25mar/1333

Na marca do pênalti

Um político em final de mandato

Se as consequências da confusão na Red Bull ainda não estão muito claras - eu apostaria numa postura conciliatória e não punitiva por parte da direção do time -, na Mercedes tudo aponta para que Ross Brawn saia como o grande derrotado do episódio ocorrido na Malásia.

Embora existam semelhanças entre as interferências das equipes na briga de seus pilotos, há uma diferença fundamental: na Mercedes, um carro (o de Hamilton) estava realmente no limite de sua resistência e o ritmo precisava ser dosado. O que vinha atrás (o de Rosberg) tinha sobras e, como o próprio piloto falou pelo rádio, poderia tentar pressionar e se aproveitar de qualquer eventualidade com a dupla da Red Bull. Ross Brawn não permitiu que isto acontecesse.

Rosberg, claro, não gostou. Hamilton também não gostou e disse que, na improvável hipótese de um cenário como este se repetir, cederia a posição ao companheiro de equipe. Niki Lauda, o consultor do time, condenou com veemência a ordem de Brawn. Toto Wolff foi mais conciliador, mas também indicou que a atitude será outra caso um episódio assim aconteça no futuro. Quando se reunirem novamente na fábrica em Brackley, todos olharão feio para o homem que passou o GP da Malásia fazendo sua velha política com o dedão enfiado no botão do rádio.

São os ventos da mudança soprando fortes nos campos da Mercedes. Nick Fry já deixou o time no último final de semana. Com a chegada iminente de Paddy Lowe no ano que vem, Brawn está com os dias contados. E, depois do ocorrido no último domingo, deve perder influência dentro do time até sua saída.

No fundo, esta é a melhor notícia de um domingo deveras confuso para a Fórmula 1. Afinal, o inglês esteve por trás de muitas das ordens de equipe recentes da categoria que tiveram o impacto de uma flecha no coração dos fãs de esporte. Quanto menos poder este tipo de gente tiver, melhor para todos nós.

24mar/1375

O escorpião e o sapo

Uma batalha sem vencedores

Sabe a famosa fábula do escorpião, que fere mortalmente o sapo que o carregava para atravessar o rio, condenando ambos ao afogamento, simplesmente porque cumpriu o que reza seu instinto? Ela veio à tona na 46ª volta do Grande Prêmio da Malásia, quando Sebastian Vettel ignorou as ordens da Red Bull para que seus pilotos mantivessem suas posições, atacou e ultrapassou o companheiro de equipe Mark Webber para assumir a liderança e caminhar para a 27ª vitória de sua carreira.

O que o instinto do alemão esqueceu é que a Fórmula 1 é um esporte individual disputado em equipe - e, para complicar ainda mais, o interesse desta está acima de tudo já que se trata de organizações que consomem e que geram quantias enormes de dinheiro. Se o gesto do alemão gerou frenesi nos que celebram a esportividade - ou acusações contra seu caráter por parte de detratores -, também quebrou uma ética interna dentro da Red Bull e da categoria em geral. Tanto que, percebida a dimensão de seu ato, Vettel se apressou a pedir desculpas.

- Não é uma situação fácil para mim, eu sou a ovelha negra agora e me coloquei nesta situação. Claro que foi uma ultrapassagem deliberada, senão eu nem teria tentado, mas não queria ignorar a decisão da equipe. Eu simplesmente cometi um erro. Que só percebi quando voltei aos boxes e vi a reação da equipe. Troquei uma palavra rápida com Mark e aí caiu a ficha que eu tinha ferrado com tudo.

É curioso que o instinto de Vettel não tenha sido freado mesmo depois do piloto receber pelo rádio indicações claras para que não atacasse Webber. Este ficou chateado, com razão, e aproveitou para exercer com desenvoltura o seu melhor papel na Fórmula 1, o de vítima. Vai pressionar internamente para que o time tome alguma atitude mais firme contra a insubordinação do alemão. É quem mais tem a ganhar com o circo pegando fogo ali dentro. Ao mirar oito pontos a mais na tabela, Vettel acertou um tiro no próprio pé.

