Vitória de Maldonado derruba uma série de (pré) conceitos
Não há como negar, a vitória de Pastor Maldonado nos leva a refletir (pelo menos está me levando). Confesso que jamais vi o venezuelano como um candidato a vitórias na Fórmula 1.
Rápido ele sempre foi. Mas jamais apresentou consistência. Quando conquistou o título da GP2, e consequentemente levou vaga na Williams, imaginei que sua passagem na F-1 seria sempre condicionada ao dinheiro que levaria a algum time. Não que não esteja no futuro, mas o triunfo louvável em Barcelona o credencia, e muito, à F-1 e a ter o respeito de todos.
Na abertura do campeonato Maldonado mostrou mais uma vez do que é capaz. Fez uma corrida sólida, com ritmo forte e brigas com vários pilotos. Fechou a prova com uma batida desnecessária. Ou seja, era uma performance com a cara dele. Velocidade e irregularidade.
Duas corridas depois, na China, Maldonado teve mais uma bela atuação, com disputas incríveis, em especial a batalha contra Fernando Alonso, Sergio Perez e Romain Grosjean.
Em Barcelona, Maldonado foi rápido desde o início. E na prova, mesmo pressionado pela fera Fernando Alonso, não cometeu um erro sequer. No grid, menos de 10 minutos antes da largada, entrevistei o venezuelano. E ele estava numa boa. "Vou correr para ganhar", disse ele.
Após a prova, continuava tranquilo. Esperava uma reação mais eufórica, emocionada e explosiva. Nada! Maldonado, com os pés no chão, sorriu e vibrou, mas dentro de um limite. Notável!
Fica claro que a vitória de Maldonado nos levanta algumas questões. Ele prova que um piloto pouco cotado, mas rápido, pode provar seu talento tendo um carro bom e oportunidade. Quantos pilotos são classificados com medianos, seja por esse ou aquele motivo, e jamais conseguem uma chance de mostrar que são capazes.
A vitória não dá a Maldonado o rótulo de fenômeno. Mas tira dele a faceta de medíocre. O que ele fez não é para qualquer um, algo que achei que ele fosse.
Rosberg mostra a todos, e a ele mesmo, que pode vencer
Não foram poucos os casos de pilotos que tinham potencial, mas só realmente se transformaram em realidade na Fórmula 1 após vencerem.
É como se uma vitória colocasse em um piloto uma energia extra e uma crença em suas próprias qualidades. Não tenho dúvidas que o triunfo de Nico Rosberg na China irá fortalecê-lo.
Apesar de parecer uma corrida fácil, pois em nenhum momento o alemão foi confrontado, seu carro não era uma máquina dez vezes mais veloz que os rivais. Nada disso. Rosberg foi eficiente. Cumpriu o que a estratégia da Mercedes exigiu que desempenhasse e o fez com enorme qualidade.
Rosberg sempre foi capaz. Em seu primeiro ano na GP2 (o primeiro da categoria, no caso) foi campeão em um ano muito sólido. Aprendeu demais em seus primeiros anos na F-1, em uma Williams já decadente.
Quando chegou na Mercedes tinha a tarefa de dividir a garagem com Michael Schumacher, que retornava à F-1 após três anos parado. Dominou amplamente o compatriota no primeiro ano e venceu com vantagem menor no segundo. Nas duas primeiras etapas deste ano, ficou para trás de Michael nos treinos de classificação.
Em Xangai, Nico resolveu mudar essa história. Fez uma volta incrível no sábado e coroou seu fim de semana com a primeira vitória. Um momento importante para ele, sem dúvida alguma.
Quando ele fez a pole, confesso que não acreditava que venceria, apesar das boas chances que tinha por largar na frente. Ainda não o achava 100% confiável. Com a vitória na China, Nico prova para mim, para todos e para ele mesmo que é capaz. E quando isso acontece, é impossível não haver um salto de qualidade em sua pilotagem.
