria que Bruno Senna permanecesse na equipe, acreditando que ele faria um campeonato melhor no ano que vem caso com a experiência acumulado neste ano no time de Grove e podendo participar de todas as sessões do final de semana. Mas prevaleceu o desejo de Toto Wolff em promover o finlandês, que demonstrou potencial nas sessões de sexta-feira de que participou.

A decisão colocou em marcha o mercado de piloto para as vagas restantes. No caso da Lotus, a Genii não descarta a venda da equipe se aparecer uma boa proposta. Por isso ainda não houve a confirmação do segundo piloto. Se a direção permanecer a mesma, Romain Grosjean terá seu contrato renovado. Se o dono for outro, o francês pode ficar ou podem encontrar uma alternativa.

A vaga da Force Índia é bastante atraente e a corrida excepcional de Nico Hulkenberg em Interlagos sublinhou que o carro pode ser competitivo nas condições certas. Pelo que ouvi dali, Adrian Sutil aparece com boas chances. Mas restam outros candidatos, incluindo Bruno Senna e Luiz Razia.

A Caterham estuda promover o piloto de testes Giedo Van der Garde, mas também negocia com outros nomes, incluindo o dos brasileiros. Razia andou com o carro do time no ano passado e é um na briga. Bruno Senna tem chances, restando saber se o time tem força suficiente para que ele mantenha a totalidade de seus patrocinadores - e também se uma vaga nas equipes menores lhe interessa neste estágio.

Na Marussia, o piloto de testes Max Chilton é a bola de segurança do time, mas há conversas com diversos outros pilotos. Também aqui os brasileiros possuem chances de conseguir uma vaga.

A HRT luta para encontrar um comprador e sobreviver. Existem interessados, mas a compra de um time fica um processo ainda mais complicado quando o potencial dele é pequeno e sua situação financeira é incerta.

25nov/1254

O milagre de Interlagos

Para cima, pela terceira vez

Fernando Alonso passou a semana inteira falando que precisava de um milagre. E ele veio. Só que a favor de Sebastian Vettel. Numa corrida em que quase tudo deu errado para o piloto alemão, ele conseguiu sobreviver de alguma maneira para encerrar o GP do Brasil na sexta posição o que, combinado com o segundo lugar de Fernando Alonso, foi o suficiente para lhe garantir o título mundial por apenas três pontos de vantagem. O mais jovem tricampeão mundial fez questão de listar todos os contratempos que enfrentou num domingo repleto de confusão em Interlagos.

“A largada até que foi boa, aí o Mark (Webber) me apertou do lado esquerdo e tive de tirar o pé. Com isso perdi posições e cheguei no meio do bolo na freada da Descida do Lago. Ali fui atingido por trás e vi o grid inteiro vindo na minha direção. De alguma forma, consegui continuar e vi que o carro tinha as asas inteiras, mas não conseguia passar ninguém no seco porque o carro estava muito danificado”.

O diretor-técnico da Red Bull, Adrian Newey, confirmou a extensão do prejuízo no carro de número 1 após a batida com Bruno Senna na primeira volta: “Era o máximo de danos que você poderia ter e ainda assim terminar a corrida. Tudo o que podíamos fazer era monitorar a telemetria e ver o que aconteceu com o carro. Ele perdeu pressão aerodinâmica e fizemos um pequeno ajusta na asa dianteira na primeira parada para ajudar um pouco. O escapamento ficou danificado e o nosso medo era que ele quebrasse, o que poria o carro em chamas e tudo a perder. Mudamos ligeiramente o mapeamento do motor para tentar resfriá-los. E ficamos de dedos cruzados até o final”, falou o mago da prancheta.

O próximo contratempo de Vettel aconteceu na volta 52, quando o alemão colocou pneus para seco instantes antes de voltar a garoar em São Paulo. Ele corrigiu o erro duas voltas depois colocando intermediários, perdeu quase 20 segundos com isso, mas recuperou algumas posições para chegar em sexto. “Colocaram todas as pedras no nosso caminho hoje, mas no final foi o suficiente. Tinha de ser assim. Nunca deixamos de acreditar na possibilidade do título e talvez isto tenha feito toda a diferença nessa corrida absolutamente maluca”, falou o piloto.

Tricampeonato conquistado, Vettel fez questão de deixar claro que se incomodou com a postura que a Ferrari adotou muitas vezes ao longo do ano. “Os adversários tentaram de tudo para nos superar. Dentro e fora dos limites. Enfrentamos muita resistência. Alguns fizeram coisas que jamais pensaríamos em fazer. Mas não nos cabe comentar isso em detalhes. Precisamos nos concentrar no que fazemos”.