A complexidade de uma corrida que em si não foi das mais movimentadas e marcada fundamentalmente pela necessidade de se poupar pneus e o equipamento em geral ficou clara vendo o exemplo da equipe Mercedes. A disputa pelo terceiro lugar entre companheiros também foi decidida por uma ordem de equipe. Mas, ao contrário da Red Bull, Nico Rosberg obedeceu o que lhe foi pedido e não ultrapassou a Lewis Hamilton, mesmo sendo mais rápido. Também ali, todos os envolvidos deixaram a pista de cara amarrada. Atitudes opostas, efeitos idênticos.

Como explicar este paradoxo? É a esquizofrenia uma categoria que exige (por sua estrutura comercial) mas não aceita (pela ética esportiva) interferência das equipes nos resultados das corridas. Mas faz parte saber administrar esta linha tênue que envolve egos inflados para obter sucesso. A Red Bull, apesar da dobradinha e da liderança nos dois Mundiais, saiu da Malásia com a pior das derrotas: a interna. Sorte dela que são três semanas até a próxima corrida, dá tempo para apagar os pontos mais críticos deste incêndio. E para a F-1 tentar esquecer um domingo em que o vencedor de uma corrida afirmou se sentir envergonhado por ganhá-la.

21mar/1342

A importância de ser reconhecido

Entrando no clube dos 200

A quinta-feira em Sepang não foi das mais agitadas, com a FIA colocando os cinco estreantes e Kimi Raikkonen para uma coletiva de imprensa em que o único personagem realmente de peso jornalístico não fala nada. Pelo menos o dia foi salvo pela coletiva de Fernando Alonso, brilhante como sempre ao variar o discurso dependendo da mídia com que conversa (espanhola, italiana ou inglesa) para garantir as manchetes que mais lhe convém. É mais um diferencial no enorme arsenal que o torna o piloto mais completo do grid.

Falando em sua língua materna e às vésperas de sua participação de número 200 em um GP, Alonso deu uma resposta interessante a uma pergunta surpreendentemente contundente: se ele não temia ter um final de carreira “carregado de vices” como Stirling Moss. A resposta foi digna de um leonino da gema:

“Não tenho medo nenhum. Acho que em breve posso passar Michael Schumacher como o piloto que mais pontos somou na história da Fórmula 1 - não mais pontos em uma temporada, mas em toda a história. Também estou entre os primeiros em número de vitórias e de pódios. Foram 200 corridas fantásticas e, quando me aposentar, terei somado números que nunca imaginaria alcançar. Por mais ou menos campeonatos que eu tenha, não é algo que vai diminuir o meu orgulho do que fiz”.

Interessante como o espanhol convenientemente relevou a mudança no sistema de pontuação que jogou a estatística a seu favor - ele tem 184 pontos a menos que o alemão, mas conquistou em torno de 70% do seu total com o novo sistema, Schumacher apenas 15%.

Interessante também notar como não é a primeira vez que ele demonstra preocupação em ser reconhecido como um dos grandes pilotos da história. A ausência de títulos (já se passaram seis temporadas sem eles) parece incomodá-lo, embora o discurso jure o contrário - e justamente por isso.

Mas não deveria incomodar. Alonso precisa deixar o julgamento de sua carreira para os outros. Como é natural nesses casos, não haverá uma unanimidade. Mas eu o coloco facilmente entre os dez, quinze melhores da história. E tenho certeza que muita gente também. Quanto a isso, o espanhol pode ficar relaxado. Seu reconhecimento virá das pistas. Sublinhá-lo com palavras só é um pouco deselegante.

31dez/124

Os melhores de 2012

Num ano em que as equipes viveram grandes altos e baixos e alternando em pequenos períodos (às vezes corrida por corrida) suas janelas de domínio, os destaques do ano ficaram para pilotos e para corridas específicas. Talvez o que explique esta excelente temporada tenha sido isto, como o lado humano voltou a ganhar peso num momento de grande competitividade. Com vocês, os melhores de 2012, novamente em ordem crescente:

10 - Uma corrida para Frida
Na manhã do GP da Malásia, Sergio Perez expressou no twitter sua tristeza pela morte de “Frida”, sua cachorra que vivia no México e o acompanhou em boa parte de sua vida. “Dedico a corrida de hoje para ela”, escreveu. Seguiu-se uma das grandes exibições da temporada, com Perez aproveitando condições favoráveis a sua Sauber para imprimir um ritmo alucinante e pressionar um endiabrado Fernando Alonso na briga pela vitória. Ela não veio, mas Frida foi devidamente homenageada.

