11ago/126

Top 5 – Corridas

Não faz muito tempo que era impossível compilar cinco boas corridas num universo de onze. Basta voltarmos a 2010, ano de provas chatíssimas, decididas após uma rodada única de pitstops, que ao menos criaram uma emocionante disputa pelo título. Mas esta temporada tem sido pródiga em boas corridas, com a vitória decidida nas voltas finais. Continuando nossa análise da primeira parte do Mundial de 2012, escolho os cinco melhores GPs até aqui. Confere com a sua opinião?

1 - GP da Europa
Mesmo com o domínio de Sebastian Vettel na fase inicial da corrida, antes da entrada do Safety Car, a corrida em Valência já estava animada com uma série de ultrapassagens no pelotão intermediário. Depois que a neutralização juntou o grid, o bicho pegou de vez: Fernando Alonso aproveitou sua grande chance, Vettel e Romain Grosjean quebraram e a briga pelas outras posições continuou feroz, culminando com uma polêmica batida entre Lewis Hamilton e Pastor Maldonado. No final de um GP em que passamos prendendo a respiração a maior parte do tempo ainda houve a bonita apoteose do piloto espanhol com sua torcida, um daqueles momentos que marcam tanto qualquer esporte pelo nível de emoção que contém.

2 - GP do Canadá
A corrida de Montreal foi a melhor tradução até aqui para um campeonato temperado por muito equilíbrio, a importância das decisões estratégicas e as incertezas quanto ao comportamento dos pneus. Lewis Hamilton venceu tanto por ter sido o piloto mais brilhante do final de semana como por ter acertado em fazer duas paradas para andar rápido o tempo inteiro. Num circuito onde ultrapassar não seria um problema, se deu mal quem tentou para uma vez, como Sebastian Vettel e, especialmente, Fernando Alonso, que virou boi de piranha para quem vinha atrás nas voltas finais.

3 - GP da Malásia
A segunda corrida do ano já trouxe um thriller emocionante e improvável na disputa pela vitória. As primeiras gotas caíram bem na hora da largada e o início da corrida foi animado até que os céus malaios se abriram de vez, causando a interrupção da prova. No reinício, Fernando Alonso foi fazendo tudo certo enquanto seus adversários erravam. Mas o espanhol estava sendo alcançado por Sergio Perez a medida que o asfalto ia secando. A primeira vitória da Sauber parecia perto até que o mexicano cometeu um deslize nas voltas finais que o fez perder um tempo precioso. De qualquer forma, foi um daqueles casos raros de uma prova em que o segundo colocado sai também com um ar de vencedor.

4 - GP da Inglaterra
Mais uma corrida decidida apenas no final depois de uma emocionante batalha estratégica. A prova em Silverstone parecia um passeio para Fernando Alonso, que dominou a parte inicial de uma corrida no seco depois de conseguir uma improvável pole position num treino completamente molhado. Mas era o dia do caçador. Mark Webber se manteve a uma distância pequena do espanhol e preparou o bote para a parte final da corrida, quando estava com um composto de pneus mais eficiente que Alonso. Esperou algumas voltas para dar o bote no momento certo, numa bonita manobra por fora na curva Brooklands a cinco voltas do fim.

5 - GP de Mônaco
Da sala de imprensa no cais de Monte Carlo, dei um suspiro admirado quando se formou um grupo compacto de seis carros após a última rodada de pitstops da corrida. Melhor tradução de equilíbrio técnico e batalha estratégica não existe. Teria acontecido troca de posições não fosse o traçado estreito de Mônaco. Mas ainda assim, não entendo os que ficam se lamentando por isso: se você não acha alucinante um trem de seis carros parecendo um só andando a toda velocidade por aquelas apertadas e tão tradicionais esquinas, tendo ainda de lidar com as gotas de uma garoa que foi apertando nas voltas finais, você não gosta de automobilismo.

