Conjuntos afiados
Em 2012, Fernando Alonso foi vice-campeão do mundo mesmo largando por 15 vezes, ou seja, em três quartos do campeonato, da terceira fila para trás no grid. Boas largadas, primeiras voltas agressivas, estratégias corretas, boa leitura de corrida e um carro cujo ritmo se aproximava bastante dos rivais aos domingos foram a receita para que o espanhol ganhasse, em média, quase 3 posições por prova em relação à largada.
Mas faltava velocidade para a Ferrari poder dizer que estava na briga pelo campeonato apenas pelas próprias pernas. O início ruim da Red Bull e as quebras e falhas da McLaren criaram um ambiente propício para Alonso desfilar seus dotes. Para lutar pelo título, era preciso largar mais à frente, para correr sem tráfego e impor o bom ritmo de corrida que o carro já tinha.
Sim, até que os carros andem em uma gama mais ampla de circuitos/condições com os quatro compostos, ainda podemos ter lapsos de adaptabilidade de um carro com determinado composto/circuito e não dá para cravar que carro X ou Y é superior.
Porém, começa a aparecer um padrão: Mercedes e Red Bull são melhores aos sábados e Ferrari e Lotus ganham nos domingos – a não ser, como ficou claro na Malásia, com água.
A Mercedes, segundo Lewis Hamilton, se livrou do desgaste acelerado de pneus, mas ainda deve em termos de ritmo puro. A Red Bull tem uma queda bem menos acentuada do sábado para o domingo e muito provavelmente teria um resultado melhor na China não tivesse apostado em uma estratégia arriscada. E sabe-se lá o que Raikkonen poderia ter feito se realmente a perda pelo bico danificado fosse da ordem de 0s25, como diz a equipe.
Ou seja, as diferenças são pequenas e o GP da Espanha, tradicionalmente palco de grandes evoluções nos carros, ganha importância, lembrando que as equipes vivem a dúvida do quanto apostar no projeto de 2013, que ficará obsoleto em novembro.
Enquanto Barcelona não vem, fica claro que há alguns conjuntos afinados. E são os mesmos há algum tempo. As execuções aos domingos de Alonso-Ferrari têm sido perfeitas, enquanto Raikkonen completa um ano nos pontos e Vettel, mesmo em um dia ruim, fica a 0s2 do pódio. Sim, os três primeiros do ano passado, que passaram com louvor pelas três "fases" de interação com os pneus de 2012. Lembre-se de que as provas iniciais foram marcadas pelo alto desgaste e a dificuldade em compreender as reações da borracha. Depois tivemos algumas das melhores corridas do ano, como Canadá e Valência. E, no final, como as equipes já haviam domado os pneus, passaram a fazer duas paradas com facilidade e as disputas ficaram engessadas. Agora, a Pirelli "resetou" o jogo, mas o mesmo padrão deve se repetir. E com os mesmos personagens, talvez ganhando o ingrediente Hamilton na Mercedes. E ainda que há quem tente vender a imagem de “pneus farofa” e “corridas artificiais”, como se isso trouxesse resultados randomizados.
Quem já comentou por aqui antes vai perceber que completei o último parágrafo, pois vi que anteriormente ele abria para outras interpretações. Minha intenção era apenas mostrar que os melhores conjuntos se adaptam a quaisquer situações. Mas certamente voltaremos ao tema do modelo de disputa atual em breve. Parece-me, pelos comentários divergentes, que o gosto por determinado estilo de corrida tem a ver com as expectativas. E dá para entender por que quem liga a TV querendo ver brigas ferrenhas e velocidade pura anda desanimado.
Massa, Alonso, classificações e recordes
O GP da China está se aproximando e certamente veremos muitas matérias citando a possibilidade de Felipe Massa se tornar o primeiro companheiro a superar Fernando Alonso em cinco classificações seguidas. Mas é motivo para comemorar?
Vamos aos fatos. Em 12 anos de carreira, apenas dois companheiros de Alonso o bateram em quatro sábados seguidos: Trulli, em duas oportunidades, e Hamilton.
Perguntei ao italiano sobre essa batalha interna. “Ele era um bom companheiro de equipe, lutávamos de maneira limpa. É possível bater Alonso, eu sei que sim. Mas, obviamente, nos últimos anos, ele construiu um nome e agora parece mais forte”.