9 - Nico Hülkenberg
Em sua segunda temporada completa na Fórmula 1 o alemão voltou a demonstrar sinais positivos. Demorou um pouquinho para pegar a mão, talvez fruto do ano sabático que fez, mas andou bem em diversas ocasiões. No Brasil foi onde mais chamou atenção, mas suas performances na Bélgica (onde terminou em quarto) e na Coreia do Sul (onde fez uma das ultrapassagens do ano) foram outros exemplos de um piloto com muito potencial.

8 - As corridas finais de Felipe Massa
Se as primeiras corridas foram de chorar, as duas últimas provas de Felipe Massa em 2012 fizeram lembrar o seu auge. Em ambas, superou Fernando Alonso na classificação e em ritmo de corrida, isto com o espanhol no meio de uma acirrada briga pelo título. Por conta disso, o brasileiro ainda agiu como o companheiro de equipe que a Ferrari tanto preza, recebendo um golpe abaixo da linha da cintura no Texas e fazendo uma prova tática a favor do espanhol no Brasil (protegou Alonso na ultrapassagem da segunda volta, segurou o pelotão que vinha atrás em seguida, cedeu posição perto do final). Não sabemos se foi pura forma ou se foi questão de circuito, mas se ele levar um pouco disto para 2013 fará um favor enorme a seu futuro.

7 - A apoteose de Alonso em Valência
Fernando Alonso desabou no pódio em Valência. Ao final de uma semana onde muito se falou da falta de futuro da prova em meio à turbulenta recessão que assola o país, o espanhol passou a semana dizendo que a corrida traria um bálsamo para o sofrimento geral. E ele conseguiu uma vitória improvável, largando de 11º lugar, fazendo ultrapassagens importantes e se colocando na posição certa para aproveitar o infortúnio de outros pilotos. Ao final, parou o carro diante de uma arquibancada e celebrou uma das festas mais bonitas de 2012.

6 - Os rádios de Kimi Raikkonen
Sempre me referi a Kimi Raikkonen como o “Buster Keaton” das pistas, pela sua capacidade inata de cativar sem precisar sorrir. A veia para comediante pulsou forte nas conversas pelo rádio com seu engenheiro durante o GP de Abu Dhabi. O finlandês sabia mesmo muito bem o que estava fazendo, tanto que encontrou uma equipe que o deixasse em paz nesta sua volta à Fórmula 1 - e isto o permitiu render o máximo. E nos permitiu ter acesso a momentos de comédia poética como estas falas na noite do deserto.

5 - O pódio de Kobayashi
Uma das memórias que sempre guardarei com carinho destes anos de périplo por circuitos do mundo todo foi o de ver e ouvir Suzuka explodindo no momento em que Kamui Kobayashi apareceu no pódio para receber seu troféu pelo terceiro lugar no GP do Japão. Um grito de gol há muito engasgado na garganta de um povo absolutamente fanático por Fórmula 1 para celebrar seu herói. O resultado não foi o suficiente para lhe garantir um lugar no ano que vem, mas a festa em sua casa foi algo que ele merecia muito.

4 - A reação ao incêndio
Numa temporada em que a trajetória esportiva de todo mundo foi similar a de uma montanha-russa, um dos momentos mais dramáticos foi justamente um episódio que fez aflorar o lado humano em um meio tão competitivo. A explosão de um tanque de combustível dentro dos boxes da Williams após o GP da Espanha aconteceu quando a equipe e vários jornalistas estavam na frente dos boxes para festejar o inesperado triunfo de Pastor Maldonado. Em poucos instantes, membros de todas as equipes se uniam para combater o incêndio enquanto muitos ali presentes cuidaram de ajudar quem estivesse do lado a sair da zona das chamas com segurança. Um voto de esperança na espécie humana.

