
Bateu a abstinência etílica ou é a velha fama dos franceses, Kimi?
Após apenas quatro corridas, a classificação do Mundial de Pilotos já aponta um desequilíbrio no duelo interno das principais equipes deste ano na Fórmula 1. Uma explicação mais simplória do que simples seria dizer apenas que “fulano é melhor que beltrano” e pronto. Mas como aqui a gente gosta de ver a categoria sob todos os ângulos possíveis, aqui vai uma análise de cada disputa interna, suas causas e consequências.
Red Bull (Sebastian Vettel +45 pontos sobre Mark Webber)
A polêmica na Malásia e os problemas na China não ajudaram a causa do australiano, mas a verdade é que ele está tomando um banho de Vettel neste ano. Não largou na frente do companheiro nenhuma vez. Pior do que isso, as distâncias nas classificações podem ser enormes - no Bahrein ficaram na casa de meio segundo no Q3. Webber teve de engolir e está claro que não digeriu a situação ocorrida em Sepang. A foto do jantar com Alonso no twitter é um indício de que vai apelar para jogos psicológicos sempre que possível. É o jeito, já que na pista não há nada que funcione a seu favor.
Lotus (Kimi Raikkonen +41 pontos sobre Romain Grosjean)
Apenas no Bahrein, quando ganhou um novo chassi, que o francês fez uma boa corrida. Saindo de trás, dosando sua agressividade na hora de ganhar posições, um desempenho que o levou ao pódio como havia acontecido no ano anterior. Mas não há como imaginar mais do que lampejos pontuais de sua parte. Kimi Raikkonen está em outra esfera, mantendo a mesma regularidade incrível ao mesmo tempo em que parece ter resolvido sua fraqueza. No ano passado, o duelo entre os dois era equilibrado em treinos classificatórios. Neste ano, está 4 a 0 para o finlandês.
Mercedes (Lewis Hamilton +36 pontos sobre Nico Rosberg)
Foi um sinal de vida importante o dado por Nico Rosberg no sábado no circuito do Sakhir. Uma volta beirando a perfeição que, mais do que a pole position, lhe valeu a certeza de que pode endurecer o duelo com Lewis Hamilton. Mas a corrida foi uma ducha de água gelada nesta perspectiva. Afinal, o problema de um desgaste acentuado demais dos pneus traseiros - repetindo o problema que afligiu o time no ano passado - acabou com sua corrida, mas não com a de Hamilton. Questão de acerto do carro ou de estilo de pilotagem? São perguntas que o alemão precisa responder rapidamente para não ver o inglês sumir na sua frente.
Ferrari (Fernando Alonso +17 pontos sobre Felipe Massa)
A menor diferença entre as duplas das equipes de ponta não pode ser apenas explicada pelo abandono precoce de Alonso na Malásia. Afinal isso vai na conta de um erro de julgamento em conjunto do piloto e de sua equipe na pitwall. Massa demonstrou sinais positivos com um bom ritmo de corrida em Melbourne e boas classificações nas duas primeiras corridas. Mas voltou a demonstrar dificuldades com os pneus nas provas seguintes - desta vez com o composto médio da Pirelli. Justamente o que deve ser utilizado na maioria dos GPs deste ano. Precisa resolver isso rapidinho. Mais que o duelo com Alonso, está em jogo seu próprio futuro na Fórmula 1.

Ultrapassagem ou mera abertura de caminho entre estratégias distintas. Nem sempre é fácil saber
A dinâmica do Grande Prêmio da China dividiu opiniões dentro do paddock da Fórmula 1. O desgaste excessivo dos pneus, especialmente do composto macio, fez com que o treino classificatório tivesse carros nos boxes a maior parte do tempo para economizar borracha. E a corrida virou um xadrez estratégico. Para complicar, as duas zonas de ativação da asa traseira móvel tornaram as ultrapassagens fáceis demais. Com tudo isso, quase nenhuma disputa ferrenha ocorreu, já que a ordem era poupar equipamento.
A Pirelli ouviu a opinião dos engenheiros e pilotos e vai avaliar a situação. Não está descartada uma mudança na composição de cada tipo de pneu a partir da quinta etapa do campeonato, o GP da Espanha.
