Credencial – GP do Brasil de 2012
Fazer uma boa discussão sobre este GP do Brasil, com tantos acontecimentos e emoção envolvidos, é fácil. Fazer uma grande discussão com o apoio de ótimas perguntas dos Internautas é só no Credencial! Este não é o último do ano, já que faremos ainda uma edição repassando todas as categorias e projetando para 2013 com toda a equipe do TotalRace. Mas é uma edição que já fala muito do que pode acontecer no ano que vem na Fórmula 1. E muito do que aconteceu no domingo passado em Interlagos. Uma edição para ouvir e guardar com carinho. Entre aqui e ouça/baixe! E divulgue para os amigos também!
A piada do final
Eu e minha mulher temos uma dessas brincadeiras bobas de casal quando vamos ao cinema. Após o filme, quando sobem os créditos, o primeiro que levanta sempre acaba ouvindo do segundo: “espera que ainda tem a piada do final”. Uma referência a uma prática comum nos anos 80 quando, depois de subir o último nome do último crédito, ainda aparecia algum ator fazendo uma brincadeirinha. Como no clássico “Curtindo a Vida Adoidado”: “Ei, o que vocês ainda estão fazendo aí? Acabou. Vão para casa”, diz o personagem de Matthew Broderick.
Pois o Mundial de 2012 teve a sua piada do final. Quando acordei ontem e vi que havia um enorme bafafá de que a Ferrari protestaria contra uma suposta ultrapassagem de Sebastian Vettel sob bandeira amarela, ri bastante. Não da possibilidade de uma reclamação em si, escaldado que estamos por algumas atitudes discutíveis que o time tomou em passado recente. Mas por ver alguns (e sublinho o alguns) colegas da imprensa estrangeira (em sua maioria na Inglaterra e na Espanha) fazendo uma tempestade em copo d’água na absoluta ignorância de que, passada meia hora da publicação do resultado oficial de uma corrida (o que só acontece depois da FIA rever lances polêmicos, finalizar eventuais investigações pendentes, etc.), ninguém pode protestar mais nada.
Apenas a FIA poderia rever o resultado de uma prova dias depois, caso houvesse uma irregularidade decisiva que tivesse de ser revista. E nunca houve. A suposta ultrapassagem de Vettel sobre Jean-Eric Vergne em bandeira amarela surgiu depois que um inglês colocou um vídeo no YouTube chamando atenção ao lance, no qual ele não notou haver uma bandeira verde sendo agitada na entrada da reta oposta, onde ocorreu a manobra. Uma sinalização que era inclusive natural, já que o trecho de perigo naquele momento era apenas a Curva do Sol, onde a Williams de Pastor Maldonado (que depois de tantos anos no automobilismo ainda não aprendeu que não se deve atacar uma zebra úmida quando se tem pneus para pista seca) estava sendo retirada. O mais importante é que o lance foi revisto pelos comissários durante a corrida e considerado normal.
Infelizmente, numa era onde as coisas são muito mal apuradas, teve gente correndo para os computadores antes de correr para o telefone e perguntar para a FIA se tinham visto aquilo e se havia a possibilidade do resultado da prova ser revertido. Fazer o trabalho básico, enfim. São jornalistas que estiveram presentes em todas ou quase todas as provas do ano, sabem muito bem a quem procurar. Mas optaram pela via fácil de criar uma “polêmica”, ou de agir para atender sua própria frustração de torcedor, caso dos diários esportivos espanhóis cuja linha editorial é mesmo a de vestir a camisa e jogar longe a imparcialidade, algo que seus repórteres fazem de bom grado. Pobre torcedor que, no meio da confusão, acaba não sabendo em quem acreditar.
Mas embaraçoso mesmo é a Ferrari vir a público dizer que enviou uma carta à FIA pedindo esclarecimentos sobre a manobra. Dá até para entender a atitude diante do quanto de reclamações sua conta no twitter deve ter recebido de torcedores pedindo alguma ação contra a “roubalheira”. Mas ela também tem todos os canais abertos com Charlie Whiting para fazer a consulta diretamente e ouvir suas explicações. Deveria ter feito isso antes de se pronunciar, concluir que não havia nada de errado e vir a público dizer que estava satisfeita com o resultado do GP do Brasil, celebrar os pontos positivos de sua temporada e afirmar que voltaria à luta com tudo em 2013.
Um Mundial sensacional de 2012, com uma decisão daquelas, poderia ter terminado com um gesto nobre desses, e não com uma piada de mau gosto. Isto me faz lembrar e dar ainda mais valor ao que aconteceu em 2008. A classe demonstrada por Felipe Massa ao perder um Mundial na última curva está provando ser artigo cada vez mais raro neste esporte, o que é uma grande pena.
