Questão de prioridade
Acho legal Lewis Hamilton adotar o visual “gangsta”, de bonezão, calças largas, roupas coloridas. Acho legal ele chamar seu carro de F-1 de “bad ass motherfucker”. Acho legal que ele encha a cara, vá para um hotel com os amigos e umas periguetes e mande o dedo do meio para os fotógrafos que realmente não têm nada a ver com isso.
Só não acho legal quando um esportista se deslumbra e perde o compromisso com a única coisa que interessa: a vitória.
Não há um contrato milionário no mundo que justifique sua saída da McLaren. Um time que encontrou um caminho em meio ao campeonato mais equilibrado da história para se tornar mais competitiva que as demais. Um time que, no ano passado, foi o único que conseguiu desenvolver o difusor soprado a ponto de superar o praticamente imbatível RB7 em alguns circuitos. Enfim, o time de maior excelência técnica do grid.
O argumento de que a Mercedes pode chegar com tudo em 2014 com a nova regulamentação de motores tem o valor de uma nota de três reais. Em primeiro lugar, porque qualquer outra equipe com um cheque de cinco milhões (ou menos, a FIA vai pressionar para isto) pode ter exatamente o mesmo motor. A própria Sauber mostrou esse ano que, com um chassi melhor, pode superar a “matriz” Ferrari em algumas ocasiões.
E depois, ninguém deixa o Barcelona para ir jogar no Málaga achando que “daqui a dois anos dá para disputar o título da Champions”. Hamilton sempre falou que “arde de desejo pelas vitórias (burn to win)”. Se fosse verdade, não deixaria o atual melhor carro do grid para ir se sentar no quarto, quinto ou sexto melhor, dependendo da pista.
Achar também que a turma de Brackley é capaz de dar-lhe um carro vencedor seja quando for é uma grande besteira. O Brawn BGP01 só acabou com a concorrência na primeira metade daquele ano porque Ross foi malandro demais: ajudou a bolar um regulamento no qual sabia muito bem onde estava o buraco para introduzir uma peça que dava uma vantagem gigantesca sobre o resto. Até a FIA julgar o mérito e os adversários adaptarem seus projetos para copiar a solução, Button já havia vencido um punhado de corridas e o título estava bem encaminhado. Quando os rivais acertaram a mão, o time caiu para trás e passou a ser sistematicamente superado por eles.
Acho a decisão de Hamilton uma das piores que já vi na Fórmula 1. Para mim, só reforça a imagem de um piloto excepcional, mas muito mal assessorado na hora de encaminhar sua carreira. Adoraria que o tempo provasse que estou errado, mas temo que ele não vá ganhar nenhum título pelo tempo em que estiver na Mercedes. Pelo menos, vai ganhar muito dinheiro, encher seu macacão de patrocinadores pessoais e, aposto, gravar um disco de rap que ficará muito bem produzido com a ajuda de seus amigos.
Vai ver era isso mesmo que ele queria.
As estratégias para Monza
A McLaren confirmou sua grande forma e colocou sua dupla de pilotos na primeira fila do grid de largada em Monza. Além disso, possui uma das melhores velocidades de reta do final de semana, o que teoricamente dificulta as ultrapassagens para quem vem atrás. Veremos mais um passeio de seus pilotos como o que Jenson Button deu na semana passada em Spa?
Não necessariamente. Foi justamente o que eu perguntei a Button depois da classificação.
“Ter mais velocidade de reta pode nos ajudar ou pode nos atrapalhar, já que não usamos a asa móvel o tempo todo amanhã. Talvez tenhamos uma sétima marcha mais longa, o que não te ajuda. Talvez eles batam no limitador com 337 km/h, enquanto nós chegamos a 341 km/h sem bater no limitador. Precisamos esperar para ver”, foi sua resposta.
Para entender melhor a resposta de Button, é preciso olhar também para a variante decisiva em Monza: os pneus. Com um pouco mais de asa que os rivais, a Ferrari espera ter um carro mais estável em freadas e curvas, sendo mais benevolente com a borracha. Já a McLaren pode voar nas longas retas de Monza, mas pode sofrer também com um desgaste maior.
E ele pode ser bem grande.