Trulli quer dizer que Alonso conquistou uma espécie de blindagem com o tempo. Vencedor, tem a equipe na mão para se beneficiar disso quando necessário. Na corrida, é fácil ver, com ordens claras e prioridades estratégicas. Na classificação, isso acontece na hora de escolher o momento em que cada piloto vai para a pista.
Dito isso, confesso que o que mais me surpreendeu nestes últimos três anos foi a lavada que Massa levou do espanhol em treinos. A classificação nunca foi o ponto mais forte de Alonso, mas sim de Felipe. E ele levou 15 x 4 nos dois primeiros anos e 17 x 3 em 2012. É isso, também, que gera interesse na sequência atual.
Afinal, quem esperaria que um piloto arrasado por três anos seguidos, como num passe de mágica, começasse a andar mais rápido?
Vejo uma combinação de fatores que favorece Massa neste momento: sua mentalidade positiva, um carro equilibrado e pneus que se aquecem com mais facilidade. E esse conjunto tem tudo para permitir ao brasileiro seguir forte nos treinos. Se às vezes à frente, às vezes atrás de Alonso, não importa. O foco é ter uma boa posição de largada.
O problema é que, ainda que a performance de Massa tenha melhorado enormemente desde o final de 2012, Alonso é um osso muito mais duro de roer aos domingos. Para qualquer um do grid, verdade seja dita. Hoje, o único que está no mesmo nível do espanhol em termos de gerir e farejar oportunidades em uma corrida é Kimi Raikkonen. Além disso, é bem provável que o bicampeão, menos agressivo em saídas de curva, poupe mais os pneus em stints longos, revertendo uma das vantagens que Massa vem tendo.
Tanto, que a última vez que Massa terminou uma corrida à frente de Alonso foi no GP da China de 2011. Houve interferências da equipe – Monza, Interlagos – mas isso não é a regra. A regra é ver o bicampeão deixando para trás com boas largadas, estratégias perspicazes e uma ótima gestão de ritmo até conjuntos mais fortes.
Essa sequência em classificações afasta a ideia de que Massa nunca seria o mesmo após o acidente de 2009. Uma série de circunstâncias abalou o desempenho do brasileiro e fez muitos duvidarem de suas capacidades, mas as últimas performances são condizentes com o que já o vimos fazer – e, talvez por esse motivo, nem ele entre nesse oba-oba. Portanto, é uma ótima notícia, mas não chega a ser algo de outro mundo. Impressionante mesmo seria superar Alonso em corrida. Até porque, sabe quantas vezes o espanhol foi batido por um companheiro em quatro provas seguidas? Nunca.
Grandes marcas, caras fechadas #MalásiaFacts
Em um final de semana especial para Sebastian Vettel, Mark Webber e Fernando Alonso, todos saíram do GP da Malásia com um sabor amargo na boca. O primeiro igualou uma marca que, durante muito tempo, foi tida como imbatível: as 27 vitórias de outro tricampeão, Jackie Stewart, mas acabou a prova dizendo que preferia não ter ganhado da maneira como o fez. Os outros dois não tiveram muitos motivos para comemorar sua 200ª aparição em um GP.
Vettel alcançou 27 vitórias após 103 GPs, contra 96 do escocês – que viria a se aposentar com 99 largadas. Também é de se notar que, por correr nas décadas de 1960 e 1970, Jackie teve de conviver com mais abandonos, 36 contra 17 de Vettel. Ainda assim, uma marca impressionante para o alemão de 25 anos. Para efeito de comparação, Schumacher tinha 28 conquistas com o atual número de GPs de Vettel, que marcou ainda a 38ª pole position em Malásia.
Para a Red Bull, foi a 13ª dobradinha, sendo que em 10 oportunidades era Vettel quem estava na frente. Inclusive, desde o GP da Alemanha de 2010, nenhuma equipe a não ser a atual tricampeã mundial conseguiu uma dobradinha.
Falando no espanhol, que antes da prova posou com a equipe para uma foto comemorativa, o 200º não saiu como esperado. Pelo menos o clima interno era bem melhor do que nas celebrações para o 100º GP, no GP da Turquia de 2007, quando Ron Dennis, ao entregar ao então piloto da McLaren uma placa comemorativa, disse que havia pensado “em lhe dar algo pesado para que pudesse jogar em nós”. Clima leve, não?
