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entrevista

Data: 21/10/2011 08:12:00

  -  Atualizado em: 21/10/2011 08:22:37


Por: Julianne Cerasoli

Monisha Kaltenborn: "Ter mais mulheres não seria ruim"
A indiana Monisha Kaltenborn, 40 anos, começou na Sauber em 1998 cuidando de assuntos legais
A indiana Monisha Kaltenborn, 40 anos, começou na Sauber em 1998 cuidando de assuntos legais
Crédito da foto: Divulgação/Sauber
Em entrevista exclusiva ao TotalRace, indiana que se tornou primeira CEO da história diz que traz mais flexibilidade à F-1

A Fórmula 1 se prepara para sua corrida inaugural na Índia, em 30 de novembro, mas o país marca presença há mais de 10 anos no esporte. E de forma pouco convencional. A indiana Monisha Kaltenborn, 40 anos, começou na Sauber em 1998 cuidando de assuntos legais e em 2010 se tornou a primeira CEO mulher da categoria.

Longe de se levar pelo ambiente masculino, Monisha recebeu o TotalRace no motorhome da equipe com um sorriso quase maternal. Afinal, a indiana radicada desde os oito anos na Áustria se orgulha de levar à F-1 uma visão mais feminina e flexível, ainda que os comissários de pista invoquem com seus sapatos...

TOTALRACE: Quando sua família se mudou da Índia para Viena? Como era a vida de imigrante naquela época?

MONISHA KALTENBORN:
Tinha oito anos quando meus pais decidiram viver aqui. Não havia nenhum plano concreto de deixar o país para sempre e estabelecer-se em outro lugar porque tínhamos um negócio familiar e meu pai não estava muito contente com isso. Mas como o sistema escolar que tínhamos na época as oportunidades eram melhores fora do país, eles decidiram dar uma olhada. O destino seria mais um país em que se falasse inglês – isso foi em 1979 e diria que, se você não conhece alemão um país em que se fala alemão não é um destino muito óbvio para se emigrar. Eles iam ficar um tempo apenas em Viena porque o tio do meu pai trabalhava lá. Poderíamos ter voltado e nada mudaria muito, mas meus pais gostaram de lá e acabamos ficando.  

TOTALRACE: Para alguém que sonhou um dia ser uma astronauta e tinha planos de participar no Dakar, o que há de tão interessante no Direito?

MONISHA KALTENBORN:
(risos) Ainda sou muito fascinada pelo espaço e infelizmente estou velha demais para me tornar astronauta e começar uma segunda carreira! O Direito creio que tem a vantagem de ser muito flexível em relação às áreas em que você pode trabalhar porque você obviamente aprende a abordagem legal das coisas, mas a área é totalmente aberta, já que você pode ter casos em diversos campos. Isso fez com que eu criasse uma base e tivesse acesso a áreas que gostava, no ponto de vista legal. É muito seco, analítico, ajuda muito na interpretação e lhe dá oportunidades. Isso me deu mais flexibilidade.

TOTALRACE: E acabou lhe trazendo para a F-1. No que você acha que pode contribuir mais para a categoria: por ser uma mulher ou por vir de uma área tão distinta em relação a outros chefes de equipe?

MONISHA KALTENBORN:
O fato de eu vir do lado legal acho que abre as questões, faz eu olhar para elas de certa distância e sempre tentar ter uma visão geral da situação. E também acho que muitas mulheres, quando o assunto é o esporte a motor, são menos emocionais. Somos muito emocionais quando o assunto é nossa própria equipe, nossos pilotos, nossas pessoas, tanto quanto qualquer pessoa, mas acho que, quando olhamos para os aspectos técnicos e comerciais – o que você tem de fazer em uma posição como a minha – conseguimos impor uma distância bem maior.

Conseguimos ver o todo. Acho que as mulheres, em geral, têm o sentimento de que, se todos estão bem, isso também é bom para você. Acho que por isso temos uma atitude diferente para olhar para as coisas.

TOTALRACE: É nesse sentido que você acha que a F-1 tem de se desenvolver no âmbito político?

MONISHA KALTENBORN:
De modo geral, ter mais mulheres não seria ruim, especialmente em posições como a minha! Do lado comercial, temos de ser muito cuidadosos com a questão dos gastos porque tivemos uma era, especialmente quando as montadoras estavam no esporte, em que não conseguíamos explicar aos fãs porque os custos estavam tão altos. Creio que houve muito avanço nesta área, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Do lado técnico, temos de nos certificar que estamos próximos o bastante dos fãs, porque estamos indo para um caminho no qual os fãs muitas vezes não conseguem entender o que está acontecendo e não queremos fazer mal ao esporte ao alienar os fãs. Isso é importante. E temos de dar mais acesso a eles e estar mais próximos deles sem acabar com o senso de exclusividade e de ser o topo do esporte a motor. E o terceiro aspecto é o fato de que, assim como outros setores da indústria, também temos questões sociais, especialmente relacionadas ao meio ambiente. Ainda não temos esse equilíbrio ecológico, mas como trabalhamos com o esporte a motor, podemos ser o palco de tecnologias para o carro. São muitos desafios que temos e podemos atacar como apenas um produto.

