14mai/1313

Problema de foco

Três campeões mundiais com três carros equivalentes. Quer mais o quê?

A Fórmula 1 é um meio cínico, onde celebra quem vence e reclama quem perde. Sempre foi assim, sempre será. Escapamentos soprados, difusores duplos, amortecedores de massa. Basta olhar para a história recente que sempre haverá alguém descontente, culpando algum elemento técnico para justificar, mais para os patrocinadores do que para a opinião pública, uma derrota na pista. Até mesmo os pneus já foram o pivô de uma discussão recente: em 2005, quando os Michelin era claramente superiores aos Bridgestone e a Ferrari foi pressionar os franceses nos bastidores para mudarem seu produto. Como se vê, ter mais de um fornecedor não basta para cessar o mimimi. Nada adianta.

Dito isto, é uma pena que tenha se politizado a discussão sobre os pneus atuais. Achei que Paul Hembery, sempre um cara sensato, errou na conversa aos jornalistas ao afirmar que, se mudarem os pneus, a imprensa vai reclamar dizendo que a Pirelli teria dado o título nas mãos da Red Bull. Dá a impressão que foi feito um pneu anti-Red Bull. Se for o caso, poderiam fazer no ano que vem um pneu que só funcionasse nos carros de Caterham e Marussia, para equilibrar a disputa. Não é por aí.

Eu gosto da maneira que os pneus italianos apimentaram as corridas. Quando puxo na memória as corridas do Mundial de 2010, dou graças a Deus que acabaram aquelas procissões chatíssimas, com disputas só até o primeiro pitstop (e olhe lá) e um trenzinho de carros conduzidos por pilotos frustrados pela impossibilidade quase absoluta de se ultrapassar.

Mas está claro que a Pirelli errou a mão no tempero deste ano. Em janeiro eu estive no lançamento dos compostos atuais e o discurso era de corridas com duas paradas nos boxes. A média do GP da Espanha foi próxima a quatro. Ou seja, chororô de times à parte, eles mesmos não chegaram nem perto de cumprir nesta prova o objetivo que tinham proposto.

Por um lado, isto nos deu a corrida mais animada em Montmeló dos últimos anos. Por outro, confundiu ou frustrou os torcedores já que, para a própria sobrevivência da borracha, as disputas reais de ataque e defesa foram mínimas. Não deve ser assim e os italianos sabem disso.

Infelizmente a mídia internacional em geral também está perdida nesta situação e não focando no mais importante: este é um daquele raros mundiais com um equilíbrio interessante entre vários carros. Olhem só:

Temos uma Ferrari que se sobressai em ritmo de corrida especialmente em circuitos que a velocidade de reta é fundamental, como em Xangai e Barcelona. E que larga muito bem. Com isto, as deficiências do time em classificação acabam relevadas a segundo plano e os bons resultados aparecem neste tipo de circuito.

Temos uma Red Bull que funciona ao contrário, um carro que é premiado em pistas onde é o equilíbrio aerodinâmico que conta. E que pena mais em velocidade de reta, algo que eles vem sacrificando já há alguns anos. Por isso que vi um Sebastian Vettel bastante relaxado com o quarto lugar após a prova de domingo. Era uma corrida para salvar pontos e doze ficou de bom tamanho. Poderiam ter sido quinze mas eles erraram na estratégia, mostrando mais uma vez que podem se perder quando não estão no papel de líder, só controlando o que fazem os quem vêm atrás.

Temos uma Lotus bastante equilibrada e que vai bem em todos os tipos de circuito pela maneira suave com que trabalha os pneus, efeito potencializado pela qualidade de Kimi Raikkonen em fazer corridas infalíveis com a precisão de um relógio suíço, somando sempre bons pontos para suas pretensões no campeonato.

Três equipes andando em nível parecido, cada uma com seus pontos fortes e fracos e lideradas por um campeão mundial. E, como cereja do bolo, uma Mercedes diabolicamente rápida em classificação e incrivelmente lenta em ritmo de corrida, para se colocar como um fator pertubador na dinâmica das corridas deste trio da frente.