3 - GP dos Estados Unidos
Austin, a capital do Texas, foi um dos maiores presentes que a Fórmula 1 poderia ganhar em mais de 60 anos de história. Uma cidade alegre, que celebra a música ao vivo e com espírito jovem, um oásis bem no meio do conservadorismo daquele estado. A turma de lá construiu um circuito excepcional e fez do evento um show como os norte-americanos são especialistas em fazer. E, como a cereja do bolo, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel protagonizaram durante mais de 40 voltas uma sensacional briga de gato-e-rato pela vitória. Que tenha sido o primeiro GP de muitos por ali.

2 - GP do Brasil
A briga está quente no pelotão intermediário, com posições sendo trocadas o tempo todo. Corte para a ultrapassagem de Jenson Button sobre Lewis Hamilton para assumir a liderança. Corte para a Lotus de Romain Grosjean escapando no mergulho e batendo na barreira de pneus. Corte para a briga intensa ali no meio, com gente escapando no final da reta e batendo rodas no “S” do Senna. Foi este o ritmo de intensidade da prova que encerrou um grande ano. Que ainda por cima carregou nos tons dramáticos da disputa pelo título, com um Sebastian Vettel escapando de maneira milagrosa de uma pancada tripla na primeira volta (e de mais um ou outro erro de estratégia) para fazer uma notável prova de recuperação e ganhar seu terceiro título consecutivo e fazer história. Numa corrida que vai entrar para a história como uma das melhores que a categoria já celebrou. Para mim, a melhor.

1 - A nova geração de ouro
Parece uma saída fácil escolher quatro pilotos para o único posto de melhor do ano, mas foi como se os planetas se alinhassem em 2012 para uma era estelar na Fórmula 1: um Sebastian Vettel ganhando seu título mais difícil num ano em que teve de trabalhar duro para deixar o carro do jeito que lhe aprazia e capitalizar quando isto aconteceu; um Fernando Alonso no auge de suas faculdades como piloto, atuando com destreza absoluta a cada segundo para maximizar suas chances de ser campeão, seja na pista ou fora dela, e por muito pouco não ganhou um título bastante improvável; um Kimi Raikkonen atuando na base do puro talento para completar quase todas as voltas do ano (só perdeu uma, no Brasil, justamente por ter pego um caminho errado numa escapada em Interlagos), vencer um GP e terminar o ano num terceiro lugar muito além do seu equipamento; e um Lewis Hamilton que reencontrou seu caminho, pilotando muito para vencer três vezes e ver três triunfos que estavam a seu alcance se desvanecerem em um instante (em Cingapura, Abu Dhabi e Brasil). No fundo, quando olhar para 2012, o que mais vou lembrar será o privilégio que eu tive de ver esta geração de ouro correndo, cada um dando o máximo de si e, juntos, sendo os principais responsáveis pelo grande espetáculo que foi esta temporada.

11ago/126

Top 5 – Corridas

Não faz muito tempo que era impossível compilar cinco boas corridas num universo de onze. Basta voltarmos a 2010, ano de provas chatíssimas, decididas após uma rodada única de pitstops, que ao menos criaram uma emocionante disputa pelo título. Mas esta temporada tem sido pródiga em boas corridas, com a vitória decidida nas voltas finais. Continuando nossa análise da primeira parte do Mundial de 2012, escolho os cinco melhores GPs até aqui. Confere com a sua opinião?

1 - GP da Europa
Mesmo com o domínio de Sebastian Vettel na fase inicial da corrida, antes da entrada do Safety Car, a corrida em Valência já estava animada com uma série de ultrapassagens no pelotão intermediário. Depois que a neutralização juntou o grid, o bicho pegou de vez: Fernando Alonso aproveitou sua grande chance, Vettel e Romain Grosjean quebraram e a briga pelas outras posições continuou feroz, culminando com uma polêmica batida entre Lewis Hamilton e Pastor Maldonado. No final de um GP em que passamos prendendo a respiração a maior parte do tempo ainda houve a bonita apoteose do piloto espanhol com sua torcida, um daqueles momentos que marcam tanto qualquer esporte pelo nível de emoção que contém.

