Sabíamos que o carro da Mercedes era rápido
Sabíamos faz tempo que o carro da Mercedes era veloz. A pergunta que ficava era se os pneus aguentariam uma corrida inteira. Nas últimas a coisa funcionou e pudemos viver um pouco de história na China: a primeira vitória da Mercedes na Fórmula 1 desde 1955. É preciso saudar a Nico Rosberg que conquistou esse primeiro lugar de maneira impressionante e pilotando de maneira controlada.
Em nenhum momento deu a sensação de que eles poderiam ter problemas de desgaste excessivo nos pneus e vai ser interessante observar se vai continuar assim nas próximas etapas. Mas ainda é cedo para dizer se a Mercedes está com carro para ganhar o título. Na China eles tiveram sim uma performance digna de campeão. Mas um Mundial tem vinte corridas, não apenas uma. Eles precisariam manter essa forma em todas as outras corridas.
É uma temporada muito legal. Tivemos diferentes vencedores e todos podem ter uma influência na briga pelo título. Você vê o caso da Red Bull, que começou o ano atrás mas vem melhorando de maneira constante. Dá para imaginar um ano com diferentes pilotos de diferentes equipes lutando por vitórias e pelo campeonato.

Kai Ebel é repórter da emissora de TV alemã RTL.
É como se Kimi nunca tivesse deixado a F-1
O retorno de Raikkonen foi uma grande notícia, e não apenas no noticiário esportivo. Ficou bastante tempo sendo a principal novidade no noticiário geral na Finlândia. Foi uma loucura. As coisas estiveram um pouco calmas por uns tempos porque nosso único piloto, o Heikki, estava terminando as coisas em 19º, algo assim.
Acho que até isso fez bem para o esporte em geral na Finlândia, porque não é normal um país como o nosso ter um piloto na Ferrari e outro na McLaren, como tínhamos em 2008 e 2009. E as pessoas começaram a achar isso normal. Se nenhum deles ganhava uma corrida, ela não prestava. Essa época fez muito bem em relação à atitude que se tem, porque quando o Heikki conseguia ir para o Q2, isso era um grande feito. E, quando Kimi voltou, todos ficaram muito felizes. Então acho que essa época ruim colocou as coisas em perspectiva.
Talvez algumas pessoas esperassem que Kimi tivesse dificuldades. Mas se você tivesse seguido ele de perto, não foi uma grande surpresa porque há algumas diferenças entre Kimi e Michael Schumacher, por exemplo. Primeiramente, acho que Raikkonen tem um carro melhor do que Michael em seu retorno e isso é um favor importante.
Em segundo lugar, Kimi continuou pilotando um carro o tempo todo [que esteve fora da F-1]. Pilotando um carro, e não uma moto. O rally foi uma boa forma de treinar para ele. É claro que a pilotagem foi completamente diferente, mas ele mesmo acredita que essa experiência o tornou um piloto melhor. O fato de ter continuado competindo ajuda imensamente.
O terceiro fator é que acredito que ele tenha um talento excepcional, assim como Michael. Mas, combinando esses fatores, é como se ele nunca tivesse estado fora da categoria. Tenho certeza de que há pequenas coisas que ele pode melhorar, mas ele sabe. Algumas pessoas podem ter se surpreendido, mas eu sabia que os testes de inverno seriam suficientes e ele logo voltaria a ser como antes.
Sobre a personalidade dele, acho que para os finlandeses é mais fácil entender seu jeito. Muitas pessoas na Finlândia são parecidas com ele. É claro que você não pode colocar as pessoas em caixas e definir que os finlandeses são de um jeito, os brasileiros são de outro, é impossível fazer isso. Mas, na Finlândia, se você senta do lado de uma pessoa em um ônibus e não fala com ela, isso é considerado educado, porque você não quer atrapalhar a vida dela. Você a deixa sozinha e em paz.
Isso está mais ou menos em nosso sangue, então acho que é mais fácil para os finlandeses compreendê-lo. Eles respeitam isso. Ele não é de se explicar, ele não fala mal dos outros, apenas faz seu trabalho e os comentários que são absolutamente necessários e vive sua vida. Pelo menos ele é honesto, pois há tanto exagero nesse paddock.
É claro que eu, como repórter, gostaria que ele falasse mais e fosse mais aberto, mas isso não vai acontecer e pelo menos ele não vai falar besteira, como outros que são mais abertos. Há duas maneiras de ver isso. Quando ele está irritado, dá para ver de longe e você sabe que não será uma boa entrevista. Mas, contando que ele vá bem dentro da pista, não acho que ninguém na Finlândia vai reclamar. Ele é um herói nacional e uma das pessoas mais famosas de todos os tempos lá.