20jul/121

Uma vitória para Tina

Milhares de rostos, milhares de estórias

O final de semana de Hockenheim começou com o clima bastante variável - ora molhado, ora seco. Exatamente como foi o caso da etapa passada, em Silverstone. E estava conversando há pouco sobre essa prova com uma veterana fotógrafa suíça, Marie Claude Beaumont, num depoimento pessoal dos mais bacanas que já ouvi. Com lágrimas nos olhos, ela me tira uma foto do bolso de uma cachorra com o olhar muito triste.

“É a Tina. Ela era a minha vida. Eu a encontrei ainda filhote, numa praia na Sardenha, sozinha. Ela me olhou, nos encontramos. Mas ela odiava a Fórmula 1. Toda vez que fazíamos a mala (N.R.: o marido dela também trabalha como jornalista na categoria), ela fechava a cara porque sabia que iria para uma pensão. No ano passado ela morreu e eu fiquei muito mal durante muito tempo. Quando a Red Bull fez essa promoção em Silverstone, meu marido mandou uma foto dela. No sábado, fui com um mecânico da Red Bull tentar achar a foto. Não foi fácil, mas afinal vi que ela estava num dos ‘L’s de ‘Red Bull’ na asa traseira do carro de Mark Webber. Quando ele ganhou a corrida, eu chorava sem parar. Minha cachorra passou a vida odiando a F-1. Em Silverstone ela virou uma vencedora de corrida!”

Fica claro que a senhora fotógrafa é uma apreciadora fanática de cães, como eu sou também, num nível (um pouco) mais leve. Mas a história dela mostra também como foi um sucesso a ideia da Red Bull de colocar imagens num carro de F-1 para juntar dinheiro para uma instituição filantrópica como a Wings For Life. A emoção de uma vitória - ou de uma disputa esportiva - continua sendo uma imbatível plataforma de marketing.

16jul/122

Credencial GP da Inglaterra

Um passeio pelos campos de Silverstone não fica completo sem o "Credencial"

Uma edição do "Credencial" com gostinho de nostalgia: um monólogo para falar do GP da Inglaterra e do que aconteceu nas outras categorias do esporte a motor, comigo respondendo às perguntas dos leitores e trazendo observações de quem viveu a ação de dentro do paddock de Silverstone. Para acessar o Credencial, é só entrar aqui. Escute, baixe, comente, divulgue!

9jul/124

Foto do dia – GP do Canadá de 1980

Jackie has been experienced...

A repercussão do procedimento de entrevistas utilizado em Silverstone teve uma repercussão extremamente positiva no paddock da Fórmula 1. Ao invés das geladas entrevistas na frieza de uma sala reservada com perguntas feitas por um jornalista, os pilotos foram entrevistados ainda no calor da festa do pódio por ninguém menos que Jackie Stewart, um dos maiores embaixadores da categoria.

Fazer a associação do escocês em pódios do passado celebrando seus resultados nas pistas é algo óbvio. Mas o que pouca gente se lembra é que ele costumava também fazer entrevistas ali depois de ter se aposentado. Foi no final da década de 70 e em boa parte dos anos 80, quando Stewart trabalhava nos comentários para a emissora ABC. Como mostra a foto acima, feita em Montreal quando Alan Jones conquistou o título da temporada de 1980. Clique na imagem para ampliar!

8jul/1216

O triunfo do sossegado

Há quem pense que não, mas este é um cara forte na disputa pelo título

Mark Webber acordou ontem e foi passear com seus cachorros pelas ruas de Buckinghamshire antes de tomar o café-da-manhã. Depois foi para o circuito de Silverstone, a 40 quilômetros dali, e ganhou o Grande Prêmio da Inglaterra. O segundo triunfo do australiano da Red Bull no circuito teve esse fator caseiro de um piloto, por natureza, reservado e avesso à badalações.