Da 100ª à 200ª corrida, o espanhol quase dobrou seus números – eram 18 vitórias e 44 pódios no GP de número 100 e 30 vitórias e 87 pódios hoje. Mas título que é bom, nada.
Para Webber, todas as nove vitórias foram conquistadas neste segundo centenário. O australiano, contudo, deve comemorar sua marca no Bahrein. Na verdade, tanto ele quanto Alonso têm 200 GPs, mas não 200 largadas. Ambos pilotavam pelos times que usavam pneus Michelin e não largaram nos EUA em 2005. E Webber se classificou, mas não largou no GP da Espanha de 2002 após a Minardi decidir não correr por questões de segurança.
Massa embalado
O GP da Malásia também marcou a quarta vez seguida em que Alonso foi superado pelo companheiro Felipe Massa em classificação. É apenas a quarta vez que isso acontece com o espanhol, que ficou atrás por 4 GPs consecutivos de Trulli (em 2003 e 2004) e Hamilton (em 2007). Isso, porém, nunca se repetiu por cinco vezes seguidas.
Massa também aproveitou o abandono do companheiro para superá-lo no mundial pela primeira vez desde o GP da China de 2010. Na verdade, nas corridas em que ambos terminaram, Massa não chega na frente de Alonso desde a prova de Xangai de 2011. Talvez possa aproveitar a boa fase – primeira vez que faz mais pontos que um companheiro nas duas primeiras provas desde que chegou à Ferrari – para derrubar a marca justamente no GP chinês deste ano.
Se o início do brasileiro é positivo, pela terceira vez – em sua terceira temporada – Pastor Maldonado não completa as duas primeiras provas do ano.
A Ferrari está a cinco provas de igualar a sequência de 55 GPs com pelo menos um carro nos pontos, recorde obtido entre 1999 e 2003. No geral, a melhor marca é da McLaren, com 60 – e contando. Isso, mesmo com o time de Woking tendo seu pior início desde 2000 – e, claro, os dois nonos lugares obtidos até agora não resultariam em pontos na época do recorde ferrarista.
Quem não conseguiu manter-se nos pontos foi a Force India. A equipe
atravessava sua melhor fase – 10 provas seguidas nos pontos – e não abandonava com ambos os carros desde o GP do Japão de 2010.
Entre os pilotos, a maior sequência atual é de Kimi Raikkonen, com 19 corridas seguidas nos pontos. O recorde geral é de Schumacher, com 24. Ano passado, Alonso chegou a 22. Será que dessa vez a marca cai?
Estratégias da classificação abrem mundo de possibilidades para GP da Malásia
A diversidade de estratégias escolhidas pelas equipes na classificação e a dificuldade em prever qual o rendimento de cada carro após a chuva ter atrapalhado as simulações de corrida na sexta-feira abrem um leque de possibilidades interessante para o GP da Malásia.
Vettel conquistou a pole com quase um segundo de diferença em relação a Massa, mas ninguém espera que o alemão tenha facilidade no domingo: o alto desgaste de pneus da Red Bull na Austrália deixou uma pulga atrás da orelha dos rivais e, diferentemente da própria corrida de Melbourne, o próprio tricampeão reconheceu que sua pole malaia teve muito a ver com a chuva no Q3.
O fato da Red Bull ter adotado uma estratégia de guardar pneus para a corrida mostra uma incerteza em relação ao número de paradas que serão necessários no domingo. Vettel tem um jogo a mais de duros do que os rivais diretos (Ferrari e Mercedes), ou seja, caso tenhamos uma prova com três paradas e stints com médio-duro-duro-duro, terá um ‘respiro’ de 3 ou 4 voltas, que pode fazer a diferença. (Lembrando que cada piloto tem a disposição 3 jogos de cada composto para dividir entre classificação e corrida).
Por outro lado, as equipes que usaram apenas um jogo de intermediários no Q3 – e a mais rápida delas é a Mercedes – podem ter vantagem caso chova. Some a isso o fato do time alemão ter sido o único que conseguiu fazer uma simulação de corrida – e de maneira bastante consistente – na sexta-feira e temos motivos para acreditar que Hamilton e Rosberg podem incomodar.