É uma equação saborosa que promete uma disputa intensa ao longo da temporada, cheia de altos e baixos para todos os envolvidos. E todo mundo olhando só para os pneus...

30abr/1312

Os duelos internos

Bateu a abstinência etílica ou é a velha fama dos franceses, Kimi?

Após apenas quatro corridas, a classificação do Mundial de Pilotos já aponta um desequilíbrio no duelo interno das principais equipes deste ano na Fórmula 1. Uma explicação mais simplória do que simples seria dizer apenas que “fulano é melhor que beltrano” e pronto. Mas como aqui a gente gosta de ver a categoria sob todos os ângulos possíveis, aqui vai uma análise de cada disputa interna, suas causas e consequências.

Red Bull (Sebastian Vettel +45 pontos sobre Mark Webber)
A polêmica na Malásia e os problemas na China não ajudaram a causa do australiano, mas a verdade é que ele está tomando um banho de Vettel neste ano. Não largou na frente do companheiro nenhuma vez. Pior do que isso, as distâncias nas classificações podem ser enormes - no Bahrein ficaram na casa de meio segundo no Q3. Webber teve de engolir e está claro que não digeriu a situação ocorrida em Sepang. A foto do jantar com Alonso no twitter é um indício de que vai apelar para jogos psicológicos sempre que possível. É o jeito, já que na pista não há nada que funcione a seu favor.

Lotus (Kimi Raikkonen +41 pontos sobre Romain Grosjean)
Apenas no Bahrein, quando ganhou um novo chassi, que o francês fez uma boa corrida. Saindo de trás, dosando sua agressividade na hora de ganhar posições, um desempenho que o levou ao pódio como havia acontecido no ano anterior. Mas não há como imaginar mais do que lampejos pontuais de sua parte. Kimi Raikkonen está em outra esfera, mantendo a mesma regularidade incrível ao mesmo tempo em que parece ter resolvido sua fraqueza. No ano passado, o duelo entre os dois era equilibrado em treinos classificatórios. Neste ano, está 4 a 0 para o finlandês.

Mercedes (Lewis Hamilton +36 pontos sobre Nico Rosberg)
Foi um sinal de vida importante o dado por Nico Rosberg no sábado no circuito do Sakhir. Uma volta beirando a perfeição que, mais do que a pole position, lhe valeu a certeza de que pode endurecer o duelo com Lewis Hamilton. Mas a corrida foi uma ducha de água gelada nesta perspectiva. Afinal, o problema de um desgaste acentuado demais dos pneus traseiros - repetindo o problema que afligiu o time no ano passado - acabou com sua corrida, mas não com a de Hamilton. Questão de acerto do carro ou de estilo de pilotagem? São perguntas que o alemão precisa responder rapidamente para não ver o inglês sumir na sua frente.

Ferrari (Fernando Alonso +17 pontos sobre Felipe Massa)
A menor diferença entre as duplas das equipes de ponta não pode ser apenas explicada pelo abandono precoce de Alonso na Malásia. Afinal isso vai na conta de um erro de julgamento em conjunto do piloto e de sua equipe na pitwall. Massa demonstrou sinais positivos com um bom ritmo de corrida em Melbourne e boas classificações nas duas primeiras corridas. Mas voltou a demonstrar dificuldades com os pneus nas provas seguintes - desta vez com o composto médio da Pirelli. Justamente o que deve ser utilizado na maioria dos GPs deste ano. Precisa resolver isso rapidinho. Mais que o duelo com Alonso, está em jogo seu próprio futuro na Fórmula 1.

21abr/1332

Carreira solo

Equilíbrio? Vettel fez disso uma miragem no deserto

Num Mundial marcado pelo equilíbrio, Sebastian Vettel deu no Bahrein um primeiro sinal de domínio muito claro. O trabalho mais duro do piloto alemão durou duas voltas. Na primeira, se recuperou da ultrapassagem que havia levado de Fernando Alonso com uma bela manobra na parte mais sinuosa do circuito. Na segunda, passou Nico Rosberg. Depois, sumiu na frente. Um passeio.

