GP do Bahrein por britânicos, espanhóis e brasileiros: “Vai precisar de gelo para acalmar”
“Vimos pelo menos nove líderes nas três primeiras provas. Será que Rosberg conseguirá se manter? E Vettel, que terminou todas as provas até aqui na mesma posição em que largou? Atrás dele, estão as Ferrari, que sempre largam bem.” A quantidade de variáveis mostra que nem o narrador da Sky Sports britânica, David Croft, arrisca um palpite para o GP do Bahrein. Ao seu lado, Martin Brundle atesta o óbvio. “O candidato à vitória será o cara que terá a vida mais tranquila após as 10 primeiras voltas. Pode ser qualquer um do grid.”
Na Globo, a expectativa é de que Felipe Massa alargue o primeiro stint para tirar vantagem de sua estratégia diferente e Rubens Barrichello chama a atenção para o vento contra na curva 1, “que vai aumentar as ultrapassagens na zona de DRS porque os pilotos poderão frear tarde.”
Massa não entra na equação da espanhola Antena 3. O narrador Antonio Lobato diz que “Rosberg defenderá, Vettel atacará e Fernando tentará de tudo”. No final das contas, é o que acontece. “Nico pulou bem e acabou favorecido pela briga entre Alonso e Vettel”, narra Galvão Bueno. E que luta. “Essa manobra surpreendeu a velha raposa Alonso, que tinha se aproveitado da briga de Vettel e Rosberg na curva 1”, observa Brundle. “Que ultrapassagem de Vettel. É uma curva em que chega em sexta e sai em quinta. Se o Fernando não lhe desse espaço...”, Pedro de la Rosa nem completa a frase.
Desde as primeiras curvas, já ficava claro que a palavra agressividade seria usada de torto a direito. Agora Vettel vai para cima do pole. “Rosberg defendendo de forma muito agressiva mesmo com um carro mais lento. Lembre que ele colocou dois para fora nesse mesmo circuito ano passado”, diz Brundle. Para De la Rosa, quem está arriscando demais é o outro alemão. “É importante pensar nos pneus. Vettel está fazendo uma corrida fora de suas características, forçando muito e os pneus podem mostrar sua conta depois.” Para Reginaldo Leme, a briga “só está favorecendo o Alonso.”
Brundle e De la Rosa percebem a ajuda que o vento contra citado por Barrichello está dando a Vettel. “Não é comum ver uma Red Bull lutando por posição assim porque a velocidade de reta deles é muito ruim, mas o vento na cara de Rosberg é tão forte que ajuda o vácuo de Vettel”, aponta o inglês. “Fernando precisa se livrar rápido de Rosberg senão o Vettel vai sumir”, Lobato começa a se preocupar.
As primeiras voltas de Massa, em quinto, animam os brasileiros. “É importante que ele esteja na balada”, destaca Galvão. “Isso está funcionando muito bem para Massa, porque ele conseguirá ficar na pista umas cinco voltas a mais que os outros e só perdeu uma posição”, completa Brundle.
A sua frente, Alonso passa por Rosberg. Porém, mesmo com ar limpo, o espanhol não anda no ritmo de Vettel. Para Lobato, é porque o alemão “sabe que sua única opção é fugir agora”, devido à força da Ferrari. Porém, todos demoram a perceber que o DRS do F138 travou aberto na ultrapassagem em cima do alemão.
Só na volta sete, quatro depois da ultrapassagem, Jacobo vê que “Fernando tem um problema com o DRS, porque ele continua aberto”. Lobato destaca a “perda de aderência muito grande nas freadas”, que De la Rosa calcula ser da ordem de 1s5. “É incrível que ele esteja pilotando assim.”
Galvão vê vantagem e diz que o espanhol vai para os boxes para resolver o problema “por lisura esportiva”. O narrador chega a informar que as regras não permitem que o carro continue na pista com DRS aberto, o que não é o caso. Barrichello o socorre. “Com a asa aberta é praticamente impossível andar.” Galvão se diverte com a solução ferrarista “no tapão”.
“Não acho que ele vai poder usar o DRS de novo”, diz Vega momentos antes em que Alonso volta a ativá-la e a falha persiste, obrigando o espanhol a uma nova parada e tirando-o da corrida. “Ai, Dios mío, que lástima”, berra Lobato. “A primeira parada era recuperável, porque estava perto da janela. A segunda o fez perder muito”, lamenta De la Rosa.
Reginaldo destaca que, “com o problema de Alonso, a corrida cai no colo de Vettel”, enquanto Galvão não entende porque Massa caiu tanto, desconsidera o undercut e chega à conclusão de que “deve ter perdido tempo no box”. Croft questiona se a parada prematura do brasileiro não tem a ver “com o maior desgaste de pneus devido à asa dianteira danificada.”
As atenções se voltam para Di Resta e Raikkonen, que tentam a tática de duas paradas. “Eles precisam chegar até a volta 20. É corajoso”, acredita o repórter Ted Kravitz. “Enquanto os carros ficam brigando, ajudam os que estão em duas paradas”, completa Croft.
Lobato questiona se Raikkonen pode superar Vettel com sua tática, mas De la Rosa não acredita. “Ele é o líder real, virtual, o que seja. Está com um grande ritmo e ainda tem mais dois jogos de pneus novos, o que era uma vantagem adicional em relação a Alonso.”
Os espanhóis já se apressam a culpar a Ferrari por não ter trocado a asa de Massa quando o brasileiro aparece lento na pista. Acham que ela se foi de vez. Brundle vê na hora que o problema é o pneu e, assim como os espanhóis, lembra do furo de Hamilton no treino livre. “Vamos ficar de olho. Ele só tinha sete voltas no pneu. Na Pirelli, explicaram que era por detrito [no caso de Lewis]. Há tantos detritos assim?”, questiona Lobato. “Se houver, que chamem o Charlie Whiting para colocar um SC, o que seria maravilhoso para nós”, emenda De la Rosa.
Todos se surpreendem com a agressividade – de novo! – da briga entre os companheiros de McLaren. “Sergio Perez parece um piloto da McLaren hoje”, se anima Brundle, até ouvir a reclamação de Button e ver o toque do bico do mexicano na traseira do inglês. “Jenson está querendo manter sua posição psicologicamente, mas isso poderia ter colocado ambos os carros no pitlane.”
Para Galvão, “muita gente está adorando, mas isso não é inteligente”, e Barrichello sugere que um vá passando o outro para que ambos avancem. Mas não nas curvas. “Esse circuito tem tanta reta, eles poderiam esperar para tentar a manobra nelas e não perderiam tanto tempo.”
Lobato se diverte. “As McLaren estão muito perto, está perigoso. Não sei se o
rádio de Whitmarsh já está funcionando.” Enquanto isso, De la Rosa imagina “o quão bom seria para nós se eles se pegassem. Com um toque menor que esse, a asa do Fernando caiu na Malásia.” Ingleses e espanhóis veem culpa de Button nas brigas mais quentes com Perez e o piloto de testes da Ferrari elogia a ex-equipe. “Que bonito que eles deixem os dois brigarem. Para quem está vendo é bom, para eles não. E também pediram que Sergio fosse mais agressivo. O que queriam que ele fizesse?”, pergunta De la Rosa. Quando Button faz seu pit, algo que Barrichello vê como uma tentativa “de separar a briga”, Lobato brinca. “A McLaren vai colocar gelo no cockpit quando eles pararem para acalmar os ânimos.”
Kravitz lembra que a falta de interferência da equipe pode ter motivos menos esportivos. “Essa é uma corrida importante para Perez, que tem investidores importantes aqui – e eles podem ser patrocinadores da Mclaren, pois a Vodafone sai no final do ano.”
Novamente, Massa sofre um furo no pneu, mas britânicos e espanhóis veem diferenças em relação à primeira. “Foi uma falha diferente, em outro lugar no pneu. A Pirelli terá questões a responder, ainda que a equipe também possa ter influência por questões de cambagem. Então não dá para culpar a Pirelli em 100%”, avalia Kravitz. Barrichello segue a mesma linha. “Às vezes pode ser detrito, mas como já é a segunda vez que acontece, pode ser acerto. Se der uma mexidinha na roda, já altera o comportamento.”
Na Sky, em duas oportunidades, a transmissão se conecta com o rádio de Eric Boullier, que dá uma entrevista ao vivo. Explica o que deu errado com a estratégia de Grosjean no começo, confirma que Kimi está na luta pelo segundo lugar e, curiosamente, diz, na volta 42, que Grosjean luta pelo quinto lugar com Webber, mostrando que nem a equipe tinha a dimensão do que poderia acontecer. “Não é impressionante termos uma corrida em que alguns fazem duas paradas tranquilamente e outros são obrigados a fazer quatro?”, questiona Croft. “Geometria de suspensão, acerto do carro, estilo de pilotagem, ter uma corrida no tráfego. São vários os fatores que contam”, enumera Brundle. Para De la Rosa, “essa corrida mostra a diferença de degradação entre carros, mas também entre pilotos. Raikkonen e Grosjean estão indo ao pódio, mas um com duas paradas e outro com três. O mesmo ocorre com Vettel e Webber, que está com muitas dificuldades.”
Um dos exemplos é Hamilton. “Lewis reclamou muito no início da corrida de falta de aderência com o pneu médio. E não dá para entender porque o deixaram com o mesmo composto no segundo stint. Depois que colocou os duros, seu ritmo cresceu muito”, observa Kravitz.
Na Globo, Reginaldo tinha outra explicação. “É um piloto brilhante, mas estava reclamando muito no rádio no começo. Ele precisou da força do engenheiro para acreditar que o ritmo estava bom.”
Os espanhóis passam boa parte da prova lamentando por Alonso que, para Barrichello, seria o único que poderia ameaçar Vettel. “Ele é o único que repete os tempos do líder e, como ele está em primeiro e também sem DRS, é uma boa comparação.” Para Lobato, “Fernando está na briga com um braço engessado”, pelo problema com o DRS que, segundo De la Rosa, custa “cerca de seis décimos em relação a quem pode ativar nas duas zonas”. O narrador lembra que “lamentavelmente, em uma corrida em que tinham de acontecer coisas, só Vergne abandonou. Vamos ver se Fernando consegue fazer mais alguma mágica.”
Desde a volta 26. O comentarista calculava que o espanhol “lutaria pela sétima ou oitava posições”. Por um momento, vendo Hamilton “forçando demais” os pneus e Webber sendo superado pelo inglês, acreditou que um quinto lugar seria possível. Ainda mais depois que Alonso fez “uma coisa incrível” ao ultrapassar Perez. “Sei que costumamos valorizar quando os pilotos ganham corridas, mas acabe onde acabe, esta corrida de Fernando tem um mérito enorme”, disse Lobato.
Porém, o asturiano não ficaria muito tempo à frente do endiabrado mexicano. “Abusou um pouco, mas é legal quando um piloto combativo consegue uma posição dessa”, elogia Galvão. Depois de ver o chega pra lá que Alonso levou, Vega destacou que “Perez não pode reclamar do que Button fez com ele. Fez exatamente o mesmo com Alonso.”
De la Rosa ainda se diverte com o fato de Perez ter um resultado tão bom mesmo com o bico quebrado, assim como Raikkonen na China. “É uma lenda urbana esse negócio de que a aerodinâmica é tudo na F-1.”
O mexicano ainda faria outra vítima, Webber, pouco antes do companheiro do australiano, soberano, cruzar a linha de chegada. “O que será que teria acontecido sem os problemas de Alonso e Massa?”, questiona Croft. “Acho que ele não estaria ao alcance. Nem para Raikkonen com uma classificação normal.” De la Rosa é obrigado a concordar. “Fazendo os cálculos, sem o pit stop a mais, Fernando seria o terceiro. Claro que a quebra do DRS trouxe problemas adicionais, mas só para vermos como seu ritmo foi bom. E, mesmo assim, o ritmo de Vettel foi algo surpreendente. Sua volta mais rápida foi um sinal de que poderia ter sido mais rápido. Do resto, sabíamos que Raikkonen faria duas paradas e se recuperaria.”
Reginaldo destaca o finlandês, “pela 22º vez seguida nos pontos”, ainda que seja a 21ª. “Perez, combativo, deu show, e Vettel superou as 27 vitórias de Jackie Stewart, recorde que parecia imbatível há alguns anos.” Barrichello destaca como Vettel “venceu sem a disputa direta com a Ferrari e a Lotus mostrou que precisa melhorar a classificação.”
Mas a última palavra é de Croft: “A mensagem que a Red Bull mandou foi que, mesmo estando apertado, eles ainda têm a vantagem”.
GP da China por britânicos, espanhóis e brasileiros: “Não entendo a estratégia”
A expectativa por uma corrida estratégica anima os britânicos na transmissão da BBC do GP da China. “Esses pneus estão mortos após a classificação, imagine o que vai acontecer no começo dessa corrida”, destaca o comentarista David Coulthard. O analista técnico, Gary Anderson, arrisca um palpite. “Para mim, o caminho mais rápido é fazer 19 voltas com dois jogos de médio e fazer mais duas paradas para colocar macios. A aderência adicional deste composto será importante quando os carros estiverem mais leves. Acho que os que estão largando com médios têm vantagem, mas depende muito do tráfego.”
Os espanhóis não acreditam que Vettel e companhia estejam em vantagem e o comentarista Pedro de la Rosa diz não entender a estratégia do alemão. “Faz sentido no caso de Button, que tem de arriscar, mas com o carro que ele tem na mão, não.”
Na Globo, o tricampeão também não é colocado entre os favoritos. Galvão Bueno destaca a Mercedes, enquanto Luciano Burti aposta em Raikkonen, cuja Lotus é “muito boa em conservar pneus”. O comentarista é acompanhado por Coulthard e pelo narrador britânico, Ben Edwards. “Eles aprenderam com o erro de estratégia do ano passado e mostraram que o carro é bom com os pneus.”
As previsões ficam de lado quando o finlandês é ultrapassado pelas duas Ferrari na largada. E os espanhóis mostram que, mesmo não acreditando na estratégia de Vettel, não o desconsideram. “Fernando se coloca logo atrás de Hamilton. E vamos ver onde fica Vettel, muitos estão ao redor dele e ele está sendo muito cuidadoso. Por enquanto não há toques, lembre-se que não queremos SC nestas primeiras voltas. Porque isso seria uma grande ajuda para Vettel”, explica o narrador Antonio Lobato. “Fernando se livrou do que mais lhe preocupava, que era Raikkonen, e Vettel segue atrás de Button, o que é importante”, emenda De la Rosa.
Coulthard vê Hamilton “vulnerável” pois, como líder, “é o único que não tem DRS. Ele está vulnerável. O melhor que ele poderia fazer era parar e esperar que os outros o seguissem”. Mas De la Rosa não tem certeza disso. “A questão é que, se parar antes, vai ultrapassar o outro piloto com certeza, mas vai entrar no tráfego.” Logo depois, o inglês segue o ‘plano’ de Coulthard. “Quem pode sair prejudicado é Massa, porque estava muito perto de Fernando e teve de esperar uma volta. O tempo mínimo para não perder tempo com uma parada dupla é de seis segundos”, destaca De la Rosa.