Vettel é um dos que saiu frustrado com a dinâmica da prova. “Saber a atual divisão de forças no momento é uma piada, não parece muito uma corrida atualmente já que tudo depende exclusivamente dos pneus”. Mas as reclamações não são unânimes. Para o chefe da Ferrari Stefano Domenicali, é mero choro de perdedor. “Os pneus são iguais para todos o importante é administrá-los bem. Reclama quem termina atrás e não reclama quem termina na frente”.
O finlandês Kimi Raikkonen foi surpreendentemente eloquente na hora de avaliar o quadro. E se mostrou satisfeito com a F-1 do jeito que está. “Não é diferente do ano passado, não sei do que as pessoas reclamam. Mesmo há dez, quinze anos atrás, você também não podia acelerar o máximo o tempo todo. É a mesma situação para todos, é parte da Fórmula 1. Os pneus funcionam bem para a classificação e é preciso cuidar deles na corrida, mas ainda dá para pisar fundo”, analisou
Perguntei em Xangai ao inglês Lewis Hamilton sobre o tema. Ele admitiu que essa dinâmica de controlar seu ritmo o tempo todo é muito mais complicado para os pilotos. “É bom mais desafiador agora, com este tipo de pneus que temos. Mas eu me divertia mais como era até 2008, quando os carros tinham melhor aerodinâmica, havia o reabastecimento e era possível andar de pé embaixo o tempo inteiro”, afirmou.
Vai ser interessante ver que tipo de corrida teremos no Bahrein. Com os compostos médios (originalmente seriam os macios, mas a Pirelli também dá sinais de repensar a situação) e duros - e com um traçado sem curvas que judiam demais da borracha - quiçá seja uma prova com mais disputas por posição. Não tenho nada contra um formato que privilegia o cuidado dos pneus e a estratégia em cima disso. Se olharmos para 2010, para as corridas mais chatas da F-1 recente, a estratégia era óbvia para todos, e a prova durava só até o primeiro dos dois pit-stops, virando um comboio depois. Mas, em Xangai, o peso em cima da estratégia foi demasiado. Seria legal encontrar um meio termo.

Um político em final de mandato
Se as consequências da confusão na Red Bull ainda não estão muito claras - eu apostaria numa postura conciliatória e não punitiva por parte da direção do time -, na Mercedes tudo aponta para que Ross Brawn saia como o grande derrotado do episódio ocorrido na Malásia.
Embora existam semelhanças entre as interferências das equipes na briga de seus pilotos, há uma diferença fundamental: na Mercedes, um carro (o de Hamilton) estava realmente no limite de sua resistência e o ritmo precisava ser dosado. O que vinha atrás (o de Rosberg) tinha sobras e, como o próprio piloto falou pelo rádio, poderia tentar pressionar e se aproveitar de qualquer eventualidade com a dupla da Red Bull. Ross Brawn não permitiu que isto acontecesse.
Rosberg, claro, não gostou. Hamilton também não gostou e disse que, na improvável hipótese de um cenário como este se repetir, cederia a posição ao companheiro de equipe. Niki Lauda, o consultor do time, condenou com veemência a ordem de Brawn. Toto Wolff foi mais conciliador, mas também indicou que a atitude será outra caso um episódio assim aconteça no futuro. Quando se reunirem novamente na fábrica em Brackley, todos olharão feio para o homem que passou o GP da Malásia fazendo sua velha política com o dedão enfiado no botão do rádio.
São os ventos da mudança soprando fortes nos campos da Mercedes. Nick Fry já deixou o time no último final de semana. Com a chegada iminente de Paddy Lowe no ano que vem, Brawn está com os dias contados. E, depois do ocorrido no último domingo, deve perder influência dentro do time até sua saída.
No fundo, esta é a melhor notícia de um domingo deveras confuso para a Fórmula 1. Afinal, o inglês esteve por trás de muitas das ordens de equipe recentes da categoria que tiveram o impacto de uma flecha no coração dos fãs de esporte. Quanto menos poder este tipo de gente tiver, melhor para todos nós.

Atrás de uma viseira também bate um coração
Ao final do último dia dos testes da semana passada, em Barcelona, Lewis Hamilton fez hora extra na sua sala dentro do motorhome da Mercedes. Não para discutir os dados de telemetria com os engenheiros da equipe, mas para fazer uma enorme tatuagem no braço direito com um tatuador que trouxe de Los Angeles. Depois da sessão, o piloto postou, orgulhoso, o resultado em uma foto no twitter.
