Retornos diferentes
Ontem falamos da motivação de Michael Schumacher em competir na Fórmula 1 e este é um ponto fundamental para entendermos porque há uma diferença clara entre a sua pausa de três anos longe da categoria e as duas temporadas de ausência dela de Kimi Raikkonen, outro campeão do mundo.
Muita gente vê na ótima temporada do finlandês - que chega em setembro numa colocação que o permite sonhar com a disputa do título, algo surpreendente - um argumento irrefutável para diminuir a qualidade do alemão. Schumacher “nunca foi tudo isso” na opinião de alguns ou estaria “velho demais” para outros.
Não concordo, assim como não creio em outras das explicações que existem para as dificuldades deste retorno de Michael Schumacher: pneus diferentes, ausência de treinos (na época da Ferrari ele testava fartamente com disciplina espartana), rivais mais fortes que os que enfrentou no auge de seu sucesso. Bobagem, bobagem, bobagem.
A diferença entre o desempenho dele e de Raikkonen neste retorno está justamente no que fizeram na pausa. No Mundial de Rali, o finlandês passou dois anos se medindo contra os melhores pilotos do mundo na modalidade. Freqüentemente passou do limite, sofreu inúmeros acidentes, mas estava o tempo todo se comparando com o mais alto padrão existente.
Já Michael Schumacher correu no Campeonato Alemão de Motociclismo, claramente por puro prazer. No final de 2008 eu entrevistei o vencedor do título daquele ano, o austríaco Martin Bauer, que havia sido companheiro dele na competição. Os elogios à velocidade natural de Schumacher não esconderam o fato dele jamais ter entrado na pista com a obsessiva ambição de ser o melhor ali. Schumacher nunca viu a atividade como um degrau inicial para uma possível carreira na MotoGP. Era apenas uma maneira de viver a adrenalina da velocidade em uma disputa com pilotos e maquinário de qualidade média em relação ao máximo possível em duas rodas.
Ou seja: Michael Schumacher ficou três anos sem ter aquela rotina de enfrentar a cada quinze dias os melhores caras do mundo. Kimi Raikkonen viveu esta rotina. Parece algo subjetivo, mas faz toda a diferença. Quando se chega lá no topo, a quantidade de gente que faz malabarismos na tênue linha do limite máximo é grande. E estar apenas perto do limite, na F-1, é estar longe do sucesso esportivo.
Neste ano, depois de dois se readaptando à dureza da competição de alta performance, Schumacher faz finalmente uma temporada decente, tanto em relação ao companheiro de equipe como para o carro que tem. É claro que a diferença matemática na tabela (77 a 29) é enorme, mas ela é fruto de uma inacreditável série de infortúnios mecânicos - e de uma barbeiragem em Barcelona que lhe custou a pole em Mônaco. No global, ele está andando no mesmo nível de Nico Rosberg. O que não é pouco para quem, há pouco tempo, andava apenas no pelotão intermediário do campeonato alemão de motociclismo.
Pobre WRC
A gestão de Jean Todt no comando da FIA está sendo incrivelmente bipolar. Por um lado, a entidade está trabalhando pesado numa campanha para aumentar a segurança nas estradas, um trabalho importante para o automóvel clube central do planeta. E a maneira discreta com que ele age na Fórmula 1 é, no final das contas, bem mais agradável que a gestão espalhafatosa de Max Mosley. Todt também foi inteligente em prosseguir com um regulamento mais ou menos estável, o que contribuiu de forma decisiva para o equilíbrio de forças atual que vivemos na categoria.
Mas outros pontos importantes foram deixados de lado. O Mundial de Turismo (WTCC) virou um campeonato pequeno e pouco significativo, que não atrai mais o interesse de nenhuma montadora - é apenas um palco para a Chevrolet, a única que sobrou ali, correr e vencer contra uma concorrência praticamente inexistente.
Esperava-se também que Todt seria a pessoa que recolocaria o Mundial de Rali no patamar que ele merece, até pelo seu passado na modalidade. Aqui também há um mar de decepções. O WRC perdeu seu promotor e o processo para se encontrar um novo está sendo lento e demorado demais.