Para Galvão, o dono da melhor estratégia da corrida é Webber, “que já se livrou do pneu macio”. Isso, até que o australiano enche o meio de Vergne – ainda que, para a Globo, fosse Ricciardo. “Não tinha espaço e Ricciardo não deve ter visto”, acredita Burti, mesmo que Galvão veja o comentário como “bondoso demais”. Coulthard coloca outro elemento na discussão: “Ele parece ter decidido fazer a ultrapassagem um pouco tarde demais, talvez esperando mais complacência da equipe co-irmã, mas é justo dizer que Vergne não deveria estar olhando no espelho naquela hora, ele já tinha se comprometido com a curva.” E os espanhóis se surpreendem justamente por ser uma Toro Rosso. “Ninguém avisou que era o Webber que estava vindo?”, pergunta Lobato. Depois que Webber abandona, as dúvidas do narrador só aumentam. “O que mais podem fazer com ele? Não colocam gasolina. Depois um que deveria lhe ajudar fecha a porta. Agora não apertam a roda.”
Entre os ponteiros, Coulthard via Vettel bem, porque, após fazer sua primeira parada, voltaria perto dos líderes. Porém, como o alemão demora a parar, chega até a pensar na possibilidade do piloto da Red Bull fazer suas paradas, porque ele segue na pista mesmo que Alonso esteja se aproximando. Quando ele é chamado aos boxes na volta 14, antes das expectativas de todos (os brasileiros falavam no primeiro pit entre as voltas 15 e 18, os espanhóis entre 15 e 17), o escocês vê que a estratégia de três paradas. “O tráfego do Hulkenberg deve ter atrapalhado para conservar os pneus.”
O fator Hulkenberg já havia sido contabilizado – e comemorado – pelos espanhóis. “Nosso maior aliado hoje se chama Nico Hulkenberg, que não estava na equação”, destaca Lobato. Porém, Vettel se livra do compatriota logo após a primeira parada. “Sorte de campeão”, diz De la Rosa.
Na luta com Raikkonen, Perez fecha a porta e o finlandês quebra parte do bico de sua Lotus. Os britânicos já tinham chamado a atenção para as mudanças de direção do mexicano quando era Alonso que tentava ultrapassá-lo. “Quero ver o replay. Mas uma vez, Perez fica mudando de direção.” Ao contrário dos ingleses, os espanhóis acreditam que o mexicano “não viu Kimi”, enquanto o recém-contratado da McLaren é criticado por Galvão. “É muito fácil um piloto fazer bonito em equipe média.”
O narrador vê Button “caminhando para a vitória” se fizer duas paradas, enquanto seu colega britânico, Edwards, alerta que “a temperatura está caindo e o pneu macio não gosta disso. Quanto mais Vettel esperar para colocar o macio, pode ser pior.”
Sobre a tática dos ponteiros, De la Rossa explica que “os adversários são os carros que Fernando e Hamilton têm de ultrapassar. A vantagem da estratégia de Vettel é evitar o tráfego.” Por isso, os espanhóis veem cada ultrapassagem de Alonso como uma luta dura e destacam a rapidez com que o piloto se livra do tráfego. “É algo que poderia lhe fazer perder a corrida”, aponta o comentarista. “Alonso está usando estrategicamente as ferramentas que tem à disposição. Está passando os rivais antes de ativar a asa, mas depois de passar atrás na área de detecção, para melhorar seu tempo de volta”, observa Coulthard.
De la Rosa explica a vantagem que o espanhol abre na prova. “A estratégia é boa, mas é o piloto que a faz funcionar. Quando teve tráfego, se livrou rapidamente. Veja o Felipe, que ficou travado logo depois da primeira parada.”
Falando no brasileiro, Edwards acredita que “é impressionante que a McLaren esteja conseguindo superar a Ferrari de Massa, que foi tão bem na sexta.” A apatia do brasileiro também não passa despercebida por Lobato, principalmente quando é ultrapassado por Vettel. “Ele poderia ter dificultado um pouco mais. Parecia um Toro Rosso.”
Na Globo, Galvão se divide entre colocar a culpa pela performance ruim de Massa frente a Alonso na equipe ou no piloto. “O Massa está perdendo tempo com essa estratégia. Não entendo a tática. Mas são duas coisas: o cálculo para não voltar no tráfego e a decisão. O Alonso chega e passa.”
A expectativa de que Vettel faça só duas paradas continua na Globo até que Galvão coloca os pingos nos is. “A diferença é que Vettel vai fazer o último stint com pneu macio e Alonso vai alongar com os médios.” Logo, porém, fica claro que a tática não será suficiente para o alemão lutar com o espanhol. “Um show de pilotagem de um cidadão chamado Fernando Alonso, que tira o máximo do carro o tempo todo”, elogia o narrador.
A expectativa para o que Vettel pode fazer nas poucas – e rápidas – voltas que
fará com os pneus macios faz até os espanhóis esquecerem do líder Alonso. “Ouvindo o rádio de Vettel, dá para perceber que precisam lhe dar muita informação. Ele fica perguntando constantemente se deve lutar e coisas do tipo. É típico de quem se acostumou a gerir as corridas da ponta, vivendo numa ilha”, observa De la Rosa, que não sabe se o alemão terá tempo de chegar em Hamilton e Raikkonen. Coulthard, por sua vez, calcula o tempo todo que será apertado, mas a Mercedes terminará à frente, como de fato acontece.
Os brasileiros acreditam que Vettel só não foi ao pódio por um erro na última volta. “Ele foi afoito”, diz Burti. “Ele também é humano”, brinca Galvão. Errou, para Edwards, “talvez porque os pneus já tinham menos aderência do que ele esperava.” Porém, para De la Rosa, “a Red Bull demorou uma ou duas voltas para parar com Vettel. Ele teria a chance de ter um resultado melhor.”
Todos mencionam ainda a grande performance de Raikkonen, segundo mesmo com o bico danificado por grande parte da prova. “Ele e Alonso mostraram que estão na briga”, define Galvão. “Acredito que ele seria um rival mais duro do que foi hoje”, aponta De la Rosa.
Lobato destaca o fato dos cinco campeões do mundo estarem nas cinco primeiras posições. “E Kimi foi o rival mais próximo mesmo com tudo o que aconteceu com ele.” Para Edwards, além do resultado final, com pilotos de equipes diferentes entre os cinco primeiros “ser bom para o esporte”, mostra ainda que “a Ferrari está definitivamente na luta pelo campeonato.”
Na Globo, Reginaldo Leme prefere creditar a vitória “ao piloto Alonso”, e Galvão diz que Massa, sexto, “está fazendo o que a Ferrari, que não é campeã de construtores desde 2008, quer dele.”
GP da Malásia por espanhóis, britânicos e brasileiros: “Até carros diferentes se tratam com mais carinho!”
Sebastian Vettel larga na frente, mas ninguém colocaria dinheiro nele para ser o primeiro a cruzar a linha de chegada no GP da Malásia. “Pode ser um dia para as Ferrari, pois a Red Bull está sofrendo muito com os pneus. Muitos dizem que eles terão de parar quatro vezes”, lembra o narrador da Sky Sports britânica, David Croft. “A posição do Felipe Massa é favorável porque a Ferrari é boa de largada e, largando por fora, ele pode fazer a curva dois por dentro”, prevê Luciano Burti na Globo.
Na largada, quem acaba executando o plano do piloto da Stock Car é Fernando Alonso. Porém, mesmo com o aviso do narrador espanhol Antonio Lobato – “cuidado com toques, a curva é longa!” – tudo vai por água abaixo quando o espanhol encosta na traseira de Vettel e deixa sua asa torta. “A asa está muito quebrada e daqui a pouco vai começar a soltar peças, mas ele não deve estar percebendo porque não dá para ver e ele está conseguindo brigar com Webber. Vão acabar dando bandeira preta e laranja para ele se continuar assim, ele precisa parar”, acredita Martin Brundle, na Sky.
Lobato se desespera. “Não vai ter jeito, vai ter de entrar. Como isso começou mal”, mas o comentarista Jacobo Vega questiona: “E aguentar? Ele não está tão lento”. Pedro de la Rosa observa a preferência da equipe por perder o mínimo possível e aproveitar para colocar slicks. “O que ele pode fazer é tentar aguentar por uma volta e depois entrar se acharem que vai perder menos assim. Não está tudo perdido.”
Lobato se impressiona com a performance de Alonso, ultrapassando Webber mesmo com a asa quebrada e De la Rosa considera, ao mesmo tempo, um ato “grande e arriscado” quando vê o compatriota seguindo na pista. Instantes depois, a asa se quebra e para embaixo da Ferrari, fazendo o espanhol perder o controle e acabar sua prova na brita. Na Antena 3, se apressam a culpar Webber, vendo uma mudança de trajetória e um toque. Depois veem que a Red Bull passou longe da asa. “Dissemos que era um risco, que desastre”, lamenta Lobato.
“A pressão aerodinâmica era muito alta na reta e a asa acabou quebrando. Preferiram não parar para aproveitar para colocar slicks”, explica Burti. “Era um risco muito grande. Com Alonso fora, fica uma ótima oportunidade para a Ferrari trabalhar por Massa”, aponta Reginaldo Leme. “Fico surpreso que a equipe não tenha mandado ele entrar”, diz Brundle. “É o número 3 das coisas mais assustadoras que podem acontecer. Primeiro é o acelerador travar, segundo é o freio falhar e terceiro é a asa dianteira ir para baixo do carro. Era muito fácil disso acontecer. Ele, dentro do carro, não conseguia ver com certeza. E, como sempre, Alonso compensando a perda de pressão e nunca desistindo.”
Os espanhóis não param de lamentar. “Na grande maioria das vezes, com um toque desses, não acontece nada. Foi muito azar”, diz De la Rosa. “Vettel na frente, sem inimigos”, observa Lobato.
No que seria uma tarde inspirada, o repórter inglês Ted Kravitz informa que “a equipe estava pronta com a asa nova, mas sem pneus”, e completa: “Apostar assim e perder não é algo que se espera de Alonso e da Ferrari, ele é sempre o primeiro a dizer que a corrida é longa.”
Poucas voltas depois, outra decisão incomum deixou uma pulga atrás da orelha dos comentaristas: mesmo líder, Vettel arrisca e é o primeiro a colocar slicks. “Ele tem que esperar outro valente trocar, já que é primeiro. Geralmente, o valente é Button”, aposta De la Rosa segundos antes que o alemão entre. Depois, o espanhol critica a decisão. “É arriscado. Ele tinha que esperar os tempos de volta chegarem a 1min52 e estão em 1min56. Button não entrou”, ri.
Os comentaristas, porém, estranham que Webber não entre logo em seguida do companheiro, que é lento em determinados trechos e rápido em outros. “Seb está superando todo mundo no final da volta. Pode ser que não dê certo”, observa Brundle. De la Rosa concorda com o inglês e também quer que o australiano pare logo. Lobato questiona, rindo. “Mas Button não entrou” e o comentarista gagueja. E o narrador aproveita para dar uma secada. “Nessa de ganhar no seco, perder no molhado, quem sabe não há um toque?”
As divagações param quando Lewis Hamilton erra o box e vai para a ex-equipe, a McLaren. É curioso que todos demoram alguns segundos para perceber o que há de errado, como se cometessem o mesmo ato falho do inglês. “Rapaz, ele parou na McLaren...”, se surpreende Luis Roberto depois de ser avisado por Burti. “Lewis teve uma falha de memória e entrou no box errado. Os mecânicos acenaram, falaram que ainda gostam dele, mas para ele sair logo porque estavam esperando o Jenson”, Kravitz tenta fazer piada. “Não posso acreditar! Que imagem! Ele foi para a McLaren!!”, Lobato não para de rir. “Há dois anos Jenson parou na Red Bull e os mecânicos brincaram depois fazendo uns óculos enormes para ele”, revela De la Rosa. Depois, os ingleses calculam que a perda de 6s de Hamilton com o engano o colocaria na liderança naquele momento.
Os espanhóis seguem estranhando a demora de Webber de entrar nos boxes. “A Red Bull vai atrapalhar o Webber?”, pergunta Vega. “Não vou falar nada sobre a Red Bull porque vão falar mal de mim. Podem apostar aí e pensem o que quiserem”, diz Lobato, em tom de deboche. O australiano volta na frente de Vettel, mas com pneus duros, o que vira motivo de estranheza. “Webber deve ter escolhido o prime porque é mais duro com os pneus, já que, pelo asfalto estar mais frio pela chuva, o médio seria melhor. Eles estão prevendo parar três vezes para colocar pneus de seco”, informa Kravitz. Na Antena 3, Lobato pergunta “qual a diferença de duração dos pneus?” e ouve de De la Rosa que é “muito pouca ou nenhuma, nem os especialistas da Pirelli sabem”. Sem saber dessa previsão, Burti acredita que “com esse pneu, se ele fizer pouco mais de 20 voltas poderá fazer duas paradas.”
Um tanto sem assunto com a ausência de Alonso, os espanhóis repetem a todo momento que Raikkonen é o líder do campeonato e está bem atrás. Enquanto Reginaldo não acredita que Vettel vai aceitar bem o fato de ter se dado mal no primeiro pit stop. “Se eu o conheço, vai dar problema. Mas se foi uma tentativa, deram toda a prioridade a ele e não deu certo.”
Contrariando as expectativas, é Webber, com pneus duros, que faz a segunda parada antes de Vettel. “Acho que aconteceu algum problema porque ele tinha um ritmo bom”, diz Burti. Para De la Rosa, é o alemão que está mudando as regras do jogo. “Vettel arriscou muito alargando tanto essa segunda parada. Ele está cozinhando a vitória em banho-maria. Ele está preparando para o último pit stop”. Brundle vê outra realidade: “É normal ouvir que a Red Bull favorece o Vettel, mas nesse caso a decisão deles foi muito boa para Webber.”
Após a segunda parada, Webber coloca pneus médios, e Vettel, duros. Nas primeiras voltas após o pit, o australiano diminui o ritmo e o alemão começa a ser pressionado pelas Mercedes. “Webber está recebendo a instrução para cuidar dos pneus e ouvindo que Vettel faz o mesmo”, destaca Kravitz. “É o jeito da equipe dizer que ele não será incomodado. Mas as Mercedes estão chegando, então até quando isso vai continuar?”
Para Croft, “parece que Webber errou ao trocar o composto do pneu do duro pelo médio”, pois o ritmo é bem inferior. De la Rosa concorda. “Não entendo por que colocou o pneu médio já que fez um bom stint com o duro. Então mantenha! É um carro com problema de degradação e, ainda que duros e médios durem mais ou menos o mesmo, um degrada mais que outro.”
Brundle suspira quando ouve Vettel pedir para a equipe tirar “Webber do caminho, pois ele está muito lento”. Enquanto ensaia um comentário a favor do alemão, o australiano supera o companheiro em seis décimos. “Ele não me parece lento”, revê o comentarista. Para Croft, “são as frustrações aparecendo em um homem que largou na pole e que está tendo um trabalho muito mais duro que esperava”. E Brundle brinca “Posso imaginar Mark colocando esse rádio como toque de telefone por semanas”. Reginaldo vendo “uma pressão de Vettel”, que “até está merecendo [que a equipe interfira] porque está bem mais rápido.”
“Vamos ver como eles lidam com isso”, diz Lobato, quase festejando após a mensagem via rádio. “Como disse Jacobo antes... a Red Bull já está cozinhando essa corrida. A coisa não parece boa para Webber.”