O mercado para 2013
A Williams vai anunciar Valteri Bottas até o final da semana como companheiro de Pastor Maldonado para o ano que vem. A decisão foi tomada no início da semana passada e o clima na equipe em Interlagos não era dos melhores. Muita gente da parte técnica gostaria que Bruno Senna permanecesse na equipe, acreditando que ele faria um campeonato melhor no ano que vem caso com a experiência acumulado neste ano no time de Grove e podendo participar de todas as sessões do final de semana. Mas prevaleceu o desejo de Toto Wolff em promover o finlandês, que demonstrou potencial nas sessões de sexta-feira de que participou.
A decisão colocou em marcha o mercado de piloto para as vagas restantes. No caso da Lotus, a Genii não descarta a venda da equipe se aparecer uma boa proposta. Por isso ainda não houve a confirmação do segundo piloto. Se a direção permanecer a mesma, Romain Grosjean terá seu contrato renovado. Se o dono for outro, o francês pode ficar ou podem encontrar uma alternativa.
A vaga da Force Índia é bastante atraente e a corrida excepcional de Nico Hulkenberg em Interlagos sublinhou que o carro pode ser competitivo nas condições certas. Pelo que ouvi dali, Adrian Sutil aparece com boas chances. Mas restam outros candidatos, incluindo Bruno Senna e Luiz Razia.
A Caterham estuda promover o piloto de testes Giedo Van der Garde, mas também negocia com outros nomes, incluindo o dos brasileiros. Razia andou com o carro do time no ano passado e é um na briga. Bruno Senna tem chances, restando saber se o time tem força suficiente para que ele mantenha a totalidade de seus patrocinadores - e também se uma vaga nas equipes menores lhe interessa neste estágio.
Na Marussia, o piloto de testes Max Chilton é a bola de segurança do time, mas há conversas com diversos outros pilotos. Também aqui os brasileiros possuem chances de conseguir uma vaga.
A HRT luta para encontrar um comprador e sobreviver. Existem interessados, mas a compra de um time fica um processo ainda mais complicado quando o potencial dele é pequeno e sua situação financeira é incerta.
O milagre de Interlagos
Fernando Alonso passou a semana inteira falando que precisava de um milagre. E ele veio. Só que a favor de Sebastian Vettel. Numa corrida em que quase tudo deu errado para o piloto alemão, ele conseguiu sobreviver de alguma maneira para encerrar o GP do Brasil na sexta posição o que, combinado com o segundo lugar de Fernando Alonso, foi o suficiente para lhe garantir o título mundial por apenas três pontos de vantagem. O mais jovem tricampeão mundial fez questão de listar todos os contratempos que enfrentou num domingo repleto de confusão em Interlagos.
“A largada até que foi boa, aí o Mark (Webber) me apertou do lado esquerdo e tive de tirar o pé. Com isso perdi posições e cheguei no meio do bolo na freada da Descida do Lago. Ali fui atingido por trás e vi o grid inteiro vindo na minha direção. De alguma forma, consegui continuar e vi que o carro tinha as asas inteiras, mas não conseguia passar ninguém no seco porque o carro estava muito danificado”.
O diretor-técnico da Red Bull, Adrian Newey, confirmou a extensão do prejuízo no carro de número 1 após a batida com Bruno Senna na primeira volta: “Era o máximo de danos que você poderia ter e ainda assim terminar a corrida. Tudo o que podíamos fazer era monitorar a telemetria e ver o que aconteceu com o carro. Ele perdeu pressão aerodinâmica e fizemos um pequeno ajusta na asa dianteira na primeira parada para ajudar um pouco. O escapamento ficou danificado e o nosso medo era que ele quebrasse, o que poria o carro em chamas e tudo a perder. Mudamos ligeiramente o mapeamento do motor para tentar resfriá-los. E ficamos de dedos cruzados até o final”, falou o mago da prancheta.
O próximo contratempo de Vettel aconteceu na volta 52, quando o alemão colocou pneus para seco instantes antes de voltar a garoar em São Paulo. Ele corrigiu o erro duas voltas depois colocando intermediários, perdeu quase 20 segundos com isso, mas recuperou algumas posições para chegar em sexto. “Colocaram todas as pedras no nosso caminho hoje, mas no final foi o suficiente. Tinha de ser assim. Nunca deixamos de acreditar na possibilidade do título e talvez isto tenha feito toda a diferença nessa corrida absolutamente maluca”, falou o piloto.