Pressão vivida por Vettel não é inédita em sua carreira
Acho importante começar os trabalhos nesta segunda-feira com Sebastian Vettel como tema. O alemão levantou polêmica após o Grande Prêmio da Malásia.
Bicampeão do mundo, Vettel é conhecido pelo bom humor e sorriso fácil no rosto. Em Sepang, depois de ter um pneu furado em toque com Karthikeyan, Vettel disse um monte. Chamou o indiano da HRT de algumas coisas, entre as quais de 'poste' e 'idiota'.
Karthikeyan não demorou para responder ao afirmar que era muito triste o que Vettel fizera. Quem não leu o bate-boca, vale a pena ler.
Mas hoje gostaria de levantar alguns pontos aqui. Tenho lido que pela primeira vez na vida, Vettel está em dificuldade e que aos poucos perde a cabeça. Escrever/dizer isso é no mínimo ter memória muito curta.
Exceção ao ano passado, quando dominou completamente a F-1, Vettel jamais foi soberano e incontestável. Voltemos ao ano de 2009, quando desembarcou na Red Bull. O carro era bem nascido, mas não conseguia parar a Brawn GP nas primeiras provas do Mundial. Após desenvolver o carro na metade final, Vettel venceu provas e reagiu. Terminou como vice-campeonato em ano de amadurecimento.
Em 2010, a Red Bull tinha o melhor carro do grid (ainda que o domínio fosse bem menor que em 2011). Em algumas pistas, McLaren e Ferrari estavam no mínimo iguais. Em uma disputa apertada dentro da equipe com Mark Webber, Vettel errou bastante e foi muito criticado. Alguns o classificavam como jovem demais e imaturo em momentos decisivos. Na reta final do campeonato foi simplesmente perfeito e levou a melhor, merecidamente, diga-se de passagem.
Em 2011 não precisamos gastar muitas palavras. Venceu, dominou, destruiu, arrebentou e é isso.
O Mundial 2012 começa e a Red Bull em duas etapas percebe que não tem o melhor carro do grid. No entanto, não está tão longe assim. Vettel em duas provas larga atrás do companheiro Webber, mas em corrida apresenta ritmo bem melhor. O alemão termina na Austrália em segundo e fecharia em quarto na Malásia. Convenhamos, estaria longe de uma vergonha. Teria 30 pontos e estaria em segundo com Lewis Hamilton. Nada errado, certo?
Mas em seu caminho, havia uma pedra (ou seria um poste?). Avaliar o que aconteceu entre Vettel e Karthikeyan não é fácil. Quando temos o replay traseiro, a impressão que temos é que Vettel muda a trajetória antes. A repetição frontal mostra o indiano mexendo um pouco. Enfim, cabe uma bela discussão aqui, algo que no toque de Jenson Button com o piloto do HRT não existe a menor dúvida. Tanto que o inglês admitiu assim que desceu do carro o erro.
No caso da toque entre o alemão e o indiano avaliar culpados é mais complicado. Karthikeyan poderia ter tomado mais cuidado (mas ele poderia ficar invisível?), assim como Vettel (mas ele teria de abrir mais?). Fico com o bom e velho incidente de corrida. Aconteceu, simples assim.
Naturalmente, o que Vettel falou do piloto da HRT após a prova está longe do correto. Foi desrespeitoso, mas precisamos considerar que estava de cabeça quente. Lewis Hamilton fez o mesmo ao chamar seus companheiros de ridículos em Mônaco, Felipe Massa também ao dar uns tapinhas em Hamilton após Cingapura e assim vai. Seria muito fácil condenar aqui no conforto do lar. Nenhuma atitude é a recomendável, mas no calor do momento não dá para não dar um desconto. E numa boa, sem essas o esporte fica bem mais chato, não?
Seja como for, não acho que Vettel está sendo testado pela primeira vez. Lembro-me bem de como ele teve de lidar com as críticas após acertar Button em Spa há dois anos. O mundo estava sobre seus ombros, e ele deu a resposta vencendo três corridas das últimas quatro (e venceria Coreia do Sul se seu motor não fosse para o espaço).