Na Ferrari, Alonso afirmou que as simulações foram inconstantes demais para se ter um diagnóstico, mas só o fato do carro ter se comportado bem sob altas temperaturas já anima os italianos, que também estão na briga pela vitória. Outra aposta seria Raikkonen, mas, largando em 10º após punição, o finlandês dependerá muito do desenrolar das primeiras voltas – se ficar travado no tráfego, terá pouco a fazer.
Qual a aposta de vocês?
Aposta arriscada ou inversão de posições na Ferrari?
Como era de se esperar, muitas questões ficaram em aberto após o GP da Austrália. O ritmo da Lotus teve a ver com a temperatura de pista ou é uma tendência para a temporada? E o caso curioso da Mercedes, que parecia ter se livrado dos problemas de desgaste andando muito bem com o supermacio, mas depois caiu com os médios? Onde foi parar o ritmo demonstrado pela Red Bull nos treinos? E a Force India, tão eficiente com os médios quanto péssima com os supermacios?
Porém, por aqui o que ganhou destaque foi a diferença da estratégia da Ferrari para Massa e Alonso, em parte responsável pelo segundo lugar do espanhol e o quarto do brasileiro. Prefiro olhar a questão pelo mesmo prisma do Ico, exaltando a corrida consistente de Massa e abrindo o caminho para uma boa temporada. E trago alguns números para explicar por que o que vimos em Melbourne foi muito mais uma aposta arriscada que deu certo do que uma inversão maligna de posições.
Vamos aos fatos: Alonso vinha em último em um trenzinho com Sutil, Vettel e Massa. Assim como o companheiro, se mostrava mais rápido que Vettel e que o alemão da Force India, ainda que não o bastante para colocar de lado.
Caso respeitasse a ordem natural das coisas, teria de esperar a parada de Massa, a exemplo do primeiro stint, e fatalmente continuaria atrás. O espanhol decidiu, então, antecipar a segunda parada para adotar um ritmo mais forte e voltar na frente.
A Ferrari sabia que, parando Alonso primeiro, lhe daria a chance de superar Massa e Vettel? Obviamente. Porém, a manobra ao mesmo tempo resolveria o problema momentâneo do espanhol e arriscaria sua estratégia para o restante da corrida.
Explico: o bicampeão havia feito a primeira parada na volta 9, uma depois de Massa. Antecipou a segunda em três voltas, fazendo um stint curto, de 11 com os médios. Com 38 para o final, portanto, teria de cumprir mais dois stints de 19 para completar o GP. Ou seja, eles não tinham certeza se Alonso pagaria o preço da ousadia lá na frente, com o desgaste excessivo, mas decidiram correr o risco.
Isso explica também por que Massa não o seguiu logo na volta seguinte e parou três voltas depois, respeitando o plano original numa tentativa de ganhar lá na frente. No final das contas, os pneus de Alonso aguentaram os stints de 19 voltas e a aposta deu certo, mas Massa simplesmente não tinha essa informação quando decidiu ficar na pista mais tempo.
DRS parte 2: Uma dor de cabeça a menos para a Ferrari
Um dos grandes mistérios da temporada passada foi o abismo do ritmo da Ferrari entre o sábado e o domingo. Afinal, a explicação para Fernando Alonso ter ficado a quatro pontos do título mesmo largando em apenas quatro provas no top 3 não pode se resumir à “mágica” do espanhol: o F2012 por vezes levava 1s na classificação e ganhava vida na hora que importava, andando em média um ou dois décimos mais lento que o melhor carro nas corridas.
Há uma teoria interessante para explicar esse fenômeno – e por que isso não deve se repetir em 2013. Foi Gary Anderson, ex-projetista e comentarista técnico da BBC, que surgiu com a plausível explicação: o problema do F2012 era na interação entre a asa traseira e o difusor, potencializado pelo uso da DRS.
Veja bem, não era a DRS em si da Ferrari que gerava problemas. Ela, na verdade, passou a ser uma das mais efetivas no grid e é a base da solução das deficiências de velocidade de reta que o carro apresentava no começo do ano. A questão é a instabilidade no momento em que a asa é ativada e, principalmente, desativada.
