11abr/134

De volta às raízes

Poupar pneus e ser veloz ao mesmo tempo é uma arte para poucos

O Grande Prêmio da China deve expor novamente a tônica da Fórmula 1 em 2013. A pista em Xangai é especialmente dura com os pneus - quem não se lembra de Lewis Hamilton atolando sua McLaren na caixa de brita com a carcaça de um deles à mostra em 2007. E o desgaste da borracha neste ano já se mostrou excessivo nas duas primeiras corridas.

Com tudo isso, a prova do domingo vai ser uma para correr “com o freio de mão puxado”. Os pilotos vão reclamar que não podem dar o máximo do carro o tempo todo e alguns fãs também vão chiar nas redes sociais - mesmo que jamais consigam distinguir, na tevê ou ao vivo, se os bólidos cruzam a reta com 10 km/h a menos de velocidade ou se os pilotos estão freando uma fração de segundo antes para poupar borracha. Protestos que procedem?

Certamente é uma Fórmula 1 diferente da de 2008, quando os pilotos podiam andar em ritmo de classificação o tempo todo em cada fase da corrida, que contava com pneus resistentes e reabastecimento. Mas a categoria mudou bastante desde então. Começar com o carro lotado de gasolina e com pneus sensíveis para administrar fez a tristeza dos pés-de-ferro e a alegria dos volantes mais cerebrais do grid.

Mas não é um cenário inédito na categoria, muito pelo contrário. Em sua origem nos anos 50, a Fórmula 1 também era mais uma prova de resistência do que de velocidade pura. Os carros eram pesados, os pneus eram finos, a segurança era mínima e as corridas chegavam até a 500 quilômetros de duração, contra os 300 atuais.

Assim, não é coincidência que foi uma era dominada por um piloto conhecido por sua extrema inteligência: Juan Manuel Fangio. Que acharia uma tremenda bobagem as reclamações da turma de hoje sobre o desgaste excessivo do equipamento. Afinal, ele já tinha a receita do sucesso há seis décadas: largar na frente, e andar o mais devagar possível. No fundo, essa “fórmula economia” é uma mera revisão do DNA da Fórmula 1.

(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada na edição de hoje do Diário Lance. Obrigado Dé Palmeira pela observação que levou à esta reflexão)

11ago/126

Top 5 – Corridas

Não faz muito tempo que era impossível compilar cinco boas corridas num universo de onze. Basta voltarmos a 2010, ano de provas chatíssimas, decididas após uma rodada única de pitstops, que ao menos criaram uma emocionante disputa pelo título. Mas esta temporada tem sido pródiga em boas corridas, com a vitória decidida nas voltas finais. Continuando nossa análise da primeira parte do Mundial de 2012, escolho os cinco melhores GPs até aqui. Confere com a sua opinião?

1 - GP da Europa
Mesmo com o domínio de Sebastian Vettel na fase inicial da corrida, antes da entrada do Safety Car, a corrida em Valência já estava animada com uma série de ultrapassagens no pelotão intermediário. Depois que a neutralização juntou o grid, o bicho pegou de vez: Fernando Alonso aproveitou sua grande chance, Vettel e Romain Grosjean quebraram e a briga pelas outras posições continuou feroz, culminando com uma polêmica batida entre Lewis Hamilton e Pastor Maldonado. No final de um GP em que passamos prendendo a respiração a maior parte do tempo ainda houve a bonita apoteose do piloto espanhol com sua torcida, um daqueles momentos que marcam tanto qualquer esporte pelo nível de emoção que contém.

2 - GP do Canadá
A corrida de Montreal foi a melhor tradução até aqui para um campeonato temperado por muito equilíbrio, a importância das decisões estratégicas e as incertezas quanto ao comportamento dos pneus. Lewis Hamilton venceu tanto por ter sido o piloto mais brilhante do final de semana como por ter acertado em fazer duas paradas para andar rápido o tempo inteiro. Num circuito onde ultrapassar não seria um problema, se deu mal quem tentou para uma vez, como Sebastian Vettel e, especialmente, Fernando Alonso, que virou boi de piranha para quem vinha atrás nas voltas finais.