"O que mais gosto dessa corrida é voltar para casa e meus cachorros não sabem se eu tive um dia bom ou ruim - eles ficam felizes em me ver de qualquer jeito. Mesmo que esportistas aprendem a viver em hotéis, por mais que a gente não goste deles, há sempre algo a mais em corridas como essas que te deixa mais relaxado. Ganhei minha primeira prova aqui de Fórmula Ford, em 96. E hoje, essa história de amor continua".

Este “estar mais relaxado” ajudou ao australiano a ter uma performance de campeão. Após dosar o ritmo na maior parte da prova, ele acelerou no fim e mostrou paciência e sabedoria para esperar o momento certo e ultrapassar Fernando Alonso por fora na curva Brooklands a cinco voltas do final.

Mais do que a vitória, o resultado serviu para demonstrar que Webber é um nome forte na disputa pelo título de uma das temporadas mais equilibradas da história. Ele diminuiu sua diferença para Alonso na tabela para apenas 13 pontos e já assume uma postura de determinação indispensável para quem sonha em vencer este campeonato - e que talvez tenha lhe faltado em 2010, quando também chegou perto.

"Tive duas vitórias muito especiais neste ano até aqui, esta e a de Mônaco, em circunstâncias diferentes. Não estou mirando para quem está em terceiro, quarto ou quinto na tabela. Estou olhando para Alonso e ele também está ainda bem, então precisamos continuar trabalhando duro".

A batalha épica de 2012, nas pistas e na tabela, continua em duas semanas em Hockenheim.

Participe do "Credencial" com suas dúvidas e perguntas!

7jul/122

Caminhando sobre as águas

Quando a fase é boa...

Mais de uma hora e meia de interrupção no treino classificatório, com pilotos e mecânicos fazendo a “ola” mexicana para tentar animar torcedores molhados num frio de 16 graus centígrados. Silverstone também sucumbiu ao verão mais chuvoso dos últimos cem anos na Inglaterra. E numa classificação em condições tão adversas, prevaleceu o piloto mais completo. Ou o mais sortudo. Provavelmente, os dois, como o próprio Fernando Alonso admite.

- Você precisa de um pouco de sorte e nós a tivemos dessa vez. Pela rodada sem consequência no Q2 e por todas as decisões certas que fizemos de pneus. E sorte em acertar a volta final que nos deixou à frente de (Mark) Webber por milésimos de segundo. Tudo deu certo para nós - festejou.

Tudo mesmo. A rodada citada pelo espanhol só não encerrou sua participação ali pelo incrível controle de carro que ele possui, encontrando um rumo seguro para um carro desgovernado na grama molhada. No final do Q2, ele ainda conseguiu melhorar sua volta mesmo com uma bandeira amarela na última curva. Fez aquele setor marginalmente mais lento que na volta anterior, o que evitou problemas com a FIA.

A sessão teve outros destaques, começando pelo próprio Webber, outro que acertou a estratégia de pneus, as voltas e vai largar na corrida deste domingo na primeira fila. Destaque também para Felipe Massa. Embora tenha errado na sua última tentativa, a mais importante pelas condições, o brasileiro conseguiu um bom quinto lugar no grid, sua melhor posição de largada neste ano.

- Queria estar mais à frente, mas pelas condições foi um excelente resultado para nós. Estávamos fora do Q2 no momento da bandeira vermelha e acabamos brigando pela pole no Q3, o que mostra que realmente estávamos competitivos - vibrou.

Com previsão de chuva para a prova, o verão molhado inglês deve continuar trazendo incertezas na prova de Silverstone.

6jul/127

A hora do pesadelo

Carros de menos na pista e carros demais fora dela: fracasso total

Vocês me conhecem muito bem para saber que eu não sou um ranzinza que reclama de tudo, muito pelo contrário. E talvez seja isso que dê um peso relevante para o relato do que vivemos hoje em Silverstone: por uma conjunção de fatores, esta sexta-feira sintetizou tudo o que não deve acontecer num evento que atrai o interesse de milhões de pessoas no mundo inteiro.