Quando se ativa a DRS, a resistência ao ar é reduzida já que uma das lâminas da asa fica plana, aumentando a velocidade de reta. Quando mais veloz o carro, mais a traseira cola no chão, o que diminui o downforce produzido pelo difusor. Isso é desejado para que o carro ganhe velocidade de reta. Porém, quando o piloto pisa no freio para a próxima curva, o interessante é que o nível de downforce aumente para que ele consiga efetuar a troca de direção de maneira rápida e estável. Assim, o carro muda de comportamento com a freada e a traseira sobe.
Para que essa transição seja eficiente, todo o pacote aerodinâmico deve ter um bom “diálogo”. E, haja visto a instabilidade em freada e as saídas de frente que marcaram o 2012 da Ferrari, havia alguma falha nesse sentido no F2012. Imagine que, em uma freada de 1s, a traseira demore 0s3 para subir e fazer com que o difusor ajude a manter o carro no chão: isso vai criar instabilidade, que reflete ainda na velocidade com que o piloto contorna e sai da curva.
E o que a DRS tem a ver com isso? Quando ela está ativada, gerando cerca de 10km/h a mais na reta, a queda de downforce na traseira é obviamente maior. Quer dizer, quando a asa estava funcionando em sua configuração “normal”, o diálogo entre as configurações de reta e curva era bom; quando ela perdia ainda mais downforce com a abertura da DRS, não. Para piorar o cenário, a tendência para corrigir instabilidade de traseira é tirar asa dianteira, mas isso faz o carro sair de frente e reduz o downforce geral do carro.
É visível que a Ferrari trabalhou muito na traseira de seu carro de 2013, priorizando trazer a suspensão mais para baixo para melhorar o fluxo de ar nessa região fundamental. Mas também é inegável que, com a restrição do uso da DRS em classificação, a equipe tem uma dor de cabeça a menos nesta temporada.
Qual foi o carro mais rápido do ano em 2012?
Muitos torcem o nariz quando se diz que o carro da Ferrari não foi competitivo ao longo da temporada, mas difícil é achar um final de semana em que o F2012 tenha sido o melhor do grid. Talvez tenha chegado mais perto em Monza, quando Alonso teve seu único problema de confiabilidade do ano, na classificação.
A Ferrari começou lutando para entrar no Q3, para ser o quinto carro do grid. Após compreender os erros iniciais e conseguir usar suas ideias, principalmente na área do escapamento, originais, o carro se tornou competitivo entre junho e julho. Depois, o desenvolvimento lento fez com que o rendimento caísse novamente em relação principalmente a McLaren e Red Bull, mas também em comparação à Lotus.
Essa não seria a história de um carro que faz um campeão. Ainda assim, Alonso lutou pelo campeonato até o final. O mérito do espanhol foi saber aproveitar-se de uma característica importante do F2012: trabalhar os pneus de forma que eles permanecessem em sua zona de temperatura correta e, assim, colocou-se em posição de lucrar em um ano atípico, em que era comum ver até seis equipes com menos de 1% de variação de tempo de volta entre elas.
Outro ponto importante, que explica tanto o campeonato de Alonso, quanto do próprio Sebastian Vettel, que foi campeão tendo um carro mais rápido em termos de velocidade pura em 7 das 20 etapas (35%): a equipe mais veloz do ano, a McLaren, quebrou e errou muito, especialmente em pit stops, e jogou pontos que Alonso, Vettel e Raikkonen agradeceram.
| Equipe | % média de déficit para o carro mais rápido (2012) | % média de déficit para o carro mais rápido (2011) | Variação |
| McLaren | 0.18 | 0.5 | -0.32 |
| Red Bull | 0.38 | 0.01 | +0.37 |
| Lotus | 0.68 | 2.2 | -1.52 |
| Ferrari | 0.75 | 0.83 | -0.08 |
| Mercedes | 0.87 | 1.5 | -0.63 |
| Williams | 0.96 | 2.76 | -1.8 |
| Sauber | 1.15 | 2.75 | -1.6 |
| Force India | 1.16 | 2.51 | -1.35 |
| Toro Rosso | 1.82 | 3.06 | -1.24 |
| Caterham | 3.49 | 5.18 | -1.69 |
| Marussia | 4.83 | 6.85 | -2.02 |
| HRT | 5.73 | 7.86 | -2.13 |
| Red Bull | Ferrari | McLaren | Lotus | |
| Vitórias | 7 | 3 | 7 | 1 |
| Pódios | 14 | 15 | 13 | 10 |
| Voltas mais rápidas | 7 | 0 | 3 | 3 |
| Poles | 8 | 2 | 8 | 0 |
| Primeiras filas | 14 | 3 | 16 | 1 |
A McLaren também passou por um problema sério em meados da temporada, tendo dificuldade em fazer funcionar pneus cuja zona de temperatura era diferente na dianteira e na traseira. Mesmo depois que conseguiram colocar a traseira no chão, após os updates de Alemanha/Hungria, ainda tiveram quedas inexplicáveis de performance.