Apesar de incomum, não tem nada errado com o fato de Lewis Hamilton fazer uma tatuagem em seu motorhome dentro de um circuito - cada um faz as escolhas que quiser neste assunto. Mas é uma atitude que certamente não seria tolerada na sua equipe anterior. A McLaren sempre foi muito controladora em relação à imagem e às atividades de seus contratados. Tatuar o braço ou levar o cão para o trabalho - outra “extravagância” que Hamilton fez na semana passada - não combinam com o perfil asséptico do time.
Eu critiquei Hamilton no ano passado quando ele anunciou que estava indo para a Mercedes. Não via motivação diferente além do dinheiro para um esportista deixar um time com potencial vencedor como a McLaren para se juntar à uma equipe confusa e com um carro ruim.
Hoje fica claro. O inglês buscou na verdade uma liberdade que nunca teve em todos os anos em que foi lapidado pelo pai e pela McLaren para ser bem-sucedido na Fórmula 1. À custa de seu talento, as duas partes ganharam muito dinheiro. Lewis Hamilton rompeu com ambas - primeiro com o pai, depois com o time. Hoje, dono de seu próprio nariz, resolveu curtir sua liberdade, retomando a relação com a namorada, comprando um caro jatinho particular para vê-la com frequência, criando seu cachorro e fazendo tatuagens. Enfim, sendo o que ele quer ser.
E isto não tem preço, vale muito mais do que títulos e vitórias na pista.
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de ontem do Diário Lance!)

Mesma cor, novo modelo
Acima está a principal novidade da Mercedes para apagar a péssima temporada de 2013. Claro que não me refiro ao W04, o novo carro do time, mas ao piloto que está ao volante. Lewis Hamilton chega para refrescar um ambiente que há anos promete muito e consegue muito pouco.
De todas as novidades nas equipes, sem dúvida a performance do inglês será a que mais chamará atenção. No ano passado, Hamilton fez sua melhor exibição do ano em Austin, quando já corria sabendo que em breve estaria livre das amarras do esquema controlado da McLaren. Acredito que esta liberdade fará maravilhas à sua pilotagem neste ano - e não é que ele estava pilotando mal antes disso.
Mas o piloto deve aprender a conviver com a frustração do insucesso. O novo carro não difere muito do antecessor, embora os meses entre uma temporada e outra podem ter permitido que os engenheiros entendessem melhor a aerodinâmica para otimizar o efeito coanda que desenvolveram para os escapamentos. E é justamente na traseira que estão as maiores mudanças. Que são poucas, para um carro que terminou 2012 sofrendo tanto no meio do pelotão.
Técnica à parte, o que deve complicar um pouco as coisas na Mercedes é seu novo organograma. Com Toto Wolff, Ross Brawn e Niki Lauda na parte diretiva e um montão de engenheiros de renome na direção técnica, o time parece sofrer de excesso de caciques e dá para imaginar um puxa-puxa intenso de tapetes nos bastidores, o que nunca é bom. Da minha perto, espero um ano de transição. Um salto significativo em termos de resultados, provavelmente só a partir de 2014.
FICHA TÉCNICA
MERCEDES F1 W04
Chassi: fibra de carbono e alumínio
Suspensão dianteira: estilo pushrod
Suspensão traseira: estilo pullrod
Câmbio: semi-automático com sete marchas
Motor: Mercedes-Benz FO 108F
Gasolina: Mobil
Freios: Brembo
Rodas: BBS
Peso: 642 kg

Ele só disse o que pensava...
Quando você diz que adora a Fórmula 1 e seu filho pequeno lhe pergunta o que é isso, o que você responde: corrida de carros ou corrida de pilotos? É sempre a primeira opção, é algo que está no nome do esporte: automobilismo.
Este preâmbulo está aqui para falar um pouco de algumas inexistentes “polêmicas” que li à luz da entrevista coletiva de Fernando Alonso que ocorreu hoje aqui em Madonna di Campiglio. Foi uma agradável meia hora de um espanhol bem-humorado, um contraste total do Alonso carrancudo que se apresentou aqui no evento do ano passado.
O ponto de discussão foi quando novamente lhe perguntaram da sua afirmação de que Lewis Hamilton é o melhor piloto da Fórmula 1 atualmente. Algo que ele reafirmou com uma explicação perfeita, mas que as manchetes acabam tirando do contexto - e a grande maioria das pessoas tem a mania de ler apenas manchetes e se sentir informada.