A começar pela “ação” na pista, restrita na maior do tempo nas gotas de uma chuva intensa e constante caindo sobre o asfalto, enquanto pilotos e engenheiros passavam o tempo contanto piadas ou twittando pelo celular. Tudo por conta do artigo 25.2 B do regulamento esportivo da Fórmula 1: cada piloto tem direito a apenas três jogos de pneus de chuva. Com tanta água na pista e com previsão de asfalto molhado (mas nem tanto) no restante do final de semana, o melhor negócio foi mesmo economizar a borracha para depois. Mesmo quando a situação “melhorou” no final do FP2, o que vimos foram pilotos rodando e batendo por todos os cantos da pista. Não estava fácil para ninguém.

A questão esportiva deu ainda mais peso para o outro grande problema do dia: o sofrimento dos 80 mil torcedores que lotaram o autódromo. O número impressiona, especialmente se pensarmos que era apenas um dia de treinos livres - e com chuva. Deve ter sido uma frustração enorme ficar molhado e passando frio para ver a pista vazia praticamente o dia inteiro depois de gastar um bom dinheiro num ingresso. Uma bela maneira de um esporte perder seus fãs.

Para terminar, a incompetência da polícia local e dos organizadores fez também com que o trânsito no entorno de Silverstone entrasse completamente em colapso. Alguns torcedores e jornalistas relataram ter gastado mais de quatro horas para completar um trajeto de menos de 20 quilômetros.

Venho ao GP da Inglaterra desde 2008 e nunca tinha visto nada parecido com isso. O acesso a autódromos nem sempre é fácil, especialmente nestas pistas “rurais” na Europa, na qual as vias que levam até eles são estreitas. Mas é perfeitamente possível deixar a coisa minimamente organizada. Em São Paulo, uma das cidades do planeta com pior trânsito, o trabalho feito para o GP do Brasil costuma funcionar muito bem - pelo menos para mim que costumo chegar bem cedo em Interlagos, vocês podem usar o espaço dos comentários se esta não for a realidade da maioria.

Se eu fosse um fã inglês de Fórmula 1 no dia de hoje, mandaria a minha paixão pela categoria às favas e iria correndo para Wimbledon ver um grande evento esportivo bem feito. Porque não existe coisa pior do que ser completamente desrespeitado pela incompetência de quem organiza eles.

30jun/126

Atestado de burrice

Os primeiros boxes (à esq.) ficam com visão bloqueada para o público pelo muro à direita da imagem

No ano passado eu já havia deixado claro não ser um fã do novo complexo construído em Silverstone. Além da modernidade ter tirado um pouco da alma rural do circuito, a questão do posicionamento dos boxes no novo pitlane é um exemplo claro da mais pura burrice. Ele corre num plano diferente ao da reta principal, o que faz com que o público da tribuna principal não consiga ver os últimos boxes antes da saída - justamente os das equipes principais. Muitos torcedores reclamaram, com razão, disso.

Para este ano, há um acordo de colocar os boxes de Red Bull, McLaren e Ferrari no meio do pitlane, assim a torcida pode acompanhar a ação delas. Curiosamente, há uma certa vantagem em ter a garagem no início ou no final dos boxes - dependendo do sentido da pista e do lado em que fica o pitlane. No meio, a chance de haver confusão é maior. Dessa vez, as principais equipes vão experimentar isso. Culpa de um planejamento burro na hora de montar esse novo complexo na tradicional pista inglesa.

Precisa ser muito besta para projetar boxes que ficam escondidos da arquibancada...

13dez/1110

Os dez piores da Fórmula 1 em 2011

Quem acompanha esse blog faz tempo sabe que no final do ano é hora de fazer um balanço diferente da temporada. Com critérios estritamente pessoais - subjetivos portanto -, escolho pontos positivos e negativos que marcaram o ano da F-1. Começamos hoje com o que aconteceu de ruim. Gostaram ou discordam de algo? O espaço dos comentários é de vocês!