3 - GP da Malásia
A segunda corrida do ano já trouxe um thriller emocionante e improvável na disputa pela vitória. As primeiras gotas caíram bem na hora da largada e o início da corrida foi animado até que os céus malaios se abriram de vez, causando a interrupção da prova. No reinício, Fernando Alonso foi fazendo tudo certo enquanto seus adversários erravam. Mas o espanhol estava sendo alcançado por Sergio Perez a medida que o asfalto ia secando. A primeira vitória da Sauber parecia perto até que o mexicano cometeu um deslize nas voltas finais que o fez perder um tempo precioso. De qualquer forma, foi um daqueles casos raros de uma prova em que o segundo colocado sai também com um ar de vencedor.

4 - GP da Inglaterra
Mais uma corrida decidida apenas no final depois de uma emocionante batalha estratégica. A prova em Silverstone parecia um passeio para Fernando Alonso, que dominou a parte inicial de uma corrida no seco depois de conseguir uma improvável pole position num treino completamente molhado. Mas era o dia do caçador. Mark Webber se manteve a uma distância pequena do espanhol e preparou o bote para a parte final da corrida, quando estava com um composto de pneus mais eficiente que Alonso. Esperou algumas voltas para dar o bote no momento certo, numa bonita manobra por fora na curva Brooklands a cinco voltas do fim.

5 - GP de Mônaco
Da sala de imprensa no cais de Monte Carlo, dei um suspiro admirado quando se formou um grupo compacto de seis carros após a última rodada de pitstops da corrida. Melhor tradução de equilíbrio técnico e batalha estratégica não existe. Teria acontecido troca de posições não fosse o traçado estreito de Mônaco. Mas ainda assim, não entendo os que ficam se lamentando por isso: se você não acha alucinante um trem de seis carros parecendo um só andando a toda velocidade por aquelas apertadas e tão tradicionais esquinas, tendo ainda de lidar com as gotas de uma garoa que foi apertando nas voltas finais, você não gosta de automobilismo.

1jun/1211

Prost, com e sem pressão

O nariz é o mesmo de sempre. Já o sorriso...

Já tinha visto e até feito perguntas a Alain Prost na entrevista coletiva da edição de 2010 do Race of Champions, quando estive em Dusseldorf. Mas o encontro que tivemos com ele na semana passada em Mônaco foi especial. Por ter sido num clima mais amistoso e por ele estar ali aberto a falar sobre qualquer assunto, sem ter um evento para participar como piloto.

Foram vinte minutos que passaram voando. Simpático, sorridente, o tetracampeão falou sobre diversos assuntos. A um metro dele, fui ficando impressionado a cada resposta com o contraste deste senhor com aquele Alain Prost sisudo e sério que víamos nas entrevistas pela televisão nos anos 80. Foi aí que eu perguntei se ele era hoje uma pessoa mais feliz do que naquela época. A resposta não deixou dúvidas:

“Claro. Quando eu pilotava na F-1, botava muita pressão em mim e tinha muita pressão, principalmente na luta com Ayrton [Senna]. Antes, só sentia a minha pressão, pois queria vencer corridas, ser campeão. Com ele, senti muita pressão e tive problemas com imprensa, público... Não gostava dessa pressão, para ser honesto. Por isso abandonei a Fórmula 1.”

Quando comentei isso com um veterano jornalista estrangeiro, sua reação veio em um segundo: “Ayrton acabou com o clima de amizade que existia na Fórmula 1”. Não sei dizer se isso é real ou exagero. Mas a verdade é que hoje o clima de competição que existe entre os pilotos na categoria é extremo. E fica claro que a rivalidade entre Senna e Prost teve um papel preponderante, tanto nesse quadro como na explosão de popularidade que o esporte viveu no final dos anos 80. Teria sido muito legal ver aquilo de perto para ter uma noção melhor de como ela funcionava no cotidiano do paddock.