- Não esperava tanta facilidade. Sabia que seria crucial tomar a liderança logo, o que te permite cuidar melhor dos pneus e administrar sua corrida. Vi que deu para abrir vantagem com os compostos médios e sabia que tinha um carro bom para os jogos de pneus duro que eu havia guardado. Tudo veio na nossa direção e fiquei muito satisfeito com o resultado.

Atrás de Vettel, a corrida trouxe de sobra tudo o que havia faltado na etapa anterior, na China: disputas autênticas por posição. A proximidade de performance dos dois compostos de pneus juntou pilotos que atuavam em estratégias diferentes. Os duelos aconteceram em profusão. O mais intenso foi entre os companheiros de equipe da McLaren, que incluiu alguns toques entre o carro. Jenson Button, décimo colocado, chiou. Talvez até por ter terminado a prova atrás de Sergio Perez, que foi sexto.

- A grande maioria das disputas foi divertida, porque foi limpa, ao contrário do que aconteceu com meu companheiro de equipe. Ele fez um grande trabalho em termos de economizar os pneus e é ótimo que tenha conquistado pontos para a equipe, mas ele não fez isso de maneira limpa. E não acho que é só comigo. Daqui a pouco, algo sério vai acontecer, então ele tem de se acalmar. É desnecessário
Quem passou incólume às confusões do pelotão intermediário foi a dupla da Lotus. Kimi Raikkonen cimentou sua posição de vice-líder com o segundo lugar na corrida e Romain Grosjean mostrou, pela primeira vez, ter aprendido as lições do ano passado ao se envolver em diversas disputas mas em nenhum acidente. Com o terceiro lugar obtido pelo francês, repetiu-se o pódio do GP barenita do ano passado.

“Domingo amaldiçoado”. Foi assim que a Ferrari definiu o seu domingo no GP do Bahrein no comunicado oficial de imprensa depois da corrida. Todo o bom potencial demonstrado pelo F138 nos treinos livres e na classificação foi desperdiçado em uma série de problemas mecânicos e azares que jogaram seus pilotos para o fundo do pelotão. Fernando Alonso, com problemas na asa traseira móvel, foi apenas o oitavo colocado. Felipe Massa, com dois pneus furados, ficou em 15º lugar.

- Depois do primeiro problema do pneu ainda estava na briga, podia até pontuar. Mas depois do segundo a corrida acabou. Desestimula, porque você sabe que não vai marcar ponto e não vai fazer nada demais - falou o brasileiro, que antes já havia tido problemas em fazer sua estratégia funcionar. A Pirelli afirmou que vai investigar a causa das falhas nos pneus do carro de Massa.

Alonso, que ainda conseguiu salvar alguns pontinhos em uma prova em que parou quatro vezes nos boxes, preferiu ser filosófico sobre a falha de sua asa móvel traseira - o dispositivo travou aberto, foi fechado pelos mecânicos nos boxes e ele não pôde mais utilizá-lo no resto da corrida.

- Não é que desejo má sorte para os outros, mas que a nossa termine. Só peço corridas normais, sem problemas. Quando isto acontece, ganharei algumas, chegarei ao pódio em outras e isto nos ajudaria a estar na briga pelo título, já que o carro é melhor do que o do ano passado.

Aproveito o espaço dos comentários para colocar suas dúvidas e sugestões para o "Credencial"!

20abr/132

Um pole fora da briga

Hoje, ele brilhou. Amanhã, todos apostam, se apaga.

A Fórmula 1 recebeu com um ar de surpresa a pole position de Nico Rosberg para o GP do Bahrein, que acontece hoje com largada às 9hs de Brasília. O carro da Mercedes não havia demonstrado um grande potencial nos treinos livres, mas o alemão fez uma ótima volta em 1min32s330 para registrar sua segunda pole na carreira e superar o companheiro Lewis Hamilton numa classificação pela primeira vez no ano. Mesmo saindo da primeira posição, o alemão assumiu um discurso humilde em relação às suas chances de vitória.

- Somos melhores em classificação do que em corrida, vimos na China como sofremos mais com os pneus durante a prova. Amanhã vai ser difícil para nós, nos treinos livres haviam outras equipes tão boas ou melhores que a gente. É preciso ser cauteloso, mas dá para obter um bom resultado - analisou Rosberg.