10 - RENAULT
O time começou o ano com tudo, com um conceito revolucionário para o escapamento do  R31 que impressionou a todos na primeira semana da pré-temporada, em Valência. Mas o acidente com Robert Kubica numa prova de rali eliminou do Mundial a única pessoa capaz de unir e liderar uma equipe esfacelada internamente. Os podios nas primeiras corridas vieram em cima da qualidade da ideia do difusor soprado e do fato de muitos adversários ainda patinarem com seus carros. Depois, o time rolou ladeira abaixo: não conseguiu fazer funcionar nenhuma grande atualização do carro, trocou o paliativo Nick Heidfeld pelo motivador Bruno Senna, passou a correr atrás de times dos quais ganhava fácil no início do ano e encerrou o ano trocando os dois pilotos que encerraram a temporada. Como se eles fossem o problema. Para 2012, a aposta em Kimi Raikkonen é arriscada, mas para ela funcionar o time vai ter de mudar a atual trajetória, claramente descendente.

9 - A POLE DE LEWIS HAMILTON NA COREIA
Ninguém é obrigado a sorrir num momento de glória. Mas não é muito legal também quando o sujeito fecha a cara de maneira ostensiva, para mostrar ao mundo sua tristeza ao mesmo tempo em que age como quem não está nem aí com nada. O brilhante Lewis Hamilton, piloto que sempre se destacou por demonstrar sua paixão pelo esporte dentro e fora do cockpit, exibiu uma cara de enterro depois de conseguir a pole-position em Yeongam - um feito notável, já que foi a única vez que o RB7 da Red Bull não largou na frente. Foi o momento simbólico de uma temporada em que esteve com a cabeça um tanto virada, seja pelos contatos constantes com a Ferrari de Felipe Massa ou por resolver “namorar” a Red Bull também de forma ostensiva no Canadá. Quando pareceu estar em paz consigo mesmo, em Abu Dhabi, andou bem, deu sorte com o problema de Vettel e venceu. Que em 2012 seja a imagem dessa corrida que fique, para o bem de todos nós.

8 - DISPUTA PELO TÍTULO
Não tenho nada contra um bom domínio, nem contra o casamento de um piloto de talento excepcional com um carro de qualidade. Mas em um campeonato que trouxe várias corridas equilibradas e legais de se assistir, foi realmente uma pena que o índice de eficiência de Sebastian Vettel e da Red Bull tenha sido tão marcante. No máximo na sexta corrida já se sabia quem levaria o Mundial de Pilotos e o de Construtores. O que restringiu às vitórias as emoções nas etapas seguintes. Foi pouco para um conjunto de provas tão bacanas.

7 - ALUGA-SE UM COCKPIT
A Fórmula 1 sabe que seus custos atuais estão fora da realidade desde a crise econômica deflagrada em setembro de 2008. O problema é que jamais os tomadores de decisão da categoria se uniram para encontrar uma solução definitiva para o problema. Pelo contrário, ficou cada um puxando o cobertor para si e deixando quem estava na outra ponta da cama no frio. Com o fantasma da recessão assombrando a Europa, chegamos ao final de 2011 com um quadro onde ceder um assento a pilotos endinheirados (e muitos de qualidade questionável) deixou de ser uma opção de equipes pequenas para se tornar uma questão de sobrevivência de muitas médias. E as grandes nem aí com isso. Preocupante.

6 - MARK WEBBER
Se no ano passado Mark Webber chegou a lembrar o Super-Homem pela maneira com que liderou por um bom tempo um Mundial equilibrado pela disputa de tantas feras, neste ano ele voltou a ser um atrapalhado Clark Kent. Enquanto seu companheiro na Red Bull colecionou poles e vitórias, o australiano nem sombra chegou a fazer. Tendo o melhor carro do grid à disposição, conquistar uma vitória e dois segundos lugares em 19 corridas é pouco. Muito pouco.