Para ler todos os tópicos da conversa com Prost, clique aqui.

31mai/126

Sobre ressurreições e santos de verdade

Uma santa iluminando um grid inteiro

Sainte-Dévote, a padroeira de Mônaco, estava especialmente generosa neste ano. De uma só vez, recuperou três casos mais ou menos irremediáveis. No sábado, agraciou o infernal Michael Schumacher com uma volta celestial que lhe deu o melhor tempo no treino de classificação - e lhe deu uma sobrevida num momento de negociação sobre o seu futuro na Fórmula 1.

Ao longo do final de semana, ela também colocou sua mão sobre Felipe Massa, devoto da terra que andou comendo o pão que o diabo amassou, com um final de semana como há muito não se via: competitivo, confiante, andando na mesma tocada do companheiro de equipe.

Para encerrar, abençoou com uma vitória o instável Mark Webber, um triunfo que o recolocou na briga pelo título e em condições de tentar dividir a equipe Red Bull como fez em 2010, sendo regular, eficiente e, acima de tudo, candidato ao título.

Toda essa missa monegasca, claro, não tem nada a ver com religião. É, acima de tudo, um retrato da temporada de 2012. No grid mais acirrado das últimas décadas, qualquer detalhe pode jogar fora um final de semana. Ou torná-lo inesquecível. Foi assim com Jenson Button na Austrália; foi assim com Sergio Perez e Bruno Senna na Malásia; foi assim com Nico Rosberg na China, com Kimi Raikkonen no Bahrein e com Pastor Maldonado em Mônaco.

Em meio a tanto espaço nos holofotes, há um fator que essa Fórmula 1 subversivamente democrática não consegue mudar: o poder de se sobressair dos fora-de-série. Se olharmos para o desempenho de Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton em cada corrida desta temporada, veremos pilotos capazes de, num final de semana ruim (com problemas nos treinos e/ou na corrida), somar pontos relativamente bons para o campeonato.

Na Espanha, Hamilton saiu da última posição para um inacreditável oitavo lugar numa corrida em que não tivemos muitas ultrapassagens na pista. Em Mônaco, Vettel pegou um carro ruim na classificação para executar uma estratégia perfeita e pular de nono no grid para o quarto lugar na chegada. O que dizer então de Fernando Alonso, superado por Felipe Massa durante todo o final de semana, menos no Q3, onde mais interessava, fazendo a base para uma corrida perfeita. Uma que, olhando depois e com calma o desenrolar das estratégias, poderia até mesmo ter vencido.

No último domingo, em Mônaco, a Besta pichou seu número em todas as paredes do Principado: seis corridas, seis vencedores, os seis primeiros na chegada separados por seis segundos. Mas Sainte-Dévote não precisa temer. Mesmo em meio ao caos, os santos de verdade continuam fazendo a diferença.

30mai/126

Credencial GP de Mônaco

Um lugar onde a corrida parece apenas um pequeno detalhe

O podcast do TotalRace está de volta para tentar explicar um Mundial inexplicável. E para falar também de diversas outras categorias do esporte a motor no Brasil e no Mundo. Conheça a nossa “Mãe Dinah” das apostas, aprenda porque o traçado curto de Brands Hatch é chamado de “Indy”, ouça o que pensamos da aposentadoria de Casey Stoner, da situação de pilotos da McLaren e da Williams, do incidente entre Takuma Sato e Dario Franchitti na volta final das 500 Milhas de Indianápolis. E sinta-se à vontade para deixar suas opiniões nos comentários.

O “Credencial”, como sempre, você acessa na home da TV Blogo.

29mai/125

Sentindo um Fórmula 1

Esta vibração em ondas vai terminar na ponta do meu tímpano

Se você já espetou seu nariz no alambrado que separa a pista de alguma arquibancada da reta dos boxes de Interlagos, sabe muito bem do que eu estou falando. Quando um carro de Fórmula 1 passa poucos metros à sua frente, você vibra. Não do ponto de vista emocional, apenas: seu corpo treme, efeito do ruído do motor e do deslocamento de ar intenso. Enfim, efeitos das leis da física no seu físico.