2 - GP do Canadá
A corrida de Montreal foi a melhor tradução até aqui para um campeonato temperado por muito equilíbrio, a importância das decisões estratégicas e as incertezas quanto ao comportamento dos pneus. Lewis Hamilton venceu tanto por ter sido o piloto mais brilhante do final de semana como por ter acertado em fazer duas paradas para andar rápido o tempo inteiro. Num circuito onde ultrapassar não seria um problema, se deu mal quem tentou para uma vez, como Sebastian Vettel e, especialmente, Fernando Alonso, que virou boi de piranha para quem vinha atrás nas voltas finais.

3 - GP da Malásia
A segunda corrida do ano já trouxe um thriller emocionante e improvável na disputa pela vitória. As primeiras gotas caíram bem na hora da largada e o início da corrida foi animado até que os céus malaios se abriram de vez, causando a interrupção da prova. No reinício, Fernando Alonso foi fazendo tudo certo enquanto seus adversários erravam. Mas o espanhol estava sendo alcançado por Sergio Perez a medida que o asfalto ia secando. A primeira vitória da Sauber parecia perto até que o mexicano cometeu um deslize nas voltas finais que o fez perder um tempo precioso. De qualquer forma, foi um daqueles casos raros de uma prova em que o segundo colocado sai também com um ar de vencedor.

4 - GP da Inglaterra
Mais uma corrida decidida apenas no final depois de uma emocionante batalha estratégica. A prova em Silverstone parecia um passeio para Fernando Alonso, que dominou a parte inicial de uma corrida no seco depois de conseguir uma improvável pole position num treino completamente molhado. Mas era o dia do caçador. Mark Webber se manteve a uma distância pequena do espanhol e preparou o bote para a parte final da corrida, quando estava com um composto de pneus mais eficiente que Alonso. Esperou algumas voltas para dar o bote no momento certo, numa bonita manobra por fora na curva Brooklands a cinco voltas do fim.

5 - GP de Mônaco
Da sala de imprensa no cais de Monte Carlo, dei um suspiro admirado quando se formou um grupo compacto de seis carros após a última rodada de pitstops da corrida. Melhor tradução de equilíbrio técnico e batalha estratégica não existe. Teria acontecido troca de posições não fosse o traçado estreito de Mônaco. Mas ainda assim, não entendo os que ficam se lamentando por isso: se você não acha alucinante um trem de seis carros parecendo um só andando a toda velocidade por aquelas apertadas e tão tradicionais esquinas, tendo ainda de lidar com as gotas de uma garoa que foi apertando nas voltas finais, você não gosta de automobilismo.

28mar/124

Credencial – GP da Malásia

O fim do trabalho deles é apenas o começo do meu

Depois de uma corrida tão movimentada como a da Malásia, não há prazer maior do que sair em meio à correria do paddock para ouvir os personagens de uma prova pródiga deles. Ver de perto a alegria no rosto de alguns, a decepção na expressão de outros, explorar polêmicas, comparar depois se o que foi dito condiz com a histórica contada pelo cronômetro nas folhas de tempos. São momentos assim em que o trabalho árduo é completamente superado pelo prazer de se fazer o que muito se gosta.

E a melhor maneira de traduzir isto é no "Credencial", um formato que permite travar um diálogo direto com vocês para passar todas as nuances vividas dentro do paddock. Essa edição ficou bem legal, com um ótimo debate com o Felipe Motta e a Julianne Cerasoli, além de responder algumas perguntas selecionadas dentre o recorde de comentários na história desse blog. Espero que gostem!

Você pode ouvir o "Credencial" clicando aqui para sintonizá-lo na TV Blogo, lembrando que dá para comentar por lá usando sua conta do Facebook (e os comentários sempre são o melhor guia para melhorarmos a qualidade do podcast). E quem ainda não viu, entre aqui para ler sobre este pobre escriba derretendo no asfalto de Sepang durante uma tentativa de correr pelo circuito a pé!

25mar/1277

You Can Do Magic

Uma equipe estupefata e um caso de canonização para o Vaticano

Foi como se São Francisco de Assis, o santo padroeiro dos italianos, tivesse feito um acordo com São Pedro. Uma pancada de chuva na hora certa foi o prenúncio para que Fernando Alonso operasse um verdadeiro milagre. Com um dos piores carros que a Ferrari fez em sua história recente, o espanhol venceu o GP da Malásia e saiu da segunda corrida do ano na liderança do Mundial de Pilotos. Não foi por menos que um mecânico do time escreveu a palavra “mágico” na placa de sinalização ao final da prova.