Uma coisa é clara: será muito interessante ver o que acontecerá com Vettel e a Red Bull neste ano do ponto de vista de recuperação. Acho sim que ele está no bolo e mostrou através de duas boas corridas que pode somar muitos pontos.
Razia e Nasr: um ótimo começo de ano para os dois
O começo da GP2 no último domingo foi bastante promissor para os pilotos brasileiros. Luiz Razia venceu a primeira bateria e foi quinto na segunda prova, o que o deixou na liderança do campeonato. Felipe Nasr, por sua vez, foi sexto e terceiro e está em quinto no geral.
É muito importante observar que a GP2 mudou seu perfil nos últimos anos. Quando a categoria estreou em 2005, era muito claro que a competição envolvia jovens talentosos que seguiam a tendência de chegar cedo à F-1. Por isso é muito importante contextualizar com o que acontece agora.
Diante da novidade ninguém tinha a vantagem de possuir experiência acumulada. Ou seja, todos os jovens pilotos competiam em pé de igualdade e brigavam de cara pelo título. Lembremos que nos primeiros anos jovens disputavam o título em no máximo dois anos na categoria. Foi assim com Nico Rosberg, Heikki Kovalainen (no caso, o ano de estreia da GP2), Lewis Hamilton, Nelsinho Piquet, Lucas di Grassi e Bruno Senna.
Após três temporadas de GP2, o perfil dos competidores que lutavam por vitórias foi mudando. Começaram a brigar pelo título pilotos vistos como "encalhados" na categoria. Giorgio Pantano, Pastor Maldonado, Romain Grosjean viraram exemplos entre aqueles que lutavam pelo título sem qualquer expectativa de talento na F-1. Com pilotos geniais conquistando o título em um ou dois anos, os mais persistentes pareciam vencer como prêmio de consolação.
No entanto, se não soubermos avaliar a diferença de momento da GP2 do meio da década passada com aquela vista nos últimos três anos, estaríamos realizando um grave erro de julgamento. Existe um outro fator, no caso na F-1, que contribuiu para a mudança deste perfil: a falta de testes coletivos ao longo do ano. Sem poder testar ao longo da temporada, é cada vez mais fundamental que o piloto chegue rodado, pronto.
Após essa introdução, foco minha análise nos dois pilotos brasileiros que vivem momentos distintos na carreira. Luiz Razia faz parte do novo grupo de postulantes ao título. Em seu quarto ano, segue os exemplos de Maldonado e Grosjean para triunfar. E não deve se envergonhar por isso. Ouvi de muita gente que o baiano não tinha talento por demorar tanto a ter resultados na GP2. Lembremos que ele andou sempre ao lado de pilotos rodados e que sua vida foi bastante difícil em algumas equipes. E ficou claro que ao chegar cedo na GP2, Razia pulou etapas importantes na carreira (como ele admitiu na entrevista abaixo).
O fato do baiano brigar pelo título este ano não o fará ser visto como um gênio notável, mas igualmente o fato de não ter brigado pelo título antes não deveria deixá-lo rotulado como piloto incapaz. É cedo ainda para avaliarmos onde pode chegar e precisamos lembrar que apesar dos quatro anos de GP2, ele tem apenas 22.
Felipe Nasr vive uma situação oposta. Aos 19 anos, compete pela primeira vez na GP2. E sua estreia em Sepang foi auspiciosa. Somou pontos nas duas etapas, em pista que não conhecia, sendo que na segunda subiu no pódio. Confesso que ele me surpreendeu. Apesar de badalado após o imponente título na F-3 Inglesa, acreditava que 2012 seria um ano muito complicado para ele, especialmente por ter o companheiro mais experiente do grid: Davide Valsecchi.
Acho, de qualquer forma, que Nasr "comerá um pouco de grama este ano", mas a considerar o que fez em Sepang, dá para imaginar que estará entre os destaques, mesmo que não brigue pelo título até o fim. E assim seguirá construindo seu nome rumo à F-1.