Burti tem dúvidas sobre qual a estratégia. Ora acha que Vettel colocou os duros para tentar ir até o final, ora acredita que é a Mercedes que está diminuindo o ritmo para dar “o pulo do gato”. O brasileiro não é o único perdido. “Parece um jogo de xadrez em alta velocidade”, define Croft. Mas ingleses e espanhóis só têm uma certeza: “ainda bem que a Mercedes está aí, senão a Red Bull estaria só administrando”, diz Brundle, mesma linha seguida por De la Rosa. Enquanto isso, Lobato dá as coordenadas para os torcedores. “Como Alonso está fora, temos de pensar como repartir os pontos. O que não pode é Vettel vencer. Webber, Hamilton, Rosberg, tanto faz.”
A expectativa espanhola aumenta ainda mais quando a Mercedes antecipa a
parada de Hamilton, que volta à frente de Vettel. “Boa jogada da Mercedes. Vettel não queria parar na volta 32, mas teve de cobrir Hamilton”, acredita De la Rosa. Reginaldo não entende o undercut e se surpreende “porque Hamilton só deu nove voltas com esse pneu.”
Os ingleses não se animam muito com o compatriota na frente, porque “ele recebeu a mensagem para ‘lift and coast’, o que geralmente tem a ver com economia de combustível”, como observa Kravitz. Logo, Vettel o ultrapassa. “Todos com Webber agora. Já hasteei a bandeira aqui. Vale tudo porque essa não é a situação predileta deles”, avisa Lobato.
Jogos de equipe
Após a quarta parada dos líderes, Vettel vai para cima. E a equipe pede para o alemão ser cuidadoso. “Eles deveriam estar pedindo para Vettel ter cuidado? Ele é um piloto e sabe o que fazer”, defende Croft. “Eles parecem sentir a necessidade de cuidar dele, cuidar do humor dele”, observa Brundle. Para Reginaldo, “todo aviso aos pilotos da Red Bull vale porque há três anos eles bateram de maneira feia mais por culpa de Vettel.” Lobato vai à loucura. “Aguenta, Mark, como puder! Lembrem que eles já bateram em 2010!”
De la Rosa adota outro tom. “Que bonito que eles possam competir. Houve momentos em que isso não ocorreu”, diz o comentarista, mas o narrador avisa: “Calma que ainda não terminou.” Enquanto isso, Brundle se surpreende com a mensagem de Horner para Vettel de que “isso é bobo”. “As mensagens demoram 15 a 20s para aparecer no ar e Horner devia estar se referindo ao medo por um incidente. É o preço que se paga por ter dois grandes pilotos: você tem de encontrar um jeito de administrá-los.”
Croft não sabe que lado escolher. “Por um lado, Vettel havia pedido para a equipe tirar Mark do caminho, por outro, Webber não conseguiu abrir uma grande vantagem e Seb resolveu fazer justiça com as próprias mãos.” No Brasil, Luis Roberto destaca o “momento sensacional que pilotos e equipe proporcionam.”
Após a ultrapassagem, as reações são distintas. Brundle parece se divertir. “Pode ser o fim de uma bela relação que nunca se materializou.” Lobato acha que foi fácil demais e De la Rosa também estranha a manobra. “Aconteceu alguma coisa com ele. Está acontecendo algo, dá para ver ele fazendo gestos. Quero ver a repetição.”
Ainda sentindo que há algo estranho, o comentarista novamente parabeniza “a equipe Red Bull por tratar a briga como se fosse entre carros diferentes, assumindo muito risco”, enquanto Lobato ironiza. “Acho que até carros diferentes se tratam com mais carinho!” “Acho que até carros diferentes se tratam com mais carinho!” Depois de avisados pelos produtores, os espanhóis chamam a atenção para a conversação suspeita no rádio. “Atenção às conversas de rádio da Red Bull. Preparem-se porque muito pode acontecer até o GP da China.”
Mais uma vez, Kravitz acerta. “Estou imaginando o porquê da mensagem para Seb, como se ele fosse o vilão. Será que eles não tinham um acordo prévio para evitar que eles ficassem lutando e acabassem com os pneus?”
As atenções logo se voltam à Mercedes, com uma ordem de equipe clara de Ross Brawn. “Oh, dear”, suspira novamente Brundle quando ouve o “negative” do dirigente ao pedido de Rosberg para passar Hamilton. “Imagino que eles tenham dito a Lewis para diminuir o ritmo e queiram deixar assim porque sabem que não dá para chegar nas Red Bull.” Kravitz questiona. “Mas imagina o lado psicológico do Nico”, e Croft opina: “Entendo, mas se um piloto está com dificuldades de combustível por um erro de cálculo da equipe, não seria um erro tirar um pódio dele?” Brundle pensa melhor e tem outra visão. “Acho que é bem mais simples que isso. Eles forçaram muito para tirar Lewis da McLaren. Me surpreenderia se ele não tivesse assinado um contrato com prioridades, porque tinha todas as ferramentas para isso.”
De la Rosa está no lado de Brawn. “Eles têm Grosjean muito longe e a Red Bull também. Não têm nada a ganhar, então faz sentido”. Na Globo, a ordem mostraria um posicionamento claro da equipe. “Verdade seja dita, para a Mercedes é muito mais negócio o Hamilton ficar na frente pensando no campeonato.” O comentarista é apoiado por Reginaldo. “Concordo porque o Hamilton é muito mais piloto.”
Na transmissão brasileira, constantemente o espectador é lembrado que, com o abandono de Alonso, Massa supera o companheiro no mundial de pilotos, enquanto, na Espanha, a cada ultrapassagem do brasileiro, Lobato diz que tem “raiva de ver isso, pensando no que Fernando poderia estar fazendo.”
A corrida acaba, Vettel vence, mas ninguém entende direito por que o clima não é de vitória. “Fizeram dobradinha e estão com cara de quem abandonou com os dois carros. Deve ter acontecido algo mais além do que ouvimos”, diz Lobato. “Há muito a ser explicado aqui na Malásia. Vettel venceu, mas foi pedido a ele que mantivesse posições? Webber repetia a ele antes do pódio ‘multi 21’, que é o código da equipe para isso”, salienta Croft. Com mais de 1h10 de programação pós prova, os britânicos conseguem desvendar a questão, assim como os espanhóis, que também continuam no ar.
Na Globo, Burti destaca que “a Red Bull, em uma semana, aprendeu a lição e mostraram que o ritmo de corrida é muito bom”. Sobre a animosidade entre os companheiros, Reginaldo vê “coisa de corrida. Webber jogou duro, mas com companheiro de equipe às vezes clima fica pesado”. E Luis Roberto fica sem entender nada: “Só porque é companheiro de equipe não pode passar?”
GP da Austrália por brasileiros, espanhóis e norte-americanos: “Esses pneus deveriam estar acabados!”
Ano novo, emissora nova. O primeiro texto da quarta temporada do post das transmissões tem uma substituição momentânea: aproveitando a estreia da F-1 na NBC, resolvi assistir aos norte-americanos neste GP da Austrália. Norte-americanos em termos, é verdade, pois o narrador Leigh Diffey é australiano, os comentaristas David Hobbs e Steve Matchett e o repórter Will Buxton são ingleses, um time que já atuou junto nos anos de Speed Channel. Mas vou chamá-los de norte-americanos para facilitar!
Hobbs espera problemas na primeira curva e até sabe onde olhar. “Massa e Hamilton lado a lado na primeira curva na Austrália não é uma boa combinação.” O brasileiro também ganha amplo destaque na Globo, principalmente por ter se classificado à frente de Alonso. “Vamos ver até quando continua essa história do Alonso ser boa gente se o Felipe continuar andando mais que ele”, diz Galvão Bueno. Já Antonio Lobato, na Antena 3, da Espanha, espera ver “o que Massa vai inventar.”
Os pilotos passam sem grandes incidentes pela primeira curva e as Ferrari pulam para segundo e terceiro. “Bonita a largada do Felipe! Os dois pilotos da Ferrari largaram bem e já vai vir pressão porque o Alonso é muito agressivo.” Os norte-americanos destacam Webber, que “nunca consegue uma largada decente”, Raikkonen, que também ganha menção de Reginaldo Leme na Globo, e Vettel, “que mais uma vez escapa na frente, numa cena familiar.”
O ritmo do alemão deixa os espanhóis inquietos. “Agora Fernando vai para cima de Massa. Muito agressivo nestes primeiros metros. As Ferrari têm de entrar no ritmo porque não interessa que Vettel se vá. Ele quer se livrar rapidamente porque vê que Massa é mais lento”, crê Lobato. O narrador e Jacobo Vega fazem planos sobre como Alonso vai passar Massa na primeira zona de DRS para ter direito ao apetrecho na segunda e se aproximar de Vettel: “Calma, primeiro Massa”, avisa Pedro De la Rosa.
Hobbs aposta mais em Raikkonen. “Se ele passar Hamilton, vai dar trabalho.” Leigh Diffey concorda: “É seu segundo ano, agora não tem nada mais a se acostumar e vai para cima.” Will Buxton acredita que o início lento do inglês tem a ver com o terceiro lugar no grid. “Sabemos que Hamilton sabe extrair muito dos pneus, mas talvez tenha tirado demais na classificação para ficar em terceiro e está pagando agora.” Enquanto isso, Steve Matchett acredita que quem está exagerando no ritmo nas voltas iniciais da corrida é Massa.
Button surpreende parando com a McLaren na quarta volta. Ao ver o estado de seus pneus, os norte-americanos se impressionam e duvidam que seja possível fazer apenas três paradas. De la Rosa discorda. “A janela da primeira troca se abre na volta 5, mas vão tentar ficar na pista para evitar o tráfego. Por isso Vettel segue mesmo estando lento. É uma corrida típica de três paradas, com supermacio, médio, médio, médio.”
Galvão faz seu ataque costumeiro à “escolha prematura da McLaren com Perez, porque é fácil impressionar com time pequeno”, e destaca o ritmo de Vettel, que “não é o esperado e está segurando as Ferrari”, enquanto os espanhóis celebram que o alemão esteja “nas cordas, como não estamos acostumados a vê-lo”, mas estão mais preocupados com Raikkonen. E os norte-americanos chamam a atenção para a performance de Sutil. “Essa Force India parece conservar melhor os pneus do que ninguém”, diz Hobbs. “É uma performance incrível para Sutil. Entrando nos ‘se’, caso comece a chover e os pilotos tiverem de colocar os intermediários, o regulamento o livraria de colocar os supermacios e isso poderia funcionar muito bem”, completa Matchett.
Como Sutil segue na pista e prende Vettel, Massa e Alonso, que já haviam feito sua primeira troca, De la Rosa começa a analisar as saídas. “O normal é que, quem está primeiro, tome a decisão [referindo-se a Massa e Alonso]. Porém, também é certo que parar mais tarde pode não ser rentável agora, mas pode fazer a diferença no final da corrida, em que você terá pneus mais frescos. O tráfego e as decisões diferentes que ele pode trazer que vão decidir essa prova, porque as diferenças são mínimas.”
Os norte-americanos não acreditam que esse é o ritmo real de Vettel. Ora creem que o alemão está preservando os pneus, ora veem uma reação à informação que recebeu via rádio de que a equipe perdeu a telemetria de seu carro. Para os espanhóis, o tricampeão não passa Sutil por falta de velocidade de reta. “Os long runs do Sutil foram os melhores dos treinos livres, não é uma surpresa. Vai fazer duas paradas”, lembra De la Rosa. “É preciso lembrar que as Mercedes vão fazer uma parada a menos e estão na briga. Por isso é tão ruim esse trem com o Sutil.”
Alonso decide se desgarrar do grupo e para com apenas 11 voltas no pneu médio, surpreendendo a todos. Os norte-americanos não entendem a tática de cara a creem que “esses pneus não estão aguentando mesmo”, duvidando, até, que o espanhol consiga se manter na estratégia de três paradas. Para Galvão, o ferrarista parou porque “não tem velocidade para passar Felipe e tentou um plano B.”
Todos só percebem a aposta por antecipar a parada para sair do ‘trenzinho’ quando Vettel e Sutil respondem e voltam atrás do espanhol, para a irritação de Reginaldo. “Aí não dá, né? Já foi feita a inversão de posição com o Alonso”, referindo-se a Massa, que segue na pista.
O brasileiro pergunta ao engenheiro Rob Smedley o que fazer. “Essa mensagem mostra bem a relação de Massa e Smedley: ele só pergunta ‘o que a gente faz?’”, aponta Matchett. “Ele espera que o engenheiro lhe indique o que fazer”, critica Hobbs. E vão ao comercial – um dos oito durante a prova – antes da parada do brasileiro.
Enquanto isso, na Antena 3: “Vamos aos primeiros comerciais, antes de Sutil. É que já ficamos sem pneu”, diz Lobato. Eram as últimas curvas da volta 19, logo antes de Alonso fazer o pit stop que mudaria sua prova. Quando a transmissão volta, o narrador tenta inteirar o público. “Vamos ver como explicar isso: Massa está liderando, Alonso saiu da estratégia prevista, deixando de seguir Massa, Vettel e Sutil. Na volta seguinte, Vettel e Sutil responderam e Fernando ultrapassou Vettel no box e Sutil na pista, em uma manobra incrível. Agora Fernando está muito bem posicionado e Massa está perguntando o que está fazendo na pista, porque está rodando muito mais lento.”
Os brasileiros não param de reclamar. “A Ferrari sabe que sacrificou o Massa. Felipe continua sendo mais rápido que Alonso, mas deram um jeito dele ficar para trás. Vai ter de remar tudo de novo. Ficou feio para a Ferrari”, vê Galvão.
Vega também acredita que “Massa deve estar irritado”, mas De la Rosa explica. “Quem arriscou foi Fernando. No final, terá um pneu mais velho e pode acabar sofrendo. A questão de Massa era decidir se mantinha a estratégia original.”
Sem atentar-se aos pilotos que tentavam fazer duas paradas, Galvão acredita que “a corrida vai caindo no colo do Alonso”, já que Vettel não tem ritmo. Porém, na Espanha, não cantam vitória. “Estou começando a ficar preocupado com Raikkonen, porque o ritmo segue bom e pode ser que só tenha de parar uma vez”, diz Lobato na volta 27. As Mercedes e até Sutil também preocupam. Ou preocupavam, até a quebra de Rosberg e o fim prematuro do segundo jogo de Hamilton, que para a 27 voltas para o final. “Duvido que ele vá até o fim”, sentencia De la Rosa, enquanto Vega se irrita com a defesa do inglês quando lutava com Alonso, que vinha bem mais rápido. “Foi absurdo defender tanto porque ele perdeu muito tempo”, afirma. “Certamente só entrou porque travou o pneu”, completa De la Rosa. Mesmo com a intervenção de Lobato, que lembra Jacobo que “é Fernando e é Lewis. Sabe como é?”, o comentarista não se rende. “Seria mais inteligente o engenheiro falar para deixar passar porque ele ia perder muito tempo.”
Voltas depois, os brasileiros continuam na bronca com a Ferrari. “Não se pode questionar a capacidade do Alonso e pode ter sido um erro do Felipe com o Smedley, mas a estratégia é pensada por alguém acima deles”, explica Galvão.