Alonso teve sua dose de tensão numa corrida repleta de dramas. Depois de contar com uma estratégia e uma parada perfeitas da Ferrari na hora colocar pneus intermediários após a relargada (a prova foi interrompida por quase uma hora por conta da chuva intensa), ele assumiu a liderança. Mas foi acossado por um perseguidor implacável e improvável: o mexicano Sérgio Perez, da Sauber, que estava com o carro mais veloz para as condições de Sepang.

Perez acabou dando escapada da pista perto do final, pouco depois de ter recebido pelo rádio uma orientação da equipe de que era preciso ter “cuidado, precisamos dessa posição”. Parecia uma maneira de um time cliente da Ferrari resguardar esta posição - um verdadeiro atentado à verdade esportiva da prova. Mas o mexicano dissipou a teoria conspiratória.

“Estava tão concentrado na caça à Fernando que nem estava ouvindo o que a equipe falava. Sabia que era importante pois poderia ser minha primeira vitória, ela era possível. Infelizmente, toquei uma zebra molhada, o carro escapou e tudo acabou ali”, afirmou.

Imaginar uma intervenção no resultado é algo perfeitamente cabível diante do histórico do time italiano e quem acompanhou a transmissão que fizemos pelo Grupo Bandeirantes de Rádio ouviu o desabafo que fiz contra toda essa suposta politicagem. Mas estar no “olho do furacão” tem suas vantagens. Ouvi a diretora da equipe Monisha Kaltenborn e o próprio Perez. Todos genuinamente felizes com o resultado e, especialmente o piloto, decepcionado por não ter vencido uma corrida que tinha tudo para ser sua.

Vendo nos seus olhos isso e vendo também a maneira que ele voou na pista para tentar recuperar o tempo perdido com o despiste, ficou para mim claro que realmente houve uma preocupação exacerbada do time com um possível erro do piloto, mas que ele jamais desistiu de lutar pelo primeiro lugar. Perez foi mais veloz que Alonso nas seis voltas após o erro e fez sua melhor volta da prova em uma delas. Um comportamento nada condizente para alguém que supostamente seguiria uma orientação de “tirar o pé”.

Resumindo: ao contrário do que eu pensava, e do que talvez muitos de vocês pensem, não houve interferência no resultado. Mesmo que a Sauber desejasse isso na mensagem pelo rádio (e eu não acredito mais que tenha sido esse o caso), o piloto simplesmente passou por cima de tudo e buscou vencer até o final. Este é o ponto relevante ao qual temos de nos ater. E ponto final. Aqui, confesso que errei no meu julgamento no calor dos acontecimentos. Sei que muitos vão discordar do que escrevo acima, mas o faço como sempre com toda a seriedade e objetividade jornalística de quem buscou a maior visão global do que realmente aconteceu em Sepang, estando em Sepang. E o que vi (nas expressões dos personagens) e ouvi (nas palavras) não condiz de jeito nenhum com uma "marmelada".

Depois da grande performance, o nome do mexicano ganhou força para ocupar a vaga de Felipe Massa na Ferrari. O brasileiro teve novamente uma performance muito aquém da de seu companheiro de equipe. E assumiu a culpa: “Foi muito ruim. Errei na estratégia de escolher pneus quando coloquei intermediários perto do final quando o ideal era pneus para pista seca. Não saio daqui feliz, mas tenho que pensar em frente e tentar em mudar tudo isso”.

Mais que o discurso, a expressão e a postura de Massa após a prova denotavam um esportista completamente destruído. Se há dois anos ele vem sofrendo um nó na cabeça na sua tentativa de superar o companheiro, hoje esse nó apertou e doeu bastante. Massa tem qualidades e não é um mau piloto - pelo contrário. Mas sua recusa em aceitar estar enfrentando um verdadeiro gênio influencia de forma muito negativa a sua performance.