Em Mônaco é a mesma coisa. Só que é Mônaco, oras, onde os carros ameaçam roubar um beijo dos guard-rails a cada instante. Todos os anos, um dos pontos altos da temporada é caminhar pela beira da pista. Para isso, recebemos um colete especial para circular no mesmo caminho dos fotógrafos, com uma proximidade inacreditável. Os carros passam, literalmente, debaixo do seu nariz.

Mas há algo que não dá para reproduzir em Interlagos, ou em outro circuito da temporada: a passagem dos carros de Fórmula 1 pelo túnel. É também uma lei da física: o som e o movimento do ar batem no teto e voltam, gerando uma vibração que começa na base do seu estômago e vai subindo em ondas intensas pelo seu corpo até deixarem o corpo pelo tímpano (protegido, claro, por um tapa ouvido de espuma, senão o dano pode ser permanente).

Fiquei lá um bom tempo, de braços abertos, curtindo uma interação bizarra com os bólidos que cruzavam a extensão do túnel em aceleração plena. Deve ter sido uma cena ridícula para quem via de fora. Mas podemos mesmo ser estranhos. Assim como a força de um carro de F-1 pode ser fascinante.

28mai/122

Homem ao mar!

A melhor arquibancada de Mônaco

Ontem de manhã resolvi fazer algo inédito: levei toalha e calção de banho no meio do material de trabalho e dei um mergulho nas agitadas águas do Mar aberto em frente à entrada do porto monegasco. Foi o melhor início de dia de cobertura que eu já tive! O relato você lê aqui. A sensação incrivelmente boa que o momento proporcionou, eu levo comigo.

25mai/125

Os caminhos para a vitória em Mônaco

Jenson Button voando com os supermacios antes da chuva de ontem

Ontem e hoje, o clima em Mônaco foi parecido: muito sol pela manhã, mas com o céu fechando rápido, a temperatura caindo e uma chuva leve à tarde, bem no horário da corrida. Essa instabilidade já teve um efeito importante no desenrolar da competição esportiva. Ontem, nos treinos livres, absolutamente nenhum piloto fez os chamados “long runs”, uma série longa de voltas com o tanque relativamente cheio para avaliar o ritmo de corrida e o desgaste de pneus. E apenas Jenson Button conseguiu uma volta limpa com os pneus supermacios, já que a água que caiu após alguns minutos no segundo treino livre arruinou os planos do resto.

Tudo isso coloca uma importância extra para o terceiro treino livre no sábado pela manhã. “Possivelmente vamos usar o treino livre para andar com o tanque cheio, já que ainda não experimentamos isso”, me disse Nico Rosberg. “Talvez seja importante se concentrar no uso do supermacio para a classificação, já que largar na frente aqui é fundamental”, ponderou Felipe Massa.

A tendência é que a maioria siga a ideia do brasileiro da Ferrari. Afinal, o desgaste da borracha aqui deve ser bem menor do que nas outras corridas que tivemos. E ter posição de pista (estar na frente, mesmo que num ritmo pior do que quem vem atrás) é o quesito mais importante dessa prova.

A curiosidade, minha e provavelmente dos pilotos também, é saber se pelo baixo consumo de pneus seria possível uma estratégia de apenas uma temporada, como a que garantiu a vitória de Vettel no ano passado - e imbatível em termos de posição de pista. Só vai saber isso quem fizer long runs no treino livre de amanhã cedo.

Muito legal. Numa temporada de tantas incertezas, até mesmo o trabalho de um treino livre ganhou uma grande importância. Está muito bacana acompanhar essa Fórmula 1 e espero ansioso pelas respostas que o sábado nos dará.

Claro que todas essas variantes estratégicas se aplicam a uma corrida com pista seca. Se no domingo a água vier, “será uma corrida de sobrevivência”, definição utilizada por Fernando Alonso. Vários exemplos do passado lhe dão absoluta razão.