A corrida já está em sua segunda metade quando Diffey diz sentir-se “um pouco culpado de não termos falado tanto de Kimi Raikkonen.” Ainda assim, se mostram mais empolgados com a corrida de Sutil do que do finlandês. “Se ele tiver de fazer só mais uma parada, os outros também vão parar e ele poderia vencer isso”, diz Buxton. Mas Matchett acredita que “depois de seis voltas, o supermacio vai acabar e ele vai perder terreno.”
Após a segunda parada do alemão, a previsão do comentarista se confirma e começam a focar na luta direta entre Raikkonen e Alonso, mas duvidam que o espanhol chegue. “Há uma faixa muito escura nos pneus esquerdos desse F138, o que é indicativo de muito desgaste”, vê Matchett.
Mesmo com Alonso na liderança, os espanhóis não se animam. “O problema é
que os pneus de Kimi não acabaram no final do último stint. Sabemos que os pneus dele vão durar. Por isso, Alonso está forçando como um animal, mas é difícil”, aponta De la Rosa. Algumas voltas à frente, inclusive contanto com torcida para que Sutil segurasse Kimi, o que não acontece, Lobato se rende. “Fernando não pode com o ritmo de Kimi. Pelo menos temos de ficar felizes pelo resultado e por Vettel estar atrás. Massa que poderia atacar a Red Bull para colocar duas Ferrari no pódio.”
O ritmo, ou a falta dele, na Red Bull também chama a atenção dos norte-americanos. “A Red Bull não está tendo o dia que pensei que teriam”, diz Matchett, impressionado “porque Raikkonen fez a melhor volta com duas para o final, quando os pneus deveriam estar acabados! Alonso parece estar apenas administrando as voltas finais e tenho certeza de que os engenheiros da Lotus gostariam que Kimi estivesse fazendo o mesmo: ‘eu sei que você sabe o que faz, mas tome cuidado por favor!’”
De la Rosa chama a atenção para a diferença que a combinação Lotus/Raikkonen fez na corrida. “Estamos falando de como o carro cuida dos pneus, mas o piloto também está indo muito bem, cuidando dos pneus o tempo todo, não indo muito rápido no início. É o único que largou com supermacio e está conseguindo fazer isso. Só há dois pilotos que estão gerindo bem os pneus: é só olhar o ritmo de Alonso e de Kimi em relação a seus companheiros.” Mas Lobato trata de evitar preocupações dos espanhóis quanto às chances de Alonso frente ao finlandês. “Todos sabíamos que a Lotus seria uma rival importante, mas será muito mais difícil para eles desenvolver o carro para lutar pelo título.”
Os norte-americanos salientam a evolução da Ferrari em um ano, inclusive do próprio Massa. “Ano passado, Massa se classificou em 16º e abandonou, então terminar com um quarto lugar é fantástico. É o que ele precisava”, diz Hobbs, enquanto Diffey lembra que Sutil “teve um momento na vida em que pensou que nunca mais pilotaria um F-1.”
Para Galvão, “ficou claro que a Red Bull não é tudo isso e que Ferrari, Mercedes e Lotus vêm forte”, ainda que Reginaldo volte a lembrar que “aquela atitude da Ferrari prejudicou a luta do Felipe pela vitória e pelo menos o colocou atrás de Vettel.” Galvão concorda e prevê mais problemas no futuro. “O Felipe forte de cabeça vai dar muito trabalho para o Alonso. A Ferrari vai ter de inventar muita coisa.”
Sobre o vencedor, De la Rosa acredita que Kimi ganhou a corrida nas primeiras 15 voltas, “porque ele não se meteu nas batalhas dos outros, até por não precisar já que faria uma parada a menos. Aí pôde cuidar dos pneus e fazer sua corrida.”
GP do Brasil por brasileiros, britânicos e espanhóis: “Drama em Interlagos”
A garoa que começou a cair minutos antes da largada para a decisão do campeonato era o prenúncio de um final histórico para um campeonato igualmente marcante. Prevendo que a água continuaria caindo e até chegando a imaginar um início com Safety Car, o destaque na Globo era para a pimenta que a chuva colocava na prova. “Era tudo o que Alonso queria. Pode ser até melhor para o Alonso do que uma chuva constante. Pode complicar para o Vettel e também para o Hamilton na pole”, prevê Reginaldo Leme.
Mas a água sequer é suficiente para obrigar os pilotos a largar com os pneus intermediários e Gary Anderson, na BBC, acha “que vai continuar seco”, pois não vê “as nuvens piorando”.
Os ex-pilotos e comentaristas David Coulthard e Marc Gené se focam na dificuldade em estar no cockpit em um momento como esse. “Acredito que todos largam com pneus de seco, porque seria arriscar demais e o tempo de parada é curto. O que me preocupa é a avaliação de aderência na primeira curva. Esses pingos tiram a confiança. Não poderia ser uma corrida mais complicada para os postulantes ao título. É muito fácil cometer um erro”, avalia o espanhol. “Os pneus não vão estar tão aquecidos – até porque é um circuito curto, sem muitos lugares para aquecer os pneus – e você chega na curva sem saber qual a aderência. É uma condição em que a pole não é uma posição muito boa. É de se esperar uma primeira volta difícil”, lembra o escocês.
Antes das luzes vermelhas se apagarem, o narrador espanhol Antonio Lobato dá o tom, após narrar um vídeo com homenagem prévia a Alonso, não importando o resultado da prova. “Não sei como estão vocês, mas a tensão é máxima.”
E ela só aumenta na largada. “Vettel lento, olha Massa, já em segundo! Oh, temos uma corrida em nossas mãos”, narra Ben Edwards, na BBC. “Sobrou para Sebastian Vettel! Vamos olhar com cuidado onde foi. Ele vai ser obrigado a fazer uma corrida de recuperação”, diz Galvão Bueno, enquanto o narrador inglês chama a atenção para o “drama no Brasil”, pois “Vettel foi acertado e ainda não sabemos quanto estrago ele teve.”
Os espanhóis, logo nos primeiros metros, destacam que Vettel está “muito cuidadoso” e lembram da largada de Lewis Hamilton justamente na decisão de 2007. Mas, enquanto o inglês apenas escapou na Curva do Sol, o alemão vê o grid inteiro passar raspando em sua Red Bull. “Vettel rodou, está vendo todo mundo ao contrário! Olha que pode ter Safety Car”, avisa Lobato. “Se tiver Safety Car, será muita sorte. O assoalho está danificado, mas não muito”, Gené quase lamenta.
No momento em que Lobato pede calma a Alonso, já que Vettel “deve estar fora da corrida”, o espanhol faz uma ultrapassagem dupla sobre Webber e Massa e o narrador vai à loucura. “Não acredito! Espetacular, Fernando!”
Para britânicos e brasileiros, no entanto, a manobra gera menos comoção. “Que trabalho Massa fez para ajudar Alonso”, destaca Edwards. A preocupação é com a situação do título de Vettel. “Falta muita corrida, mas parece que o futuro do campeonato depende de Webber”, aposta Coulthard. Porém, vendo o replay da largada, Gené observa que “Webber não fez nenhum favor a Vettel” nos primeiros metros e Coulthard define ironicamente a batida de Vettel e Senna. “Senna foi pelo lado de dentro esperando que a Red Bulll desaparecesse, mas isso não aconteceu.”
Ainda que Galvão veja “a famosa sorte de Alonso” nas largadas, Lobato considera “um milagre que Vettel esteja na pista. Senna bateu e arrematou depois”. É a mesma linha de Luciano Burti, para quem “a pancada foi muito forte. Se conseguir ir até o final, vai ser um milagre.”
O comentarista salienta a dificuldade em decidir qual o melhor pneu quando a chuva aperta, mas não o suficiente para tornar simples a escolha pelos intermediários. “Essa é a parte mais decisiva e tensa para pilotos e equipes porque, se apertar um pouco mais, você coloca intermediários ou espera para ver se a chuva para?”
Depois de reconhecer o trabalho de Massa para proteger Alonso “até que o rendimento de seu carro melhore”, Lobato diz que Vettel só decidiu entrar nos pits “para copiar” o espanhol. “Não pode ficar na pista tentando algo diferente.”
Duas voltas depois, contudo, Jenson Button diz pelo rádio que parou de chover. “Eu estou vendo chuva”, retruca Lobato, mas Coulthard lembra que o inglês “é o mestre neste tipo de situação”. Logo depois, Anderson surge do pitlane para opinar que ficar na pista “pode ser a decisão certa.”
Os brasileiros, por sua vez, apostam que a água não vai parar de cair. “A vovó do Rubinho sempre está certa. A chuva nunca vem do aeroporto”, lembra Galvão. “Acho que essa história é mundialmente conhecida porque o Adrian Newey veio me perguntar no grid o que minha vó achava”, completa o próprio Barrichello, em tarde de comentarista da Globo. Seus colegas de cabine, Burti e Reginaldo, não entram em acordo: o primeiro vê tempos melhores de quem está com os slicks, e o segundo acredita que, pelo spray levantado, não dá para seguir sem pneus de chuva.
Gené observa que “a pista muda a cada volta. Mas, se ficar assim, o pneu intermediário vai acabar mais cedo” e os espanhóis começam a se desesperar. “Precisamos que aconteça alguma coisa. Fernando está em quarto, a 17s do terceiro. Assim, não seremos campeões nunca. Mas não se rendam. Tudo ainda é possível.”
Nem mesmo a informação da repórter Nira Juanco de que “estão me dizendo que viram, na Sky, uma ultrapassagem de Vettel em bandeira amarela. Estão analisando lá”, anima o narrador, para quem “não é a Sky que tem de analisar, são os comissários. E não apareceu nada ainda.”
Quando veem Webber abrindo para Vettel, apenas são irônicos. “O que o Webber falou outro dia na coletiva de imprensa”, diz Lobato. A manobra também é notada por Reginaldo. “Isso com todo o discurso do Webber de que não ia abrir para ninguém.”
Logo antes do Safety Car entrar, os espanhóis vão para o comercial. “Fernando estava reclamando via rádio, mas estava claro que havia muitos destroços. Agora, sua diferença com os líderes diminui muito, mas também Vettel fica mais perto da ponta”, resume Lobato.
Quando o espanhol pediu a intervenção, Edwards riu. “Ele não está inventando, podemos ver isso com nossos olhos”, diz Coulthard.
Na Globo, Galvão pedia os conselhos de Barrichello, famoso pelas boas decisões na chuva, sobre o que fazer, pois a pista parecia secar. “Geralmente, é a equipe que te chama para mudar de pneu de chuva para seco. Quando é o contrário, você é quem decide”. Quando ouve as reclamações de Alonso, o narrador pede que “entre alguém para dar um chute naquilo ali”.
O Safety Car ajuda narradores e comentaristas a dar uma respirada depois de tanta ação nas primeiras voltas. Dá até para analisar o estrago no carro de Vettel. “Seria um problema se tivesse pegado no radiador, mas está bem longe. Deve ter uma perda de performance, mas em torno de um ou dois décimos”, acredita Anderson.
Já Gené chama a atenção ao fato de que “Não ouvimos a Ferrari tranquilizando Fernando pelo rádio, ao contrário do que está acontecendo com Vettel. Ele que avisa a equipe para que estejam preparados. A maturidade está fazendo diferença. Vettel se recuperou muito bem, mas na largada deu para perceber que não estava acostumado a essa posição, como Fernando está” e Lobato destaca a corrida de Hulkenberg ainda que “a ponta não interesse”.
Na relargada, quem rouba a cena é Kobayashi, com quem, para Coulthard, Vettel precisa ter cuidado porque ele está lutando por sua carreira”. Reginaldo também cita o fato de que o japonês pode ficar fora do grid mesmo com boas atuações. “Também, chegam com caminhão de dinheiro que até o Rubinho tá apontando aqui que não tem lugar para ele”, explica Galvão.
Burti acha que a Ferrari vai ter de trocar o pneu de novo por estar com médios. “Eles deveriam estar andando mais rápido agora, mas não estão”. Essa também é a preocupação de Gené, que não sabe dizer se quem está com os duros parará de novo. Para os britânicos, a grande questão é a chuva. “O irmão do Massa estava esperando algum sol, veio de bermuda. Nem os locais conseguem entender esse clima”, brinca Coulthard. Quando Edwards vê Hulkenberg escapando e perdendo a liderança para Hamilton, conclui que os pilotos “precisam colocar um jogo de pneus novos agora, mas se pararem, a chuva pode vir e eles terão de parar de novo!”
Assim, os britânicos se surpreendem quando Vettel coloca pneus de seco. “É uma decisão corajosa da Red Bull. Eu só seguiria o que Alonso fizesse. Pelo lado da Ferrari, eles teriam de tentar algo diferente, mas não sei o que.”
Galvão acredita que colocar pneus de seco é o menos arriscado, mas Burti discorda e segue na linha de Coulthard. “Eu acho que ele até está arriscando porque se chove mais vai ter de voltar. Esperaria até ver a decisão que o Alonso toma.”
Os espanhóis também acreditam que vai ficar seco, mesmo que estejam rezando para que chova. E muito. “O positivo é que Alonso está mais rápido que Vettel, mas o negativo é que os ponteiros estão escapando. Na posição em que ele está agora, Fernando precisaria ganhar a corrida. Quem não estava convidado é Hulkenberg, que está atrapalhando Fernando”, resume Gené. “Hulkenberg está fazendo a corrida de sua vida. Precisamos de alguma outra coisa. Onde está a chuva que prometeram?”, Lobato se desespera. “Vamos ao comercial e espero que, quando voltarmos, a chuva esteja caindo sobre nós. Essa meteorologia diz que está chovendo quando caem quatro gotas. Precisamos de muito mais do que quatro gotas.”
O narrador chega a comemorar timidamente os problemas de rádio de Vettel, “mas precisaríamos que ele tivesse problemas maiores”. Quando Rosberg é o primeiro a parar para colocar pneus intermediários, Lobato chama a estratégia de “suicida”.
As elucubrações são interrompidas pela excursão de Kimi Raikkonen no traçado antigo de Interlagos. “Para onde Kimi está indo? Deve ser para algum outro lugar em SP. Que passeio!”, ri Edwards. “Dá para ver que ele veio do rali”, observa Coulthard quando vê o finlandês voltando pela grama. “Raikkonen está perdido! Deve ter pensado ‘não conheço essa curva, onde será que eu estou?’”, brinca Lobato, enquanto Barrichello destaca o cavalinho de pau “heroico” do piloto da Lotus.
Momentos depois, em disputa pela liderança, Hulkenberg espalha e tira Hamilton da corrida – ou, para Lobato e Galvão, tira ambos. “Ele estava do lado molhado, foi pelo lado de dentro porque tinha esse direito, mas perdeu o carro”, Coulthard isenta o alemão de culpa, assim como Barrichello.
Após a terceira parada de Vettel, o comentarista espanhol Jacobo Vega começou uma campanha para que Alonso aguentasse na pista para “ficar com estratégia contrária à do rival”. Porém, quando vê o espanhol quase perdendo o carro, muda de ideia. “Por Deus, por Deus! Estamos no limite da aderência!”, berra Lobato.
O piloto troca os pneus e volta atrás de Massa, mas, para Lobato, “isso não é um problema. Assim como Webber não seria um problema para Vettel.”
Os brasileiros se alarmam quando Vettel volta para os boxes para colocar intermediários. “Bateu o desespero na Red Bull”, aponta Galvão. “O erro estratégico que custou o campeonato de Alonso em 2010 pode ter acontecido com o Vettel”, completa Reginaldo.