Oskari Saari é repórter da MTV3, a emissora filandesa detentora dos direitos de transmissão da Fórmula 1 no país
Ano é importante para Ferrari e Massa
Este ano é importantíssimo para a Ferrari. O time deve demostrar na pista que o sucesso de 2011, ano com recorde econômico em plena crise mundial, corresponde a um triunfo também em competições. Já são alguns anos desde 2008 que a Ferrari não tem sucesso, não vence.
Ela dispõe do melhor piloto do mundo, que é Fernando Alonso, e um grande piloto, Felipe Massa, que podia ter vencido em 2008. Por isso, a Ferrari deve dar um carro vencedor a eles. Se não lograr êxito, ela deverá mudar a estrutura, porque os investimentos são importantes, os adversários também o são, mas a Ferrari é a Ferrari.
Ano passado, a Ferrari teve um ano incrível como empresa. Em plena crise ela foi capaz de crescer. Jamais ela teve um ano bom assim.
Sobre Felipe, posso dizer que ele é um piloto vencedor. Demonstrou isso antes. É um piloto extremamente forte, mas com algumas características que exigem que o carro se adapte ao seu estilo de pilotar. Se a Ferrari lhe der um carro que aqueça os pneus, Felipe ainda pode demonstrar que é um piloto da Ferrari. Os resultados serão decisivos para sua permanência na Itália. Espero que consiga fazê-lo, porque é um grande piloto e um grande personagem.
O jornalista italiano Jean Piero cobre a F-1 pela agência de notícias italiana Ansa.
Pic não pode ser julgado como piloto pagante
Charles Pic é um bom piloto. O problema é que ele vem de uma família muito rica, que tem muito dinheiro porque trabalham com caminhões que transportam produtos perigosos, como gasolina e gases. É uma família que patrocinou pilotos como Olivier Panis e Eric Bernard, que inclusive é seu padrinho.
Por isso, todo mundo diz que ele chegou na Fórmula 1 porque injetou dinheiro. Porém, ele nunca quis ser esse tipo de cara, sempre ficou muito na dele. Então essa não é a maneira de julgar Charles. Ele venceu na GP2 com a Arden, que hoje é um time bem menor em relação ao passado, então não pode ser ruim.
Ele é um cara muito normal, muito bem educado, conversa com todos e quer aprender todo o possível com os engenheiros. Ele sempre faz questão de dizer que quer chegar à Fórmula 1 para aprender, e creio que chegar na categoria correndo por uma equipe pequena seja uma boa forma de chegar, sem muita pressão, pois ninguém espera muito dele ou do carro.
Frederic Ferret é francês e cobre F-1 pelo L'Equipe.
Sem fama de metido, Grosjean volta mais forte
Na França, esperamos muito de Romain Grosjean, pois ele já tem sete Grandes Prêmios de experiência e precisa mostrar serviço muito rapidamente. Ter Kimi Raikkonen como companheiro de equipe será difícil, no entanto ele mudou muito nos últimos anos.
As pessoas na França diziam que ele era muito metido. Esse não é meu ponto de vista, pois o conhecia mais de perto e sei que esse não era o caso. A maneira como ele se comportava era do tipo “sou piloto de Fórmula 1 e não me importo com mais ninguém” mas ele já trabalhava duro.
Fernando Alonso nos disse quando eles dois estavam na Renault que ele era muito bom no lado técnico e em preparar o carro, mesmo naquela época. Mas ele acabou sendo demitido, foi parar na FIA GT antes de voltar por meio da GP2. Porém, em todos os lugares por que ele passou, tornou seus times mais fortes.
Quando ele foi para a GP2, com a Dams, que é uma equipe pequena, Eric Boullier lhe disse que ele voltaria por um ano para a categoria e teria de ganhar, mas com um time mais modesto. Ele mudou aquela equipe, todos o ouviam e ele impressionou a todos. Engenheiros, mecânicos, até Boullier se surpreendeu com ele.
Frederic Ferret é francês e cobre F-1 pelo L'Equipe.
Ser francês quase atrapalhou Vergne na Red Bull
Vergne vem de uma família que tem uma pista de kart nos subúrbios de Paris, que se tornou muito grande agora e é uma fábrica de karts também, então ele cresceu neste meio. Ele sempre foi apoiado pela federação francesa, que lhe deu dinheiro para correr na F-Renault.