Não é jogo de cena. Numa Fórmula 1 em que o peso das estratégias e o desgaste dos pneus são os fatores determinantes, as posições no grid de largada são cada vez mais irrelevantes. Mesmo os adversários, normalmente politicamente corretos, não fazem cerimônia em não incluir Rosberg entre os candidatos à vitória. Fala Fernando Alonso, terceiro do grid:

- Sabemos como a Mercedes sofre com a degração dos pneus. Na China, Hamilton perdeu rendimento já na quarta ou quinta volta. Os pilotos que terei de marcar durante a prova são (Sebastian) Vettel, que sai logo à minha frente, e alguns que estão atrás, incluindo Kimi (Raikkonen), que certamente vai chegar nos ponteiros em algum momento da corrida.

Com o asfalto barenita chegando a temperaturas acima de 40 graus centígrados, a expectativa é de um desgaste elevado e de várias paradas nos boxes. Quanto para cada piloto é difícil de dizer, de acordo com Vettel:

- Uma parada é impossível para todos. Fazer duas parece impossível para a maioria. Acho que serão entre três e quatro paradas. Minha aposta foi economizar pneus duros na classificação, usando apenas médios. Não tínhamos com clareza a nossa força nesta sessão, então optamos pelos médios para se classificar o mais à frente possível no grid.

Felipe Massa larga apenas em quarto lugar na corrida de hoje. Mas todas as outras equipes estarão de olho nele. Afinal, o brasileiro optou por uma estratégia diferente de pneus, se classificando com os pneus duros, os mesmos que utilizará na largada.

- Eu não estava satisfeito com o desgaste e a aderência dos médios, achava que não poderia brigar pelas primeiras posições com ele. Vendo que haveriam dois pilotos que sofreriam punições no grid (Lewis Hamilton e Mark Webber), resolvi arriscar uma coisa diferente e, por enquanto, deu certo. Vamos ver se funciona na corrida.

Embora a situação de desgaste seja tão preponderante como na prova anterior, na China, há uma diferença fundamental: no Bahrein, o principal problema acontece nos pneus traseiros. Massa explica as consequências disso:

- O jeito de pilotar muda. Esta pista tem um desgaste grande dos pneus traseiros, então você precisa ser muito mais progressivo na hora de acelerar na saída de curvas. Se for agressivo para ganhar tempo, acaba usando os pneus muito rapidamente.

19abr/1326

Fim da relação?

Quando o patrão chama para uma conversinha, a coisa não cheira bem

O australiano Mark Webber completa neste final de semana sua 200ª corrida na Fórmula 1. São fortes os indícios de que não restam muitas mais pela frente. Na segunda após o GP do Bahrein, o piloto voará até a cidade austríaca de Salzburg para conversar com o dono da equipe Red Bull, Dietrich Mateschitz. Em meio a rumores cada vez maiores de que Kimi Raikkonen chegaria no time no ano que vem para substituí-lo, Webber deve definir seu futuro, dentro ou fora da F-1.

O polêmico episódio das ordens de equipe na Malásia e seus desdobramentos colocaram o australiano como o grande perdedor do incidente. No pódio, reclamou publicamente da insubordinação de Sebastian Vettel e afirmou que o time protegeria o alemão “como sempre faz”. Não pegou bem e Webber assumiu uma postura mais conciliadora, se recusando a comentar o assunto nas semanas seguintes.

Outro episódio que não caiu bem na direção da Red Bull foi a foto dele jantando com o espanhol Fernando Alonso nesta semana, publicada na conta do twitter do espanhol. Muitos leram como uma provocação a Sebastian Vettel, que já havia reclamado publicamente da maneira como Webber o atrapalhara na decisão do ano passado, quando o adversário pelo título era justamente Alonso.

Perguntado sobre o tema, Vettel ironizou: “Porque tanto barulho em cima disso? Os dois estavam pelados? Não vi a foto, me falaram sobre ela, mas todo mundo janta todo dia e é muito chato jantar sozinho”.