Galvão decreta: “Acabou a calma do Vettel”. E os brasileiros fazem as contas do que Vettel precisa para ser campeão. “São dois alemães à frente, se houvesse patriotismo...”, diz Reginaldo. Já Burti lembra que, se for necessário, Webber encosta. “Não é só na Ferrari que tem jogo de equipe”. Enquanto isso, os britânicos por várias vezes lembram que o carro de Vettel tem danos, mas que não sabem a extensão deles.
Porém, nenhuma tentativa de colocar emoção nas voltas finais vinga e Vettel se sagra tricampeão por três pontos. “Alonso mais uma vez pilotou muito bem e quase fez o que precisava fazer. Vettel também foi muito bem. Esses caras estão sob uma pressão tão grande! Mesmo sendo um pouco atrapalhado hoje, Vettel conseguiu se recuperar bem. Seja quem ganhasse o campeonato nesta tarde, merecia. Alonso pilotou muito bem, Hamilton merecia muito mais, Button mais uma vez mostrou que é sensacional nestas condições... muita coisa aconteceu neste ano”, resumiu Coulthard.
Galvão Bueno não esqueceu do vencedor Button. “Anote o nome dele para o ano que vem. Não tem Hamilton e eles vão trabalhar só para ele e a equipe vem em grande fase”. Sobre o título, frisou que “Alonso é grande guerreiro. Lutou o ano inteiro com o carro e chegou em segundo em circunstâncias terríveis hoje”. Mas o grande destaque foi para Massa, que “mostrou sua recuperação na segunda parte do ano, se preparando para ano que vem” e chorou no pódio “mais do que quando acordou no hospital. Não é de chorar. Para ele chorar assim, mostra a importância desse momento de recuperação.”
Assim como os brasileiros, Lobato também valorizou seu compatriota. “Mesmo que não seja campeão, Fernando tem de ter certeza de que estamos todos orgulhosos do que ele fez. Essas são corridas de carros, e isso dilui um pouco o talento. Muito obrigado por tudo, Fernando. Não podemos esquecer que foi um milagre chegar aqui e que estamos todos agradecidos por Fernando nunca ter se rendido até a última corrida. Não fique tão sério, porque quando o carro melhorar, você vai passar por cima deles. Chegará esse momento. Ele lutou com armas menos potentes do que seus rivais, mas os colocou nas cordas até o final.”
E, se Interlagos “resumiu o ano com seus dramas”, como explicou Edwards, “Vettel sobreviveu a tudo nesta tarde para ser tricampeão. Alonso não poderia fazer muito mais”. Um belo desenho de uma final que nenhum roteirista poderia reproduzir.
GP de Abu Dhabi por brasileiros, espanhóis e britânicos: “I know what I’m doing”
O GP de Abu Dhabi começou com uma dúvida: até onde Sebastian Vettel conseguiria escalar largando dos boxes? Por um lado, tinha em mãos um carro preparado para ultrapassar. Por outro, estava em uma pista famosa no passado por não dar muitas chances de recuperação. “Sem dúvida Vettel vai fazer uma corrida espetacular, mas não é uma pista normal”, lembrava Reginaldo Leme, na Globo. “Vai demorar para ele chegar. Alonso apostava no título confiando em sua famosa sorte. Acho que se livra de Button na primeira curva.” O comentarista Luciano Burti acredita que “Vettel marcará pontos e, com as modificações que fizeram em seus carros, bons pontos.”
Na Sky, Martin Brundle vê uma grande chance de Vettel provar que aqueles que duvidam de seu talento estão errados. “As pessoas pedem que não analisemos o piloto quando é a equipe que tem culpa, mas não dá para separá-los. Essa pode ser a corrida que vai fazer a fama de Sebastian, é uma grande oportunidade. Acho que ele vai passar os carros mais lentos rapidamente e imagino que os pilotos da Toro Rosso foram avisados para não o atrapalharem.”
O cobertor de aquecimento de pneus preso no carro de Pedro de la Rosa antes da volta de apresentação é um mau presságio para os espanhóis. “Má sorte para Pedro e também para Fernando, porque é um obstáculo a menos para Vettel”, lamenta o narrador Antonio Lobato.
O comentarista Marc Gené segue na mesma linha quando vê vários pilotos ficando pelo caminho na primeira volta. “Todos estes são rivais que Vettel não vai ter que passar. Mas que primeira volta espetacular de Fernando! Agora os dois que estão à frente dele são os mais difíceis de passar: Maldonado pela velocidade de reta e Raikkonen porque vai dificultar.”
O desempenho do espanhol é destacado por todos. “Alonso eletrizante na primeira volta, mostrando grande velocidade de reta da Ferrari”, lembra o narrador britânico David Croft. Depois de ter de engolir seco a afirmação anterior de que “Raikkonen não é tudo isso de largada” e ver o finlandês ganhar duas posições na primeira curva, Galvão Bueno diz que Webber “além de não ajudar na largada, ainda permitiu que Alonso passasse” e não perdoa o “rei da lambança da primeira volta”, Romain Grosjean, envolvido em toque com Nico Rosberg. “Não sei até quando a Lotus Renault vai ter paciência, mesmo ele sendo francês. Francês que nasceu na Suíça, mas com licença para correr da França.” A equipe de Enstone pode não ser mais gerida pelos franceses há dois anos, mas o repórter da Sky Ted Kravitz garante que “há caras fechadas na Lotus depois que Grosjean não deixou espaço para outro piloto na primeira volta novamente”. Grosjean, contudo, não teve culpa para Lobato. “Fazia tempo que não víamos uma confusão dele. Dessa vez estava na frente.”
Logo em suas primeiras voltas de recuperação, Vettel se toca com Bruno Senna e perde parte da asa dianteira. “O piloto até desacostuma largar atrás, é difícil andar no meio do pelotão”, justifica Galvão. “Bruno não tem culpa nenhuma”, completa Burti, que ganha o apoio de Brundle: “Seb mereceu essa” porque forçou demais. Mas Lobato não concorda. “Você está tentando se recuperar e vem Bruno Senna e lhe arranca parte da asa. Mas, por um golpe de sorte, isso não te afeta.”
De fato, Brundle e Gené se surpreendem por o dano na asa não atrapalhar tanto o desempenho do alemão. “Dá para ajustar com o diferencial, dá para mexer de dentro de carro, mas se o carro estiver saindo muito de frente, vai acabar com seus pneus”, explica o inglês.“A asa está bem danificada, com certeza está atrapalhando. Eles vão trocar quando ele parar”, aposta o espanhol.
No replay da largada, Galvão aproveita para ‘desmistificar’ Nico Hulkenberg, que ficou pelo caminho na primeira volta. “As pessoas exageram, colocaram o Hulkenberg na Ferrari e ele nem é tudo isso. Vivemos em uma era em que todo mundo quer ser pai da notícia, não importa se sabe de alguma coisa.”
As elucubrações são interrompidas pelo acidente de Rosberg e Karthikeyan. “Foi daquelas que assustam tanto que ele saiu rapidinho. Vettel agradece. Fiquei com a sensação que estava vazando óleo. Estava muito mais lento que o normal”, vê Galvão. “Rosberg foi pego de surpresa. Não é nem um ponto de freada, não teve tempo de reagir”, acredita Burti, ainda que Reginaldo afirme que “daria tempo dele ter feito outra tomada”, argumento refutado pelo narrador e o comentarista. “Repito que não é ponto de freada”, diz Burti.
“É uma curva cega, mas tenho certeza de que não é culpa do Karthikeyan”, acredita Brundle, mais preocupado com a estratégia. “É muito cedo para parar, falta muita corrida para terminar”, diz, endossado em um primeiro momento por Kravitz, para quem, “com mais cinco ou dez voltas daria para colocar o duro e ir até o final”. Quando a Red Bull decide, após novo dano na asa de Vettel por um desentendimento com Ricciardo, pará-lo e colocar os macios, o repórter volta atrás. “Ele deve conseguir ir até o final com esses pneus.”
“Por que não arriscar?”, questiona Brundle.“Eles não têm nada a perder nessa situação. Essa é a grande chance de Vettel, porque seus pneus estarão mais aquecidos do que daqueles que estavam atrás do Safety Car e, ainda por cima, estão mais novos”. Gené também acha que a tática não é a ideal, mas pode dar certo. “Duvido que seja estrategicamente correto, é pela asa, porque terão de fazer muitas voltas com os macios. Mas não é uma má estratégia porque não para mais e vai se reagrupar ao final do pelotão”. Reginaldo acredita que “vale o risco, porque quando ficar sem pneus, já estará em uma boa posição.”
Os britânicos se divertiram com Vettel atropelando a placa do DRS para evitar a traseira de Ricciardo. “Não seria a primeira vez que uma Red Bull iria encher a traseira de um Toro Rosso em um Safety Car”, lembra Croft, referindo-se ao GP do Japão de 2007. “Mundo pequeno, não?”, se diverte Brundle.
Na relargada, Vettel vai para cima de Grosjean e acaba o ultrapassando por fora da pista. “Campeão do mundo é assim mesmo, se faz passando por fora da estrada”, apoia Galvão. Mas isso não é permitido pela FIA. “Essa manobra foi feita com os quatro pneus na pista?”, questiona Brundle. “Ele precisa ficar calmo, mas não parece estar.”
Os espanhóis não percebem a manobra e Lobato quer “ver o que está acontecendo lá na frente porque Webber pode usar o DRS em cima de Fernando”. Depois do replay, percebem o ocorrido e o narrador vai à loucura, mesmo após o alemão devolver a posição. É Gené que diminui o fato. “Não vão fazer nada.”
Todos tinham até esquecido de Hamilton na ponta quando o inglês estaciona sua McLaren. “Ê, Alonso”, Reginaldo vê sorte do espanhol. “Que desgraça para Hamilton e agora Alonso está no pódio. E Raikkonen finalmente com grandes condições de ganhar a corrida”, resume Lobato, ainda que os espanhóis já estejam preocupados com a pouca distância de Vettel para a ponta. “Se todos pararem agora, ele toma a liderança”, observa Gené. Antes disso, Lobato reclamava da facilidade com que o alemão passara por Vergne – “ordem de equipe também vale de um time para outro?”
Na Globo, a discussão é sobre o que mudou no retorno de Raikkonen. “Ele voltou mais falante. Ele tinha um comportamento difícil na época da Ferrari. O Felipe diz que, em um dia, conversaram mais do que em todo o tempo juntos na Ferrari”, conta Galvão. Mas a conversa via rádio faz duvidar que Kimi seja outro. “Deixe-me em paz, eu sei o que estou fazendo”, diz a seu engenheiro. “Ele não gosta que fale no rádio, é muito autêntico”, define Gené. “O engenheiro devia falar: ‘então vamos tomar um café e já voltamos’”, defende Lobato. “Imagina como era falar para o Kimi fazer a lição de casa ou escovar o dente quando ele era pequeno”, ri Brundle.
Na pista, Alonso passa Maldonado. “Ninguém acredita porque ninguém sabia que estávamos tão perto!”, exclama o narrador, que ganha o apoio de Galvão. “A expressão da equipe é de surpresa, do tipo ‘como esse cara consegue fazer isso?’”
Mas logo fica claro que o venezuelano tem problemas e é Webber quem tenta passá-lo, sem sucesso. Os dois se tocam. “Não tentaria fechar Maldonado a não ser que tivesse o ultrapassado. Maldonado fez o que tinha de fazer e Mark esperava que ele tirasse o pé, o que não fez”, explica Brundle. “Maldonado é Maldonado. Daqui a pouco vai ter investigação”, a primeira reação de Galvão é culpar o piloto da Williams. “Ele estava na trajetória”, defende Burti, e o narrador e Reginaldo acabam concordando. Para o comentarista, inclusive, é mais uma prova de que “desde o sábado à tarde está tudo dando certo para o Alonso.”
Os espanhóis não concordam, lamentam a sorte que Vettel vem tendo na prova, e comentam sobre o incidente com atraso, pois estavam nos comerciais. “Acho que foi muito otimismo de Webber, porque Maldonado não poderia ter desaparecido”, diz Lobato.
Webber repetiria a dose voltas depois, agora com Massa. “O pior é que agora Mark está muito longe para dar a posição de volta. Acho que ele vai receber um drive through, pelo menos por um dos incidentes”, acredita Brundle. “Isso é ruim porque perde a posição para Vettel. Que erro!”, Lobato se revolta com o brasileiro. “Da forma que Webber voltou, assustou Felipe”, Reginaldo defende o compatriota. “Teve de diminuir para não dar no meio dele. Será que ele escapa das duas investigações?”, questiona Galvão. Quando o australiano sai impune, o narrador diz que os comissários “estão muito bonzinhos. Webber, que não é disso, abriu a caixa de ferramentas hoje.”
O momento das paradas dos líderes se aproxima. “Raikkonen precisa aproveitar agora que está com o pneu macio, com o qual é melhor que a Ferrari. Talvez Alonso possa tentar algo com a estratégia”, acredita Kravitz, mas Croft brinca. “Estratégia não é uma palavra que Alonso gosta de ouvir nesta pista.”
Porém, o espanhol está muito longe do líder e seus compatriotas estão mais preocupados com Vettel. Gené vai do otimismo ao pessimismo em questão de minutos. “É bom sinal que Felipe esteja reclamando dos pneus porque ele fez 25 voltas e Vettel vai ter que fazer umas 40”, diz, para logo depois fazer as contas e emendar. “O que posso garantir é que Vettel será pelo menos quarto. Fernando vai ter que correr muito para chegar à frente dele.”
Kravitz não acredita que Vettel consegue ir até o final. “Os especialistas dos pneus dizem que o pneu médio pode fazer 40 voltas. Seriam 42 com o macio... vai ser difícil”. A opinião é compartilhada por Galvão, mas refutada por Burti. Já Reginaldo espera ver em Vettel “uma característica que já vi em Alonso, Senna, Prost, Piquet e outros campeões: vai ter que economizar pneu sem perder velocidade.”
Gené acredita que é possível que Vettel não pare e está certo de que “Fernando vai chegar nele”, mas Lobato nem quer pensar nisso. “Imagine os dois líderes se pegando”. Os espanhóis se preocupam com Button, que vem em zona de DRS atrás da Ferrari. “O que cremos é que a McLaren tem a sétima marcha mais curta e Fernando pode se defender com isso”. O narrador reclama das (não) ordens de equipe da Red Bull. “O que me irrita é como eles são mentirosos. Claro que Webber tem que deixar passar, estão lutando pelo mundial!”
Lobato reconhece que Vettel “está fazendo uma corridaça, não há dúvida”, ainda que o comentarista Jacobo Vega insista que “todas as coisas estranhas que estão acontecendo ajudem Vettel.”
Quando o desânimo bate entre os espanhóis, Lobato comemora o pit stop de Vettel como se fosse um gol. “Box, box, box para Vettel!” E Gené explica a decisão. “É claro, se é para trocar, não podem esperar. Eles perceberam que Fernando iria alcançá-lo”. Burti não se conforma: “não faz sentido, para que trocar pneu? Foram conservadores, porque era possível” e Galvão explica que “não há milagre no esporte.”