Seja como for, as corridas na Malásia projetaram um ano importante na vida dos dois em 2012. Que mantenham o ritmo.
Na jornada de F-1 da Jovem Pan, em Sepang, conversamos com Razia por telefone. Acompanhem no Blog Dentro e Fora das Pistas:
http://blog.jovempan.uol.com.br/f1/os-caminhos-de-luiz-razia-e-felipe-nasr-na-gp2/
O sinal agora é vermelho para a Ferrari
Se em testes de pré-temporada fica sempre difícil analisar a real performance de uma equipe de F-1, entrevistas de personagens vitais da categorias são muito indicativas sobre algumas coisas.
A de Pat Fry, diretor técnico da Ferrari, no último domingo, em Barcelona, foi mais do que alarmante. Vale a pena ler. Questionado sobre lutar por pódio em Melbourne, daqui a 11 dias, Fry simplesmente disse que acredita que este é um objetivo distante para a escuderia de Maranello.
Depois de algumas temporadas apagadas, a Ferrari deixou claro que ousaria. Historicamente, quando alguém tenta inventar a roda ou se consagra ou afunda de vez. Não tem meio termo.
No ano passado quem tentou a sorte foi a Williams. Não preciso lembrar o que aconteceu.
O que assusta em 2012 é que a Ferrari vem sem crédito. Se estivesse esbanjando resultados teria uma gordura para um fracasso, mas já faz tempo que a Ferrari não é a equipe ponteira, dominante.
Se a batata de alguns personagens já estava assando, fica difícil imaginar o que pode acontecer.
Stefano Domenicali pode ser o primeiro a se complicar. Desde que assumiu o comando ferrarista, é muito questionado por sua liderança em Maranello por imprensa e torcida italianas. Um novo fracasso pode lhe custar a demissão.
Felipe Massa é outro que se vê em posição delicada. Com apenas mais um ano de contrato, o brasileiro precisa mostrar resultados. Boas performances o deixariam em situação boa para renovar ou conseguir outro cockpit competitivo. Com carro ruim, será difícil se sobressair.
Até para Fernando Alonso o cenário é desfavorável. O espanhol renovou seu contrato até 2016. Ou seja, caso o cumpra, provavelmente se aposentará após seu período com a esquadra italiana. Mas será que ele aguentará ficar por lá? No começo da pré-temporada eu conversei com ele e sua expectativa era grande. Mas e agora?
Seja como for, a Ferrari precisará encontrar seu caminho para conseguir boas performances no Mundial. E essa busca não parece próxima de terminar.
Sinal amarelo na Ferrari
É praxe nesta época do ano dizer que é impossível analisar quem está na frente de quem com base em testes de pré-temporada. No entanto, há sempre como pontuar algumas coisas.
Está claro que a Ferrari começou como a McLaren em 2011, ou seja, atrás. As declarações dos membros do time são transparentes. E acreditem: em um momento de início de trabalho ninguém cantará vantagem antes da hora. No entanto, uma equipe não fica fingindo estar mal só para dar de malandro. Isso não existe.
Está claro que o carro da Ferrari não funcionou bem na semana passada. Isso não significa (ainda) que nasceu mal. Um carro novo depende de alguns fatores. Até o time compreender bem suas reações é difícil pensar que ele não presta. Porém, quando houver a compreensão e nada avançar, temos o diagnóstico de que a vaca foi para o brejo.
A McLaren é um ótimo exemplo do que pode acontecer. Começou 2011 atolada em problemas, conseguiu dar a volta por cima ao assimilar as possibilidades do projeto e foi a segunda força do ano (e única a incomodar a Red Bull) com seis vitórias no total.
Mas para que isso aconteça uma equipe precisa entender seus erros e problemas, e a Ferrari não está neste ponto. Ela ainda parece perdida na tentativa de compreender seus novos componentes. E pior: tem apenas mais duas semanas de testes até a abertura do Mundial, em Melbourne, dia 18/03.