5 - WILLIAMS
O ano de 2011 foi o pior da história da Williams. Ainda que em 1978, quando construiu seu primeiro carro, o time de Frank Williams tenha ficado em 11º lugar no Mundial de Construtores (contra o nono lugar desse ano), eles puderam comemorar um ótimo segundo lugar em Watkins Glen para mostrar que o time novato estava no caminho certo. Agora, depois de anos de glórias e títulos, a equipe vive uma espiral descendente acelerada. O FW33 se revelou um cheque sem fundos logo de cara e as medidas tomadas para arrumar a casa acabaram por gerar mais confusão. A saída de Sam Michael (a quem a McLaren correu para abrigar) e a entrada do polêmico Mike Coughlan parece ter saído mais um capítulo de uma comédia de erros. A próxima temporada tem uma melhora programada com a troca do fraco motor Cosworth pelo campeão Renault. Mas será o suficiente?

4 - MUDANÇAS DE REGRA EM SILVERSTONE
A capacidade dos engenheiros da Fórmula 1 é impressionante. E encontrar os possíveis ganhos em cima de uma regra é uma especialidade deles. A grande invenção técnica desse ano foram os difusores soprados, uma maneira de utilizar os gases dos escapamentos atuando no difusor até mesmo nas freadas. Coisa de maluco. E tão complexa que a FIA meteu os pés pelas mãos quando resolveu banir a novidade no meio do campeonato, numa clara tentativa de tentar parar a Red Bull. Em Silverstone, eles estavam proibidos. Mas a Mercedes conseguiu o direito de usar uma regulagem especial por “questão de segurança”. A FIA liberou. A Renault chiou e tentou fazer o mesmo. A FIA aceitou, depois voltou atrás. Ninguém se entendia e ninguém entendia mais nada. No domingo, todos decidiram que era melhor deixar como estava até o final do campeonato. Foi ridículo.

3 - GRANDE PRÊMIO DE VALÊNCIA
A cidade em si é sensacional: animada, charmosa, bonita, cheia de vida, vale a visita em qualquer situação. Mas a corrida de Fórmula 1 em Valência é um evento que não deu certo. O preço dos ingressos é fora da realidade para um país onde quem não está desempregado conhece alguém que esteja. A população local também não abraçou completamente a corrida, que foi meio que empurrada goela abaixo pelos governantes de lá. Para completar, o circuito gera uma prova absolutamente insossa. Isso ficou muito claro neste ano, quando nem asa traseira móvel, Kers e pneus Pirelli deram jeito numa procissão sem graça e sonolenta.

2 - FELIPE MASSA
Parecia impossível que este ano fosse pior que o de 2010. Mas Felipe Massa conseguiu ter uma temporada ainda mais decepcionante. Tudo bem que o carro da Ferrari era bem menos competitivo que os de Red Bull e McLaren. Mas o brasileiro não conseguiu manter o foco e apresentou algumas corridas com um ritmo absolutamente desastroso, cometeu erros pontuais e se meteu em confusões desnecessárias. Como a novela com Lewis Hamilton - na qual, por mais que o inglês tenha causado a maior parte dos toques na pista, a reação do brasileiro fora delas poderia ter sido menos intransigente. Mas o mais preocupante foi ver Massa poucas vezes ao longo do ano com a garra que caracterizou a maior parte de sua carreira. Estar na F-1 é matar um Leão por dia. Estar pela Ferrari é matar uma alcatéia diária. Depois de dois anos apagados então, Massa vai ter de encarar em 2012 um zoológico inteiro. A cada GP. A chama da luta precisa estar acesa. Bem acesa.