A alegria dos espanhóis dura até Perez armar uma confusão que causa o Safety Car. “Madre de Diós, que desastre! Tudo saiu perfeito para Vettel”, Lobato se desespera. “Acho que o nome do meio de Vettel é sorte. Quebra duas vezes a asa dianteira e nada acontece, dois SC o ajudam, seus rivais parecem se auto-destruir no meio do caminho e o carro de Hamilton quebra”, acredita Brundle, enquanto Croft se surpreende. “Quando eu falei que ninguém nunca tinha vencido largando em último, só joguei no ar. Não achei que poderia acontecer.”
Sobre o acidente em si, Lobato se limita a dizer que “havia muita gente perigosa junto”. Afinal, tem outras prioridades. Para Galvão, “dessa vez o Grosjean caprichou”, apontando logo para o primeiro suspeito, mas Burti vê que o problema “foi como o Perez voltou para a pista”. E o narrador se rende. “Perez é outro complicado.”
A pausa serve para que os britânicos respirem. “Se você não estiver na ponta do sofá com essa corrida, não vai estar com mais nenhuma”, diz Croft. “Melhor corrida do ano junto de Valência. Não são geralmente as primeiras das listas de melhores, mas na Fórmula 1 você nunca sabe de nada”, reflete Brundle.
Os espanhóis não relaxam. “As coisas não estão boas. Fernando está perto de Raikkonen, mas teve muita dificuldade para aquecer os pneus no primeiro SC”, vê Lobato. “Além disso, Vettel tem uma sétima marcha muito longa. No momento, acho que Vettel tem mais possibilidades do que Fernando de terminar em segundo. Mas Fernando também pode ganhar, é difícil, mas pode”, completa Gené, mas o narrador não aprova. “Calma, calma, primeiro vamos pensar que tudo pode ficar como está”. Lobato chega a imaginar se Alonso não está próximo de Button de propósito para que Button tenha a DRS ativada para se defender de Vettel. “Se Button sai de sua zona de DRS, não vai conseguir se defender de Vettel.”
Após algumas voltas de entusiasmo, com Galvão dizendo que “a sorte que era do Alonso virou para o Vettel”, os brasileiros passam a duvidar que o alemão chegará em terceiro, com Reginaldo inclusive acreditando que o piloto pode “jogar fora o campeonato” se não tiver mais cuidado. “Não há reta suficiente para passar e quem se defende coloca por dentro. O único que achou que era super-homem e quis passar por fora foi Webber e bateu duas vezes”. Seria justamente por ali que o bicampeão daria o bote.
Sempre pessimista, Gené diz que Vettel “vai acabar passando”, ao que o narrador responde com um longo suspiro e um “gracias”. Lobato até oferece um “monumento para Button em Maranello se segurar Vettel e pilhas de pizzas e paellas”, mas o inglês não consegue se segurar na frente. “Vettel veio de muito longe. Foi uma pilotagem muito boa dos dois”, destaca Brundle. O “cavalheirismo” de Button também é destacado por Burti. “É um tipo de ultrapassagem que Vettel faz muito bem, é um dos pilotos que costuma ultrapassar por fora”, reconhece Gené.
Resta acreditar que Alonso possa chegar em Raikkonen, ainda que até Lobato reconheça que seria necessária “alguma mágica”. No final, o que tinha tudo para ser um domingo de lucro para Alonso termina com três pontos de ganho. “Eu achava que Fernando seria terceiro e Vettel, sexto ou sétimo, mas todos os SC o beneficiaram”, lamenta Gené. “Mas com a classificação normal, hoje Vettel ganharia e Fernando seria terceiro. Se dermos um carro para Fernando poder classificar bem... porque no final o carro foi bem. Para mim, o melhor piloto da corrida foi Fernando porque a corrida de Raikkonen foi fácil e Vettel foi muito beneficiado. Fernando se arriscou muito porque o carro não estava bom nesse circuito”, avalia o comentarista, que ganha apoio dos brasileiros. “Se Alonso ganhar, 90% é dele e 10% da Ferrari. Deve estar exausto porque novamente tirou leite de pedra”, diz Burti.
Mas quem rouba a cena no final é o vencedor Raikkonen. “Não acho que haverá uma vitória tão popular neste ano. Eu estava na última vitória da Lotus”, lembra Brundle, ainda que Croft lembre que “aquela era uma equipe bem diferente”. Para os brasileiros, pouco importa. “Volta a vencer a Lotus, que fez parte da nossa vida, a grande Lotus de Colin Chapman”, diz Galvão, enquanto Reginaldo lembra Ayrton Senna.
Discussões sobre o DNA da Lotus à parte, o jeitão do vencedor chama a atenção de todos. Para Galvão, “é um novo Raikkonen. Dois braços erguidos eu nunca vi!”, brinca o narrador, enquanto Brundle resume: “Essa corrida era do Hamilton, mas eles tiveram problemas. Raikkonen teve ritmo o tempo todo, e nem precisou da ajuda do engenheiro: ele sabia o que tinha de fazer.”
GP da Índia por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Vão ter que fazer uma estátua”
É Reginaldo Leme, na Globo, quem dá o tom do que se espera do GP da Índia: “Vettel pode dar passo decisivo para o título e Alonso pode mostrar por que ainda diz que é possível.” Por sua vez, o narrador da Sky britânica, David Croft, salienta a importância de uma boa primeira volta. “Button passou quatro carros no início do GP do ano passado e alguns pilotos estão preocupados, especialmente a Red Bull, porque eles não têm boa velocidade de reta. Especialmente Alonso sabe que não pode ter os dois McLaren a sua frente ao final da primeira volta”, completa o comentarista Martin Brundle.
Até porque, com a estratégia, não é possível fazer muita coisa. “Uma parada é, no papel, cerca de 5 a 10s mais rápido, mas veremos quem será forçado a fazer duas. Ouvimos que Webber pode ser um pouco mais duro com os pneus. Saberemos perto da volta 15. Para uma parada, será perto da 25”, resume o repórter britânico Ted Kravitz, enquanto os espanhóis, na Antena 3, lembram que os pneus de Alonso têm três voltas a mais do que Vettel e Webber, pois o melhor tempo do asturiano foi feito na primeira saída do Q3, quando utilizou os mesmos compostos do Q2. E o comentarista Marc Gené explica que “alguns pilotos podem começar a poupar pneu para fazer uma parada, enquanto outros podem forçar tudo e ver quando o pneu se desgasta. Ninguém fez voltas suficientes na sexta para saber quando o pneu acaba.”
Croft destaca ainda que “Webber ganhou mais corridas largando em segundo do que da pole e Alonso larga pela oitava vez consecutiva fora do top 3.” Contudo, o espanhol mostra que sua intenção é chegar entre os três primeiros o mais rápido possível, e vai para cima das duas McLaren, superando-as na reta, mas levando o troco na freada. Na curva cinco, consegue passar Hamilton.
Os brasileiros se agitam. “Olha o que faz o Alonso. Manobra de craques da Fórmula 1. Impressionante”, define o narrador Luis Roberto. “Era muito importante o Alonso ser terceiro, mas Button, que não é de arriscar, e Hamilton, jogaram pesado com ele porque sabem que ele tem mais a perder. Principalmente se a corrida for de uma parada, não é bom ficar metido em disputas”, completou o comentarista Luciano Burti.
Gené não concorda com o brasileiro. “Primeiro, como Fernando foi espetacular na reta e, depois, como Hamilton foi muito corajoso na freada. Para passá-lo, Fernando teve de arriscar muito, deixou o espaço mínimo.”
Os britânicos destacam os três envolvidos. “Que vácuo que Alonso pegou das duas McLaren! Muita habilidade para não ter havido nenhum toque. A briga foi incrível nas curvas três, quatro e cinco. Só três pilotos deste calibre não teriam um acidente na freada”, se impressiona Brundle. E Alonso mostrou que tem uma sétima marcha longa, que vai ajudá-lo no decorrer da corrida. Ao contrário das McLaren, que parecem ter parado no meio da reta. A Ferrari fez uma estratégia para pegar essas duas McLaren, porque sabe que não estão nem perto da Red Bull. Eles arrumaram o DRS e alargaram a sétima marcha”, observa o comentarista. “Foi uma péssima primeira volta para a McLaren, eles tinham de ter se colocado entre as Red Bull”, completa Croft.
Provando a teoria do ex-piloto, Alonso passa Button com facilidade na quarta volta. “Vamos, Fernando. Próxima parada: Mark Webber”, se anima Lobato. Se ele chegar em Mark, vai passar fácil, porque, com o DRS aberto, chegou a 319km/h e o australiano, a 311km/h.”
Os espanhóis vão seguindo os tempos a cada setor. “Falta só um pouco de ritmo para Fernando”, aponta Lobato, enquanto Gené busca uma saída. “A chance de Fernando é trabalhar com a degradação. Não que a Ferrari seja muito melhor, mas ele pode arriscar fazer uma parada se a Red Bull fizer duas.” Quem pode ter de fazer duas paradas é a McLaren, observa Brundle. “Eles não têm ritmo.”
As atenções se voltam para a briga de Bruno Senna – citado pela primeira vez na Globo na volta 4 – com Pastor Maldonado e Romain Grosjean. O brasileiro aproveita o descuido do companheiro para ultrapassá-lo. “Bruno andou bem por todo final de semana, que é o que importa, mesmo tendo tido uma classificação ruim. Ele leu isso muito bem, não quis dar uma de esperto, esperou a situação se definir para atacar”, elogia Brundle. “Ficou de espectador e se aproveitou. Linda manobra de Bruno Senna. Sem dúvida, dá mais prazer porque disputa com o companheiro é como um primeiro campeonato para um piloto”, diz Reginaldo.
“São os chifres da Toro Rosso”, brinca Brundle sobre os toques que rasgaram os pneus de Schumacher e Perez. Mas, para Reginaldo e Luis Roberto, “desde que assinou com a McLaren, Perez ficou com a cabeça meio atrapalhada.”
Os pilotos da ponta demoram a fazer sua primeira parada e Croft explica o fenômeno de convergência de massas de ar que causa uma espécie de neblina na região do circuito. “Com menos de 20 voltas, já estou falando do clima”, brinca o britânico. Na Antena 3, contudo, Lobato havia superado-o, dizendo na volta sete: “Não tente limpar sua tela, o cenário é esse mesmo.”
A conversa sobre o clima acaba com a aproximação de Alonso em relação a Webber. Os espanhóis vão seguindo os tempos a cada setor. “Falta só um pouco de ritmo para Fernando”, aponta Lobato, enquanto Gené busca uma saída. “A chance de Fernando é trabalhar com a degradação. Não é que a Ferrari seja muito melhor, mas ele pode arriscar fazer uma parada se a Red Bull fizer duas”. Logo, segue uma série de ‘e se’, que dura por toda a prova. “É uma pena os primeiros metros, quando os McLaren o atrapalharam”, vê Lobato. “Ou também se tivesse se classificado melhor”, completa Gené, que lembra que “Vettel está em outro planeta em relação a seu companheiro de equipe.”
O comentarista, falando sobre a eterna briga de Massa com Raikkonen, que demonstra estar mais rápido, mas não consegue sequer colocar de lado, compara a situação do finlandês, sem velocidade de reta, a Alonso em Abu Dhabi 2010. “Ele bate no limitador no meio da volta, optou por uma sétima marcha de classificação.”
Ainda assim, os brasileiros se preocupam quando o piloto da Lotus faz sua parada uma volta antes de Massa. “Geralmente, quem para antes tem vantagem e Kimi pode voltar à frente”, aponta Burti. De fato, Raikkonen consegue superar, mas o ferrarista tinha um plano, que passa despercebido: até fritou o pneu para garantir que teria direito a usar a DRS na reta e dar o troco. “Massa ajuda Raikkonen ao fritar o pneu na entrada da curva e Raikkonen passa depois de 30 voltas. Mas todo o bom trabalho não vale nada por causa da DRS”, lamenta Croft. “Que sétima curta que o Kimi tem, não adiantou fazer todo o restante do trabalho”, avalia Lobato.
Luis Roberto se perde nas contas e vê a possibilidade de Hamilton passar Alonso e Webber (que estavam mais de 10s à frente) ao permanecer mais tempo na pista, enquanto Reginaldo se preocupa porque “Massa não consegue imprimir o mesmo ritmo da última prova.” Os espanhóis têm a explicação: é Alonso quem está fazendo a diferença. “Subindo pelas paredes, fazendo o possível e o impossível. A televisão não mostra o quão boa é a corrida de Fernando. O problema é que tudo o que Alonso faz não é o suficiente. Estamos comparando-o com Vettel e Webber, mas o mais justo é comparar com Massa e está 26s à frente”, diz Lobato, que ganha o apoio de Gené. “E estamos vendo o melhor Massa do ano. É uma das melhores corridas de Fernando em relação a ritmo.”
O narrador espanhol reclama – várias vezes – pelo fato da transmissão não mostrar Alonso chegando em Webber. “É incrível que tenha de acompanhar a corrida pelo GPS.”
Enquanto isso, os britânicos acreditam que Alonso, a exemplo de Massa, tem problemas de combustível e, inclusive, checam a informação com a Ferrari, que nega. “Disseram para ele tirar o pé cedo e frear tarde, isso só pode ser combustível”, crê Brundle. “Eles tinham de arriscar”, lembra Croft.
As dúvidas cessam quando o espanhol passa Webber, para delírio de Lobato. “Se aproxima, se aproxima! Mágica, mágica! Tomaaa!”, berra o narrador. “O fato de ter sido com DRS tem menos mérito, mas, para chegar até aí...”
Burti lembra que “além do DRS, há algumas voltas Webber reclamava de falha no Kers”. Brundle destaca que, “de alguma maneira, ele conseguiu se colocar entre as Red Bull. Ele estava longe demais, imagino se Mark não tem um problema maior. Estava tão mais rápido que quase bateu.”
O segundo lugar enche os espanhóis de orgulho. “É mais uma corrida que mostra como Fernando merece o campeonato. Faria duas leituras. Claro, Vettel é o favorito, mas Fernando manteve-se vivo e mostrou que o ritmo da Red Bull não é tão melhor. De longe, ele é o que tira mais de seu carro”, aponta Gené. “Que pena que o carro não ande um pouco mais. Em Maranello, eles costumam hastear uma bandeira a cada vitória. Acho que deviam, depois dessa corrida, colocar uma estátua de Fernando lá. O que fez hoje foi brutal”, completa Lobato.
As faíscas que estavam “sparkling like hell” (algo como “brilhando pra camamba”, na definição do engenheiro de Alonso, Andrea Stella), no carro de Vettel deram o último suspiro para os espanhóis. “Pode haver uma ilegalidade, porque a placa de madeira pode estar se desgastando. Ou é alguma parte do assoalho que se descolou”, explica Gené. “Que pena que não faltam mais 10 voltas. Que pena a classificação, o tempo perdido com a McLaren no início”, lamenta Lobato.
“Pode ser a volta da famosa sorte de Alonso”, aponta Reginaldo, enquanto Burti diz que “não faz sentido o assoalho bater no chão desta maneira.” Brundle também fica com a pulga atrás da orelha. “É aquela parte que a FIA tenta fazer com que as equipes não flexionem. Será que ele atacou muito forte uma zebra? Ferrari e McLaren vão querer saber por que isso está acontecendo, porque é uma zona de performance.”