Caso seja mesmo um fracasso, estejam certos que a casa vai cair geral em Maranello. Não vai sobrar um por lá. A pressão por resultados é grande e dar um vexame não vai ajudar em nada. Se o carro de 2012 não melhorar, Stefano Domenicali e sua turma podem preparar seus pescoços.
Rubens Barrichello e a F-Indy
Realizei ontem uma entrevista com Rubens Barrichello sobre os testes que fez na F-1 Indy. Depois do papo, fiquei com a nítida sensação de que na cabeça do piloto está tudo bem claro: ele quer competir na Fórmula Indy.
Naturalmente, Rubens tem algumas pendências a acertar. Sua esposa, Silvana, sempre pediu a ele que não corresse em ovais. O exemplo mencionado era o de Nelson Piquet, que após anos de glórias na F-1, foi para os Estados Unidos e se envolveu em grave acidente. O problema para Rubens é que ele prometeu que não iria para os ovais.
Acho que não será uma grande dificuldade convencê-la. Ele deixou claro na entrevista que precisa conversar com a família, ao mesmo tempo em que frisa que todos sabem que sua alegria é estar atrás de um volante. Ou seja, "deixem-me ser feliz". Assim, com ele feliz, a família estará feliz.
Penso que a relação de Rubens e Silvana, como a de qualquer casal que vive uma rotina de viagens e distanciamentos, é uma. Caso ela mude, existem desdobramentos. Pego minha vida como exemplo. Viajo semana sim, semana não. Quando estou em casa nas férias, um ou dois meses completos após uma temporada, minha esposa levanta a mão para o céu e diz: "livre-me deste mala".
Estou exagerando no exemplo, claro, mas não é muito distante disso. Se Barrichello ficar 100% em casa, tenho certeza que será difícil para ela e para ele. Muita gente brinca que Michael Schumacher e sua esposa se entediaram após alguns meses de vida tranquila em casa. Não me refiro que a dificuldade estará entre eles. Mas imaginem um cara de 40 anos sem fazer o que gosta. Esquece. Mas enfim, não é meu papel, e o de ninguém, bancar terapeuta de casal.
Voltemos às competições de carros, então. Quando ouvi pela primeira vez que Barrichello testaria na Indy pensei: "não, ele não pode fazer isso". Ontem, enquanto conversávamos com ele mudei minha opinião. Eu tinha pensando em realizar perguntas sobre a F-1, afinal sua saída era recente. No entanto, com as novidades da Indy, parecia fazer pouco sentido disparar várias questões sobre sua eventual aposentadoria na categoria máxima da velocidade.
O que pensei naquele instante? Caso Rubens opte por um ano sabático, estará fadado a falar sobre F-1, saída da Williams, ausência de uma despedida apropriada, vida de aposentado por tempo indeterminado. Optando por novos rumos, e não estamos falando guiar carroças, Barrichello terá novo foco e, consequentemente, novos objetivos e assuntos.
Pela sua velocidade nos testes, não é difícil imaginar que andará bem por lá. Basta ter um carro minimamente competitivo. E o que um piloto busca? Vencer, seja em que competição for.
Vale lembrar também que a Indy passa por uma crise. A ida de Rubinho representará uma nova atração para a categoria, além de ser boa para ele próprio, como escreveu o amigo Bruno Vicaria em seu blog.
Escrevo, como sempre fiz aqui, que não me sinto confortável de opinar sobre quais os rumos uma pessoa deve tomar em sua vida, pois não sei ao certo o que fazer na minha. Mas admito que após a conversa de ontem eu mudei de visão sobre uma eventual ida de Rubens à Indy. Acho que seria um bom negócio. Acrescento que, para mim, Barrichello já tem a decisão clara em sua mente. Somente fatores de contrato e dificuldades que fujam ao seu controle atrapalhariam o que parece certo - guiar nos Estados Unidos.
Domenicali precisa mostrar se é um bom chefe
Gente boa, fala mansa e atencioso. Os adjetivos que podem ser empregados a Stefano Domenicali geralmente não fazem parte do que se espera de um chefe de uma equipe de Fórmula 1, ainda mais se o time em questão for a "Scuderia".