Leia o que disse Alonso, palavra por palavra. “Não sei quem será meu principal adversário neste ano. Será aquele que tiver fatores gerais mais fortes ao longo do ano: carro, equipe, preparação, sorte. Isto determinará quem será este adversário. À pergunta de, não quem é o adversário mais forte, mas quem é o piloto mais forte, a resposta para mim é Hamilton. Era assim o ano passado e continua sendo este ano. É minha opinião pessoal”.
Não há nada de polêmico nisso. Se as pessoas parassem para pensar, Alonso conhece Hamilton muito mais do que conhece a Sebastian Vettel. Trabalhou ao lado do inglês em 2007 e comeu o pão que o diabo amassou para correr no mesmo nível de um garoto que estreava na Fórmula 1. Ao afirmar isto, reconhece as qualidades deste piloto e, de maneira nenhuma, diminui o valor daquele que venceu os três últimos títulos mundiais, o alemão Sebastian Vettel. E a análise do espanhol sobre os “fatores gerais” é um quadro perfeito de toda a complexidade que envolve o lado esportivo da Fórmula 1 e que muita gente adora esquecer, embarcando na discussão barata de que piloto X é melhor que Y sem levar em conta todo o conjunto em torno deles.
Em cima disso, achei que Alonso escorregou nesta afirmação. “Vettel foi muito bem nos últimos três anos, foi brilhante em algumas ocasiões e mereceu seus títulos, mas o carro o ajudou”. É claro que ajudou, Fernando. É corrida de carros! E enquanto eles não forem para a pista para os primeiros testes, que é quando a gente vai começar a entender todos os fatores que formarão o campeão deste ano - como os novos compostos de pneus se comportam, quais as novas tendências aerodinâmicas, quais variantes estratégias a limitação de uso do DRS na classificação vai empregar, enfim, toda esta complexidade que torna a F-1 tão apaixonante para quem se dispõe a entendê-las ao máximo - toda essa discussão de piloto X é melhor que Y só serve mesmo para encher linguiça.
Num ano em que as equipes viveram grandes altos e baixos e alternando em pequenos períodos (às vezes corrida por corrida) suas janelas de domínio, os destaques do ano ficaram para pilotos e para corridas específicas. Talvez o que explique esta excelente temporada tenha sido isto, como o lado humano voltou a ganhar peso num momento de grande competitividade. Com vocês, os melhores de 2012, novamente em ordem crescente:
10 - Uma corrida para Frida
Na manhã do GP da Malásia, Sergio Perez expressou no twitter sua tristeza pela morte de “Frida”, sua cachorra que vivia no México e o acompanhou em boa parte de sua vida. “Dedico a corrida de hoje para ela”, escreveu. Seguiu-se uma das grandes exibições da temporada, com Perez aproveitando condições favoráveis a sua Sauber para imprimir um ritmo alucinante e pressionar um endiabrado Fernando Alonso na briga pela vitória. Ela não veio, mas Frida foi devidamente homenageada.
9 - Nico Hülkenberg
Em sua segunda temporada completa na Fórmula 1 o alemão voltou a demonstrar sinais positivos. Demorou um pouquinho para pegar a mão, talvez fruto do ano sabático que fez, mas andou bem em diversas ocasiões. No Brasil foi onde mais chamou atenção, mas suas performances na Bélgica (onde terminou em quarto) e na Coreia do Sul (onde fez uma das ultrapassagens do ano) foram outros exemplos de um piloto com muito potencial.
8 - As corridas finais de Felipe Massa
Se as primeiras corridas foram de chorar, as duas últimas provas de Felipe Massa em 2012 fizeram lembrar o seu auge. Em ambas, superou Fernando Alonso na classificação e em ritmo de corrida, isto com o espanhol no meio de uma acirrada briga pelo título. Por conta disso, o brasileiro ainda agiu como o companheiro de equipe que a Ferrari tanto preza, recebendo um golpe abaixo da linha da cintura no Texas e fazendo uma prova tática a favor do espanhol no Brasil (protegou Alonso na ultrapassagem da segunda volta, segurou o pelotão que vinha atrás em seguida, cedeu posição perto do final). Não sabemos se foi pura forma ou se foi questão de circuito, mas se ele levar um pouco disto para 2013 fará um favor enorme a seu futuro.