Historicamente, as provas aqui premiam a estratégia de uma parada, mas ela parece impossível pelo desgaste verificado nos pneus durante os treinos livres - especialmente o dianteiro esquerdo. A tendência é que todo mundo pare duas vezes.
Assim, a 13ª temporada do Mundial deve trazer novamente as incertezas e o amplo leque estratégico que vimos nas outras doze. Sorte nossa e sorte também de quem aparenta ter um bom carro em ritmo de corrida, como Ferrari, Red Bull e Lotus. A McLaren ainda é favorita assim, mas o equilíbrio aparente ser muito maior do que o verificado em Spa-Francorchamps.
Vai ser mais um GP para não se perder de jeito nenhum.
Sem saída
Na verdade era para Lewis Hamilton já ter assinado sua renovação com a McLaren faz tempo. Afinal, que horizontes ele espera encontrar em alguma outra equipe? Correr na Ferrari de Fernando Alonso é impossível desde a explosiva convivência dos dois na mesma equipe em 2007. Red Bull? Se quisessem o inglês, não teriam corrido para renovar com Mark Webber mesmo sabendo que Hamilton estava disponível no mercado.
Na Mercedes? Bem, primeiro é preciso saber se Michael Schumacher quer se aposentar - e ele não está com pressa para decidir. De qualquer jeito, seria um passo atrás para alguém que está sentado no único carro prateado do grid capaz de brigar pelo título desta temporada, o da McLaren. Restaria a Lotus, mas é uma equipe de futuro incerto e que demonstra estar muito satisfeita com sua dupla de pilotos.
O fato é que a relutância em renovar com a McLaren reside na questão financeira. O contrato em vigor de Hamilton é de uma época em que a realidade econômica, da F-1 e Mundial, era outra. Mas ele se recusa a se adaptar à realidade atual, ciente do que é capaz de fazer quando está num final de semana endiabrado, como na Hungria.
O que Hamilton não enxergou ainda é que abrir mão de um salário astronômico é fundamental para a própria competitividade da McLaren. No final deste ano a equipe vai perder seu principal patrocinador, a Vodafone. E a Mercedes pára de ceder motores de graça para o time no final de 2013. Sem falar nos custos de manutenção da suntuosa sede da equipe e do prejuízo financeiro que a McLaren Cars causa aos cofres do grupo.
A McLaren chegou a um ponto em que cinco milhões a mais fazem uma diferença tremenda. É um dinheiro que renderia mais se for empregado no motor ou no desenvolvimento do carro. Afinal, de que adianta Hamilton renovar com a McLaren para ganhar bem, mas sem um carro competitivo em mãos?
(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
Hamilton mostra força na Hungria
Foi a maior exibição individual de um piloto nesta temporada. No treino de classificação para o Grande Prêmio da Hungria, Lewis Hamilton não deu a menor chance para os adversários, sendo o mais veloz em cada uma das três partes da sessão. Na decisiva, fez uma volta feroz em 1min20s953, colocando uma vantagem impressionante de mais de quatro décimos sobre Romain Grosjean, da Lotus, que larga a seu lado na primeira fila.
O histórico do inglês da McLaren, duas vitórias e duas poles nesta pista, sugere um caso de piloto que faz a diferença num circuito reconhecidamente técnico. Mas o próprio Hamilton faz questão de dissipar esta impressão e apontar para o verdadeiro motivo do banho que deu nos rivais neste sábado: o ritmo de desenvolvimento da McLaren.
- A cada ano, quando chegamos aqui, trazemos novidades no carro. É um ciclo que se repete, chegamos com um pacote melhor que o da prova anterior e o desse ano está funcionando muito bem. Fico feliz em contribuir com o sucesso da equipe - falou o piloto nesta que foi a 150ª pole do time de Woking.
Mesmo assim, a prova deste domingo permanece em aberta já que a meteorologia local prevê chuvas fortes na região do circuito na parte da tarde. De qualquer forma, o sábado de Hungaroring foi um dia para reconhecer que ainda estamos na 11ª etapa do Mundial e que é cedo demais para tirar um piloto como Hamilton da disputa pelo título, mesmo com ele a 62 pontos do líder Fernando Alonso.