Também faltou explicação no início de ano da Red Bull, que sofreu com as restrições no sopro do escapamento no difusor. Vettel chegou a correr com as especificações da pré-temporada para tentar entender por que não conseguia andar nem no ritmo de Webber e o time começou a se encontrar com o grande update de Valência e, depois, com o passo gigante de Cingapura.
Essas constantes mudanças na relação de forças mostram o quão próximo esteve o grid neste ano, algo também provocado pelo crescimento das equipes médias, num ritmo superior às grandes. Afinal, as donas de orçamentos menores nunca tiveram escapamentos soprados tão desenvolvidos como as grandes e certamente sentiram menos sua falta.
Falando em médias, é curioso ver no gráfico como a Williams foi a melhor em termos de ritmo em comparação a Sauber e Force India. Porém, chegou atrás delas no campeonato, a exemplo do que ocorreu com a McLaren em relação a Red Bull e Ferrari na ponta.
Os gráficos, compilados no site F1Fanatic, têm como base a volta mais rápida de cada carro em cada final de semana. Tentei observar as tendências aos domingos por meio das voltas mais rápidas, mas, tendo em vista que a Ferrari ficou em média 0.913 longe da melhor volta numericamente – e sabemos que a realidade não é essa – fica claro que não se trata de um parâmetro válido.
A Ferrari é só o braço de Alonso?
Há quem explique a posição de Alonso no campeonato apenas pelo seu próprio braço. “É 90% mérito dele e 10% da equipe”. Concordo que um piloto possa fazer a diferença em determinados momentos, mas durante um ano inteiro? A campanha da Ferrari em 2012 não vem mostrando apenas as qualidades do espanhol, mas principalmente que não é só de carro imbatível que se faz um belo campeonato.
A maneira de se vencer na F-1 mudou muito de 2008, quando a Ferrari conquistou seu último título, para cá. A restrição nos testes fez com que as simulações se tornassem fundamentais e o fato de termos basicamente o mesmo regulamento técnico desde 2009 torna os ganhos de performance, hoje, mais tímidos, pois essas regras já foram bastante exploradas. Paralelamente a isso, o pacote de mudanças para melhorar o espetáculo – Pirelli, Kers e DRS – torna mais complexa a estratégia durante o final de semana e mais difícil enxergar avanços.
É com essas mudanças que a Ferrari vem tentando lidar. E com sucesso, reconhecido pelo próprio Alonso: "Quando cheguei aqui, esse não era um time vencedor. Agora evoluímos em diversas áreas, nas estratégias, nos pit stops, na preparação para as corridas. Para o ano que vem, só falta o carro. Assim, teremos condições de lutar pelo título", disse, ao final de 2011.
É verdade que o carro ainda não veio. Em termos de performance, a Ferrari teve um início desastroso. Não passou para o Q3 na Austrália, ficando a 1s do melhor tempo no Q2 e a 21s5 da ponta na corrida mesmo com um SC a 17 voltas do final. Após o teste de Mugello, o time se reencontrou, finalmente conseguiu instalar o escapamento original e teve uma boa sequência da Espanha à Alemanha. Em nenhum momento, porém, chegou a dominar um final de semana, sendo as duas poles de Alonso dependentes da chuva. Sem colocar o carro na pista para testar fora dos finais de semana de corrida, caiu de produção e agora depende de uma adaptação melhor ou pior a cada pista.
Então como explicar que seu piloto foi líder por 8 das 10 etapas? Seria fácil colocar tudo na conta de Alonso. É inegável a grande parcela do espanhol, reconhecida a cada prova pela própria equipe, mas isso não explica tudo. A Ferrari, hoje, está no nível da Red Bull no que costumo chamar de “execução”, que envolve preparação e decisões ao longo do final de semana.