7 - A apoteose de Alonso em Valência
Fernando Alonso desabou no pódio em Valência. Ao final de uma semana onde muito se falou da falta de futuro da prova em meio à turbulenta recessão que assola o país, o espanhol passou a semana dizendo que a corrida traria um bálsamo para o sofrimento geral. E ele conseguiu uma vitória improvável, largando de 11º lugar, fazendo ultrapassagens importantes e se colocando na posição certa para aproveitar o infortúnio de outros pilotos. Ao final, parou o carro diante de uma arquibancada e celebrou uma das festas mais bonitas de 2012.
6 - Os rádios de Kimi Raikkonen
Sempre me referi a Kimi Raikkonen como o “Buster Keaton” das pistas, pela sua capacidade inata de cativar sem precisar sorrir. A veia para comediante pulsou forte nas conversas pelo rádio com seu engenheiro durante o GP de Abu Dhabi. O finlandês sabia mesmo muito bem o que estava fazendo, tanto que encontrou uma equipe que o deixasse em paz nesta sua volta à Fórmula 1 - e isto o permitiu render o máximo. E nos permitiu ter acesso a momentos de comédia poética como estas falas na noite do deserto.
5 - O pódio de Kobayashi
Uma das memórias que sempre guardarei com carinho destes anos de périplo por circuitos do mundo todo foi o de ver e ouvir Suzuka explodindo no momento em que Kamui Kobayashi apareceu no pódio para receber seu troféu pelo terceiro lugar no GP do Japão. Um grito de gol há muito engasgado na garganta de um povo absolutamente fanático por Fórmula 1 para celebrar seu herói. O resultado não foi o suficiente para lhe garantir um lugar no ano que vem, mas a festa em sua casa foi algo que ele merecia muito.
4 - A reação ao incêndio
Numa temporada em que a trajetória esportiva de todo mundo foi similar a de uma montanha-russa, um dos momentos mais dramáticos foi justamente um episódio que fez aflorar o lado humano em um meio tão competitivo. A explosão de um tanque de combustível dentro dos boxes da Williams após o GP da Espanha aconteceu quando a equipe e vários jornalistas estavam na frente dos boxes para festejar o inesperado triunfo de Pastor Maldonado. Em poucos instantes, membros de todas as equipes se uniam para combater o incêndio enquanto muitos ali presentes cuidaram de ajudar quem estivesse do lado a sair da zona das chamas com segurança. Um voto de esperança na espécie humana.
3 - GP dos Estados Unidos
Austin, a capital do Texas, foi um dos maiores presentes que a Fórmula 1 poderia ganhar em mais de 60 anos de história. Uma cidade alegre, que celebra a música ao vivo e com espírito jovem, um oásis bem no meio do conservadorismo daquele estado. A turma de lá construiu um circuito excepcional e fez do evento um show como os norte-americanos são especialistas em fazer. E, como a cereja do bolo, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel protagonizaram durante mais de 40 voltas uma sensacional briga de gato-e-rato pela vitória. Que tenha sido o primeiro GP de muitos por ali.
2 - GP do Brasil
A briga está quente no pelotão intermediário, com posições sendo trocadas o tempo todo. Corte para a ultrapassagem de Jenson Button sobre Lewis Hamilton para assumir a liderança. Corte para a Lotus de Romain Grosjean escapando no mergulho e batendo na barreira de pneus. Corte para a briga intensa ali no meio, com gente escapando no final da reta e batendo rodas no “S” do Senna. Foi este o ritmo de intensidade da prova que encerrou um grande ano. Que ainda por cima carregou nos tons dramáticos da disputa pelo título, com um Sebastian Vettel escapando de maneira milagrosa de uma pancada tripla na primeira volta (e de mais um ou outro erro de estratégia) para fazer uma notável prova de recuperação e ganhar seu terceiro título consecutivo e fazer história. Numa corrida que vai entrar para a história como uma das melhores que a categoria já celebrou. Para mim, a melhor.