Luis Roberto não se conforma com luta de Massa e Raikkonen. “Olho para o computador e tenho a impressão de que ele quebrou porque a diferença é sempre a mesma”. Brundle também brinca com a dupla, dizendo que “Raikkonen vai poder explicar como é a traseira de uma Ferrari”. Mas na há tempo para mais nada e Vettel leva a quarta seguida, “superando dois mitos, Clark e Lauda, e agora tem 205 voltas na liderança. Massa suportou a pressão de Kimi a prova toda e Bruno Senna foi muito bem com volta rápida pessoal no final”, avalia Reginaldo.
Falando em volta mais rápida, os espanhóis se divertiram com Alonso e Button tirando a volta mais rápida de Vettel para que ele não conseguisse o grand chelem. Além disso, talvez o alemão não tivesse saído com a diferença que esperava no campeonato. “Fernando pode estar frustrado, porque, depois de uma corrida como essa, é difícil aceitar que não foi suficiente para vencer. Mas, se melhoramos um pouco mais em Abu Dhabi, ele pode lutar. Acho que ele está mais feliz que Vettel”, crê Gené, mesma linha de Burti. “Alonso sai quase como vencedor. A diferença está ficando grande, mas ainda em um nível em que dá para reverter.”
A conversa na Antena 3 volta à comparação direta com Massa, que não usou todas as atualizações que a Ferrari levou à Índia. “Existe um campeonato, sem dúvida, porque Fernando tira a diferença com o braço”, conclui Gené, enquanto Brundle também chama a atenção para a distância entre os ferraristas. “Alonso está meio minuto na frente de seu competente companheiro Felipe Massa, que voltou a andar bem. É um piloto extraordinário. Gostaria de vê-los juntos, mas parece que Vettel é aquele que vai assumir o manto de Alonso.”
Essa é uma ideia que não passa pela cabeça dos espanhóis, que destacam como “Vettel conversa com o membro de sua equipe e Webber, seu companheiro, sentado ao lado de seu maior rival”, como observa Lobato. E Gené emenda: “estão todos os pilotos alinhados com Fernando”. Seja como for, os pontos estão cada vez mais a favor de Vettel. “Agora, não é só minimizar os danos. Temos de causá-los”, defende Lobato.
GP da Coreia por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Sem criar falsas expectativas”
“Há dois anos, Alonso transformou aqui um déficit de 14 pontos em uma vantagem de 11. Agora, ele está sob risco. Com as duas vitórias de Vettel, há uma tendência se apresentando”, o narrador da BBC Ben Edwards define o cenário do campeonato antes do GP da Coreia.
Com a disputa se afunilando, as questões de sempre da estratégia – todos acreditam que os ponteiros devem fazer duas paradas, mas chamam a atenção para quem vem de trás e larga com os macios, podendo fazer apenas um pit – se misturam com uma dúvida: como a Red Bull vai agir tendo seu principal piloto na luta pelo título largando atrás do companheiro. “É preciso deixar a corrida rolar até a parte final e daí ver o que é melhor para a equipe”, defende Coulthard, mesmo pensamento de Marc Gené, na Atena 3, da Espanha. “Fazer algo na primeira curva é complicado, mas na reta é mais fácil de controlar. Porém, não acredito em nada na primeira volta, porque as diferenças são muito pequenas”. Mas o narrador Antonio Lobato desconfia que não vá demorar tanto: “Não podemos garantir que Webber terá o mesmo cenário depois da largada”, diz, ainda na volta de apresentação.
De fato, o alemão toma a ponta logo na primeira curva, para desconfiança do espanhol. “Vettel já está à frente, mas vem Webber tentando voltar. Não creio, não creio, não creio. Ele só está tampando os que vêm atrás. Até agora, Grosjean se comporta bem e Vettel se vai. Como sabia que isso ia acontecer?”
Na Globo, o narrador Luis Roberto está mais empolgado com Massa. “Vamos lá, Felipe! Que primeira volta de GP!” O comentarista Reginaldo Leme contradiz Lobato. Pelo menos, em termos. “Webber não deu moleza. Tentou de todas as formas segurar a posição, mesmo que fosse trocar de posição depois.”
Para Luciano Burti, “é ótimo para Vettel passar Webber, mas é ainda melhor para Alonso ter superado Hamilton, porque ele seria muito difícil de ultrapassar. Agora pode imprimir o ritmo da Ferrari. Surpreendeu o fato de que quem largou por fora foi bem.” Mas Lobato tem sua explicação: “Na largada, Webber atrapalhou todos os que largavam do lado limpo.”
Coulthard ressalta o “contraste entre aqueles com mais e menos experiência” nas manobras dos seis primeiros e do meio do pelotão, onde Kobayashi fez strike em Button e Rosberg. O inglês chama a manobra do japonês de “idiotice” e o comentariSta considera essa “uma boa maneira de descrever o que acabou de acontecer. Ele veio do nada”. Voltas depois, quando o drive through é confirmado para o piloto da Sauber, o escocês reclama que “parece uma pena pequena quando você tirou dois carros da corrida, mas não há muito o que se possa fazer.”
Preocupados com a diferença de ritmo entre Ferrari e Red Bull, os espanhóis custam a perceber que a bandeira amarela na reta oposta anula o DRS. Mas os brasileiros logo observam. “O resgate não tem muita prática e acabou demorando demais. Várias ultrapassagens deixaram de acontecer porque os carros estavam mais próximos nas primeiras voltas”, lamenta Burti. “O maior prejudicado foi Massa, porque ele estava conseguindo se manter perto de Hamilton, mas agora está a 1s2”, diz Luis Roberto, sem ver que Raikkonen passou todo o período de bandeira amarela bem próximo do brasileiro.
Os espanhóis se resignam com o rendimento da Red Bull, pelo menos na primeira parte da prova. “Com este composto, a Red Bull tem mais rendimento que a Ferrari. A grande questão é saber se, com o pneu duro, as forças mudarão. Não sabemos se a Ferrari pode ser melhor. O que sabemos é que o equilíbrio do carro para ir bem com o supermacio ou o macio é muito diferente”, Gené mantém as esperanças.
Porém, depois de ficar por todo o primeiro stint comparando o ritmo de Alonso em relação a Vettel, Gené tem um golpe de realidade na primeira parada e começa a se preocupar com Hamilton. “A Ferrari tem pouca margem”, avisa, quando o espanhol demora para marcar a parada do inglês. Lobato fica nervoso: “Tem que voar, tem que voar”, repete durante a parada. “Muito no limite! Não estamos preparados para estas emoções.”
Os brasileiros também ‘se emocionam’ demais e lamentam a posição perdida por Massa no box para Hamilton, ainda que o inglês nunca tenha deixado de ser quarto. “A primeira rodada de paradas não funcionou como esperado para a Ferrari”, lamenta Luis Roberto. “A explicação é que o tempo de parada de Massa foi muito pior”, emenda Reginaldo. Aparentemente avisada pela produção, a dupla volta atrás. “Explicando: depois da parada, Felipe não conseguiu superar Hamilton”, diz o narrador.
A dificuldade de Perez em se manter na trajetória quando encontra Alonso e Hamilton saindo dos pits com pneus novos mostra para Burti e Coulthard que a tentativa de fazer uma parada não está dando certo mas, para Luis Roberto, o mexicano “abriu para o Hamilton passar.”
Na volta 21, Gené percebe que imaginar que Alonso possa pressionar Vettel é querer demais. “Ele tem que pensar na segunda colocação e em perder menos pontos.” Enquanto isso, a briga é entre Massa e Hamilton. “Lewis não defendeu muito, mas não tem o que fazer quando o outro é 15km/k mais rápido na reta”, diz Coulthard quando brasileiro supera o inglês, que tem graining, segundo o engenheiro da Ferrari, Rob Smedley. Já os britânicos acham que o inglês tem borracha presa na asa dianteira, prejudicando sua performance. Porém, quando Hamilton recebe a mensagem de que tem um problema mecânico que afeta o equilíbrio, Gené mata de primeira. “Pode ser com a barra estabilizadora.”
Mas a suspeita inicial de Smedley abre uma gama de possibilidades para os espanhóis, que veem graining nos pneus de Webber, pois Alonso está se aproximando. “O que o telespectador está se perguntando agora é ‘por que isso não acontece com Vettel?’”, questiona Lobato. “Pode ser acerto ou estilo”, responde Gené.
Ainda que destaquem a “grandíssima” e “surpreendente” corrida de Massa, os espanhóis dão atenção à perseguição de Alonso a Webber e ignoram os tempos do brasileiro, que ganha destaque na Globo. “O grande passo que Felipe deu foi no ritmo de corrida. Fizeram alguma coisa com o certo porque esse era o principal problema no início do ano”, diz Burti. “Dizem que ele vai anunciar que fica na Ferrari em pouco tempo, mas isso nos faz imaginar se ele não melhoraria sua performance se as conversas tivessem bem encaminhadas antes”, acredita Coulthard.
A pausa no “caso Massa” se dá pela luta de Hamilton para ficar à frente de Raikkonen, mesmo muito mais lento. “É o tipo de piloto que agrada todo mundo. Menos o chefe dele porque ele apronta as suas”, opina Reginaldo. “Lewis é um racer. Ano passado, conseguiu se defender de Webber pela segunda posição, e agora luta pela quinta”, lembra Edwards, enquanto Coulthard vê falta de agressividade em Kimi. “Ele está muito bem em seu retorno, mas é verdade que ele tem sido muito cuidadoso em suas disputas. Fico imaginando o que seria se arriscasse mais, como no Bahrein, quando poderia ter vencido.”
Hamilton tem de parar novamente e os espanhóis riem da mensagem de seu engenheiro, que lhe diz que está mais rápido que Ricciardo. “Você está lutando pelo mundial e te dizem que está mais rápido que Ricciardo. Ele deve pensar ‘mas... Ricciardo’?”, se diverte Lobato.
Na luta da ponta, o foco não sai do minucioso acompanhamento da diferença entre Alonso e Webber. “A Red Bull parou Webber para se defender de Fernando. O que ele poderia fazer é ficar mais tempo na pista para apostar que terá pneus mais novos no final. A Ferrari tem de torcer para que a Red Bull tenha errado e entrado no box cedo demais”, avalia Gené. É isso que o bicampeão faz.
Porém, ao invés de se aproximar de Webber após a segunda parada, Alonso cada vez tem Massa mais por perto. “Não apareceu na TV, mas vimos que Alonso perdeu muito tempo com a Caterham no terceiro setor”, justifica Coulthard, em volta na qual o espanhol foi 1s5 mais lento que o brasileiro. “O Massa mais rápido não é algo que vemos com frequência, mas não acho que a Ferrari vai permitir essa ultrapassagem, a não ser que Fernando tenha um problema. Eles precisam economizar pneus, é uma prova longa;”
O escocês chega a supor que talvez seja uma boa ideia para a Ferrari que Massa passe Alonso. “Ele está perguntando sobre os tempos de Webber, talvez mandando a mensagem de que poderia atacá-lo. Ele não está longe, então não seria uma tática ruim o Alonso deixá-lo passar para ver se conseguiria lutar com Webber, porque eles poderiam reverter na última volta sem problemas.”
No entanto, isso nem passa pela cabeça dos espanhóis. Quando Smedley diz a Felipe que “está um pouco perto demais de Fernando”, comentário que causa risos dos britânicos, Lobato afirma que “é uma conversa que serviu para explicar bem as coisas”. Para Gené, “pediram para ele dar espaço, primeiro porque se tentar uma ultrapassagem corre o risco de bater e segundo porque seguir um carro tão próximo causa mais degradação.”
Há certo desconforto entre os espanhóis quando Alonso está envolvido em qualquer episódio de favorecimento dentro da equipe, portanto, após uma das inúmeras paradas para publicidade, o narrador Lobato trata de explicar a situação. “Estávamos conversando durante o comercial que Massa não poderia passar Fernando, que está lutando pelo mundial. As ordens de equipe existem e é a mesma situação que ocorreu com Webber e Vettel na primeira volta. Afinal, é uma questão de sair daqui líder do mundial ou não.”
Os brasileiros tratam de evitar “falsas expectativas”, como define Luis Roberto. “O jogo de equipe faz parte. Alonso está disputando o campeonato.” Reginaldo ressalta que “está claro que Felipe chega quando quer no Alonso. Ultrapassaria se fosse permitido. É talvez sua melhor corrida dos últimos dois anos.”
Burti destaca que o próprio Alonso deve estar se surpreendendo com sua falta de ritmo. “Quando se viu em terceiro, talvez imaginasse que conseguiria passar Webber.” Os espanhóis, contudo, têm uma explicação. “Dá a sensação de que Fernando tem problemas de graining”, diz Lobato. “Dá para ver isso claramente nas imagens. E é muito. Os pneus não estão funcionando bem nesta temperatura”, atesta Gené. Nesse caso, como diz Jacobo Vega, “o bom para Fernando é que Massa está atrás.”
Quando Hamilton arranca um pedaço da grama artificial, Luis Roberto pede que as áreas de
escape sejam de asfalto, enquanto Burti pondera que “isso existe em todos os circuitos e não costuma haver problema, é só essa que não está bem presa.” Gené lembra que havia falado “com o Charlie Whiting e ele me disse que, se isso acontecesse, ia colocar o SafetyCar”. Mas, depois de alguma consideração, Lobato acha que é melhor que nada ocorra. “Acho que está difícil de qualquer jeito”, o narrador se rende.
Luis Roberto e Lobato tentam dar emoção à corrida no final, com as mensagens ameaçadoras do engenheiro de Vettel, Guillaume Rocquelin, o Rocky. Gené não se impressiona com o tom de preocupação, pois acredita que “isso está ocorrendo com todos”, mas ele e Lobato se divertem com o tom da conversa. “Ele falando que pode acontecer qualquer coisa é como se dissesse ‘cara, você não apenas vai perder o campeonato, pode acontecer um acidente horrível’”. O comentarista diz que “Vettel deve estar com medo porque nunca vi um engenheiro repetindo tantas vezes a mesma coisa."
Mas não há nada que Rocky dissesse que diminuísse o ritmo de Vettel atrás de sua terceira vitória seguida e da liderança do Mundial. “É a segunda vez que a Red Bull coloca os dois pilotos no pódio, mas Alonso continua lá. Pode ter perdido a liderança, mas a Ferrari não vai desistir deste título”, diz Edwards, que não se surpreende com a vitória dominadora do alemão em Yeongam. “Só há umas 12 voltas que não liderou em três corridas aqui. Não fosse pela quebra de 2010, teria vencido as três provas.”
Coulthard concorda, dizendo que “não há dúvidas de que este menino é especial”, mas sente por Webber, que “deve estar frustrado por, novamente, não ter convertido uma boa classificação em vitória após uma largada ruim.”
Reginaldo, em meio aos destaques para Massa, que “fez a segunda melhor volta, foi consistentemente melhor e provou que poderia fazer outro pódio”, chama a atenção para a semelhança desta final de campeonato com 2010, “mas agora Vettel tem a experiência de dois títulos”, enquanto Burti destaca Newey como o maior vencedor da Coreia. “Concordo com Alonso: será a corrida da Índia que vai definir. Se as atualizações da Ferrari não forem suficientes, será muito difícil.”