1 - A INSISTÊNCIA COM O BAHREIN
Os efeitos das mudanças no Egito se alastraram pela região do Norte da África e chegaram rapidamente ao Oriente Médio, mais especificamente no Bahrein. Tudo começou como um protesto por mais oportunidades para a maioria da população, os xiitas. O governo sunita reagiu de forma violenta. Vários protestantes foram mortos, médicos que atenderam os feridos foram presos e país virou um vulcão social em erupção. No meio desse quadro delicado havia um GP de Fórmula 1 que é o principal evento anual do país. Ele foi inicialmente adiado. A FIA então mandou o incompetente presidente da Federação Espanhola para lá para fazer um relatório de mentirinha. Bernie Ecclestone confirmou a realização da prova na parte final da temporada mas, no final das contas, ela acabou cancelada. O pior é que foi mais por uma questão de logística do que uma aceitação ao fato de que ao Bahrein precisa ser dado muito mais tempo para curar as feridas abertas em fevereiro. Mas a família real barenita, grande parceira comercial de Ecclestone e acionista da McLaren, insiste que a corrida pode salvar a imagem do país. Ao mesmo tempo, o pau continua comendo por lá. Deixar a F-1 ser utilizada como instrumento de propaganda política é coisa mesmo de quem só pensa no dinheiro e não tem comprometimento nenhum com a categoria. Ou com seu próprio povo.

7dez/117

Hermano, 86

Nano em ação no GP da Inglaterra

Hoje é aniversário do segundo brasileiro a disputar uma corrida de Fórmula 1. Hermano João da Silva Ramos, o Nano, é muitas vezes confundido como um francês, pois nasceu em Paris e sua mãe era de lá. Mas tive uma conversa telefônica com ele em 2001 e dissipei essa dúvida. A história saiu na época no GP Total. Mas como nem todo mundo lembra ou leu, faço questão de reproduzí-la abaixo. O que eu não escrevi é que o simpaticíssimo Nano me mandou uma foto dele da época autografada e com dedicatória. Grande cara!

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MESSIEUR NANÔ

Hermano João da Silva Ramos permanece até hoje, ao lado do já falecido Gino Bianco, como um dos mais desconhecidos dentre os pilotos brasileiros que correram na Fórmula 1. Trata-se de uma tremenda injustiça. Nano (seu apelido de família) vive hoje muito bem à beira-mar, na cidade francesa de Biarritz. E guarda diversas memórias de um dos períodos mais interessantes do automobilismo europeu, os anos 50. Pude constatar isto num delicioso bate-papo por telefone que tivemos no ano passado.

Pode-se argumentar que Nano, como Gino Bianco, eram pilotos europeus de nascimento e por isso não teriam a mesma importância dos outros 25 brasileiros que entrararam na Fórmula 1. Bobagem! Ninguém nunca questionou que Jochen Rindt era austríaco ou que o tenista John McEnroe seja norte-americano, embora ambos tenham nascido na Alemanha. E o Fininho? Depois de tantas alegrias que o showman do tênis brasileiro nos deu em disputas da Copa Davis, com tanto espírito guerreiro, alguém ainda vai implicar com o fato de Fernando Meligeni ter nascido em Buenos Aires?

Pois é. Nano nasceu em Paris no dia 7 de dezembro de 1925, filho de pai brasileiro e mãe francesa. Com dupla nacionalidade, cresceu lá mas veio ao Rio de Janeiro na época da II Guerra Mundial. E foi aqui que passou a se interessar pelo automobilismo. Com pouco mais de vinte anos comprou um carro esporte inglês, o MG, e passou a disputar algumas corridas, mais por diversão do que qualquer outra coisa. “O Carlinhos Guinle, filho do presidente do Automóvel Clube do Brasil, importou 40 carros desta marca na época e todos os rapazes do Rio compraram um. Fizemos corridas na Boa Vista e até mesmo no Flamengo”, relembra.

Já infectado pelo vírus da velocidade, Nano voltou a viver na França e foi logo ver a edição de 1952 das 24 Horas de Le Mans. Se apaixonou pelo Aston Martin DB2 de um competidor e resolveu comprar um para si. Com ele, disputou a prova no ano seguinte, andando entre os primeiros de sua categoria antes de abandonar com uma suspensão quebrada.