TOTALRACE: Você trabalhou para a ONU. Há alguma coisa em comum com a F-1?

MONISHA KALTENBORN:
(risos) Acho que o que temos em comum é que pode demorar muito tempo para chegar a uma decisão concreta. Ainda que sejamos mais rápidos que a ONU! Por outro lado, é muito diferente porque aqui olhamos para resultados concretos e temos de reagir rapidamente, o que normalmente não é o caso em certas organizações internacionais. Acho que nossos resultados são mais tangíveis e temos de ser muito, muito rápidos para reagir. E a vida aqui passa muito rápido. Quando uma corrida acaba, já estamos pensando na outra.

Bernie afirmou que vê uma mulher dirigindo o esporte em cinco anos. Poderia ser você? Uma papel como esse faz parte das suas ambições?

MONISHA KALTENBORN:
Não. Nunca tive nenhuma conversa nesse sentido, ele nunca me disse nada disso, só queria deixar claro. Não tenho nenhuma aspiração nesse sentido. Acho que ele faz um trabalho fantástico e espero que ele esteja na ativa por muito mais do que cinco anos. Minhas aspirações estão relacionadas a esta equipe e acho que há muito o que fazer aqui – e podemos fazer.

TOTALRACE: Você tem dois filhos. Qual a idade?

MONISHA KALTENBORN:
Nove e seis.

TOTALRACE: Eles acham legal ter uma mãe que trabalha com F-1?

MONISHA KALTENBORN:
Acho que para eles é apenas o trabalho da mãe deles, não é nada muito especial. A primeira vez que minha família veio foi na verdade neste ano – isso depois de todos esses anos, e estou aqui desde 1998, meu marido nunca veio e as crianças só puderam vir depois que cresceram. O que eles acharam mais fascinante foi a parte do hospitality, como a equipe funciona e não a corrida em si.

TOTALRACE: Eles não tinham ideia de que havia tanta coisa envolvida.

MONISHA KALTENBORN:
Não, eles não acreditavam que o motorhome na verdade é um conjunto de caminhões, que cresce e depois volta ao normal. Eles ficaram muito fascinados por isso.

TOTALRACE: Você passou por alguma situação diferente por ser mulher? Você citou que os comissários não gostaram muito de seus sapatos uma vez...

MONISHA KALTENBORN:
Não foi algo que me fez sentir mal, acho que irritada é a emoção certa. Foi em Abu Dhabi onde, obviamente devido às condições do tempo, você fica feliz em poder usar sapatos mais leves. Não era nada com salto muito alto, eram normais. Bonitos de se ver, confortáveis, estavam combinando com o uniforme da equipe – gostaria de deixar isso claro! – então estava tudo em seu lugar. Estava, acho que durante os treinos livres, dentro da garagem e um comissário chegou para mim e disse que meus sapatos eram inapropriados para andar no pit Lane. Não quis entrar em conflito com um comissário porque precisa ser cuidadosa com eles, então decidi não reclamar.

TOTALRACE: Como é trabalhar com Kamui e Sergio?

MONISHA KALTENBORN:
É divertido trabalhar com eles porque eles são muito jovens e, de certa forma, não estão completamente formados. Então dá para discutir muitas coisas com eles porque eles são muito abertos. Por outro lado, eles não têm muita experiência, então você tem de ser muito paciente porque eles cometem erros. Você consegue ver que aquilo vai acontecer, mas tem de deixar eles cometerem aquele erro porque ainda que diga 20 vezes que vai dar errado, não vai os parar. São muitos altos e baixos e há sempre um risco nisso. O importante é fazê-los aprender com a experiência e ajudá-los quando for preciso para que eles não repitam os erros. Em uma competição como essa, você não pode cometer erros muito frequentemente.

TOTALRACE: E como é sua relação com eles? É muito diferente em relação a Peter?

MONISHA KALTENBORN:
Claro! (risos) Acho que tenho uma relação muito aberta com os pilotos, sou muito transparente. Eles sabem que eu falo quando estou feliz com eles, mas também, quando estou brava, consigo me expressar da mesma maneira. Há muita comunicação, eles sempre falam para mim quando há algo os incomodando. Então acho que é uma relação muito boa e aberta. E é divertido!


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