1 - A nova geração de ouro
Parece uma saída fácil escolher quatro pilotos para o único posto de melhor do ano, mas foi como se os planetas se alinhassem em 2012 para uma era estelar na Fórmula 1: um Sebastian Vettel ganhando seu título mais difícil num ano em que teve de trabalhar duro para deixar o carro do jeito que lhe aprazia e capitalizar quando isto aconteceu; um Fernando Alonso no auge de suas faculdades como piloto, atuando com destreza absoluta a cada segundo para maximizar suas chances de ser campeão, seja na pista ou fora dela, e por muito pouco não ganhou um título bastante improvável; um Kimi Raikkonen atuando na base do puro talento para completar quase todas as voltas do ano (só perdeu uma, no Brasil, justamente por ter pego um caminho errado numa escapada em Interlagos), vencer um GP e terminar o ano num terceiro lugar muito além do seu equipamento; e um Lewis Hamilton que reencontrou seu caminho, pilotando muito para vencer três vezes e ver três triunfos que estavam a seu alcance se desvanecerem em um instante (em Cingapura, Abu Dhabi e Brasil). No fundo, quando olhar para 2012, o que mais vou lembrar será o privilégio que eu tive de ver esta geração de ouro correndo, cada um dando o máximo de si e, juntos, sendo os principais responsáveis pelo grande espetáculo que foi esta temporada.
Já é uma tradição do meu blog a eleição dos piores e dos melhores do ano. E numa temporada que foi tudo de boa, nem tudo foi bom. Equipes que decepcionaram ou não fizeram valer as expectativas, pilotos que tiveram momentos ruins e outras bobagens que não fizeram jus a um grande ano da Fórmula 1 ganharam espaço na nossa lista. Que, como sempre, vai em ordem crescente, com o pior, pior mesmo do ano lá no fim do post. Boa leitura e dê também os seus pitacos nos comentários!
10 - Os erros da McLaren
Num ano muito equilibrado, a equipe de Woking teve dois momentos de superioridade de performance: nas primeiras corridas e no auge do verão europeu. Em ambas, não capitalizou isso por uma sucessão de erros. Na parte inicial, o grande problema da equipe foi uma série de pit-stops desastrados. Depois o time se acertou, bateu diversos recordes de tempo de parada. Mas aí a confiabilidade decaiu, com quebras que tiraram do time uma dobradinha em Monza e uma vitória em Cingapura - e, mais tarde, outra vitória que parecia certa em Abu Dhabi. Resultados que custaram à McLaren o vice-campeonato entre os Construtores. E, com isso, alguns milhões a menos na conta.
9 - A “polêmica” de Interlagos
Foi uma das melhores finais de campeonato da história, um GP de tirar o fôlego do início ao fim. Mas que teve um epílogo estúpido, feito através da cegueira de torcedores travestidos de jornalistas na Europa, fazendo barulho por nada ao invés de fazer seu trabalho propriamente, consultando a FIA antes de escrever um monte de besteiras em seus veículos. Tivessem feito isto, saberiam que a entidade nunca questionou a ultrapassagem de Vettel sobre Jean-Eric Vergne pois conheciam as regras e sabiam que havia uma bandeira verde agitada no início da reta. Criaram uma polêmica que jamais existiu.
8 - Michael Schumacher em Cingapura
Se o conjunto da obra do alemão nestes três anos de Mercedes é triste, até que neste 2012 ele teve alguns brilhos eventuais, como o pódio em Valência e o melhor tempo na classificação em Mônaco. Mas também fez muitas lambanças, inclusive não capitalizou sua performance do sábado em Monte Carlo pela justa punição sofrida após o acidente bobo com Bruno Senna na corrida anterior em Barcelona. Mas foi em Cingapura que Schumacher estava impossível: perdeu a homenagem a Sid Watkins no grid (apesar da FIA ter insistido com todos o final de semana inteiro da importância dela), estampou seu carro na traseira da Toro Rosso de Jean-Eric Vergne de maneira ridícula e ainda chamou o francês de “Jean-Marc” ao pedir desculpas, ao mesmo tempo em que não assumiu completamente a culpa pela batida. Não é à toa que os diretores da Mercedes não perderam um segundo para dar “sim” à Lewis Hamilton quando este ligou para fechar negócio na semana seguinte. Posto na rua sem contrato, restou ao alemão se aposentar para tentar passar menos ridículo.