Algumas atuações de destaque no automobilismo francês lhe renderam um convite para correr na equipe oficial da Gordini. Foi por ela que Nano disputou sete provas válidas pelo Mundial de F-1: três em 1955 e quatro em 1956. Terminou três e abandonou em quatro, um resultado razoável tendo em vista a precariedade da equipe, uma espécie de Minardi da época. “Os carros quebravam muito porque a Gordini não tinha dinheiro para comprar peças novas. A suspensão sempre dava problemas e às vezes até perdíamos as rodas. Era muito perigoso”, comenta.

Seu melhor momento na categoria foi no GP de Mônaco de 1956, quando chegou em quinto lugar e se tornou o segundo brasileiro a pontuar, depois que Chico Landi ficou em quarto lugar no GP da Argentina do mesmo ano. Na época, a corrida consistia de 100 voltas pelas ruas do principado. Nano fez uma corrida inteligente e concentrada, levando o carro até o final e sendo premiado com dois pontos.

Mas sua maior lembrança do evento foi do treino livre de quinta-feira, iniciado no curioso horário das 5h45 da manhã para que o trânsito estivesse aberto ao público às 10 horas. Os pilotos completaram a primeira volta em um clima de cidade deserta, mas iniciaram a segunda sob os aplausos e incentivo de uma multidão que se juntou nas janelas e sacadas dos prédios. Ainda vestidos com pijama, naturalmente. “Em uma volta, acordamos uma cidade inteira.”

Numa época em que ainda a Fórmula 1 não tinha o status de hoje, a atenção de Nano naturalmente estava voltada para Le Mans, a corrida mais importante da época. Lá, viveu dois momentos marcantes. O primeiro foi em 1955, quando passou pelos boxes segundos depois do acidente fatal com o Mercedes de Pierre Levegh que matou mais de 80 pessoas – a maior tragédia da história do automobilismo. “Era horrível, tinham dois carros e vários corpos queimando. Parecia o fim do mundo! A minha mulher estava lá, nos boxes, e ficou tão abatida que nunca mais foi à uma corrida.”

O segundo foi em 1959, quando foi convidado pela equipe de fábrica da Ferrari para correr com o belo GT 250 de Maranello. Nos treinos antes da corrida, Nano marcou o melhor tempo. Ganhou uma enorme foto na capa do tradicional jornal francês Le Figaro, maior até que o registro do casamento da musa Brigitte Bardot com Jacques Charrier.

“Eu tinha certeza que ia ganhar. Meu carro andava um pouco melhor que os outros da Ferrari. Sabe como é, quando uma equipe tem três carros, sempre tem um com um motorzinho melhor. O Jean Behra ficou furioso por achar que o Tavoni, diretor da Ferrari, deliberadamente não lhe deu o melhor carro. Behra discutiu e acabou dando um soco no italiano. Naturalmente, foi despedido.” O sonho do brasileiro durou apenas quatro horas, quando o câmbio quebrou enquanto andava entre os primeiros colocados.

A última corrida de Nano foi no Brasil, em 1960, quase duas décadas depois de rasgar as ruas do Rio com os carros importados por Carlinhos Guinle. Correndo com um Porsche numa prova para carros esporte na Barra da Tijuca, ficou em segundo lugar.

De vez em quando, Nano passa alguns dias no Brasil visitando um de seus quatro filhos, que trabalha como corretor de imóveis no Rio de Janeiro. É também membro ativo da Associação dos Ex-Pilotos de Grand Prix e comparece com alguma freqüência em homenagens e demonstrações de carros antigos.

Se restava alguma dúvida sobre para qual país bate o coração do piloto de dupla nacionalidade, ela se dissipou com uma simples pergunta: para quem ele torceu na final da Copa do Mundo de futebol em 1998? “Para o Brasil, é claro! Preparei uma feijoada e convidei vários amigos para vibrar com a Seleção”, disse. Teve de amargar a derrota para a França por 3 a 0, como qualquer brasileiro.