Sebastian Vettel provou em 2012 a velha máxima de que mais difícil do que chegar no topo é se manter lá. Foi uma temporada de altos e baixos em que o alemão precisou manter sangue e cabeça frios para prevalecer num Mundial de Fórmula 1 pela terceira vez consecutiva. Um feito e tanto, que só aconteceu antes com outros dois pilotos: Juan Manuel Fangio (cinco títulos no total, quatro entre 1954 e 1957) e Michael Schumacher (sete títulos ao todo, sendo cinco entre 2000 e 2004).

A raridade do feito de Vettel já bastaria para encerrar qualquer discussão sobre o merecimento de seus feitos. Mas como o próprio Fernando Alonso jocosamente sugeriu no calor da disputa deste ano, há quem acredite que o sucesso do alemão é fruto exclusivo da excelência dos carros projetados por Adrian Newey, o diretor-técnico da equipe Red Bull.

Como se ele não tivesse um companheiro de equipe comprovadamente capaz de ganhar corridas. Como se ele não fosse o piloto mais trabalhador do grid hoje em dia, daqueles que gosta de se enfurnar em reuniões técnicas e estudos aprofundados de telemetria para espremer do carro um ou dois décimos de segundo a mais.

Estas qualidades ficaram muito claras neste ano. Depois que a FIA proibiu o uso dos difusores soprados no final de 2011 - a grande arma da Red Bull naquela temporada - o carro começou esta temporada se comportando de maneira diferente: escapando de frente nas curvas.

É uma tendência que Vettel odeia. Ele prefere um carro que escorregue levemente de traseira, para fazer uma correção rápida com o volante antes de sair acelerando na reta seguinte.

O seu trabalho ao longo do ano foi o de buscar entender quais áreas poderiam ser trabalhadas no RB8 para que o acerto em cada pista trouxesse de volta este tipo de comportamento. Uma tarefa complicada numa era em que os testes na Fórmula 1 são praticamente inexistentes.

Vettel criou uma dinâmica de trabalho com sua equipe de aproveitar ao máximo os treinos livres às sextas-feiras para se concentrar nesta tarefa de desvendar os segredos do carro. As lições que foi tirando ajudaram também para que Newey desenvolvesse o modelo de maneira a acelerar o processo.

O resultado disso? No terço final do campeonato, o alemão finalmente conseguiu trazer o carro totalmente ao encontro de seu estilo de pilotagem. E conseguiu com isso imprimir o tipo de corrida que mais gosta: largando da pole position e controlando sua vantagem para quem vinha atrás até a bandeira quadriculada.

Por tudo isso, se tornou merecidamente o campeão de 2012.

Participe do Credencial nos comentários!

24nov/125

Drama – Ato I

O santo da casa estava endiabrado e deixou Alonso de cara amarrada

Ironia das ironias, os dois postulantes ao título da temporada não foram surpreendidos apenas pela excelente forma da McLaren em Interlagos, mas também por seus companheiros de equipe. Na Red Bull, Mark Webber sorriu à vontade, o que é raro, quando lhe perguntei sobre sua boa forma em Interlagos e o fato de ter superado seu companheiro de equipe Sebastian Vettel. Na Ferrari, Felipe Massa estava nitidamente satisfeito em bater com segurança o tempo de Fernando Alonso no Q3 pelo segundo GP consecutivo.

Não nos iludamos, foi justamente este o motivo pelo qual vimos um Vettel e um Alonso carrancudos no paddock na tarde de hoje. Títulos à parte, uma coisa que fica atravessada na garganta de um piloto de Fórmula 1 é quando o cara do outro lado da garagem o supera de maneira direta, “fair and square”.

Os dois que disputam o campeonato também não são bobos em supervalorizar o grid de uma corrida cujo prenúncio é de asfalto molhado. Se fosse no seco, Alonso já poderia fazer as malas de volta para casa. Numa prova normal, só conseguiria superar McLarens e Red Bulls caso pilotos delas abandonassem a prova por qualquer motivo.

Mas a chuva diminuiria a encrenca Nico Hülkenberg, já que a Force Índia não rendeu muito bem no molhado neste ano. E embaralha bem as cartas, com possibilidades de rodadas, batidas, safety cars, enfim, lances pontuais que podem jogar a seu favor.

Assim, este incrível Mundial de 2012 vai mesmo até a última volta. Já vivi algumas provas em Interlagos com este clima variável. A decisão que foi assim, em 2008, foi de um nível de dramaticidade que beirou o inacreditável.

Agora é olho nas nuvens, na umidade relativa do ar, na pressão atmosférica. A emoção do domingo vai depender bastante se e o quanto choveria amanhã no autódromo. Caso a prova seja com pista molhada, a sorte está lançada.