No entanto, por mais bacana que se possa ser, na F-1 os resultados é que contam e está na hora de Domenicali mostrar se é capaz de fazer uma Ferrari poderosa.
Na entrevista que fiz ao lado do companheiro Luis Fernando Ramos, Domenicali foi político e cordato como sempre, mas deixou claro que uma hora a corda pode estourar.
Não resta a menor dúvida que o italiano é mais querido que seu antecessor, Jean Todt. No entanto, ninguém duvida que o francês é capaz de montar um time vencedor. Domenicali está longe de alcançar este status.
Após dois anos ruins e um regular (sim, 2010, ainda que Alonso tenha brigado pelo título até o fim, deve ser considerado apenas regular no que diz respeito ao carro que fizeram), Domenicali é muito questionado pela imprensa e pela torcida italianas. O time mudou bastante, contratou alguns e demitiu outros, e agora não haverá muita brecha ou desculpas. Se a equipe não andar para a frente o próximo deve ser ele.
Em Madonna di Campiglio, no começo do mês, muitos colegas italianos disseram que seu tempo já está nos acréscimos do segundo tempo. Simpático ou não, Domenicali precisa de resultados. Se cair pode servir para alguns argumentarem que a F-1 não é lugar para homens de bem, o que é uma pena e algo que não concordo.
O papel de Massa na Ferrari
Em menos de 24 horas na Itália, em Madonna di Campiglio, no evento Wrooom, organizado pela Ferrari, fica mais do que claro como está definida a hierarquia na escuderia. O texto do colega Luis Fernando Ramos mostra bem como anda a coisa com um exemplo prático.
Eu poderia seguir a linha do Ico, como o jornalista é conhecido, mas irei me ater mais ao novo papel do brasileiro (desde a consolidação de Alonso na equipe, após algumas provas em 2010).
A trajetória de Massa é muito particular na F-1. O piloto chegou cedo e imaturo, cometeu muitos erros e perdeu o emprego logo após o primeiro ano, em 2002. Ali, muitos pensavam que sua carreira tinha acabado. Retornou em 2004, com muito ainda a aprender, mas sempre deixou claro sua velocidade e curva de evolução. Pagava, no entanto, seu começo ruim e muitos jamais o consideraram um piloto capaz de vencer corridas.
Em 2006, seguiu para a Ferrari para ocupar a vaga de Rubens Barrichello. E aqui traço um paralelo dos cenários vividos pelos dois brasileiros. Rubinho chegou na Ferrari com um papel bem definido. Seu companheiro, Michael Schumacher, era o dono do time, aliás, da F-1 quase toda. Era um piloto que se projetava acima de todos do grid. Cabia a Barrichello acompanhá-lo e, quando desse, superá-lo.
Para Rubinho ficava aquela motivação de um dia conseguir a possibilidade, que nenhuma outra equipe havia lhe dado, de estar na briga por vitórias. De resto, esperaria abandonos, falta de sorte ou até mesmo acidentes, como Eddie Irvine pode aproveitar, do companheiro famoso. Nada disso aconteceu e a ele somente foi dada a chance, que poucos têm, de ser um coadjuvante de bom destaque,.o que ele fez com competência.
A situação de Massa foi bem diferente. O piloto assumiu a vaga ao lado de Schumacher sabendo que o prazo de validade do alemão estava próximo de acabar. Schumi não era mais tão jovem. Assim, para Massa, era apenas aprender, crescer e esperar um momento oportuno, algo que demorou apenas uma temporada. E no lugar dele chegou Kimi Raikkonen, um piloto veloz como poucos, mas longe de querer liderar um time.
Em três temporadas juntos (duas e meia, se considerarmos o acidente de Felipe em Budapeste), Massa foi superado no primeiro ano, e deu o troco no ano e meio seguinte. Quando perdeu, o finlandês foi campeão por um ponto. Quando venceu, o brasileiro perdeu o campeonato por um ponto. Cruel, mas a vida na F-1 é assim.