7 - Mark Webber
O australiano fez um bom campeonato até o GP da Inglaterra, quando pontuou com consistência e venceu duas corridas. Renovou seu contrato com a Red Bull após a corrida de Silverstone e... entrou de férias? É a impressão que fica, mas a queda do australiano tem a ver também com sua incapacidade de tirar o máximo do RB8 à medida em que ele foi sendo desenvolvido, ao contrário do que fez Sebastian Vettel. E se ver novamente batido claramente pelo companheiro de equipe lhe fez mal e criou uma bola de neve que jogou sua performance ainda mais para baixo. O que aconteceu em Abu Dhabi, quando foi alcançado por Sebastian Vettel antes da metade da corrida, sendo que havia largado em segundo e o alemão, em último, é um bom exemplo disso.
6 - Williams
Não concordo quando leio que 2012 foi o ano do renascimento da Williams. Pelo contrário, para mim foi o ano em que a equipe desperdiçou condições excepcionais para dar um grande salto rumo ao topo. Na temporada em que voltou a vencer e em que Pastor Maldonado largou onze vezes entre os dez primeiros, o time ficou apenas em oitavo na tabela, atrás de equipes com carros nitidamente piores que o FW34. O problema é que o venezuelano apagou o brilho de seu triunfo em Barcelona com uma sucessão de bobagens na pista que lhe tirou muitos pontos - e lhe rendeu muitas punições. E que Bruno Senna tenha passado o ano todo sem resolver seu problema em treinos de classificação - o ‘handicap’ que sofreu por ceder lugar a Valteri Bottas em quinze treinos livres não justifica que ele só tenha passado para o Q3 uma única vez. Com dois pilotos mais consistentes, dá para imaginar tranquilamente a equipe terminando o ano em sexto, talvez até mesmo em quinto lugar. O que a tornaria menos dependente do dinheiro que seus pilotos trazem.
5 - As primeiras voltas de Romain Grosjean
Romain Grosjean é veloz e capaz de fazer corridas consistentes que o levem ao pódio. Desde que sobreviva às voltas iniciais da prova, que fique claro. A quantidade de confusões que o francês aprontou em largadas ou disputas nos momentos iniciais das corridas foi muito além do aceitável e a suspensão de um GP após a batida em Spa-Francorchamps foi merecida (embora os critérios utilizados pela FIA para fazê-lo não tenham sido os corretos, como discuti aqui). Que a lição tenha sido aprendida e o “maluco da primeira volta”, como foi apelidado pelos colegas, fique no passado.
4 - Paul di Resta
O escocês chegou na Fórmula 1 em 2011 como campeão da DTM, agraciado pelo chefe da Mercedes Norbert Haug e tido como substituto natural de Michael Schumacher na equipe prateada. Até começou bem suas duas temporadas até aqui, mas nas duas acabou atropelado e claramente superado pelos companheiros de equipe que teve, primeiro Adrian Sutil e depois Nico Hülkenberg. Dá a impressão de só permanecer na Force Índia por trazer um eventual desconto no fornecimento dos motores Mercedes. Com a saída de Haug da categoria, precisa andar bem em 2013 para garantir um futuro na categoria.
3 - As primeiras corridas de Felipe Massa
A sala que a Ferrari reservou para as entrevistas de seus pilotos no paddock de Sepang era no segundo andar de um puxadinho feito para abrigar as equipes. Foi lá que vimos um Felipe Massa no fundo do poço, atônito com o abismo gigantesco que separava sua performance da de Fernando Alonso. De fato, nas duas primeiras corridas do ano, o brasileiro chegava a levar um segundo por volta do espanhol. Um desempenho que justificaria qualquer troca no meio da temporada, em qualquer equipe. O desenvolvimento do F2012 o ajudou a reencontrar seu caminho e no final do ano ele esteve muito bem, mas até o GP de Mônaco sua performance foi de dar dó.
2 - Mercedes
Num ano cheio de paradoxos, a equipe anglo-germânica foi o maior deles. Começou o ano com uma vitória incontestável num final de semana de domínio total na China. Encerrou penando em lutas na parte de trás do pelotão intermediário. A total incapacidade em desenvolver o W03 preocupa. A direção de Stuttgart parece receosa em entrar com os dois pés no projeto da equipe de Fórmula 1, controlando como pode os gastos. Se em 2013 a performance continuar nesta espiral descendente, não seria surpreendesse se puxassem o carro. No sentido figurado e no literal também.