Fernando Alonso, espertamente, colocou a culpa da celeuma na imprensa. “Querem ver polêmica onde não existe, foi uma janta entre amigos que se conhecem há 13 anos e que possuem o mesmo empresário, o Flavio (Briatore). Temos uma boa relação. Se vocês querem publicar a foto e fazer uma matéria polêmica em cima disso, é opção de vocês”.

A aposta é que o australiano deve tomar um pito e um pedido de Mateschitz para baixar a bola até o final do ano. Insatisfeito com a situação da Red Bull e em rota de conflito com a direção do time, Webber busca alternativas. Uma possível seria correr pela Porsche na Mundial de Endurance. Há aqui no paddock quem aposte que isto seria confirmado na própria segunda-feira: a marca de Stuttgart convocou uma coletiva de imprensa para a manhã para anunciar um novo representante. Se é Webber ou não, precisamos esperar para saber.

11abr/1373

Um único vencedor

Nas últimas semanas, Vettel se entendeu com si mesmo - e com a equipe. Depois, sorriu.

Toda a polêmica envolvendo a ordem de equipe não obedecida por Sebastian Vettel no último GP da Malásia teve um efeito positivo na equipe Red Bull. Por escancarar algo que há muito tempo era claro, mas não aberto: a relação entre a dupla de pilotos da equipe não é nada boa. O piloto alemão sentou-se sereno diante de uma multidão de jornalistas no paddock de Xangai e deixou isso bem claro numa entrevista memorável.

"Respeito muito Mark como piloto, mas houve mais de uma ocasião em que ele poderia ter ajudado a equipe e não o fez. O que aconteceu na Malásia, acredite ou não, é que eu ouvi a mensagem, mas não a interpretei da maneira que deveria. Pedi desculpas por isso, porque com minha ação acabei me colocando numa posição acima da equipe. Se eu tivesse interpretado a mensagem corretamente, teria refletido no que a equipe queria, que Mark terminasse a corrida na minha frente, e provavelmente teria feito exatamente o mesmo, porque ele não merecia vencer".

O pensamento foi repetido como um mantra durante vinte minutos de uma entrevista concorrida. Concordando ou não com o piloto, foi um alívio ver um personagem importante da Fórmula 1 dizendo o que pensa. Ainda que Vettel tenha mudado um pouco seu discurso em relação ao do domingo malaio, quando afirmou que iria “pedir desculpas para Mark”.

Nas últimas semanas, o alemão pôde refletir com calma sobre as ações da última corrida. E chegou à conclusão de que estava simplesmente reagindo a uma série de ações de seu companheiro de equipe no passado - Webber admitiu ter ignorado uma equipe da Red Bull para não atacar Vettel nas voltas finais do GP da Inglaterra de 2011; e “apertou” o alemão na largada do GP do Brasil do ano passado, fazendo com que ele perdesse posições importantes na corrida que decidia o título.

Ao deixar isto claro no paddock de Xangai, Vettel reforçou sua posição dentro da Red Bull e mostrou um pouco mais da determinação que o colocou num caminho de tantas conquistas. No final das contas, o único efeito do episódio foi que a direção do time avisou internamente que deve liberar a disputa entre seus pilotos em situações similares no futuro. O que corrobora com o pensamento e a ação recente do alemão.

30mar/1331

A dupla vida de Sebastian Vettel

O predador não dá chance para a zebra

Fora do cockpit, Sebastian Vettel é pura simpatia. Atencioso com os fãs, sorridente e divertido com a imprensa, capaz de fazer um auditório cheio de ingleses rolar de dar risada ao rir de sua própria origem alemã, passando por cima de uma ferida histórica e difícil de cicatrizar. Um garoto gentil e afável, um cara do qual qualquer um gostaria de ter como amigo.

Quando coloca o capacete, porém, ele se transforma num predador que só se sacia com a vitória, um animal feroz treinado para destruir tudo e todos que se colocarem no meio de seu caminho. Uma característica que o colocou firme no caminho para se tornar um dos maiores recordistas da Fórmula 1. E, no último domingo, o colocou também em litígio com o próprio time que o ajudou a chegar onde está.