Além de bons resultados, com poles e vitórias, Massa assumiu o papel de liderar a equipe, algo que não faz parte da essência de Kimi. O brasileiro ditava rumos no desenvolvimento do carro, era atendido em suas solicitações, querido pelos funcionários do time, do alto ao baixo escalão, e conseguiu estar entre os ponteiros.
Essa situação injeta em um profissional uma confiança incrível, que interfere na performance em todos os sentidos. Não apenas no esporte, mas em qualquer empresa em geral.
Com a chegada de Alonso, o papel de líder virou-se a ele, e coube a Massa voltar a ocupar uma posição que ele esperava ter deixado para trás e não viver mais. Por mais que o brasileiro se esforce, é impossível não ser tomado por um certo abatimento, além de se desdobrar em dois para alcançar o nível do companheiro. Nesta caminhada os erros se tornam ainda mais frequentes e a diferença cresce em níveis maiores do que o normal.
Concordo com o Ico que talvez fosse melhorar ignorar um pouco Alonso e cuidar apenas do seu, sem se cobrar permanentemente chegar ao nível do espanhol. Talvez sem esse peso, rendesse mais.
Ao mesmo tempo, reconheço que não deve ser fácil. "Mandar" em um time e ter de voltar um degrau deve ser algo duro. No meio jornalístico o exemplo é comum. Quantos locutores e repórteres esportivos de rádio e TV eram considerados os titulares, após anos de luta e trabalho duro, para depois voltar a ocupar um papel coadjuvante, que fosse ser o segundo na empresa. É impossível o profissional não sentir um abalo, por menor que seja.
Geralmente, para voltar a render o que se espera, é necessário mudar de ares. Sair do canal A e recomeçar no B. Mas na F-1, o mercado é menor, e sair de uma Ferrari pode representar nunca mais andar entre os dez primeiros. Decidir, então, é tarefa ingrata, além de fugir completamente de apenas escolhas pessoais dos pilotos. Existem mil fatores que movem as peças no grid para cá ou lá, e esta difícil imaginar para que lado Massa irá em 2013.
Palavras sobre o aniversariante Schumacher
Hoje é aniversário do maior vencedor da história da Fórmula 1, Michael Schumacher. Depois de duas temporadas completas após seu retorno à F-1, fica mais fácil analisar o que se pode esperar de Schumi. Sinceramente, acho que vimos o que tínhamos para ver.
Depois de uma temporada ruim (2010), quando foi criticado por tudo e por todos, Schumacher apresentou um ritmo melhor no ano passado. O alemão teve alguns bons momentos e, a partir do GP do Canadá, subiu bastante de produção.
Claro, este não é mais o mesmo Schumacher de antes. Tampouco sua Mercedes é igual a Ferrari. E aí reside um ponto importante. Para mim, um carro vencedor nivela os pilotos. Em uma Ferrari fantástica, como era a Red Bull em 2011, a diferença entre Fernando Alonso e Felipe Massa seria menor. Assim como Sebastian Vettel seria capaz de deixar Mark Webber ainda mais para trás se contassem com um carro inferior.
Quando se está a meio segundo de vantagem do resto, erros são toleráveis em alguns casos. E quando eles ocorrem, o piloto quando muito perde uma, duas posições. Mais para trás, qualquer vacilo é imperdoável. Por isso, ao menos para mim, se a Mercedes tivesse um baita carro, Schumacher teria totais condições de provar que não é um aposentado em atividade. Não garanto que bateria Nico Rosberg, mas estaria bem perto, aliás, como esteve o ano passado. Não à tôa a diferença entre ambos foi de apenas 13 pontos (89 a 76).
Essa possibilidade de uma Mercedes forte me agradaria muito. Adoraria ver o que Rosberg é capaz com um carro forte nas mãos, e quão enferrujado Schumacher está na realidade.

felipemotta@totalrace.com.br