Tricampeonato conquistado, Vettel fez questão de deixar claro que se incomodou com a postura que a Ferrari adotou muitas vezes ao longo do ano. “Os adversários tentaram de tudo para nos superar. Dentro e fora dos limites. Enfrentamos muita resistência. Alguns fizeram coisas que jamais pensaríamos em fazer. Mas não nos cabe comentar isso em detalhes. Precisamos nos concentrar no que fazemos”.
Sebastian Vettel provou em 2012 a velha máxima de que mais difícil do que chegar no topo é se manter lá. Foi uma temporada de altos e baixos em que o alemão precisou manter sangue e cabeça frios para prevalecer num Mundial de Fórmula 1 pela terceira vez consecutiva. Um feito e tanto, que só aconteceu antes com outros dois pilotos: Juan Manuel Fangio (cinco títulos no total, quatro entre 1954 e 1957) e Michael Schumacher (sete títulos ao todo, sendo cinco entre 2000 e 2004).
A raridade do feito de Vettel já bastaria para encerrar qualquer discussão sobre o merecimento de seus feitos. Mas como o próprio Fernando Alonso jocosamente sugeriu no calor da disputa deste ano, há quem acredite que o sucesso do alemão é fruto exclusivo da excelência dos carros projetados por Adrian Newey, o diretor-técnico da equipe Red Bull.
Como se ele não tivesse um companheiro de equipe comprovadamente capaz de ganhar corridas. Como se ele não fosse o piloto mais trabalhador do grid hoje em dia, daqueles que gosta de se enfurnar em reuniões técnicas e estudos aprofundados de telemetria para espremer do carro um ou dois décimos de segundo a mais.
Estas qualidades ficaram muito claras neste ano. Depois que a FIA proibiu o uso dos difusores soprados no final de 2011 - a grande arma da Red Bull naquela temporada - o carro começou esta temporada se comportando de maneira diferente: escapando de frente nas curvas.
É uma tendência que Vettel odeia. Ele prefere um carro que escorregue levemente de traseira, para fazer uma correção rápida com o volante antes de sair acelerando na reta seguinte.
O seu trabalho ao longo do ano foi o de buscar entender quais áreas poderiam ser trabalhadas no RB8 para que o acerto em cada pista trouxesse de volta este tipo de comportamento. Uma tarefa complicada numa era em que os testes na Fórmula 1 são praticamente inexistentes.
Vettel criou uma dinâmica de trabalho com sua equipe de aproveitar ao máximo os treinos livres às sextas-feiras para se concentrar nesta tarefa de desvendar os segredos do carro. As lições que foi tirando ajudaram também para que Newey desenvolvesse o modelo de maneira a acelerar o processo.
O resultado disso? No terço final do campeonato, o alemão finalmente conseguiu trazer o carro totalmente ao encontro de seu estilo de pilotagem. E conseguiu com isso imprimir o tipo de corrida que mais gosta: largando da pole position e controlando sua vantagem para quem vinha atrás até a bandeira quadriculada.
Por tudo isso, se tornou merecidamente o campeão de 2012.
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Drama – Ato I
Ironia das ironias, os dois postulantes ao título da temporada não foram surpreendidos apenas pela excelente forma da McLaren em Interlagos, mas também por seus companheiros de equipe. Na Red Bull, Mark Webber sorriu à vontade, o que é raro, quando lhe perguntei sobre sua boa forma em Interlagos e o fato de ter superado seu companheiro de equipe Sebastian Vettel. Na Ferrari, Felipe Massa estava nitidamente satisfeito em bater com segurança o tempo de Fernando Alonso no Q3 pelo segundo GP consecutivo.
Não nos iludamos, foi justamente este o motivo pelo qual vimos um Vettel e um Alonso carrancudos no paddock na tarde de hoje. Títulos à parte, uma coisa que fica atravessada na garganta de um piloto de Fórmula 1 é quando o cara do outro lado da garagem o supera de maneira direta, “fair and square”.
Os dois que disputam o campeonato também não são bobos em supervalorizar o grid de uma corrida cujo prenúncio é de asfalto molhado. Se fosse no seco, Alonso já poderia fazer as malas de volta para casa. Numa prova normal, só conseguiria superar McLarens e Red Bulls caso pilotos delas abandonassem a prova por qualquer motivo.
Mas a chuva diminuiria a encrenca Nico Hülkenberg, já que a Force Índia não rendeu muito bem no molhado neste ano. E embaralha bem as cartas, com possibilidades de rodadas, batidas, safety cars, enfim, lances pontuais que podem jogar a seu favor.
Assim, este incrível Mundial de 2012 vai mesmo até a última volta. Já vivi algumas provas em Interlagos com este clima variável. A decisão que foi assim, em 2008, foi de um nível de dramaticidade que beirou o inacreditável.