Com esse apoio, ele conseguiu um teste na Red Bull em 2007, que impressionou Helmut Marko. Porém, o austríaco disse na época “ele é francês e eu odeio franceses”. Mas acabou aceitando e o instruiu que ele fosse para uma equipe britânica e aprendesse lá.
Ele mudou muito neste período, quando morou na Grã-Bretanha e pilotou na Carlin. Foi quando ele cresceu como piloto e em termos de autoconfiança, além de ser rápido e bem preparado.
Ele trabalhou muito em Milton Keynes para a Red Bull no ano passado. Todas as sextas-feiras de GP, ele entrava no simulador ao mesmo tempo em que Vettel e Webber estavam no cockpit. Quando eles estavam na China, por exemplo, ele acordou às duas horas da manhã para estar no simulador às três horas para se comparar com os titulares.
Frederic Ferret é francês e cobre F-1 pelo L'Equipe.
Isolamento dificulta informações sobre Kubica
Em termos de informações jornalísticas, o que sabemos sobre o estado de saúde de Robert Kubica é mais ou menos a mesma coisa que todo mundo sabe. Isso se deve ao fato de Robert estar completamente fechado, sem contato com ninguém. Basicamente é impossível ter qualquer novidade sobre sua recuperação vindo diretamente dele.
A única fonte em que podemos confiar é seu empresário, Daniele Morelli. Ele nos proporciona com alguma regularidade, diria que uma vez ao mês, informações sobre o progresso e o estado de Robert. De qualquer forma, fica claro que é cedo para dizer qualquer coisa sobre o seu futuro.
Quando falei com Morelli em dezembro, a ideia era ter alguma novidade em fevereiro. Em contrapartida, ele continua dizendo que ainda temos de esperar até termos mais informações.
Antes do acidente, Robert já era um herói na Polônia, e ainda é, pois muitas pessoas buscam notícias sobre o que se passa com ele. O problema da Polônia nos esportes é que não temos nomes famosos em esportes populares, como Fórmula 1 e futebol, onde não temos bons jogadores. Por isso, quando aparece alguém ele vira um ídolo, um herói no país.
Muitos nos perguntam como ficou a situação da imprensa que cobre a F-1 após o seu acidente. Tenho que dizer que foi difícil, um desastre completo. O ano todo sem ele foi um pesadelo. Mas é preciso dizer que quando soube sobre o acidente, eu segui no mesmo dia para a Itália para visitá-lo. Não havia a menor chance de vê-lo naquele momento, mas queria estar perto para saber o que se passava realmente. Quando estava embarcando, recebi a notícia de que era um acidente com riscos à vida dele.
Então, enquanto viajava da Polônia para a Itália, eu não sabia se ele sobreviveria ou não. Após um tempo, quando soube que ele estava bem, que se recuperaria, senti um grande alívio. Estava preparado para o pior. Então, tudo o que acontecer agora, se ele vai voltar às pistas ou não, é um bônus, algo extra. Porque o mais importante é que ele sobreviveu.
Mikolaj Sokol é jornalista polonês, colunista do jornal Rzeczpospolita.
Vettel tem o carisma que falta a Schumacher
Todos na Alemanha gostam de Sebastian Vettel porque é impossível não gostar dele, é um cara muito legal. Comparando com a reação do público em relação a Michael Schumacher há 20 anos, é muito diferente porque, naquela época, os alemães não estavam acostumados a vencer na F-1.
Michael foi o primeiro alemão – depois de Jochen Rindt, que pilotava pela Áustria – que podia ganhar na F-1 e conquistar títulos. Isso fez com que os alemães tivessem orgulho de que havia um piloto que poderia ganhar para eles.
Entretanto, sempre houve a pergunta se gostávamos ou não de Michael. No final das contas, acabou virando uma questão de “não ligamos, ele ganha para nós, e ponto final”. Porém, mesmo entre os alemães, ou você amava ou odiava Michael.
Com Sebastian, isso não existe. Ninguém o odeia. Então todos os alemães têm orgulho de tê-lo como campeão representando o país e todos que gostam da F-1, também gostam dele.
Isso porque, se observar Sebastian, ele nunca é maldoso. Mesmo na pista, se olharmos o duelo que ele teve com Fernando Alonso em Monza ano passado, ele tentou tudo para ultrapassar o piloto da Ferrari, mas em momento algum foi sujo.