Esta dupla personalidade de Vettel ficou clara no último domingo. Dentro do cockpit, não fez a menor cerimônia em desobedecer as ordens que recebeu da Red Bull. Passou por cima delas, passou por Mark Webber na pista e fez um zigue-zague feliz pela reta dos boxes antes de receber a bandeira quadriculada por sua primeira vitória no ano, a 27ª da carreira.

Mas o animal feroz virou o garoto afável quando desceu do carro. E o garoto afável ficou chocado quando viu nos olhos dos outros membros da Red Bull o estrago que o animal feroz havia causado. Fechou a cara ao constatar que não é capaz de controlar o instinto de seu lado competitivo.

O que levou a Vettel cometer um ato tão controverso que foi capaz de levá-lo ao arrependimento? A resposta é mais simples do que parece. A corrida da Malásia mostrou que a Red Bull pode bater os adversários mesmo andando num ritmo moderado o tempo todo para poupar equipamento. Quando o carro resolver seus problemas de desgaste com os pneus, vão dar uma volta em cima do resto.

Na segunda corrida do ano, o animal feroz destruiu o que inteligentemente identificou como seu principal obstáculo em 2013. Mark Webber pode rodar a baiana o quanto quiser na imprensa. Mas já não é uma ameaça ao tetra de Vettel.

(Texto da coluna "Direto do Paddock", publicada nesta semana no Diário Lance!)

24mar/1375

O escorpião e o sapo

Uma batalha sem vencedores

Sabe a famosa fábula do escorpião, que fere mortalmente o sapo que o carregava para atravessar o rio, condenando ambos ao afogamento, simplesmente porque cumpriu o que reza seu instinto? Ela veio à tona na 46ª volta do Grande Prêmio da Malásia, quando Sebastian Vettel ignorou as ordens da Red Bull para que seus pilotos mantivessem suas posições, atacou e ultrapassou o companheiro de equipe Mark Webber para assumir a liderança e caminhar para a 27ª vitória de sua carreira.

O que o instinto do alemão esqueceu é que a Fórmula 1 é um esporte individual disputado em equipe - e, para complicar ainda mais, o interesse desta está acima de tudo já que se trata de organizações que consomem e que geram quantias enormes de dinheiro. Se o gesto do alemão gerou frenesi nos que celebram a esportividade - ou acusações contra seu caráter por parte de detratores -, também quebrou uma ética interna dentro da Red Bull e da categoria em geral. Tanto que, percebida a dimensão de seu ato, Vettel se apressou a pedir desculpas.

- Não é uma situação fácil para mim, eu sou a ovelha negra agora e me coloquei nesta situação. Claro que foi uma ultrapassagem deliberada, senão eu nem teria tentado, mas não queria ignorar a decisão da equipe. Eu simplesmente cometi um erro. Que só percebi quando voltei aos boxes e vi a reação da equipe. Troquei uma palavra rápida com Mark e aí caiu a ficha que eu tinha ferrado com tudo.

É curioso que o instinto de Vettel não tenha sido freado mesmo depois do piloto receber pelo rádio indicações claras para que não atacasse Webber. Este ficou chateado, com razão, e aproveitou para exercer com desenvoltura o seu melhor papel na Fórmula 1, o de vítima. Vai pressionar internamente para que o time tome alguma atitude mais firme contra a insubordinação do alemão. É quem mais tem a ganhar com o circo pegando fogo ali dentro. Ao mirar oito pontos a mais na tabela, Vettel acertou um tiro no próprio pé.

A complexidade de uma corrida que em si não foi das mais movimentadas e marcada fundamentalmente pela necessidade de se poupar pneus e o equipamento em geral ficou clara vendo o exemplo da equipe Mercedes. A disputa pelo terceiro lugar entre companheiros também foi decidida por uma ordem de equipe. Mas, ao contrário da Red Bull, Nico Rosberg obedeceu o que lhe foi pedido e não ultrapassou a Lewis Hamilton, mesmo sendo mais rápido. Também ali, todos os envolvidos deixaram a pista de cara amarrada. Atitudes opostas, efeitos idênticos.