De positivo do lado brasileiro, a ótima corrida de Bruno Senna. O sorriso largo ao final da corrida era justificado. Os cumprimentos e tapinhas nas costas que recebeu entre o local de entrevistas e as instalações da Williams, também. O sexto lugar no GP da Malásia foi mais que seu melhor resultado na Fórmula 1. Foi a recompensa de uma das melhores exibições do dia em Sepang.

Tudo começou com o que parecia ser um repeteco do pesadelo vivido na Austrália. Logo na primeira volta, um toque fez com que ele caísse para o fundo do pelotão. Era onde o piloto estava no momento da relargada. Se seguiu uma sucessão incrível de ultrapassagens com um carro que tinha um ótimo ritmo de corrida.

“Considerando que eu estava em 24º lugar, estou muito contente com os pontos. Tivemos aqui um carro forte nestas condições, que se comportava muito bem com os pneus intermediários. Foi uma corrida em que tive de ultrapassar e fazer um pouco de tudo”.

Para uma corrida tão emocionante, não faltam temas para discutirmos na próxima edição do “Credencial”. Aproveite o espaço dos comentários para nos dar as diretrizes do que devemos discutir.

24mar/1211

Um bom negócio?

Não é o cabelo dele que vai ficar em pé (Foto Luis Fernando Ramos)

Stefano Domenicali foi muito gentil na carona cedida do hotel até o circuito de Sepang hoje pela manhã. Houve até um momento engraçado quando ele perguntou “o que estão falando no Brasil” e seguiu-se um silêncio constrangedor. Ele riu. “Não, não sobre a F-1, mas sobre o País como um todo. Muitas pessoas aqui acham que a F-1 é tudo. Não para mim”. Seguiu-se então uma conversa agradável sobre futebol, viagens, Brasil e Itália.

De qualquer maneira, a apreensão estampada no rosto dele tinha um motivo. O acordo de diversas equipes com Bernie Ecclestone para um novo Pacto da Concórdia - o documento que rege as diretrizes comerciais da Fórmula 1 - foi anunciado pouco depois de chegarmos na pista. O texto fala em Ferrari, Red Bull, McLaren e "a maioria das equipes". Pelo burburinho do paddock, apenas Mercedes, Williams e as três nanicas ainda não assinaram o papel. Domenicali sabia que teria um dia cheio pela frente, e não apenas com a situação esportiva da Ferrari.

Muita gente argumenta que foi oferecido aos times uma participação em ações da Fórmula 1 que seriam lançadas na Bolsa de Valores de Cingapura - algo que foi negado categoricamente por representantes de seis times (Ferrari, McLaren, Red Bull, Lotus, Sauber e Caterham) na entrevista coletiva de ontem.

De qualquer jeito, a confirmação de que as três primeiras colocadas no Mundial do ano passado já chegaram a um acordo com Ecclestone fala muito sobre os caminhos que a categoria terá nos próximos anos: um abismo cada vez maior entre os times poderosos e os pequenos; um modelo de realização de corridas que traz algumas com arquibancadas às moscas como essa em Sepang; as habituais polêmicas sobre soluções técnicas que custaram milhões e são complicadas de explicar para o torcedor médio.

Certo é que o novo acordo foi vantajoso para Bernie, principalmente, e para as equipes. Mas fica a questão fundamental: o esporte ganhou com isso?

23mar/125

Os sinais da sexta em Sepang

Hamilton e a equipe a ser batida na Malásia

Ok, deixemos a corrida de Albert Park para trás: um circuito de rua que tem suas próprias leis podem nos dar indícios, mas nenhuma conclusão de como serão as coisas para a temporada da Fórmula 1. Melhor olharmos para Sepang, uma pista permanente e desenhada por Hermann Tilke, como boa parte dos circuitos da temporada.

E os sinais que vimos nesta sexta-feira em Sepang foram muito interessantes. Como sempre, ficam algumas dúvidas sobre o volume de combustível de cada carro - vale lembrar que, no ano passado, a Red Bull andava pesada na sexta e voava na classificação. Ainda assim: o domínio de Lewis Hamilton em ambas as sessões indica que também aqui a McLaren é o carro a ser batido.