Até nisso Sebastian é um exemplo para os outros pilotos, de como ser muito rápido, dar tudo para ganhar, mas ainda assim sendo justo. Uma vez perguntei a ele em uma entrevista o que ele não faria para vencer e ele disse: “nunca seria injusto para vencer porque, se isso acontecesse, não seria uma vitória de verdade para mim”.
Acho que, nesse ponto, ele é diferente se Ayrton Senna e, principalmente, de Michael Schumacher. Mas vejo nele um carisma parecido com Ayrton , ao contrário de Michael. Fora da pista, ele é uma pessoa muito boa, assim como o brasileiro.
Bianca Garloff é correspondente na Fórmula 1 da publicação alemã Auto Bild Motosport.
Alemanha vive safra de pilotos talentosos
Os torcedores na Alemanha não estão nada felizes com o fato de Adrian Sutil não estar garantido para o ano que vem no momento pois, na segunda metade da temporada, ele realmente pilotou muito bem, especialmente no Brasil, onde ele fez uma excelente manobra de ultrapassagem sobre Nico Rosberg.
Muitos na Alemanha acham que ele deveria ter uma chance ano que vem e ainda estou convencida de ele conseguirá uma vaga em 2012.
Já Nico Hulkenberg acredito que seja um grande talento. Na Williams, em 2010, ele precisou de metade de uma temporada para se tornar tão bom ou às vezes até mais rápido do que Rubens Barrichello.
Se você olhar para sua carreira, em todas as categorias, ele precisou de quatro a seis corridas para se firmar e, quando chegou lá, estava no topo. Ele é um dos únicos pilotos, igualado apenas por Lewis Hamilton, que venceu todas categorias até chegar na F-1. Ele venceu a F-BMW, F-3, GP2 e depois chegou na F-1.
É um grande talento. Não gostaria que me perguntasse se ele é tão bom quanto Sebastian Vettel, porque Vettel, em minha opinião, é um piloto extraordinário, mas Hulkenberg tem muito talento e estou muito feliz que ele tenha conseguido a vaga na Force India.
No caso de Schumacher, acredito que, com um bom carro, a diferença seria menor porque tenho certeza de que ele consegue lutar por pódios. O problema é que, se a Mercedes for boa o suficiente para lutar por pódios, será Nico Rosberg brigando pelo resultado, e não ele.
Pelos últimos dois anos, Rosberg mostrou-se mais rápido que Michael – especialmente em classificação, mas também em condição de corrida. Se a Mercedes não fizer algo para ajudar Michael contra Nico, mesmo se a equipe tiver condições de ganhar, em minha opinião acredito que Nico leva vantagem.
Bianca Garloff é correspondente na Fórmula 1 da publicação alemã Auto Bild Motosport.
Futuro de Alguersuari na F-1 corre perigo
A demissão de Jaime Alguersuari por parte da Toro Rosso foi uma grande e, neste caso desagradável, surpresa, porque acreditávamos que ele merecia ficar.
É verdade que ele começou falhando muito e demorou muito para que ele entendesse o funcionamento dos pneus, assim como aconteceu com muitos outros pilotos, como é o caso de Felipe Massa e Mark Webber e inclusive de Lewis Hamilton.
A partir do GP do Canadá, Alguersuari começou a fazer apresentações muito boas, muito consistentes, e foi se firmando à frente de Sebastien Buemi. Portanto, a decisão surpreendeu muito.
Mas sabemos como é a Red Bull, como Helmut Marko lida com a equipe. Discutiram na Coreia por uma manobra em que Jaime não deixou Vettel passar e, quando esse vídeo foi divulgado começamos a perceber que realmente havia uma tensão. E o que aconteceu depois todos sabem.
A julgar por suas palavras, é muito difícil que Jaime volte, sobretudo neste ano, pois havia dito poucas semanas antes do anúncio da demissão que, ou continuaria com a Red Bull, ou não continuaria com nenhuma outra equipe. Agora, só faltam dois cockpits, um na Williams e outro na Hispania, então acredito que seja muito difícil que corra neste ano.
Pensar mais adiante é complicado, porque já sabemos que, depois de um ano parado, fica muito difícil voltar, a menos que seja Kimi Raikkonen e tenha toda a bagagem que o finlandês possui.
Ao menos como DJ Alguersuari tem tido sucesso. Seu álbum, Organic Life, ficou por algumas semanas como o mais baixado no iTunes e ele tem sido bastante requisitado. As pessoas gostam do trabalho dele.
Oriol Puigdemont é espanhol e correspondente do jornal El Pais na Fórmula 1.