As duas têm seus pontos fracos: a Red Bull teve problemas de confiabilidade, enquanto a Ferrari faz belas estratégias defensivas, mas peca na hora de atacar. Porém, são raros os finais de semana, nos últimos dois anos, em que o conjunto Ferrari/Alonso tenha deixado de maximizar o resultado que o carro permitia.
São fatores como acerto visando a melhor equação entre velocidade e consumo de pneus – e a regra na Ferrari é sempre priorizar a corrida, como temos visto especialmente nas últimas duas provas, em que a velocidade de reta foi fundamental para seus pilotos. Para isso, o simulador, entregue ano passado, é fundamental. Os carros também são muito bem regulados para as largadas e os pit stops são consistentemente rápidos, após a equipe ter desenvolvido equipamentos que foram copiados pelo resto do grid.
Nada disso é por acaso e a figura central nessa repaginada geral é Pat Fry, que veio da McLaren na metade de 2010 para supervisionar as operações de pista e hoje é diretor técnico.
“Não é só uma questão de tentar fazer um carro mais rápido, precisamos fundamentalmente mudar as metodologias que usamos para selecionar, desenhar e fabricar peças para que sejamos competitivos a longo prazo. Há trabalho em todas as frentes para que não deixemos pedra sobre pedra.”
Falta um deles, é claro. A aerodinâmica segue sendo o calcanhar-de-Aquiles e a equipe vem acelerando suas mudanças internas para usar do mesmo expediente da Red Bull em 2009 e aproveitar a revolução nas regras de 2014 e dar esse último passo. Não dá para apostar se dará certo, mas é fato que hoje a Ferrari é uma equipe muito mais bem preparada para vencer dentro dessa nova realidade da F-1 do que há quatro anos.
Ferrari contra-ataca em território Red Bull
A Ferrari promete o contra-ataque ao domínio da Red Bull justamente em uma pista na qual Vettel teve sua prova mais dominadora ano passado. O GP da Índia tomou ares decisivos para o desenrolar do campeonato mas, pelo menos no papel, não há nada que faça duvidar que a grande fase do alemão deva se estender por mais um final de semana.
Em 2011, na primeira prova disputada no segundo circuito de maior média horária da temporada – muito em função da combinação entre longas retas e curvas de média/alta – Vettel conquistou seu primeiro grand chelem.
Na ocasião, a Pirelli levou seus compostos macios (equivalentes aos atuais médios) e os duros, que apenas Red Bull e McLaren conseguiam colocar na temperatura ideal de funcionamento. Assim, reinou a tática de duas paradas, com o menor tempo possível com os duros. Por isso, mesmo repetindo-se os compostos, espera-se mais equilíbrio e mais variáveis nas estratégias, abrindo, inclusive, a possibilidade de fazer apenas uma parada, uma vez que o pneu duro deixou de dar dor de cabeça. Tudo vai depender do quanto os macios vão aguentar com os carros pesados no início da corrida.
Como a expectativa é de que as temperaturas caiam na parte final da prova e os pneus macios sofrem bolhas quando isso acontece, a expectativa é que os stints finais sejam feitos com pneus duros.
Outro ponto importante é que, como a pista tende a melhorar muito ao longo do final de semana pelo fato de praticamente não ser usada durante o ano e começar a sexta-feira muito suja, os dados dos treinos livres devem ser estudados com cuidado.
São dois os fatores que trabalham a favor da Red Bull. As características do circuito, especialmente nos dois últimos trechos, premiam um carro que gere mais pressão aerodinâmica, e foi isso que o RB8 mostrou após seu grande update de Cingapura.
O DRS duplo também promete ser uma grande vantagem, pois é utilizado por cerca de 62% da volta em classificação. Na corrida, apesar do sistema não dar grande benefício direto, significa que o carro pode ser configurado com maior carga aerodinâmica, o que traz tempos de volta mais baixos quando não se usa o DRS. As equipes que não têm o DRS duplo, por outro lado, são obrigadas a diminuir as asas para não perder muito em classificação.
Ou seja, em condições normais, apostar que o campeonato sai com Vettel à frente por 16 ou, no mínimo, 13 pontos de vantagem é uma boa pedida.