Como explicar este paradoxo? É a esquizofrenia uma categoria que exige (por sua estrutura comercial) mas não aceita (pela ética esportiva) interferência das equipes nos resultados das corridas. Mas faz parte saber administrar esta linha tênue que envolve egos inflados para obter sucesso. A Red Bull, apesar da dobradinha e da liderança nos dois Mundiais, saiu da Malásia com a pior das derrotas: a interna. Sorte dela que são três semanas até a próxima corrida, dá tempo para apagar os pontos mais críticos deste incêndio. E para a F-1 tentar esquecer um domingo em que o vencedor de uma corrida afirmou se sentir envergonhado por ganhá-la.

17mar/1366

Liian helppo*

Apertando bem o dedão para segurar a bebida (Foto: James Moy)

Ele tomou um gole de champanhe, espirrou um pouco do que havia na garrafa para fora do pódio e tomou um outro mais prolongado. A naturalidade com que Kimi Raikkonen festejou a vitória no GP da Austrália foi a mesma com que o triunfo foi construído na pista. Na abertura de um Mundial em que todo mundo falou das dúvidas sobre o entendimento dos pneus, o finlandês da Lotus mostrou que ele já tinha todas as respostas.

"Nosso plano era fazer apenas duas paradas e conseguimos cumprir isso de maneira perfeita. A equipe trabalhou bem e tínhamos uma boa estratégia. Consegui poupar os pneus e poderia ter ido mais rápido se fosse necessário. Foi uma das minhas vitórias mais fáceis", admitiu Raikkonen no final da corrida.

Mais do que a avaliação do homem de poucas palavras, a contundência do seu triunfo fica clara vendo outros fatores. Ele largou apenas em sétimo depois do que um desempenho no treino classificatório que julgou “decepcionante”. Foi o único piloto das equipes de ponta que conseguiu para apenas duas vezes. E terminou a corrida com uma vantagem superior a 1min20s para seu companheiro de equipe, que dispunha do mesmo equipamento.

Tão inesperada quanto a vitória do finlandês foi o fracasso da Red Bull de Sebastian Vettel. O alemão começou o domingo marcando uma pole position contundente, na continuação da sessão que havia sido adiada pela chuva do dia anterior. Seu ritmo de corrida, porém, foi ruim e ele perdeu a liderança assim que parou nos boxes pela primeira vez. Acabou em terceiro lugar.

Logo à sua frente ficou Fernando Alonso, que esteve num daqueles seus dias inspirados: uma primeira volta agressiva e uma decisão estratégica de adiantar sua segunda parada o jogou da quinto lugar no grid para a segunda posição na corrida. Ele ainda tentou, mas não encontrou antídoto para superar a estratégia imbatível de Kimi Raikkonen. Mas saiu feliz da vida ao reverter a derrota momentânea no grid para Vettel e para Felipe Massa e terminar a prova na frente de ambos.

O brasileiro fez uma boa corrida, atrapalhada por um erro estratégico de não acompanhar a decisão de Alonso no segundo pit-stop. Mesmo assim, começa o ano de 2013 num patamar infinitamente acima do que havia começado o Mundial passado. Ele negou qualquer leviandade na decisão estratégica da Ferrari que o levou a cair da segunda para a quarta posição após a segunda bateria de pitstops da corrida de ontem, uma delas para o companheiro de equipe Fernando Alonso.

"Era difícil saber o que ia acontecer, porque não tínhamos noção dos pneus. Fazer duas paradas, como fez o Kimi, para mim era impossível. E também parar antes, como fez o Alonso, parecia um pouco arriscado. Nosso planejamento era tentar alongar o uso daquele jogo de pneus. Acabamos errando e perdemos duas posições importantes ", explicou.

O passado da Ferrari fez com que muita gente levantasse a suspeita de uma manobra orquestrada. Desculpe torcida brasileira, mas fazer isso é diminuir a qualidade do que fez Fernando Alonso. A estratégia inicial dos dois pilotos da Ferrari era a de parar pela segunda vez em torno da 23ª volta, mas o espanhol viu a chance de tentar ganhar a posição de Massa e de Vettel antecipando bem isto. É algo que tem até nome, o chamado "undercut". Massa não tinha como saber o efeito global disso no resultado final da prova, já que era a primeira corrida e ninguém sabia direito como os pneus se comportariam - na avaliação da Ferrari antes da corrida, parar antes poderia significar ficar com pneus desgastados demais no final da prova.