23nov/1224

Um justo tricampeão

Que vença o melhor!

É uma daquelas disputa em que o justo mesmo seria um empate. Mas é do esporte: é preciso haver um campeão. E esta incrível temporada de 2012 da Fórmula 1 vai conhecer o seu no domingo em Interlagos. Seja ele Sebastian Vettel ou Fernando Alonso, o título terá ficado nas mãos de quem mais mereceu.

O alemão da Red Bull teve o mérito de reverter uma mudança no regulamento que mudou completamente o comportamento de seu Red Bull. Com o fim dos escapamentos soprados ao final de 2011, o novo carro da equipe anglo-austríaca ganhou a tendência de sair de frente - algo que Vettel odeia. Mesmo assim, conseguiu resultados além do carro na parte inicial da temporada e trabalhou como um obcecado para desenvolver o modelo ao seu estilo. Quando conseguiu, imprimiu um domínio que lembrou um pouco o rolo compressor de 2011.

Já o espanhol da Ferrari impressionou pela quantidade mínima de erros numa temporada em que teve de, na maioria das corridas, recuperar aos domingos a falta de competitividade de seu carro nas classificações aos sábados. Claro que Alonso vende bem o seu peixe ao sublinhar que o carro da Ferrari é bem pior que os outros. Em ritmo de corrida, definitivamente não é. Mas sua agressividade nas largadas e nas primeiras voltas sublinha um piloto que está no auge de sua forma.

Temos elementos para uma decisão dramática, como a instabilidade do clima paulistano e a pressão nas equipes após uma disputa tão acirrada na mais longa das temporadas, o que pode levar ao erro.

Para nós, que só vamos assistir, só resta nos recostar na cadeira e esfregar as mãos em antecipação. Vai ser uma finalíssima e tanto!

E você, vê um dos dois finalistas não merecedor do título?

22nov/121

Credencial GP dos EUA

Interlagos ainda tranquila, tempo para você se atualizar com o Credencial!

No final das contas, ficou um Credencial diferente, passando pelo que aconteceu na premiére da Fórmula 1 no Texas e culminando em projeções para o que pode acontecer neste final de semana na decisão da temporada em Interlagos. Por isso mesmo tornou-se um podcast indispensável para acompanhá-la. Entre no link, confira e divulgue para os amigos!

21nov/1220

Acorda, São Paulo!

Cadê as obras ali?

Foi uma quarta-feira gostosa em Interlagos, sentindo aquela movimentação ir crescendo ao longo do dia com a preparação das equipes e da organização para os últimos detalhes do final de semana. Deu tempo até de ir até o S do Senna para conferir de perto o asfaltamento da área de escape - uma pena pois tira muito do desafio da curva.

Dei uma olhada lá da parte de cima do circuito para a reta oposta, para a área onde seriam construídos uma nova estrutura de boxes em cima da ideia de modernizar Interlagos. A boa notícia é que não há nada construído por ali. A má é que é um terreno bastante desnivelado e o trabalho de aterramento e construção teria que ser feito rapidamente para ficar pronto até o meio do ano que vem, a tempo de uma vistoria da FIA. E sairia relativamente caro.

Com a mudança de gestão na Prefeitura de São Paulo, o processo pode ficar demorado. Bernie Ecclestone, que não é bobo nem nada, foi correndo para Santa Catarina para encontrar algumas autoridades de lá e estudar a possibilidade da construção de um autódromo para a Fórmula 1 ao lado do Beto Carrero World - como foi reportado no jornal “A Notícia” em matéria indicada pelo leitor do blog João Kula.

Pode ser apenas o velho trunfo do chefão da categoria em ensaiar um namoro com uma alternativa apenas para pressionar a opção prioritária a agir rapidamente em prol dos interesses dele.

Mas a alternativa não é tão irreal quanto possa parecer. Penha é minúscula sim, pode pecar em infra-estrutura, mas a proximidade com Joinville e Balneário Camboriú garante um número mínimo de quartos para a movimentação de um GP. E, embora quase todo mundo do circo da Fórmula 1 adore a corrida em Interlagos, cada vez mais pessoas demonstram desconforto quanto às questões de insegurança e de trânsito na capital paulista.

Um GP do Brasil é algo fundamental para a categoria. Mas se São Paulo não se atualizar, pode ficar a ver navios. Uma corrida brasileira “na praia” seria uma aposta que a Fórmula 1 poderia pagar para ver. E se Penha parece meio o fim do mundo para os padrões dela, Mokpo também é.

Acorda, São Paulo!