Mas, como sempre na F-1, há muito além do que vemos (ou “there’s more to the picture than meets the eye”, como celebra o grande Neil Young em “Hey Hey My My”). Principalmente na sessão da tarde, várias pilotos fizeram longas sérias de voltas para testar o ritmo de corrida. E os de Red Bull e McLaren foram muito parecidos, embora pareça que o desgaste de pneus dos carros azuis foi marginalmente menor.

A seguir na distribuição de forças do grid estão a Mercedes e a Lotus. A primeira aparece com força para a classificação, sendo um lugar pelo menos na segunda fila perfeitamente realista. Em ritmo de corrida, os papéis parecem invertidos: os prateados com um desgaste mais acentuado da borracha, enquanto Kimi Raikkonen demonstrando ritmo forte e constante.

No lado dos brasileiros, o momento turbulento de Massa não ficou aliviado depois de um dia problemático. Embora o discurso empregado na entrevista à tarde foi de esperança e otimismo em ter descoberto a raiz dos problemas que ele teve em Melbourne, seu desânimo mostrava exatamente o oposto. A verdade é que Massa terminou o treino da manhã nada feliz com seu carro. E as mudanças que fizeram à tarde pioraram o carro ainda mais. Tudo aponta para mais um final de semana de pesadelo para ele. A cereja do bolo ainda foi a curiosa maneira com que Stefano Domenicali lhe prometeu apoio, mas não o bancou até o fim do ano, como você leu aqui.

Já Bruno Senna teve a primeira de suas “meia sextas-feiras” do ano, cedendo o cockpit de seu carro na sessão da manhã para Valteri Bottas - que fez um bom trabalho, diga-se. À tarde, o brasileiro trabalhou corretamente para acertar seu carro para a corrida e o resultado foi promissor: bom ritmo, mas com o mesmo desgaste acentuado de pneus da maioria. Resta saber se apenas uma sessão de uma hora amanhã cedo será o suficiente para colocá-lo bem na classificação.

No final das contas, essa questão dos pneus é a mais promissora de todas. Vimos até mesmo o mais veloz Hamilton dando suas escapadas na pista à medida em que a borracha ia embora. Na segunda corrida do ano, primeira num circuito permanente, a sensação que fica é que ninguém ainda entendeu completamente como otimizar a vida dessas novas misturas dos compostos da Pirelli.

Quem ganha com isso é principalmente a qualidade das corridas.

14abr/117

Proton Preto

O "marvado", encarando os engomadinhos do estacionamento de imprensa em Sepang

“Mas esse carro é da década de 80?”

A resposta do mister Valbert, cujo sobrenome francês contrasta com o tom de pele malaio, foi a típica de um vendedor de carro usado. “Não, é novo”. Era óbvio que não. O proton Saga na cor preta já passava dos 130 mil quilômetros rodados e tinha a aparência de um veterano das pistas: invocado e, acima de tudo, experiente.

Sem alternativas pois não havia uma locadora de automóveis com veículo disponível, aceitamos a fera como nosso meio de transporte entre o hotel em Kuala Lumpur e o circuito de Sepang. Para completar o clima, encontrei no dial uma rádio que só tocava hits dos anos 80 como “Easy Lover” ou “Hip to be Square”. Era perfeito. Se o doutor Emmet Brown não tivesse um DeLorean para fazer sua máquina do tempo, podia bem usar o nosso carrinho.

O Felipe Motta, depois da Copa do Mundo do ano passado, já estava adaptado à condução de carros da mão inglesa com câmbio manual. Mas eu judiava do coitado quando assumia o volante: me embananava na hora de mudar as marchas, não apertava direito a embreagem e só ouvia o som das engrenagens sendo arranhadas.

O ponto alto foi quando parei num pedágio, completamente enrolado com as marchas, o motor gritando com o giro lá em cima. A mocinha da cabine olhava assustada para aquele carro velho e de aspecto agressivo, pensando que tipo de marginal eu seria. Eu sorri e cantei prá ela a música do “Fuscão Preto”.

No final da cobertura, o senhor Valbert veio sorridente receber de volta a chave do veículo: “espero que tenham cuidado bem dele”. Dessa vez, quem usou de ironia fui eu. “Sim, como se fosse o meu próprio carro”.

Vai deixar saudades o meu Proton invocado...