1 - Comissários da FIA
Quatro horas para saber quem era o vencedor do GP de Cingapura, para entender a questão do combustível no RB8 de Sebastian Vettel na classificação em Abu Dhabi, para julgar um sem número de decisões com potencial influência no resultado final de uma corrida ou de um grid de largada. A falta de agilidade da FIA foi o fator mais lamentável num ano em que a Fórmula 1 teve pouco a lamentar. Mesmo com acesso à telemetria e a inúmeros replays, algumas decisões demoraram demais para serem tomadas. Sem falar que a rotatividade de comissários gerou algumas decisões inconsistentes, deixando os pilotos muitas vezes confusos com o que pode e o que não pode ser feito. A ideia do sistema não é ruim, mas ele precisa ser aprimorado com urgência.

56 provas pontuando, nenhum título conquistado no período
O esporte pode ser maquiavelicamente irônico. Justamente numa corrida em que não tinha o que comemorar, a McLaren se tornou a equipe a pontuar por mais GPs consecutivos na história da Fórmula 1. São 56, ou desde o GP do Bahrein de 2010, a corrida que abriu aquela temporada. O recorde pertencia a Ferrari, que pontuou 55 vezes em série, entre os GPs da Malásia de 1999 e o de 2003.
A ironia está no fato do recorde ter vindo numa corrida em que o time tinha tudo para vencer. Lewis Hamilton voou baixo ao longo de todo o final de semana, fez uma pole position assombrosa e liderava a parte inicial da corrida com uma certa folga quando um problema na bomba de combustível cortou o motor de seu carro.
Qualquer quebra irrita um piloto, mas quando se está liderando uma corrida é ainda pior. E é a segunda vez que isso acontece com Hamilton neste ano: houve também o problema com o câmbio que lhe tirou uma vitória praticamente certa em Cingapura.
Se é contraditório que este recorde de pontuação consecutiva ser efetivado com um carro que deu tantos problemas mecânicos, é ainda mais curioso o fato dele ocorrer num período em que a McLaren não ganhou nenhum título. Foram 16 vitórias nestas 56 corridas. A Ferrari ganhou sete títulos mundiais e 35 corridas no período em que registrou seu recorde de 55 provas. No caso dos prateados, a ótima consistência não veio acompanhada de uma velocidade superior aos demais.
Alguns recordes são mesmos curiosos.

Polêmica do combustível? Nada. O voo de Hamilton foi o acontecimento do dia
Em um dia em que os postulantes ao título foram atingidos por problemas, Lewis Hamilton surgiu como um cometa na noite de Abu Dhabi. Uma volta excepcional colocou o inglês da McLaren na pole position da corrida deste domingo, encerrando um período de três corridas em que a Red Bull colocou seus dois carros na primeira fila com facilidade.
O mais curioso é que o piloto inglês não tem a menor ideia do que fez com que o carro da McLaren desse este enorme salto de performance. Restou creditar sua grande vantagem na classificação para fatores mais abstratos:
- O carro esteve ótimo todo o final de semana. Não trouxemos nenhuma atualização para esta corrida, então não sei porque ele está melhor aqui do que nos outros circuitos. A equipe fez um bom trabalho, o acerto encaixou e eu adoro esta pista. E tem minha família aqui, cuja energia me trouxe três décimos de segundo por volta - analisou Hamilton.
A alegria dele contrastou com os infortúnios dos dois pilotos que brigam pelo título. Fernando Alonso viu que todo o esforço da Ferrari em melhorar o F2012 em ritmo de classificação ter sido em vão. O carro demonstrou ainda menos competitividade do que na semana passada na Índia. O espanhol resignou-se:
- Pelo nosso desempenho nos treinos livres, não poderíamos esperar muito mais do que esta posição no grid de largada. Foi o máximo que conseguimos e espero que nosso carro volte a demonstrar um ritmo de corrida muito mais forte do que o da classificação.
Pior sorte teve Sebastian Vettel. O alemão teve problemas mecânicos no treino livre pela manhã e ainda ficou sem o mínimo exigido de gasolina após completar sua última volta na classificação, não conseguindo levar o carro de volta aos boxes. Por conta disso, foi punido pela FIA, teve seus tempos desconsiderados e vai largar em último lugar.
Fazer uma prova de recuperação amanhã será a sua tarefa. Numa pista travada como a de Yas Marina, uma tarefa inglória.