Agora é olho nas nuvens, na umidade relativa do ar, na pressão atmosférica. A emoção do domingo vai depender bastante se e o quanto choveria amanhã no autódromo. Caso a prova seja com pista molhada, a sorte está lançada.
Um justo tricampeão
É uma daquelas disputa em que o justo mesmo seria um empate. Mas é do esporte: é preciso haver um campeão. E esta incrível temporada de 2012 da Fórmula 1 vai conhecer o seu no domingo em Interlagos. Seja ele Sebastian Vettel ou Fernando Alonso, o título terá ficado nas mãos de quem mais mereceu.
O alemão da Red Bull teve o mérito de reverter uma mudança no regulamento que mudou completamente o comportamento de seu Red Bull. Com o fim dos escapamentos soprados ao final de 2011, o novo carro da equipe anglo-austríaca ganhou a tendência de sair de frente - algo que Vettel odeia. Mesmo assim, conseguiu resultados além do carro na parte inicial da temporada e trabalhou como um obcecado para desenvolver o modelo ao seu estilo. Quando conseguiu, imprimiu um domínio que lembrou um pouco o rolo compressor de 2011.
Já o espanhol da Ferrari impressionou pela quantidade mínima de erros numa temporada em que teve de, na maioria das corridas, recuperar aos domingos a falta de competitividade de seu carro nas classificações aos sábados. Claro que Alonso vende bem o seu peixe ao sublinhar que o carro da Ferrari é bem pior que os outros. Em ritmo de corrida, definitivamente não é. Mas sua agressividade nas largadas e nas primeiras voltas sublinha um piloto que está no auge de sua forma.
Temos elementos para uma decisão dramática, como a instabilidade do clima paulistano e a pressão nas equipes após uma disputa tão acirrada na mais longa das temporadas, o que pode levar ao erro.
Para nós, que só vamos assistir, só resta nos recostar na cadeira e esfregar as mãos em antecipação. Vai ser uma finalíssima e tanto!
E você, vê um dos dois finalistas não merecedor do título?
Credencial GP dos EUA
No final das contas, ficou um Credencial diferente, passando pelo que aconteceu na premiére da Fórmula 1 no Texas e culminando em projeções para o que pode acontecer neste final de semana na decisão da temporada em Interlagos. Por isso mesmo tornou-se um podcast indispensável para acompanhá-la. Entre no link, confira e divulgue para os amigos!
Acorda, São Paulo!
Foi uma quarta-feira gostosa em Interlagos, sentindo aquela movimentação ir crescendo ao longo do dia com a preparação das equipes e da organização para os últimos detalhes do final de semana. Deu tempo até de ir até o S do Senna para conferir de perto o asfaltamento da área de escape - uma pena pois tira muito do desafio da curva.
Dei uma olhada lá da parte de cima do circuito para a reta oposta, para a área onde seriam construídos uma nova estrutura de boxes em cima da ideia de modernizar Interlagos. A boa notícia é que não há nada construído por ali. A má é que é um terreno bastante desnivelado e o trabalho de aterramento e construção teria que ser feito rapidamente para ficar pronto até o meio do ano que vem, a tempo de uma vistoria da FIA. E sairia relativamente caro.
Com a mudança de gestão na Prefeitura de São Paulo, o processo pode ficar demorado. Bernie Ecclestone, que não é bobo nem nada, foi correndo para Santa Catarina para encontrar algumas autoridades de lá e estudar a possibilidade da construção de um autódromo para a Fórmula 1 ao lado do Beto Carrero World - como foi reportado no jornal “A Notícia” em matéria indicada pelo leitor do blog João Kula.
Pode ser apenas o velho trunfo do chefão da categoria em ensaiar um namoro com uma alternativa apenas para pressionar a opção prioritária a agir rapidamente em prol dos interesses dele.
Mas a alternativa não é tão irreal quanto possa parecer. Penha é minúscula sim, pode pecar em infra-estrutura, mas a proximidade com Joinville e Balneário Camboriú garante um número mínimo de quartos para a movimentação de um GP. E, embora quase todo mundo do circo da Fórmula 1 adore a corrida em Interlagos, cada vez mais pessoas demonstram desconforto quanto às questões de insegurança e de trânsito na capital paulista.
Um GP do Brasil é algo fundamental para a categoria. Mas se São Paulo não se atualizar, pode ficar a ver navios. Uma corrida brasileira “na praia” seria uma aposta que a Fórmula 1 poderia pagar para ver. E se Penha parece meio o fim do mundo para os padrões dela, Mokpo também é.
Acorda, São Paulo!




























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