- Hamilton está na pole e ele também é um adversário do campeonato. Talvez muitos pensem diferente por se orientar só pela tabela de pontos, mas é preciso prestar atenção em tudo. Lewis mostrou na última corrida que é rápido, pode não ter somado pontos mas será uma força que deve ser considerada até o final do ano - opinou Sebastian Vettel.
Deve ficar tudo na mesma
O anúncio da renovação de contrato de Mark Webber na equipe Red Bull derrubou a primeira peça-chave do mercado de pilotos para o ano que vem. O australiano chegou a ser especulado como um possível substituto de Felipe Massa na Ferrari, mas o desenrolar do campeonato até aqui o fez entender que suas chances de ser campeão serão maiores na Red Bull.
Para a equipe, é a continuidade de uma dupla que está dando certo, vide os dois títulos de Construtores dos dois últimos anos. Webber e Sebastian Vettel não são exatamente os maiores amigos, mas possuem um relacionamento profissional que funciona. Tanto que o próprio alemão disse recentemente à imprensa que gostaria se o australiano ficasse. Ficou.
A primeira decisão relevante do ano é um forte indício de que as duplas das principais equipes devem permanecer inalteradas para o ano que vem. O acerto de Lewis Hamilton com a McLaren esbarra no momento apenas em detalhes. Alguns curiosos, como o fato do piloto exigir no contrato que fique com o original e não com uma réplica dos troféus que vier a ganhar, quebrando uma tradição iniciada desde que Ron Dennis assumiu a equipe.
Na Mercedes, a decisão de parar ou continuar está nas mãos de Michael Schumacher. A montadora está mais do que feliz com o retorno de mídia que aconteceu após a volta mais rápida dele no treino de classificação em Mônaco ou o pódio em Valência. E, com resultados melhores acontecendo, difícil imaginar que o piloto resolva desistir.
Resta a Ferrari e Felipe Massa. O brasileiro fez uma prova forte em Silverstone e vem andando num ritmo próximo ao de Alonso nas últimas quatro provas. Suas chances de continuar na equipe são muito boas no momento.
(Texto da coluna "Direto do Paddock" publicada na edição de hoje do Diário Lance!)
Comissários inconsistentes
O Grande Prêmio da Europa em Valência foi daqueles para deixar o quarteto de comissários da FIA ocupados o tempo inteiro. Num dia em que os pilotos da Fórmula 1 mandaram a prudência às favas, foram diversos lances e incidentes que passaram pelo crivo deles. Algumas decisões foram polêmicas, como considerar o brasileiro Bruno Senna culpado no incidente com Kamui Kobayashi.
Mas pelo menos duas decisões se mostraram absolutamente inconsistentes. A mais óbvia envolveu Michael Schumacher. Na parte final da prova, ele abriu a asa traseira móvel numa área em que bandeiras amarelas eram agitadas, algo que não é permitido pelo regulamento e foi captado pelas câmeras de televisão. A FIA alegou depois que, mesmo com a contravenção, ele claramente reduziu a velocidade no trecho. Só que no GP da Espanha, em maio, tanto Sebastian Vettel como Felipe Massa receberam punições pelo mesmo motivo. Parece que diante do primeiro pódio diante do heptacampeão, uma das grandes notícias de um grande dia, os responsáveis resolveram fazer vista grossa. O que jamais deveria acontecer.
O pior é que um outro lance da prova contradiz o argumento da FIA para o caso Schumacher. Lewis Hamilton havia sido investigado por não aliviar num setor de bandeiras amarelas (agitadas enquanto o carro de Vettel era empurrado para fora da pista). O computador mostra que ele passou ali 0s05 mais rápido ali do que na volta anterior. Para se ter uma ideia, Alonso foi 0s23 mais lento, Grosjean passou acima de um segundo mais lento. Ainda que a “acelerada” de Hamilton tenha sido marginal, ele claramente não tirou no pé. E era uma área de bandeiras amarelas duplas!
Apesar das inconsistências, acho importante a atuação dos comissários. Especialmente depois de decisões de Mundiais como as de 89, 90 e 94, quando um piloto que jogou o carro propositadamente em cima de outro e saiu campeão. Bom saber que isso não aconteceria hoje. Foram três títulos discutíveis, para não dizer vergonhosos.











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