Na última sexta-feira, a FIA anunciou onde serão os treze ralis da próxima temporada. A inclusão de apenas três fora da Europa (Austrália, Argentina e México) surpreendeu e fez sentido num momento de crise intensa na economia europeia, algo que se abate com força ainda maior numa categoria como o WRC.
Mas a lista não trouxe a data de nenhuma das etapas. A FIA explica que é porque não houve uma definição de calendário dos “outros campeonatos” (leia-se Fórmula 1) é que é preciso esperar para não haver um encontrão de datas. Mas a imprensa europeia relata uma briga nos bastidores entre ela e os organizadores de cada rali. Tudo porque, sem um promotor para a categoria, a FIA pretenderia passar a conta paga à empresa que faz a cronometragem para os organizadores de cada evento. Estes resolveram se unir e deixar claro que não pretendem assumir o abacaxi. Negociações seguem nos bastidores.
Enquanto isso, a categoria sumiu da cobertura nas televisões, o que significa praticamente sumir do radar dos patrocinadores, do interesse dos torcedores, enfim, praticamente sumir do mapa. Mudar este quadro, com urgência, deveria ser a prioridade número um da FIA para os próximos meses, semanas, dias, horas.
Um campeão que valoriza o passado
Posso dizer sem medo de errar que são uma minoria os pilotos do grid atual da Fórmula 1 que conhecem ou buscam conhecer mais sobre a história da categoria. Claro que sabem quem são os nomes absolutos como Jim Clark ou Ayrton Senna, mas costumam parar por aí.
Uma exceção é o alemão Sebastian Vettel. Me lembro do último GP de Mônaco, quando lhe perguntaram da alegria de vencer pela primeira vez um evento que foi dominado tantas vezes por Senna ou Michael Schumacher. “Não se esqueça de Graham Hill e Stirling Moss, que também ganharam muitas provas aqui”, respondeu o alemãozinho, com um ar de respeito a estes importantes personagens do passado.
O legal é ver que esse respeito se estende também a outros nomes do automobilismo em geral. Estive em 2010 no Race of Champions e foi muito legal testemunhar uma conversa de Vettel com Michèle Mouton, ele querendo saber mais como era o rali nos anos 80. Ou sua reverência ao multicampeão da modalidade Walter Röhrl, que visitou o paddock no GP da Austrália do ano passado. “Hoje eu conheci uma lenda do nosso esporte”, contou depois o piloto da Red Bull na coletiva de imprensa.
Esse fato mostra que não foi por acaso que o vídeo com o melhor da temporada do site oficial da Fórmula 1 tenha buscado mostrar essa conexão de Vettel com o passado. Hoje, o garotinho que cresceu sonhando com os grandes campeões está escrevendo sua própria história de sucesso. E, sendo um cara com os dois pés bem firme na terra, sabe que ainda tem uma boa caminhada pela frente para se considerar no mesmo nível de muitos deles.
Mas vale notar e anotar: se for campeão novamente neste ano, Vettel será apenas o nono piloto com três ou mais títulos na história da F-1. E o terceiro a enfileirar três campeonatos consecutivos. No fundo, as portas do Panteão não estão tão longe assim.
Procura-se um caminho
Quando Jean Todt assumiu a presidência da FIA, esperava-se que o Mundial de Rali (WRC) vivesse um renascimento. Afinal o francês é oriundo desse cenário e deu vários sinais de que cuidaria para que o campeonato ganhasse a visibilidade que merece. Após mais de dois anos no cargo, é impossível dizer que foi bem sucedido na tarefa.
Hoje, o WRC não tem nem um promotor. A FIA abriu um processo para a inscrição de possíveis interessados que deve ser concluído no final de março. Até lá já terão sido realizadas três das 13 etapas previstas. Nem precisa dizer que não é a situação ideal.