Outra maneira de enxergar como não foi uma "sacanagem orquestrada" contra Massa é notar que o brasileiro - e também Sebastian Vettel - tentaram o contra-ataque fazendo um "undercut" em cima de Alonso na última bateria de pitstops: Massa parou três voltas, o alemão duas antes do espanhol. Não funcionou porque Alonso tinha aberto uma vantagem grande o suficiente para não permitir isso. Méritos dele - e nenhum demérito dos outros. A Ferrari já interferiu na disputa entre os dois, mas insistir no discurso do jogo de equipe, neste caso específico, é coisa de gente que não entende de Fórmula 1.

Melhor seria destacar que o brasileiro se classificou à frente do espanhol no grid e teve um bom duelo com ele nas primeiras voltas, segurando a posição. Um sinal de que a temporada deste ano pode trazer uma paridade de performance entre os dois que praticamente inexistiu em 2012.

"Espero que isto aconteça a cada corrida. No final das contas, para vencer você tem que ser mais veloz que todos os pilotos. É para isso que eu trabalho. Alonso fez aqui uma grande corrida e tomou a decisão certa de parar antes naquele momento da prova. Mas certamente mostrei que estou num bom nível em relação a ele".

Apesar de ter subido no pódio em Albert Park na corrida de 2010, Massa considerou seu desempenho de ontem o melhor que já teve neste circuito. "Sempre foi uma vista em que eu sofri muito, especialmente com o desgaste dos pneus traseiros. Mas desta vez isso não aconteceu. Olhando o ano de 2012 e olhando o trabalho que fizemos neste final de semana, acho que foi um começo campeonato muito positivo".

* - "Muito fácil", em finlandês

15mar/1312

Sombras de 2011

Já pintou o (tetra-)campeão?

Enquanto eu andava pelo paddock do Albert Park depois das entrevistas, um colega europeu bateu a mão no meu ombro e sentenciou: “Aquelas corridas fora da Europa no final do ano terão sala de imprensa vazia. Todo mundo vai aproveitar para economizar porque até Monza o campeonato acaba”.

O episódio deu uma dimensão do assombro causado pelo desempenho do RB9 em sua primeira real demonstração de performance. Embora o discurso de seus pilotos busque diminuir esta impressão, é um fato que o time sobrou nos treinos livres desta sexta-feira.

Sebastian Vettel marcou o melhor tempo de 1min25s908 na sua segunda volta com o pneu supermacio já que na primeira, que seria ainda mais veloz, ele foi atrapalhado por outro piloto. Ainda sua, sua marca foi mais de quatro décimos de segundo melhor que a de Nico Rosberg, o melhor do resto com a Mercedes.

Os rivais acusaram a golpe. Rindo, Grosjean comentou que “não dá para almejar algo melhor que um terceiro no grid. A primeira fila é da Red Bull”. É o mesmo caminho de domínio de dominação que o time anglo-austríaco empregou com sucesso nos últimos anos: largar na frente graças à superioridade na classificação e só controlar o que os outros fazem em ritmo de corrida, quando a performance fica mais nivelada. E em long runs, é bom ficar de olho principalmente em Ferrari e Lotus, que demonstraram potencial de incomodar nesta situação.

A questão do pneus aponta que era realmente exagero o cenário de horror de cinco ou seis paradas para a corrida. Embora o composto supermacio realmente acabe rapidamente (cerca de dez voltas, apontaram os pilotos), a combinação com o macio (em torno de vinte voltas) apontam para uma prova entre duas e três paradas, tendendo mais para esta última opção.

O que também pode temperar este GP da Austrália é o clima. A chance de chover na classificação é estimada em 80% - e em boa quantidade. Isto poderia embaralhar o grid e, por consequência, este quadro inicial de um possível domínio da Red Bull.