Gené segue nessa linha. “O único lado bom é que são duas semanas até a próxima corrida e veremos se vamos conseguir produzir um pequeno milagre. Essa diferença com Fernando não é real. Ele tinha margem. Tiveram mais do que três décimos hoje e esse é um circuito diferente de Suzuka. Uma pena é que o resultado do Japão não é justo, porque era para Fernando ter sido segundo”, diz o comentarista, enquanto Lobato trata de valorizar seu piloto. “Fernando deu o máximo. E quando é ele quem dá o máximo há pouco o que dizer. Vitória para a Red Bull, que fez bem o dever de casa e melhorou o carro. Fernando tem de estar preocupado porque a Ferrari não reage. Ele já não pode dar mais.”
Mesmo destacando a melhora do ritmo da Ferrari em relação à McLaren, Edwards não pode deixar de concordar com o domínio da Red Bull – e usa uma expressão um tanto estranha para definir o momento positivo de Vettel. “O assassino sorridente ataca novamente, depois de ter dado um duro golpe na liderança de Alonso em Suzuka, ele passa à frente e a possibilidade de seu terceiro título seguido é cada vez mais realista.”
GP do Japão por espanhóis, brasileiros e britânicos: “Vettel roubou o pó mágico do Alonso”
Os pilotos se tornam samurais na metáfora do narrador espanhol Antonio Lobato antes da largada. A inspiração, claro, é a adoração de Alonso pelos guerreiros japoneses, que inclusive virou tatuagem. O asturiano, lembra Reginaldo Leme na Globo, diz liderar o campeonato por milagre, que tem nome e sobrenome para o comentarista. “Para mim, o milagre chama Alonso. Porém, ainda que sempre tenha considerado a McLaren como grande rival, agora tem de temer Vettel. Parece que a Red Bull se encontrou.”
Os espanhóis sabem disso muito bem e buscam explicação para renascimento de Vettel e companhia. “Se realmente têm um DRS duplo, veremos hoje, porque a vantagem deve ser em classificação”, aponta Marc Gené. “O problema da McLaren foi a punição de Button e o acerto ruim de Hamilton”, completa Jacobo Vega.
Enquanto isso, os britânicos da Sky se preocupam com peça que caiu do carro de Webber na in lap e com a estratégia. “Os pneus macios estão com bolhas e os duros estão funcionando melhor. Há muitas equipes torcendo para ser uma corrida de duas paradas, mas não têm certeza. Verão como será o rendimento no primeiro stint”, resume Martin Brundle.
O temor de Lobato é outro. “Vou dar uma má notícia: 75% das corridas do último ano aqui foram vencidas pelo pole, mais do que Mônaco.”
Corroborando, de certa forma, com o narrador espanhol, Luciano Burti não espera uma largada complicada “porque a primeira curva é rápida. A Ferrari vai muito melhor em corrida e Alonso mesmo disse que, nessa situação, não deve para ninguém. Ele vai para cima.”
De fato, foi, até demais, ainda que apenas seu conterrâneo ovetense Lobato tenha percebido de cara. “Fernando entra em uma zona perigosa. Rodou! Fernando rodou! Cuidado que alguém pode acertá-lo! Webber está fora, Rosberg também e não sei onde está Fernando”, se desespera. Luis Roberto, na Globo, não arrisca dizer qual o “carro vermelho” que escapou e é socorrido após meia volta por Reginaldo. “E olha que disse que a largada aqui não era complicada”, ironiza Burti. “Ainda mais Alonso, que não costuma cometer erros.”
O que ninguém acerta é de onde veio o toque que furou o pneu da Ferrari. O primeiro suspeito – talvez, mesmo se largasse em 20º seria ele – é Grosjean. Na Globo, inclusive, seguem convencidos disso mesmo após o replay. Na Sky, o narrador David Croft é o único a ver que Grosjean se enrosca com Webber, mas o comentarista Martin Brundle o ignora. “Lá vai a Ferrari fora da pista! Uma péssima largada! E Webber fica também, rodando após um toque de Grosjean. Faltou espaço para a Ferrari, a Red Bull e a Mercedes de Rosberg”, berra o narrador. Após o primeiro setor, veem que é Alonso. “Pela segunda vez na temporada, ele não passa da primeira volta e sua liderança vai ser demolida por Vettel”, prevê, enquanto Brundle emenda. “Imagino se não houve contato entre Alonso e Grosjean, pois eles estavam muito próximos no grid.”
Croft repete com toda a fleuma britânica. “Imagino se Grosjean não causou rodada de Webber. Foi Raikkonen que tirou Alonso” e Brundle se rende. “Raikkonen não fez nada de errado. Foi Alonso que, reagindo à McLaren, foi para a esquerda e o apertou. É esse tipo de coisa que acontece na primeira volta de um GP. Já Grosjean estava muito ocupado vendo a Sauber e encheu a Red Bull”. Em outra confusão, acham que comissários estão investigando Raikkonen, e não Grosjean, mas logo são avisados de que é o contrário. “O erro foi meu, desculpe”, diz Croft.
Gené concorda na Antena 3. “Não foi culpa de Kimi. Ele não sabia que Kimi estava do lado. Não o tinha visto”, praticamente as mesmas palavras de Burti na Globo. Antes disso, os espanhóis também culparam Grosjean. “Não queria falar antes, mas com Kobayashi e Grosjean próximos, é complicado”, Vega opina tarde demais. “Madre mia, Grosjean novamente”, Lobato não se conforma e, mesmo que Vega lembre que “Mark é último”, diz que “isso não importa. Vettel é primeiro.”
Antes do replay, provavelmente avisado por alguém em Madri, Lobato volta atrás. “A confusão foi com Kimi, mas Grosjean se enroscou com alguém. Como se complica o Mundial, senhores”. Enquanto isso, Gené não para de repetir. “Por isso, dá ainda mais raiva da má sorte da classificação, porque complica a largada e te obriga a arriscar”. E o narrador faz uma pergunta, para a qual não ouve resposta. “Felipe Massa está em quarto. Podemos esperar algo dele?”
Luis Roberto foca no brasileiro, “ótimo de largada. A Ferrari tem de trabalhar bem, pois essa é a corrida para Massa tirar pontos de Vettel e cair de vez nas graças da equipe.”
Na relargada, Raikkonen não se intimida com a pressão de Perez e o mexicano vai para fora da pista. “Havia um momento em que Perez tinha de ceder, quando Kimi começou a virar. Uma coragem que virou estupidez”, avalia Brundle. Para Luis Roberto, o piloto da Sauber “é arrojado e está em momento que lhe favorece.”
O piloto de 22 anos segue como protagonista algumas voltas depois. “Perez faz uma grande manobra no homem que está substituindo na McLaren”, narra Croft. “Fez o truque do Kobayashi e pegou Lewis dormindo”, vê Brundle. “Whitmarsh deve estar falando no pitwall que foi uma boa troca”, completa o narrador. Para Burti, Hamilton, “sabendo que carro está mal acertado, deixou passar.”
Lobato, por sua vez, está em tom fúnebre, avisando a quem acordou atrasado (a prova começou às 8h da manhã na Espanha e a transmissão, às 6h) que Alonso está fora e não vê que Perez ultrapassou Hamilton. “Como freou dentro”, Vega chama a atenção. “Ele passou?” pergunta o narrador. “E parece que Hamilton deixou passar”, Gené concorda com os brasileiros.
Logo depois, sai a punição a Grosjean. “Aconteceu vezes demais para ser coincidência para ele. Acho que ele não tem do que reclamar. Eles poderiam dar um drive through, mas deram um stop and go. Estão punindo-o da maneira mais dura possível porque acreditam que ele não está aprendendo”, defende Brundle. “Ele cometeu alguns erros na GP2, mas tinha melhorado”, estranha Croft quando perguntado pelo comentarista se o francês sempre fora tão errático.
Raikkonen é o primeiro que para e mostra que o tráfego pode ser decisivo. Os espanhóis não falam de Kimi sem lembrar que “o homem que arruinou a classificação de Fernando também foi o que arruinou sua corrida” – não no sentido de culpá-lo, mas salientando a coincidência infeliz. De qualquer maneira, observam que o finlandês perde tempo ao voltar à pista e acreditam que quem pode lucrar é Perez – até com Button, que é o próximo a parar. “Agora quem está bem é Massa, mais rápido que Vettel. É a chance dele mostrar para a equipe que deve mantê-lo. Esse tráfego está sendo decisivo. Acho que Massa pode passar os dois”, destaca Brundle. O bom rendimento tem outro efeito em Gené. “Quando vejo o ritmo de Felipe me dá uma raiva...”
Reginaldo e Burti acham que Felipe pode passar Button se ficar mais tempo na pista, mas duvidam quanto a Kobayashi. “Vai que acontece alguma coisinha e ele volta na frente dos dois, né?”, seca Luis Roberto.
Mas não precisa: só a soma de tráfego e do ritmo do brasileiro são suficientes e Massa volta em segundo. “Fantástico o ritmo de corrida de Massa, que superou pilotos que voltavam com pneu novo”, aponta Burti. “O pit stop nem foi tão bom, passou pelo ritmo”, completa Reginaldo.
Mais uma vez as atenções se voltam a Perez, que agora erra ao tentar passar Hamilton novamente. “Ele ficou confiante demais com esse contrato com a McLaren. Tinha se perdido na curva 5 e tentou mais evitar um acidente do que ultrapassar”, vê Brundle. “Confiança é tudo mas, se exagera, é quando começam os erros”, concorda Reginaldo. “Na McLaren, não vai poder cometer esse tipo de erro”, engata Burti.
Os brasileiros se empolgam com o ritmo de Massa – “Alonso está torcendo para ele desde garotinho!”, diz Luis Roberto –, mas todos vêem que a aproximação em relação a Vettel tem data para acabar. “Massa está mais rápido, mas sabemos que Vettel está controlando”, Brundle acaba com a esperança de quem quer ver uma luta pela vitória, enquanto Lobato acredita que, caso a outra Ferrari estivesse em segundo, o cenário seria outro. “Não queria fazer comentários maldosos, mas geralmente o ritmo de Fernando é muito melhor que o de Massa. Ele estaria pressionando mais Vettel, que teria de forçar muito mais do que está fazendo agora, tanto o carro, quanto ele mesmo, para não cometer um erro”, observação semelhante à de Ted Kravitz na Sky. O narrador espanhol lembra que “não há nenhum piloto da Ferrari que tenha ficado tanto tempo sem subir ao pódio. E também há poucos que duraram por tantas corridas” e ri nervosamente quando percebe que “o carro de Vettel soa fantástico”. Parece esperar que o raio do alternador caia três vezes no mesmo lugar...
Lobato se perde quando vê a ultrapassagem de Hamilton em cima de Raikkonen, pois, em um primeiro momento, não acredita que a luta é por posição e diz que “isso vai prejudicar muito o Kimi”. “Esse é o estilo Hamilton. Raikkonen tirou para não bater”, celebra Reginaldo. “Corajoso. Ele sabia que tinha de conseguir. Este é o Lewis que esperamos ver, ele forçou Kimi a tirar o pé. Não é com muitos pilotos que você consegue dividir uma curva assim”, diz Brundle.
Ao contrário de Gené, que acredita que a melhor chance de Button passar Kobayashi e subir ao pódio é permanecendo na pista e esperando ter pneus mais novos no final, os britânicos acreditam ser possível uma inversão ainda na parada. Quando isso não acontece, a explicação do repórter Ted Kravitz é de que o inglês “não passou por dois motivos: Button parou fora da marca e a dianteira direita demorou para entrar”.
Na briga entre Button e Koba nas voltas finais, até mesmo os britânicos o abandonam. “Mesmo que eu ame o Jenson, estou torcendo por Kobayashi”, diz Brundle, que é acompanhado por Burti. Todos lembram da namorada japonesa do inglês e Brundle afirma que “seria legal se aparecesse ela torcendo para o piloto japonês agora.”
Croft observa que “Button chega perto no primeiro setor, mas não onde precisa para ultrapassar. Precisaria de mais duas ou três voltas” e brinca com a animação da torcida “A velocidade das bandeirinhas cresce 5km/h cada vez que Kobayashi passa na reta”. Luis Roberto também vai na onda do bom humor. “Será que o Button vai colocar água no saquê do Koba?”
Quem não está para brincadeira são os espanhóis, preocupados com o campeonato. “Dá para ver que a Ferrari é melhor em ritmo de corrida e consegue superar a McLaren, o que não pensávamos ser possível antes de chegar aqui. Mas, quando o Vettel aperta, é 0s8 melhor que Massa. Não é uma diferença que dá para tirar de uma corrida para a outra”, avalia Gené. “Mas o próximo GP é na Coreia, com retas longas, o que pode prejudicá-los”, Lobato busca um consolo. “Até isso conseguiram melhorar aqui, estão indo bem na reta. E eu confiava muito nesta corrida. Temos peças para a Coreia, mas é que a superioridade da Red Bull aqui foi insultante”, Gené finaliza o papo.
Os britânicos também se agitam. “Como Alonso vai parar esse cara agora? Mesmo com Massa fazendo um grande trabalho, vejo mais Webber tirando pontos de Alonso do que Massa de Vettel. Seja lá o que eles colocaram neste carro, está funcionando. E ouvi dizer que a Red Bull virá com muitas novidades para a Coreia. Se a Ferrari não se mexer, ele vai conquistar três títulos em sequência”. Croft completa: “Alonso vinha lucrando com os erros dos outros, mas, para ganhar o campeonato, é necessário ser dominante em algum momento. E Alonso não lidera uma volta sequer desde o GP da Alemanha.”
Lobato ainda tenta secar Vettel e suas tentativas de buscar a volta mais rápida. “Se acaba cometendo um erro e perde a vitória, isso se torna uma besteira”. Mas o alemão tem tudo sob controle e vence a terceira prova do ano, colocando-se a quatro pontos de Alonso. “Ele roubou o pó mágico de Alonso e jogou em cima de si”, define Croft. “Imagino o que teria acontecido sem os problemas de alternador. Teria uma grande liderança.”
Mas o segundo e terceiro colocados acabam roubando a cena. “Algumas vezes vemos pilotos no pódio que não estão contentes. Hoje, os três estão cheios de alegria”, observa Lobato. Também, pudera. Massa volta à festa do champanhe após quase dois anos e Kobayashi estreia entre os três primeiros, para delírio da torcida local. “O Brasil não vence há pouco mais de 50 corridas e já dá uma saudade danada... olha o carinho com o esporte. Parece vitória brasileira em Interlagos”, diz Luis Roberto.
O resultado também é importante para o futuro do japonês, chamado de “tufão” pelos espanhóis. “Kamui não deu apenas um pódio à Sauber, como também um grande problema. Não acho que eles esperavam”, vê Brundle.
É tanta felicidade que Massa até tropeça no champanhe. “Tá um pouquinho enferrujado, mas tá valendo. É bom para a confiança e ele vai andar mais no resto do campeonato”, sentencia Burti, enquanto Lobato espera novidades em breve. “Vamos ver se, depois disso aqui, há algum anúncio, pois creio que a Ferrari está esperando coisas como essa para fechar a renovação de Massa”. Isso, após uma atuação que lembrou seu companheiro, para Croft. “Massa largou em 10º e chegou em segundo. Fez o que é especialidade de Alonso.”
Mas o narrador espanhol não se conforma. Nada contra os alemães, só contra um deles. “Tudo bem ouvir o hino da Alemanha, mas que seja com Hulkenberg, Glock, até com Michael, como uma vitória de despedida!”