A volta dos construtores ao WRC na gestão Jean Todt também ficou aquém do esperado. A entrada da Volkswagen com uma equipe oficial de fábrica a partir do ano que vem é um ganho enorme para o campeonato. Mas a permanência de quem já está dentro anda muito na corda bamba. Na última semana, a Mini retirou da Prodrive o status de equipe oficial no campeonato. Por um motivo simples: apesar da longa tradição no certame e de ter obtido bons resultados no ano passado, a equipe de David Richards não conseguiu atrair patrocinadores para fechar o orçamento necessário para a temporada.
A questão financeira é o principal dilema do Mundial de Rali hoje em dia. Enquanto a crise econômica deixa a economia europeia - base das equipes do WRC - com o cinto apertado, Jean Todt colocou na cabeça a ideia de minimizar o número de etapas no continente para correr mais em países “além mar” - a gerente da FIA para a categoria, Michèle Mouton, esteve inclusive no Brasil estudando a realização de uma etapa no País.
É uma medida que vai agradar diversas federações e garantir ao francês uma boa estabilidade política. Mas que trará ainda mais peso ao já combalido orçamento das equipes. Para a realidade econômica atual, não me parece o caminho correto.
Questão de ponto de vista
Foi engraçado chegar de Abu Dhabi depois de um passeio a mais de 300 km/h num F-1 de dois lugares e ler as impressões de Kimi Raikkonen depois de sua primeira bateria de testes com um modelo de 2010 após mais de dois anos sem sentar a bunda em um monoposto. “Esperava que parecesse mais rápido”, admitiu.
Pode parecer piada, mas a afirmativa do finlandês é compreensível e também esperada. Claro que, para nós, a sensação de velocidade é incrível, mas estes esportistas cresceram se acostumando a ela. No ano passado estive no primeiro dia de treinos da pré-temporada em Valência e ouvi de muitos pilotos de como eles não precisam mais do que duas voltas para reencontrar o ritmo e o limite depois de meses sem pilotar um F-1.
Mas há um elemento ainda mais decisivo na percepção de velocidade de Kimi Raikkonen: os dois anos passados no WRC. São inúmeros os relatos de quem já teve a chance de pilotar um carro de rali e um monoposto de última geração: andar a 180 km/h numa estrada estreita cercada por árvores pode dar uma sensação de ainda mais velocidade do que em uma reta larga de circuito, com um enorme área de escape além do ponto da freada.
Um caso não tão famoso assim é o de Eddie Irvine, que namorou a ideia de correr de rali quando saiu da Jaguar e da F-1 no final de 2002. O irlandês fez um “passeio” como passageiro com o saudoso Colin McRae num levantamento para o Rali da Grã-Bretanha daquele ano. Ficou tão impressionado que desistiu da ideia.
“Já voei em caças de guerra e balancei dentro de powerboats, mas nada se compara à experiência de sentar ao lado de Colin. Foi realmente incrível e honestamente tenho que confessar que foi melhor do que sexo. Nunca senti algo tão revigorante na minha vida. Quando saímos, não sabia se estava gostando ou não porque só conseguia pensar: ‘isso é loucura’! Fiquei aliviado quando paramos. E não, eu não quero seguir uma carreira como piloto de ralis”, falou na época. Importante: dá para se ter noção da intensidade da experiência quando um dos maiores mulherengos que já passou pela F-1 declara que andar de rali é melhor do que sexo.
Não é por menos que a história trouxe casos de pilotos de rali como Sébastian Loeb, que se sentou num F-1 e andou no mesmo ritmo de colegas que haviam disputado a temporada completa da categoria. Mas todo mundo da F-1 que foi para o mundo dos ralis encontrou dificuldades para andar junto dos nomes estabelecidos de lá.
Neste momento é difícil saber como será a readaptação de Kimi Raikkonen. Mas fica uma certeza. Hoje, ele é um piloto mais completo do que aquele que foi campeão em 2007.
TV Blogo – Anos 80
Grande dica do Paulo "Speeder" Teixeira, esse vídeo com imagens em câmera lenta do automobilismo dos anos 80. Achei as do rali especialmente impressionantes. E você?






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